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quarta-feira, 30 de setembro de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "(d)A Espantosa realidade das Coisas" | Adelino Marques



EXPOSIÇÃO: “(d)A Espantosa Realidade das Coisas”,
de Adelino Marques
Curadoria | Pereira Lopes
Textos | Manuela Matos Monteiro, Maria Afonso
iNstantes - Propostas Fotográficas #161
Centro de Reabilitação do Norte
21 Set > 31 Out 2026


Não é comum encontrarmos uma exposição que comece antes da primeira imagem e acabe depois da última palavra. “(d)A Espantosa Realidade das Coisas”, de Adelino Marques, parece ter escolhido esse território de suspensão entre aquilo que se vê e aquilo que, vendo-se, já começou a desaparecer. A inauguração da exposição teve lugar no Centro de Reabilitação do Norte, no passado dia 21 de Setembro, e prolongou-se numa tertúlia que foi, mais do que um comentário aos trabalhos expostos, uma espécie de câmara escura onde se cruzaram imagens, memórias e vidas. Entre doentes internados e familiares, mas também profissionais de saúde, foram perto de meia centena os participantes num momento que extravasou o âmbito puramente artístico. Talvez por isso, as palavras de Adelino Marques tenham encontrado ali uma ressonância particular quando vincou a importância de “criar espaços para que as coisas não sejam tão frias como já são”. Há, neste gesto, qualquer coisa de profundamente coerente em levar a fotografia para um lugar onde a realidade não é apenas aquilo que o corpo mostra. Ali, a fotografia deixa de ser objecto distante para se tornar ocasião de encontro. E uma tertúlia é justamente isso, não a confirmação de uma obra, mas a possibilidade de a obra se modificar quando passa de mão em mão, de olhar em olhar, de palavra em palavra, de memória em memória.

Foi na conversa moderada por Joaquim Margarido que a exposição pareceu revelar o seu nervo conceptual. Adelino Marques desmontou a fotografia como documento, devolvendo-a à memória como matéria instável: “Aquilo que a memória faz é alterar, acrescentar ou levar a que as coisas desapareçam.” A frase é decisiva, porque desloca o problema daquilo que o fotógrafo viu para aquilo que o fotógrafo se lembra de ter visto e, sobretudo, para aquilo que já não consegue ver. Fotografar torna-se, então, uma operação de aproximação a uma lembrança, mais do que um testemunho de fidelidade a um instante. O real sofre uma dupla erosão: primeiro, quando a memória o refaz; depois, quando a imagem o filtra, difunde, desfoca, apaga. E é precisamente nessa perda que a fotografia ganha espessura. Não vemos a coisa: vemos a ideia que Adelino Marques conserva dela. Talvez por isso o objecto fotografado adquira uma espécie de estatuto fantasmático. Permanece um núcleo, uma coisa apenas, enquanto à sua volta o mundo se desfaz. O foco deixa de ser uma precisão óptica e passa a ser uma escolha da memória, um motivo de espanto, aquilo que sobrevive quando tudo o resto foi entregue ao esquecimento. A espantosa realidade das coisas poderá estar justamente aí, não na sua presença inteira, mas no milagre de uma coisa permanecer quando já não conseguimos reconstruir o mundo que a rodeava.

Há, contudo, uma pequena fricção que a própria tertúlia não deveria deixar escapar. Se a fotografia de Adelino Marques procura aproximar-se da memória, então ela aproxima-se também daquilo que a memória tem de perverso, na medida em que trai, inventa, selecciona, elimina. E talvez seja essa a razão pela qual este conjunto de imagens se aproximam da poesia, como o próprio autor reconheceu: dizem indirectamente, deixam zonas de sombra, recusam a obrigação de explicar. Mas que acontece quando essa poética do apagamento encontra um público para quem a realidade não é uma abstracção? No Centro de Reabilitação do Norte, perante pessoas internadas e suas famílias, o desaparecimento pode não ser apenas uma categoria estética; pode ter corpo, nome, antes e depois. A conversa tornou-se, assim, mais interessante, justamente porque não se resumiu à fotografia. Quando Adelino Marques disse que ali se olhavam as pessoas nos olhos porque era um dos poucos lugares onde se reconhecia a genuinidade dos seus sentimentos, tocou talvez no limite da própria obra: nenhuma imagem substitui um encontro. A fotografia pode desfocar o mundo, mas a tertúlia devolveu-lhe rostos. Entre aquilo que se apaga e aquilo que insiste em permanecer, foi nesse movimento que a exposição encontrou a sua verdadeira matéria. Não a realidade das coisas, mas a memória daquilo que, por qualquer razão, não deixa de nos espantar.

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