Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta Adelino Marques. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Adelino Marques. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 22 de maio de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Entre Luz e Forma” | Adelino Marques



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Entre Luz e Forma”,
de Adelino Marques
iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes
Parque Biológico de Gaia
08 > 31 Mai 2026


“Entre Luz e Forma”, mostra integrante da 13.ª edição do iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes, espraia-se num território onde a arquitectura abandona a sua condição estática e se deixa atravessar pelo tempo. No centro deste ensaio fotográfico de Adelino Marques ergue-se o Pavilhão Multiusos de Gondomar, projecto do arquitecto Álvaro Siza, aqui revelado não como mero objecto construído, mas como organismo sensível aos caprichos da luz. O betão, o tijolo e as superfícies amplas do edifício tornam-se matéria respirável sob a a luz do sol, gerando composições inesperadas, linhas fugidias e sombras como que desenhadas pelo acaso. Nesta série de imagens, o fotógrafo propõe-se escutar o silêncio da arquitectura e descobrir nele uma pulsação íntima, feita de subtilezas, de ritmos lentos e de uma geometria que se transforma a cada instante do dia. Gesto de notável depuração formal, a pala suspensa da entrada assume um papel central nesta narrativa visual, projectando manchas de sombra e planos de luz que desafiam a percepção e deslocam o olhar para além da função utilitária do espaço. Privado da cor, o edifício ganha densidade táctil e uma dimensão quase abstracta, cada superfície como guardiã da memória da luz que a banhou.

O percurso artístico de Adelino Marques encontra nesta exposição uma síntese particularmente madura da sua linguagem visual, construída ao longo de décadas de observação paciente e de um entendimento profundamente humanista da fotografia. Nascido em Gondomar, cidade onde reside e à qual permanece ligado afectivamente, iniciou o contacto com a imagem fotográfica no final dos anos setenta, no contexto da Faculdade de Medicina do Porto, colaborando com o departamento de fotografia da Associação de Estudantes. A partir daí, consolidou uma formação que passou pelo Curso Livre de Fotografia da Cooperativa Árvore e, mais tarde, pelo Instituto Português de Fotografia, no Porto, experiências determinantes na sedimentação de um olhar simultaneamente rigoroso e contemplativo. Ao longo dos anos, o seu trabalho tem sido mostrado em Portugal e em diversos países da Europa e das Américas, revelando uma consistência autoral rara e uma atenção persistente às relações entre espaço, tempo e presença humana - mesmo quando a figura humana se encontra ausente da imagem. Em “Entre Luz e Forma”, essa maturidade manifesta-se na capacidade de transformar volumes arquitectónicos em acontecimentos visuais e emocionais. As fotografias parecem suspender o tempo e obrigar o espectador a uma desaceleração do olhar, numa época em que a velocidade da imagem frequentemente impede a contemplação.

Mais do que uma exposição sobre um edifício emblemático, “Entre Luz e Forma” afirma-se como uma reflexão sobre a própria natureza do acto fotográfico. De forma natural, estas composições exibem uma dimensão quase musical: as sombras repetem-se como motivos rítmicos, as diagonais criam tensões subtis e a luz age como matéria compositiva essencial, revelando a arquitectura não apenas como construção física, mas como experiência sensorial. A câmara de Adelino Marques procura aquilo que escapa ao olhar apressado: o instante exacto em que a luz transforma a matéria e a converte em linguagem poética. Cada imagem propõe uma experiência de contemplação e descoberta, conduzindo o visitante a uma leitura mais sensível do espaço construído. O preto e branco depurado reforça esse despojamento, eliminando o ruído visual e permitindo que a atenção se concentre nas texturas, nos contrastes e nas subtis variações lumínicas que percorrem as superfícies. Atento às pausas, às inflexões, às mudanças mínimas que alteram a percepção do espaço, Adelino Marques aproxima-se da arquitectura como quem escuta uma respiração. Entre a solidez da forma e a fugacidade da luz, assistimos ao nascimento de um território poético onde o olhar encontra tempo para habitar.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

O MELHOR DE 2025: FOTOGRAFIA



10. A Vida das Abelhas”
Helena Ramos
Curadoria | Ricardo Nicolau
Novo Banco Revelação 2025
Museu de Arte Contemporânea de Serralves
21 Out 2025 > 05 Abr 2026

“ (…) A jovem artista, formada em Arquitectura e natural de São Paulo, trabalha a fotografia como uma forma de encontro — com amigos, corpos, espaços e afectos —, construindo um arquivo visual da convivência. No centro da sua prática está a ideia de relação, uma ética e uma estética do “viver junto” que a aproxima, paradoxalmente, das abelhas de Maeterlinck: seres cuja sobrevivência depende da presença do outro”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/11/exposicao-de-fotografia-vida-das.html



9. Time Stands Still. Fotografias, 1980–2023
Jeff Wall
Curadoria | Sérgio Mah
MAAT - Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia
23 Abr > 01 Set 2025”

“ (…) Nas suas imagens, Jeff Wall convida à contemplação do instante suspenso, frequentemente marcado por uma ambiguidade narrativa. As cenas sugerem acontecimentos em curso ou por acontecer, operando como fragmentos de histórias cujo desfecho permanece desconhecido. Este efeito de suspense – presente em obras como "Insomnia” (1994), “A Fight on the Sidewalk” (1994) ou “Parent child” (2018) – introduz um sentimento de estranheza e dúvida, revelando tanto o banal como o enigmático nas situações retratadas. Através desta micrologia do instante, Wall explora a complexidade da percepção contemporânea, sublinhando a dificuldade em distinguir o visível do invisível, o real do construído”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/08/exposicao-de-fotografia-time-stands.html



8. Venham Mais Cinco - O Olhar Estrangeiro Sobre a Revolução Portuguesa
Vários artistas
Curadoria | Sérgio Tréfaut
Parque Empresarial da Mutela, Almada
24 Mai > 24 Ago 2025

“ (…) Quase tudo era surpreendente para os estrangeiros: a situação política inédita num país europeu, o quotidiano dos portugueses, a forma como a política entrava na vida da população. Eram fotógrafos experientes. Tinham um olhar incisivo, procuravam imagens para as capas das revistas de maior tiragem, mas também revelavam empatia, encantamento e genuíno interesse antropológico. Durante cerca de um ano e meio, fotografaram tudo”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/08/exposicao-de-fotografia-venham-mais.html



7. (d) A Espantosa Realidade das Coisas
Adelino Marques
Textos | Maria Afonso
Casa dos Livros - Faculdade de Letras Universidade do Porto
17 Out > 16 Dez 2025

“ (…) Distribuída por cinco núcleos, a exposição apresenta variações de um mesmo impulso: transformar a paisagem em pensamento visual, em matéria sensível que une técnica e intuição. As pequenas derivas de densidade, contraste ou velocidade de obturação revelam não só o que está diante da câmara, mas também o que vibra por detrás: a nascente escondida entre pedras, o silêncio líquido de uma ponte antiga, o labor discreto das mãos que moldam casas e destinos. É nesse território íntimo que as imagens sugerem a sobrevivência de um sagrado difuso, mais respirado do que declarado”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/12/exposicao-de-fotografia-d-espantosa.html



6. Photographo
Alfredo Cunha
Curadoria | David Santos
Encontros da Imagem de Braga 2025
Zet Gallery
19 Set > 26 Out 2025

“ (…) Aos 70 anos de idade, justo é reconhecer na obra de Alfredo Cunha um testemunho humanista que ajuda a preservar a memória colectiva, especialmente precioso para as gerações que não conheceram a repressão do Estado Novo. A sua capacidade de capturar a energia, o drama e a esperança nos rostos das pessoas, levam-nos a olhá-lo como uma voz visual da verdade, cuja obra vai muito além do simples registo documental, refletindo um compromisso profundo com a liberdade e a justiça social”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/10/exposicao-de-fotografia-photographo.html



5. A Terra e os Camponeses - Trás-os-Montes na Década de 1980
Georges Dussaud
Curadoria | Alexandre Castro
Centro de Fotografia Georges Dussaud
Exposição de Longa Duração

“ (…) Ao privilegiar o espaço rural transmontano, Dussaud fez deslocar o foco do discurso modernizador dominante, propondo uma leitura contra-hegemónica da contemporaneidade. As suas imagens funcionam, assim, como dispositivos de observação etnográfica e, simultaneamente, como construções estéticas que problematizam as noções de autenticidade e intemporalidade”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/10/exposicao-de-fotografia-terra-e-os.html



4. Inocentes
Garcia de Marina
Curadoria | Aitor Martínez Valdajos
Centro Português de Fotografia
19 Jul > 12 Out 2025

“ (…) Ao trazer para fora do contexto um objecto tão banal como o peão, o artista transpõe os limites da realidade e das convenções, criando imagens cuja natureza instigante, sentido crítico e humor refinado, provocam o espectador, forçando-o a exercitar a mente, a romper com os estereótipos e a descobrir novas ideias e sentidos. Despojados da sua essência, prontos para serem reinventados, os inocentes de Garcia de Marina assumem uma desassombrada irreverência, desafiando o óbvio, apontando novos caminhos e chamando a atenção para a força dos mais fracos”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/08/exposicao-de-fotografia-inocentes.html



3. Claudia Andujar & Os Yanomami
Claudia Andujar
Curadoria | Thyago Nogueira
Bienal ’25 Fotografia do Porto
Centro Português de Fotografia
15 Mai > 29 Jun 2025

“ (…) Nesta exposição agora patente na Sala Aurélio da Paz dos Reis do Centro Português de Fotografia, é possível acompanhar o trabalho da fotógrafa nas várias fases do seu envolvimento com a comunidade Yanomami, desde a descoberta de uma nova cultura ao amadurecimento do seu trabalho, à medida que foi passando mais tempo na floresta. Em seis ecrãs de grandes dimensões, as imagens vão-se sucedendo e relacionando-se entre si, acrescentando novos significados à fotografia da artista. Na mente do visitante fica um corpo de trabalho que se faz de resistência e luta, mas também de respeito pelo modo de vida das minorias indígenas”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/06/exposicao-de-fotografia-claudia-andujar.html



2. Transfigurações da Paisagem
Adelino Marques
Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço, Guarda
12 Jul > 20 Set 2025

“ (…) Esta capacidade de ver o mundo de outro modo não é um mero jogo estético: é uma forma de perturbação. É a fotografia - “simulacro de ascensão, inversão do devir” - a baralhar aquilo que dávamos por garantido, a reconfigurar a nossa forma de habitar a paisagem, de pensá-la e, em última instância, de a imaginar. Transfigurar a paisagem não é manipulá-la: é devolver-lhe a sua capacidade de nos tocar. E, por vezes, basta uma imagem para nos lembrar que o mundo, tal como a arte, nunca se oferece todo de uma só vez”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/09/exposicao-de-fotografia-transfiguracoes.html



1. Zanele Muholi
Curadoria | Inês Grosso, Filipa Loureiro
Museu de Arte Contemporânea de Serralves
10 Abr > 12 Out 2025

“ (…) Além de oferecer uma visão abrangente da prática de Muholi, a exposição revisita momentos marcantes da história da África do Sul, desde os anos sombrios do apartheid até à luta contínua pela igualdade e pelos direitos humanos. Em Portugal, onde o legado colonial continua profundamente enraizado na sociedade, esta mostra oferece uma oportunidade única para uma reflexão crítica sobre as implicações históricas e culturais da discriminação e opressão, enquanto nos lembra da urgência de debater questões como a identidade de género e cultural, a memória e a justiça social”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/04/exposicao-de-fotografia-zanele-muholi.html

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

CERTAME: MIRA Pinhole Photography - 11.ª edição



CERTAME: MIRA Pinhole Photography - 11.ª edição
Vários Artistas
Curadoria | Adelino Marques, António M. Teixeira, Augusto Lemos e Rui Apolinário
Ciclo de Fotografia LESTA e LENTA
MIRA Galerias | MIRA artes performativas
08 Nov > 20 Dez 2025


Ao entrar no espaço acolhedor do MIRA artes performativas para a 11.ª edição do MIRA Pinhole Photography, a sensação dominante é a de atravessar um portal temporal onde a fotografia se despede dos automatismos e recupera o seu grau zero, feita de luz, matéria e tempo. O texto inaugural de Rui Apolinário funciona como uma bússola crítica, lembrando que esta prática - tão primitiva quanto actual - remonta a Brewster e aos experimentalistas do século XIX, mas repousa sobre um saber ainda mais antigo, conhecido pelo menos desde o século V a.C. Essa arqueologia do olhar não é evocada como exercício nostálgico, antes opera como consciência histórica num espaço que aposta, entre o lesto e o lento, na fricção entre velocidades. A inauguração simultânea da mostra pinhole e da fotografia mobile no MIRA Galerias reforça essa tensão produtiva: uma celebra a volatilidade tecnológica, outra resiste-lhe através da lentidão que devolve ao gesto fotográfico a espessura do tempo. O visitante percebe que este diálogo não é forçado, tratando-se apenas de colocar em confronto dois modos distintos de captura para pensar o significado de fixar o mundo nos dias de hoje.

Diante das imagens, a imprevisibilidade evocada por Apolinário revela-se como princípio estético estruturante. Cada fotografia parece carregar o silêncio de uma operação sem visores, sem lentes, sem pré-visualização — uma espécie de pacto com o desconhecido que, ao materializar-se, convoca o imaginário do visitante. Esta suspensão entre intenção e acaso produz um regime visual distinto do habitual consumo digital de imagens: aqui há falhas, derivas, difusões, zonas onde a luz hesitou e deixou marcas que são tanto ópticas quanto emocionais. No contexto do Ciclo LESTA e LENTA, a pinhole apresenta-se quase como um antídoto contra a aceleração permanente, não como rejeição do presente, mas como contraponto crítico. O que surpreende, no entanto, é perceber que essa lentidão não significa menos intensidade. Pelo contrário, há uma vibração particular nestas imagens, como se cada uma trouxesse consigo a memória da sua própria formação. A experiência de visita é, por isso, também uma experiência de reeducação do olhar: aprende-se a demorar, a observar a respiração da luz, a aceitar que ver pode ser um acto radicalmente lento.

No seu conjunto, o certame reafirma o papel do MIRA como espaço de experimentação e de confronto crítico entre práticas fotográficas. Este “funcionamento em espelho” entre duas open calls internacionais é revelador do espectro expandido da fotografia contemporânea. Se a fotografia mobile responde ao mundo com a rapidez que as sociedades actuais lhe imprimem, a fotografia estenopeica devolve a esse mesmo mundo uma imagem que parece emergir de um sonho, como bem refere Apolinário. O visitante sente essa dimensão onírica não como fuga, mas como outra forma de verdade: a verdade do tempo dilatado, da imagem que se forma devagar e que, por isso, resiste melhor ao esquecimento. Ao circular pela sala, ou vendo as imagens que vão sendo projectadas, percebe-se que cada fotografia é também um gesto de resistência a uma cultura visual saturada. Ao expor lado a lado duas formas extremas de produzir imagens, o MIRA não escolhe um caminho: convida-nos a pensar o intervalo entre ambos. E é nesse intervalo, onde a urgência e a contemplação convivem, que esta 11.ª edição encontra a sua força crítica e a sua relevância cultural.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "(d) A Espantosa Realidade das Coisas" | Adelino Marques



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “(d) A Espantosa Realidade das Coisas”,
de Adelino Marques
Textos | Maria Afonso
Casa dos Livros - Faculdade de Letras Universidade do Porto
17 Out > 16 Dez 2025


“ (…) Do janelão continuam a assomar as longínquas torres. Na penumbra sente uma remota oração descer do alto, uma melopeia ensurdecida a deslizar pela sobriedade do silêncio. Ninguém repara nos arbustos hábeis onde deus se oculta. Já não se ouvem as trindades. Também elas debandaram temerosas do triste toque dos sinos e dos lilases não há vestígios. Na incisão que cobre o muro alguém deporá uma flor. Ensaia a profunda respiração, mas já não chega ao alto. Senta-se por instantes junto a um túmulo. Aguarda que algum prodígio se erga e salve os ramos secos onde o vento atrai o sossego.”
Maria Afonso

Patente na Casa dos Livros, depois uma estadia no Centro de Fotografia Georges Dussaud, em Bragança, a nova e muito aguardada exposição de Adelino Marques, “(d) A Espantosa Realidade das Coisas”, aprofunda a sua investigação da paisagem como acto de visão e espaço de revelação. Nas imagens que são as suas, a paisagem nunca é mero cenário, antes construção sensível, dependente de um olhar atento que selecciona, interpreta e devolve ao mundo o que nele se esconde. A fotografia funciona aqui como mediação: não pretende duplicar o real, mas iluminá-lo, expondo tensões, texturas e pequenas vibrações que o olhar apressado não apreende. O artista move-se nesse território onde o instante se abre à possibilidade de eternidade e onde o erro convive com a tentativa. Ao deter e reorganizar o olhar, Adelino Marques devolve à paisagem a sua força inaugural, essa capacidade de nos tocar profundamente e de insinuar que nunca vemos tudo, que algo permanece sempre à espera de ser revelado. Assim, horizontes parecem inclinar-se, o movimento fixa-se e a matéria fragmenta-se, criando paradoxos visuais que suspendem o mundo e incitam o visitante a interrogar o visível.

A experiência da exposição intensifica-se no interior da Casa dos Livros, onde a arquitectura e o silêncio do espaço preparam o visitante para uma relação mais íntima com a fotografia. Envoltas numa névoa deliberada, as imagens convocam um gesto de recolhimento, aproximando-se daquele respeito antigo que se tinha diante das pequenas alminhas à beira dos caminhos. Nelas vemos sombras de ermidas, fragmentos de flores campestres, vitrais que filtram uma luz pálida, aves que se erguem num voo decidido. Esses elementos não apelam à memória como arquivo, mas como respiração, algo que persiste no corpo antes de ganhar nome. Distribuída por cinco núcleos, a exposição apresenta variações de um mesmo impulso: transformar a paisagem em pensamento visual, em matéria sensível que une técnica e intuição. As pequenas derivas de densidade, contraste ou velocidade de obturação revelam não só o que está diante da câmara, mas também o que vibra por detrás: a nascente escondida entre pedras, o silêncio líquido de uma ponte antiga, o labor discreto das mãos que moldam casas e destinos. É nesse território íntimo que as imagens sugerem a sobrevivência de um sagrado difuso, mais respirado do que declarado.

No conjunto, a exposição oferece ao visitante a sensação de participar num exercício que entende a fotografia como montagem mental: cada imagem dialoga com a anterior e prepara a seguinte, gerando um fluxo de percepções mais do que uma narrativa linear. A amplitude desta mostra permite reconhecer a coerência profunda do trabalho de Adelino Marques, fundada numa vontade persistente de pensar a paisagem como experiência de consciência. Há, em muitas das séries, um movimento interior que conduz o olhar para zonas de suspensão, momentos em que a própria realidade parece hesitar entre aparecer e ocultar-se. Essa oscilação, trabalhada com rigor técnico e sensibilidade poética, afirma o gesto do artista: devolver ao mundo a capacidade de surpreender, relembrando-nos que o visível não é uma superfície estável, mas matéria em permanente metamorfose. As imagens exigem um tempo lento, quase meditativo. Pedem para ser lidas como quem lê um poema, acolhendo aquilo que tremeluz no intervalo entre o que sabemos e o que ainda não sabíamos ver. No fim, permanece a sensação de que a fotografia, ao invés de fixar o real, o reimagina, desse movimento nascendo a sua força.

domingo, 7 de setembro de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Transfigurações da Paisagem” | Adelino Marques



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Transfigurações da Paisagem”,
de Adelino Marques
Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço, Guarda
12 Jul > 20 Set 2025

“ (…) Imponderáveis, como hão-de marcar profundamente as suas pegadas nos caminhos? Mas, sendo irreais, dão-nos a impressão da realidade. É nosso dever, portanto, restituí-los um pouco à presumível nitidez da sua representação originária. Mas a minha consciência não descansa. Trabalhei a favor da verdade ou da mentira? Retoquei o quadro, ou falsifiquei-o? E retocar não será falsificar? O que é a arte?”
Teixeira de Pascoaes, in “Duplo Passeio”

A paisagem, enquanto circunstância natural ou construção estética, é muito mais do que um ponto no mapa. Não existe paisagem sem uma ideia que a organize, que atribua sentido ao espaço, que não tenha um olhar capaz de a seleccionar e enquadrar — seja esse olhar artístico, científico ou quotidiano. Neste sentido, a paisagem é, antes de mais, um acto de visão: uma projecção da interioridade sobre o mundo exterior. A fotografia, enquanto dispositivo técnico e estético, introduz uma camada adicional de mediação entre o sujeito e o território, podendo funcionar como ferramenta de transfiguração do real. Transfiguração, aqui, no sentido de transformar o visível, não por adulteração ou embelezamento, mas por revelação — revelação de tensões latentes, de texturas invisíveis ao olhar habitual, de narrativas implícitas que o olhar inocente ou funcional não capta. A paisagem fotografada não é, portanto, uma réplica do mundo, mas uma interpretação crítica do mesmo.

“Falamos de quedas horizontais, de movimento estático, de fragmentação infinita. Paradoxos. A câmara a imobilizar a vida. O que melhor se pode parecer com a eternidade?” Espírito inquieto, na permanente busca de respostas para os mistérios do mundo, Adelino Marques abraça “reinos maravilhosos”, disposto a conhecê-los e a compreendê-los melhor. Inseguro, caminha sobre essa linha imprecisa para a qual espaço e tempo convergem, a tentativa de mãos dadas com o erro. Move-o a busca de um valor para a “eternidade”. Até que o encontra, “um naufrágio de paisagem acelerada ou - melhor! - congelada em três segundos”. Três segundos de ansiosa espera e emoção contida, três segundos de espantosa revelação, de paisagem transfigurada em poema íntimo, onde o real e o onírico se misturam e confundem. O olhar utilitário da fotografia deixa de existir, o mundo de repente suspenso da sua condição habitual para dar lugar a uma experiência estética e reflexiva que desperta a memória e inquieta o olhar.

Uma luz atravessa a planície, cobrindo-a de irrealidade. Uma montanha ergue-se, solene, como se soubesse que está a ser observada. A brisa, ao tocar as ervas, desenha uma espécie de escrita que não sabemos ler. Nas “paisagens transfiguradas” de Adelino Marques o olhar deixa de ser funcional e passa a ser poético. Neste gesto de deter e reconfigurar o olhar a paisagem intensifica-se, torna visível o que, de tão presente, parecia invisível. Esta capacidade de ver o mundo de outro modo não é um mero jogo estético: é uma forma de perturbação. É a fotografia - “simulacro de ascensão, inversão do devir” - a baralhar aquilo que dávamos por garantido, a reconfigurar a nossa forma de habitar a paisagem, de pensá-la e, em última instância, de a imaginar. Transfigurar a paisagem não é manipulá-la: é devolver-lhe a sua capacidade de nos tocar. E, por vezes, basta uma imagem para nos lembrar que o mundo, tal como a arte, nunca se oferece todo de uma só vez. Uma imagem como aquelas que Adelino Marques nos oferece. Só é preciso aprender a vê-lo.

sábado, 29 de julho de 2023

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Coletivo de Imagens Avanca 2023"


[Clicar na imagem para ver mais fotos]

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Coletivo de Imagens Avanca 2023”,
de Adelino Marques, António Teixeira, Fernando Martins, Flávio Andrade, Gustavo Gama, Hugo Almeida, Jean Pierre de Aguiar, João Tavares, Lauren Maganete, Luís Romba, Luis Coelho, Jorge Pedra, Júlio Matos, Lara Jacinto, Manuela Vaz, Maria Afonso, Marta de Aguiar, Nuno Calvet, Rosa Ramos, Rui Pedro Bordalo
27º Festival de Cinema de Avanca 2023
Casa da Cultura de Estarreja
22 Jul > 29 Jul 2023


Quando esta mensagem for lida pela esmagadora maioria dos seguidores do blogue, já o Colectivo de Imagens promovido pelo Cineclube de Avanca, em parceria com o Município de Estarreja e a Olga Santos Galeria, terá chegado ao fim. O que se lamenta, na verdade. Sobretudo pela qualidade intrínseca aos trabalhos apresentados e que, expostos no curto espaço de tempo de uma semana, não terão recolhido a atenção que justificariam e mereceriam. Ainda assim, tive oportunidade de visitar a exposição na tarde do seu penúltimo dia e trago alguns apontamentos que gostaria de partilhar. Começaria pelo facto de estar a decorrer a 27ª edição do Festival de Cinema de Avanca e, por isso, fazer todo o sentido uma mostra de fotografia que faz a ponte entre as duas artes. A palavra seguinte vai para a forma como os artistas deram corpo ao desafio, muitos deles optando por sequenciar um conjunto de imagens, dando assim a ideia de movimento e de continuidade às suas narrativas. Enfim, a forma como a exposição está montada, oferecendo múltiplas perspectivas sobre o cinema e a sua relação com a fotografia, tanto nos seus aspectos mais filosóficos como de um ponto de vista estético e formal.

“On the Road I / II”, de Adelino Marques, lança-nos numa viagem que oscilará entre o real e a ficção, o longe e o perto, a sombra e a luz. São duas imagens de uma grande beleza, que abrem espaço à imaginação e que, como num filme de Angelopoulos, nos levam para lá do sonho. Se falo de Angelopoulos e das suas imagens diáfanas envoltas em bruma - como poderia falar da fotografia de Josef Koudelka -, devo igualmente falar de Ridley Scott e do incontornável “Blade Runner” a propósito de outro registo onírico ao qual Luís Coelho quis, muito justamente, chamar “Porto Blade Runner”. No centro da sala, a fazer lembrar um rolo de película, Manuela Vaz dá-nos a ver o seu “corporis reactionem”, sequência de cinco imagens cuja leitura se oferece à sensibilidade interpretativa de cada visitante. Ali ao lado, “Força”, de João Tavares, traz-nos uma imagem que poderia muito bem ser um fotograma de um filme de Alfredo Tropa, enquanto Maria Afonso põe em “Perspectiva”, num conjunto de doze imagens, os lugares e as gentes ligadas à Ria. Há ainda Júlio de Matos e a sua homenagem ao mestre Manoel de Oliveira com duas imagens significativas, uma delas com dedicatória e assinatura do próprio cineasta.

“Bosque Adentro” e “Rebanho ao Amanhecer” são duas imagens de Luís Romba que se fundem numa estética naturalista e nos mergulham no melhor cinema de Pedro Costa ou Teresa Villaverde. Lara Jacinto recupera duas imagens de um projecto seu de 2011, “Arrefeceu a Cor dos Teus Cabelos”, talvez aquele que, de todos os trabalhos expostos, mais remete para o mundo do cinema pelas narrativas que abre nessa aceitação ou rejeição da mudança como uma constante da vida. Jorge Pedra homenageia, de forma explícita, aqueles que serão alguns dos filmes da sua vida, casos de “Nunca Digas Nunca”, “Manhattan” ou “Psico”. Fernando Matos, com o seu “Ribeira do Porto”, faz o nosso olhar pousar com ternura em “Aniki Bobó”, enquanto João Tavares, com os trabalhos “Luz” e “Sombras”, remete para a própria essência da fotografia (e do cinema). Finalmente, Lauren Maganete dá-nos a ver “Viagem 1 / 2 / 3”, impactante sequência de três imagens “animadas” pelo movimento de um homem em contraste com uma estação de comboios deserta, o todo completado pela figura de uma mulher que parece observar a cena por detrás de uma janela. Excelente!