Terceiro trabalho discográfico de Hélder Bruno, “Ether Sculptures”, encerrou no Centro de Artes de Ovar a XII edição do Festival Literário de Ovar com uma proposta que procurou dar corpo ao que, por natureza, é imaterial. Ao piano, o compositor teve a seu lado Jorri, no baixo e direcção musical, Surma, na electrónica e guitarra, Iúri Oliveira, na bateria e percussão, e a promissora violoncelista Maria Redes Martins. A formação reflecte a própria natureza de uma música que sabe cruzar, sem se deixar aprisionar por nenhuma delas, linguagens do jazz, do rock alternativo, da música erudita e experimental e mesmo algumas ressonâncias do fado. Há neste terceiro álbum um Hélder Bruno mais seguro da sua linguagem e mais disponível para explorar as possibilidades do som. A melodia convive com a textura, a delicadeza com a tensão, a estrutura com a liberdade. Mais do que exibir referências, o compositor parece assimilá-las e transformá-las numa escrita própria, em que o timbre deixa de ser mero atributo do instrumento para assumir uma função estrutural. O piano continua a ser o centro, mas já não é o limite: à sua volta, a música ganha espessura, profundidade e movimento.
É na execução ao vivo que a ideia de “esculturas no éter” encontra a sua tradução mais convincente. A electrónica de Surma prolonga e desfigura o piano; a percussão de Iúri Oliveira introduz uma pulsação física, por vezes inquieta; o baixo de Jorri dá gravidade a uma música que gosta de pairar; e o violoncelo de Maria Redes Martins, ainda que surgindo só a espaços, acrescenta uma dimensão orgânica e expressiva ao conjunto. Em “In2Between”, talvez um dos melhores exemplos da estética do álbum, a música instala-se precisamente num território de fronteira, entre apaziguamento e tensão, tonalidade e ruído, contenção e transgressão. Nem tudo, porém, precisa de ser traduzido em “paisagem” ou “imagem”, como a própria apresentação do projecto por vezes parece sugerir. Há momentos em que o conceito de música imersiva ameaça tornar-se demasiado abrangente e condicionar a escuta. Os instantes mais fortes são aqueles em que “Ether Sculptures” se liberta dessa obrigação de representar e deixa simplesmente o som acontecer, com a sua densidade, as suas fissuras e os seus contrastes. É então que a metáfora escultórica deixa de ser um conceito promocional e passa a ser uma realidade musical, acrescentando, retirando, sobrepondo, criando volume e espaço através do tempo.
A escolha de “Ether Sculptures” para encerrar o Festival Literário revelou-se, por isso mesmo, particularmente feliz. Depois de dias dedicados à palavra, à narrativa e à imaginação, a música de Hélder Bruno propôs uma espécie de literatura sem palavras, capaz de sugerir ambientes, criar tensão e deixar ao ouvinte a tarefa de completar o sentido. A ligação à tradição da música programática não está tanto em contar histórias, mas em abrir possibilidades narrativas. Os títulos podem orientar a escuta, mas não a determinam; as imagens podem surgir, mas não são impostas. É nesse espaço entre o que a música diz e aquilo que apenas deixa entrever que o projecto encontra a sua maior força. O Hélder Bruno que se apresentou em Ovar parece, assim, ter chegado a uma fase mais consistente do seu percurso: uma fase em que as referências se tornam menos visíveis porque já fazem parte de uma linguagem própria. No final, fica uma matéria paradoxal - invisível, efémera, impossível de conservar -, mas suficientemente densa para permanecer. A escultura desfaz-se no instante em que o som termina; fica, porém, a memória do belo, graças à forma que chegou a ter.
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