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sexta-feira, 29 de maio de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Tentos de Luz” | Tadeu Vilani



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Tentos de Luz”,
de Tadeu Vilani
iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes
Casa da Cultura de Avintes
08 > 31 Mai 2026


Numa altura em que a presente edição do iNstantes - Festival Internacional de Fotografia de Avintes se aproxima do fim, mergulhamos com Tadeu Vilani na vastidão da pampa sul-americana, espaço onde o homem mede diariamente a sua resistência contra a dureza da terra, do clima e do trabalho. Em “Tentos de Luz”, os animais e o território não são apenas elementos económico ou paisagísticos, mas centro gravitacional de uma cultura construída sobre a disciplina e a sobrevivência colectiva. Há nestas fotografias uma tensão constante entre a brutalidade das lides dos animais e a dimensão quase irreal da paisagem: horizontes intermináveis, poeiras suspensas, corpos moldados pelo vento e pela fadiga. O preto e branco saturado intensifica esse confronto, transformando cada cena num território emocional denso, rostos e gestos rasgados pela luz como que reveladores de uma memória ancestral. Tadeu Vilani aproxima-se dos trabalhadores rurais e olha-os de uma forma simultaneamente documental e profundamente humana, recusando o exotismo fácil para fixar a dignidade silenciosa de quem vive em permanente relação de dependência com a terra e os animais.

Mais do que um levantamento etnográfico, “Tentos de Luz” oferece um retrato social da comunidade gaúcha e da sua persistência histórica no Cone Sul. As fotografias evidenciam o carácter comunitário do trabalho rural, homens, mulheres e crianças envolvidos numa dinâmica marcada pela transmissão de saberes, pela solidariedade e por uma resistência física quase ritualizada. A criação de gado implica um quotidiano de enorme exigência corporal, atravessado por jornadas longas, intempéries e risco permanente. O fotógrafo encontra nesses contextos uma dimensão de pertença e de identidade que ultrapassa a mera dureza laboral. Os rituais ligados às cavalgadas, às marcações do gado, aos encontros familiares e às celebrações populares revelam uma cultura onde o esforço se mistura com o orgulho e a memória. As festas populares, os olhares cerrados, as mãos endurecidas e os corpos em movimento compõem uma narrativa visual sobre a continuidade de uma forma de vida ameaçada pelas transformações sociais e pela modernização agrícola. Em cada imagem, percebe-se o esforço em preservar não apenas uma actividade económica, mas um universo simbólico inteiro.

A força de “Tentos de Luz” reside igualmente na impressionante precisão técnica de Tadeu Vilani, capaz de transformar momentos de extrema imprevisibilidade em composições de grande rigor formal. O fotógrafo trabalha no limite físico da acção, aproximando-se perigosamente dos cavalos, dos rebanhos e da violência dos movimentos, num exercício onde o sangue-frio e a experiência são determinantes. Há imagens em que a poeira parece engolir a cena e outras em que a luz explode sobre os corpos, criando atmosferas verdadeiramente irreais. Esse domínio absoluto do instante serve a espectacularidade visual, mas sobretudo a intensidade humana das fotografias. Vilani conhece profundamente o território que documenta e essa intimidade permite-lhe captar, com extremo realismo, a concentração de um cavaleiro, o cansaço depois da lide, o silêncio antes da celebração. O resultado é uma obra de enorme densidade emocional e estética, capaz de afirmar a fotografia documental como instrumento de memória, resistência e reconhecimento cultural. Em Avintes, “Tentos de Luz” constitui uma reflexão poderosa sobre a identidade e a permanência humana perante a vastidão do mundo.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Ilha” | Júlio García Martinez



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Ilha”,
de Júlio García Martinez
iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes
Plebeus Avintenses
08 > 31 Mai 2026


Exposição do fotógrafo cubano Júlio García Martinez, “Ilha” impõe-se ao visitante como um território de sombras, silêncio e inquietação. Os tons escuros dominam as composições e traduzem emocionalmente um país suspenso entre a resistência e a asfixia. Percebe-se uma densidade opressiva em cada enquadramento, uma espécie de névoa moral que paira sobre os corpos fotografados. Não há complacência no olhar do autor, nem qualquer tentativa de romantizar a condição insular cubana. Pelo contrário, as imagens parecem erguer-se de um quotidiano esmagado pela escassez, pelo desgaste material e por uma raiva contida que atravessa rostos, paredes e gestos. Júlio García Martinez aproxima-se das pessoas sem as invadir, mas deixa sempre visível a tensão que as acompanha. Os seus retratos não procuram heróis nem vítimas absolutas; mostram antes indivíduos cercados por circunstâncias históricas e económicas que os ultrapassam, marcados por uma apreensão silenciosa que parece abrigar-se nos seus genes. O embargo a Cuba torna-se então presença concreta, infiltrada na precariedade das casas, na pobreza dos objectos e na expressão determinada dos habitantes.

Ao longo da exposição, percebe-se que “Ilha” não é apenas um trabalho documental sobre Cuba, mas também uma reflexão profunda sobre isolamento, clausura e sobrevivência. Tantas vezes romantizada pela literatura, a insularidade surge nestas fotografias como condição de confinamento. O mar, tradicional metáfora de liberdade, converte-se num limite invisível que encerra os sujeitos dentro de um destino difícil de romper. Júlio García Martinez trabalha esta ideia com notável destreza, conferindo aos cenários e às figuras humanas uma constante sensação de estranheza, como se tudo estivesse ligeiramente deslocado do real, suspenso numa espécie de tempo imóvel. Presas entre a memória revolucionária e a erosão do presente, as personagens que habitam estas imagens parecem carregar o peso de uma espera interminável. Essa estranheza torna-se particularmente perturbadora, porque real. O fotógrafo captura olhares desconfiados, interiores exíguos, corpos cansados e paisagens urbanas deterioradas com uma frontalidade austera, recusando qualquer exotismo fácil. O resultado é um conjunto de imagens profundamente humanas, mas também politicamente eloquentes, capazes de expor as fracturas sociais e emocionais de um país submetido, há décadas, a sucessivas formas de privação.

O mérito maior de “Ilha” reside precisamente nessa capacidade de transformar a fotografia documental num exercício de memória e consciência crítica. Júlio García Martinez demonstra um domínio rigoroso da composição e da luz, mas nunca permite que o virtuosismo técnico obscureça a dimensão ética do seu trabalho. Cada fotografia parece construída a partir de uma relação de proximidade e escuta, como se o autor procurasse preservar não apenas a imagem dos seus retratados, mas a dignidade frágil das suas existências. Há uma honestidade crua no modo como observa Cuba nos dias de hoje, sem sentimentalismos, sem concessões ideológicas. O artista entende que documentar é também testemunhar, o que implica revelar aquilo que muitas vezes permanece na sombra: o desgaste lento da pobreza, o impacto silencioso do embargo, a solidão dos que vivem encurralados numa geografia e numa História difíceis. Mais do que uma exposição de fotografia, “Ilha” é uma experiência emocional que confronta o visitante com vidas marcadas pela luta e pela resistência. Nos dias que correm, o trabalho de Júlio García Martinez devolve à fotografia o poder de olhar demoradamente o mundo e obrigar-nos, também a nós, a não desviar os olhos.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “No Sul da Macaronésia” | Ana Roque de Oliveira



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “No Sul da Macaronésia”,
de Ana Roque de Oliveira
iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes
Bombeiros Voluntários de Avintes
08 > 31 Mai 2026


Voltamos a olhar a 13.ª edição do iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes, virando a nossa atenção para a exposição “No Sul da Macaronésia”, conjunto de imagens que exalta a espessura humana dos lugares. Da autoria de Ana Roque de Oliveira, as fotografias mostram a realidade do quotidiano de São Vicente e Santo Antão, duas ilhas vizinhas do Barlavento cabo-verdiano, marcadas pela tensão permanente entre a aridez mineral e a abundância inesperada dos vales húmidos, entre o bulício urbano do Mindelo e o gemido do vento que desce as encostas agrícolas em socalcos até ao mar. Com enorme sensibilidade, a fotógrafa mergulha numa geografia emocional que ultrapassa o mero registo documental, aproximando-se das gentes sem alarde nem pressas e permitindo que cada rosto conserve a sua dignidade e o seu segredo. As ruas poeirentas, os bairros improvisados, os mercados, os pescadores e as festas populares surgem iluminados por uma enorme atenção ao detalhe quotidiano. Percebe-se, então, que mostrar Cabo Verde não é o objectivo da autora, antes compreender como a vida resiste e floresce em territórios moldados pela diáspora, pela escassez e por uma memória atlântica profundamente mestiça.

A trajectória de Ana Roque de Oliveira ajuda a compreender a singularidade deste olhar. Engenheira do Ambiente de formação, habituada a ler o território através das suas fragilidades e equilibrios invisíveis, a fotógrafa aproxima-se das comunidades com uma espécie de escuta silenciosa. Diz-se aprendiz de fotógrafa, mas essa declaração parece menos um gesto de modéstia do que uma forma de reconhecer que os lugares nunca se deixam apreender por inteiro. Em Moçambique, criou “Os Dias em Tete”, projecto onde já se tornava evidente uma atenção particular às relações humanas e aos ritmos sociais inscritos na paisagem. Em Cabo Verde, essa linguagem amadurece e ganha uma fluidez muito própria. Há imagens que parecem quase pintadas, não apenas pelo uso subtil da cor, mas pela maneira como a luz atravessa os corpos, os tecidos e a arquitectura improvisada. Seduzem os enquadramentos, por vezes rigorosos, por vezes deliberadamente instáveis, mas sobretudo a confiança perceptível entre quem fotografa e quem é fotografado. Os retratados não parecem observados do exterior, porquanto devolvem o olhar, habitam-no, participam activamente na construção da imagem.

O resultado é uma narrativa visual onde cada enquadramento parece conter simultaneamente intimidade e distância, pertença e descoberta. Num tempo saturado de imagens rápidas e descartáveis, “No Sul da Macaronésia” é um exercício de proximidade, um convite à desaceleração do olhar, propondo uma leitura afectiva das ilhas, longe dos clichés turísticos que tantas vezes reduzem Cabo Verde a paisagem de bilhete postal ou destino de evasão. As fotografias revelam um arquipélago vivido por dentro: mulheres que transportam água, crianças suspensas entre o jogo e a observação, homens marcados pelo trabalho do mar e da terra, músicos, vendedores ambulantes, rostos anónimos atravessados pela luz atlântica. Entre São Vicente e Santo Antão existe uma cumplicidade histórica feita de circulação constante, de laços familiares e sobrevivência partilhada, e essa relação atravessa subtilmente toda a exposição. Ana Roque de Oliveira não procura evocar as carências nem estetizar a dura vida insular. O seu gesto é mais delicado ao reconhecer humanidade, complexidade e beleza onde tantas vezes apenas se projectam estereótipos. Ao visitante resta a sensação de ter atravessado não apenas duas ilhas, mas uma experiência profundamente humana do viver insular.

domingo, 24 de maio de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Passos em volta” | Eduardo Gageiro



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Passos em volta”,
de Eduardo Gageiro
Curadoria | Valter Vinagre
iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes
Casa da Cultura de Avintes
08 > 31 Mai 2026


A 13.ª edição do iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes volta a confirmar uma linha curatorial que, ao longo dos últimos anos, se tem distinguido pela recuperação e revalorização de nomes fundamentais da fotografia portuguesa e internacional. Depois das homenagens a Eduardo Teixeira Pinto e Gérald Bloncourt, ou da notável apresentação das placas de vidro de Américo Santos, muitas delas contendo registos de Emilio Biel, o festival reserva agora um lugar de particular relevo à obra de Eduardo Gageiro. A exposição “Passos em volta”, patente na Casa da Cultura de Avintes até 31 de Maio de 2026, surge não apenas como evocação de um percurso maior do fotojornalismo português, mas igualmente como um exercício de aproximação crítica a uma obra cuja vastidão permanece, em muitos aspectos, insuficientemente conhecida. O gesto do iNstantes ganha, por isso, um significado acrescido: num tempo marcado pela voragem do imediato, o Festival insiste em devolver tempo, contexto e espessura histórica à imagem fotográfica.

“Passos em volta” retoma o trabalho de investigação em torno do espólio de Eduardo Gageiro iniciado na exposição apresentada, em 2025, no Panóptico do Hospital Miguel Bombarda, no âmbito da Mostra de Fotografia e Autores - MFA Lisboa. A selecção agora reunida - sessenta e duas fotografias provenientes do conjunto adquirido ao autor pela Câmara Municipal de Torres Vedras — evita o caminho mais previsível da simples antologia celebratória. Entre retratos, imagens de rua, cenas de trabalho e registos ligados à Revolução dos Cravos e ao 1.º de Maio de 1974, o percurso expositivo revela sobretudo um olhar permanentemente atento à condição humana e às tensões sociais do seu tempo. Há, nas fotografias de Gageiro, uma capacidade única de transformar o instante documental em matéria de leitura política e emocional. Mesmo quando fixa episódios históricos amplamente reconhecíveis, o fotógrafo procura sempre o detalhe lateral, o gesto anónimo, a expressão suspensa que escapa ao heroísmo fácil da iconografia revolucionária. É precisamente nessa tensão entre proximidade e distanciamento que reside a força duradoura da sua obra.

A curadoria de Valter Vinagre reforça essa dimensão de circulação entre memória colectiva e intimidade visual. Espalhadas por duas salas, as imagens convocam não apenas o arquivo de um país em transformação, mas também a persistência de certas inquietações sociais que permanecem actuais. Mais do que revisitar um “mestre” consagrado, “Passos em volta” procura iluminar as várias zonas da produção de Eduardo Gageiro, sublinhando a amplitude de um trabalho que nunca se limitou ao registo factual do acontecimento. O fotógrafo surge aqui como observador participante, alguém que compreendeu a fotografia enquanto ferramenta estética, política e humana. Ao integrar esta mostra no núcleo central do Festival, o iNstantes reafirma uma vocação rara no panorama cultural português: a de construir pontes entre património fotográfico, pensamento crítico e divulgação pública. Num país frequentemente distraído da preservação da sua memória visual, iniciativas como esta tornam-se essenciais para compreender não apenas a história do fotojornalismo português, mas também a forma como o olhar não se deve demitir de interrogar o presente.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Entre Luz e Forma” | Adelino Marques



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Entre Luz e Forma”,
de Adelino Marques
iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes
Parque Biológico de Gaia
08 > 31 Mai 2026


“Entre Luz e Forma”, mostra integrante da 13.ª edição do iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes, espraia-se num território onde a arquitectura abandona a sua condição estática e se deixa atravessar pelo tempo. No centro deste ensaio fotográfico de Adelino Marques ergue-se o Pavilhão Multiusos de Gondomar, projecto do arquitecto Álvaro Siza, aqui revelado não como mero objecto construído, mas como organismo sensível aos caprichos da luz. O betão, o tijolo e as superfícies amplas do edifício tornam-se matéria respirável sob a a luz do sol, gerando composições inesperadas, linhas fugidias e sombras como que desenhadas pelo acaso. Nesta série de imagens, o fotógrafo propõe-se escutar o silêncio da arquitectura e descobrir nele uma pulsação íntima, feita de subtilezas, de ritmos lentos e de uma geometria que se transforma a cada instante do dia. Gesto de notável depuração formal, a pala suspensa da entrada assume um papel central nesta narrativa visual, projectando manchas de sombra e planos de luz que desafiam a percepção e deslocam o olhar para além da função utilitária do espaço. Privado da cor, o edifício ganha densidade táctil e uma dimensão quase abstracta, cada superfície como guardiã da memória da luz que a banhou.

O percurso artístico de Adelino Marques encontra nesta exposição uma síntese particularmente madura da sua linguagem visual, construída ao longo de décadas de observação paciente e de um entendimento profundamente humanista da fotografia. Nascido em Gondomar, cidade onde reside e à qual permanece ligado afectivamente, iniciou o contacto com a imagem fotográfica no final dos anos setenta, no contexto da Faculdade de Medicina do Porto, colaborando com o departamento de fotografia da Associação de Estudantes. A partir daí, consolidou uma formação que passou pelo Curso Livre de Fotografia da Cooperativa Árvore e, mais tarde, pelo Instituto Português de Fotografia, no Porto, experiências determinantes na sedimentação de um olhar simultaneamente rigoroso e contemplativo. Ao longo dos anos, o seu trabalho tem sido mostrado em Portugal e em diversos países da Europa e das Américas, revelando uma consistência autoral rara e uma atenção persistente às relações entre espaço, tempo e presença humana - mesmo quando a figura humana se encontra ausente da imagem. Em “Entre Luz e Forma”, essa maturidade manifesta-se na capacidade de transformar volumes arquitectónicos em acontecimentos visuais e emocionais. As fotografias parecem suspender o tempo e obrigar o espectador a uma desaceleração do olhar, numa época em que a velocidade da imagem frequentemente impede a contemplação.

Mais do que uma exposição sobre um edifício emblemático, “Entre Luz e Forma” afirma-se como uma reflexão sobre a própria natureza do acto fotográfico. De forma natural, estas composições exibem uma dimensão quase musical: as sombras repetem-se como motivos rítmicos, as diagonais criam tensões subtis e a luz age como matéria compositiva essencial, revelando a arquitectura não apenas como construção física, mas como experiência sensorial. A câmara de Adelino Marques procura aquilo que escapa ao olhar apressado: o instante exacto em que a luz transforma a matéria e a converte em linguagem poética. Cada imagem propõe uma experiência de contemplação e descoberta, conduzindo o visitante a uma leitura mais sensível do espaço construído. O preto e branco depurado reforça esse despojamento, eliminando o ruído visual e permitindo que a atenção se concentre nas texturas, nos contrastes e nas subtis variações lumínicas que percorrem as superfícies. Atento às pausas, às inflexões, às mudanças mínimas que alteram a percepção do espaço, Adelino Marques aproxima-se da arquitectura como quem escuta uma respiração. Entre a solidez da forma e a fugacidade da luz, assistimos ao nascimento de um território poético onde o olhar encontra tempo para habitar.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Cicatrizes" | Sara Ruiz



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Cicatrizes”,
de Sara Ruiz
iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes
Centro de Reabilitação do Norte
08 > 31 Mai 2026


Num tempo em que a violência contra as mulheres continua a revelar números alarmantes e discursos frequentemente anestesiados pela repetição mediática, “Cicatrizes” devolve profundidade humana ao tema. Captada pela fotógrafa colombiana Sara Ruiz, num muro entre dois olhares, a inscrição “#NiUnaMenos” funciona como um manifesto silencioso e, simultaneamente, como uma ferida aberta. A imagem - uma das mais incisivas da exposição patente no Centro de Reabilitação do Norte - remete para o movimento feminista nascido na Argentina em 2015, em resposta à escalada dos feminicídios e da violência de género na América Latina. A partir dela, a artista transforma o grito político numa superfície de memória colectiva, onde a violência deixa de ser mero acontecimento estatístico para adquirir densidade afectiva, corporal e íntima, evocativa de uma geografia universal da agressão, essa presença subterrânea que, como se pode ler no texto de apresentação, “atravessa os nossos corpos, os nossos membros e as nossas mentes”.

Condensando uma década de trabalho, as imagens reunidas em “Cicatrizes” recusam o espectáculo da dor fácil. Nelas, a violência surge fragmentada em vestígios, atmosferas e pequenos sinais de ameaça ou vulnerabilidade. Há muros, quartos, corpos frágeis, sombras e silêncios que revelam uma tensão contínua entre o trauma e a sobrevivência. O olhar documental da fotógrafa não abdica da dimensão poética, mas também não se refugia nela: cada fotografia parece perguntar de que modo os sistemas patriarcais moldam os afectos, os medos e até a própria ideia de intimidade. Esse carácter simultaneamente pessoal, social e político, atravessa toda a construção da exposição. Nascida em Bogotá e radicada há dezoito anos em Buenos Aires, Sara Ruiz transporta para este trabalho o cruzamento entre a prática fotográfica e a formação em sociologia, fazendo da imagem um instrumento de investigação emocional e de crítica social. A fotógrafa lembra que a violência destrói corpos, corrói linguagens, condiciona afectos, aniquila pertenças. Talvez por isso as imagens procurem incessantemente pequenos fragmentos de reconciliação humana, sem nunca ceder à estetização complacente do sofrimento.

Integrada na 13.ª edição do iNstantes - Festival Internacional de Fotografia de Avintes, a exposição ganha uma relevância particular pelo lugar onde é apresentada. O Festival, que ao longo dos anos se afirmou como um dos mais consistentes espaços de divulgação da fotografia contemporânea em Portugal, tem privilegiado propostas autorais capazes de articular criação artística, pensamento crítico e intervenção social. Nesse contexto, a presença de “Cicatrizes” no Centro de Reabilitação do Norte reveste-se de uma enorme carga simbólica. Não se trata apenas de expor fotografia num espaço institucional de saúde e recuperação física; trata-se de colocar imagens de trauma, resistência e memória num lugar onde diariamente se confrontam diferentes formas de vulnerabilidade humana. As fotografias de Sara Ruiz dialogam, assim, com a própria ideia de reabilitação, não apenas do corpo, mas também da dignidade e da possibilidade de reconstrução emocional. E fazem-no sem paternalismo nem retórica panfletária, através de imagens densas, inquietas e profundamente conscientes de que toda a cicatriz é, ao mesmo tempo, marca de violência e prova de sobrevivência.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

CERTAME: iNstantes - Festival Internacional de Fotografia de Avintes 2026



CERTAME: iNstantes - Festival Internacional de Fotografia de Avintes
Curadoria | Pereira Lopes
Organização | iNstantes - Associação Cultural
Vários Locais
08 Mai > 31 Mai 2026


A 13.ª edição do iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes confirma aquilo que, desde 2014, se foi sedimentando longe dos centros de legitimação cultural habituais e que faz dele um dos mais consistentes encontros internacionais de fotografia realizados em Portugal. Entre 08 e 31 de Maio, o Festival reúne quarenta e oito fotógrafos de doze países e espalha vinte e quatro exposições por Avintes, Valadares, Lourosa, Vila do Conde e Braga, transformando o território num mapa visual de urgências humanas, memórias políticas, geografias íntimas e inquietações contemporâneas. A visita começa inevitavelmente em Avintes, vila operária e ribeirinha onde o Festival mantém o seu centro nevrálgico e onde a fotografia parece ocupar os espaços com uma naturalidade rara: a Casa da Cultura, os Bombeiros Voluntários, a Junta de Freguesia, o Centro de Fotografia iNstantes ou os Plebeus Avintenses deixam de ser apenas edifícios para se tornarem estações de uma deriva visual. Há qualquer coisa de profundamente democrático nesta ocupação do espaço público e comunitário. O visitante percorre ruas, atravessa portas improváveis, descobre imagens no coração da vida quotidiana. É precisamente aí que o Festival encontra a sua maior força, numa ideia de proximidade que devolve a fotografia às pessoas e as pessoas à fotografia.

Ao longo desta edição, o iNstantes constrói um itinerário marcado por deslocamentos físicos, políticos e emocionais. Em “Migrantes climáticos no Bangladesh – Uma história global de humanidade partilhada”, Abir Abdullah transforma a devastação ambiental numa narrativa profundamente humana, recusando o distanciamento estatístico das catástrofes climáticas para mostrar rostos, perdas e deslocações forçadas. Já José Luís Santos, em “Caderno Afegão”, desmonta os clichés ocidentais sobre o Afeganistão através de um olhar que procura dignidade, hospitalidade e quotidiano num território frequentemente reduzido à guerra. Também Sara Ruiz, em “Cicatrizes”, trabalha a violência patriarcal como memória íntima e colectiva, cruzando dor, afecto e sobrevivência num ensaio duro e sensível. Em paralelo, Radilson Gomes e José Medeiros levam-nos às questões indígenas do Brasil, não como exotismo etnográfico, mas como reflexão urgente sobre território, apagamento e resistência cultural. Em “No Sul da Macaronésia”, Ana Roque de Oliveira encontra em Cabo Verde uma convivência entre aridez e humanidade que escapa à simples sedução turística. E em “Equilíbrios Instáveis”, Lesley Mattuchio lembra-nos a fragilidade dos ecossistemas através de imagens de vida selvagem onde a beleza nunca apaga a ameaça. O resultado é um corpo expositivo que evita o espectáculo vazio da imagem perfeita e prefere uma fotografia que pensa, questiona e convoca.

Mas esta edição do iNstantes também encontra espaço para uma reflexão mais formal sobre o acto fotográfico, o olhar e a construção visual. Em “Entre luz e forma”, Adelino Marques transforma o Multiusos de Gondomar, de Siza Vieira, num laboratório de luz e sombra, onde a arquitectura deixa de ser objecto estático para se tornar matéria viva. A preto e branco, as superfícies respiram, os volumes deslocam-se, o tempo entra literalmente na imagem. Hélder Vinagre, em “Dualidades urbanas”, trabalha igualmente o preto e branco como linguagem de suspensão, procurando na rua pequenas fricções entre solidão e multidão, velocidade e permanência. Já Jim Bostick, com “Arcanum”, encena o universo do tarot como teatro fotográfico, cruzando narrativa, simbolismo e uma elaborada construção cénica que aproxima a fotografia das artes performativas. Impossível não destacar “Passos em volta”, dedicada ao espólio de Eduardo Gageiro, figura maior do fotojornalismo português recentemente desaparecida. A exposição funciona simultaneamente como homenagem e redescoberta, revelando imagens onde o documento histórico convive com uma impressionante densidade humana. O festival demonstra assim uma notável elasticidade curatorial ao acolher fotografia documental, experimental, antropológica, poética ou conceptual, sem perder coerência nem cair na dispersão temática.

Há, finalmente, algo de particularmente significativo na forma como o iNstantes continua a afirmar-se a partir da periferia. Num país excessivamente concentrado em Lisboa, este Festival ergueu, ao longo de treze edições, uma rede internacional de cumplicidades artísticas a partir de Avintes, recusando a ideia de que a centralidade cultural depende da geografia. Pelo contrário: o iNstantes vive ancorado na relação afectiva com os seus lugares, sejam eles colectividades, teatros, quartéis de bombeiros, escolas ou instituições de saúde. Essa dimensão territorial dá-lhe uma autenticidade rara no panorama dos Festivais de fotografia, muitas vezes excessivamente formatados ou dependentes de circuitos institucionais fechados. No iNstantes, sente-se essa possibilidade do encontro inesperado entre autores consagrados e visitantes ocasionais, entre linguagens distintas, entre comunidades locais e olhares vindos da Coreia do Sul ou do Bangladesh, da Colômbia ou da Finlândia. O Festival constrói-se como cartografia do mundo contemporâneo vista a partir de uma vila do concelho de Gaia. E talvez essa seja a sua marca mais vincada: a de uma fotografia que não procura apenas mostrar o mundo, antes aproximá-lo. Mais informações em https://www.instantesffa.com/.

segunda-feira, 26 de maio de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Luzes Líquidas" | Paulo Heise



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Luzes Líquidas”,
de Paulo Heise
iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes 2025
Bombeiros Voluntários de Avintes
02 Mai > 31 Maio 2025


Agora que a décima segunda edição do iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes se aproxima do fim, é tempo de falar de “Luzes Líquidas”, a exposição de Paulo Heise que pode ser vista no Salão Nobre dos Bombeiros Voluntários de Avintes. Trata-se de um projecto nascido da união de duas paixões – as histórias das pessoas e a água –, através do qual o fotógrafo brasileiro nos oferece uma visão muito pessoal daquilo que está para lá da própria fotografia. Com um cunho fortemente experimental, esta série de Paulo Heise tira o melhor partido do espaço aberto à criatividade para manipular, justapôr e reconfigurar as imagens, transformando fotografias simples e estáticas em algo completamente novo. Desempenhando um papel primordial no trabalho do artista, a luz desenha verdadeiros quadros poéticos, levando a que momentos congelados no tempo se cruzem e assumam novos significados, desdobrando-se nas mais variadas narrativas e afirmando-se como parte de uma conversa maior, de uma história maior.

“Luzes líquidas conta histórias de mulheres em pleno exercício de actuação dos seus dons enquanto questiona a monótona ideia de que eles podem ser vistos por uma claridade explícita. Assim nos convida a vislumbrar, a partir da expressão dos gestos ocultos, da grande luz que surpreende a sombra, a liberdade.” As palavras são de Flávia Rubim, artista e terapeuta, partilhadas a propósito desta exposição. Procurando contextualizar as imagens que podemos apreciar, Flávia diz que “Luzes Líquidas” tem como ponto de partida o “trabalho fotográfico na busca do equilíbrio entre luz e sombra”, acrescentando que, “de tanto pesquisar sua origem buscando reconhecer dentro da sua ancestralidade a natureza sensível do seu olhar e de tanto penetrar na natureza líquida do mar atraído pela magia do silêncio e do movimento contínuo, Paulo Heise encontra no espaço escuro um lugar seguro para integrar seu grande empenho como artista à sua grande paixão: contar histórias.”

Sem grandes alardes estéticos, a série é baseada na figura da mulher e procura captar subtis nuances na forma como, por seu intermédio, o tempo se prolonga. A ler ou a tocar música, a dançar ou a meditar, é ela a figura central de imagens de grande beleza, nas quais o movimento implícito convoca uma noção de estranheza, como se o sujeito estivesse e não estivesse ao mesmo tempo. Esta ideia de impermanência, de uma quase espectralidade, remete para o papel da mulher na sociedade, para o que é e não é, refém de convenções ideológicas, culturais, sociais e morais que a condicionam e limitam na sua identidade e verdade. Explorar os desafios, as complexidades e os pontos fortes únicos, as expectativas sociais e a individualidade do ser mulher, devolver-lhe a vitalidade, a cor e o movimento, destacando a sua resiliência e o poder que molda as suas vidas é algo que não escapa à sensibilidade e ao poder criativo de Paulo Heise.

quinta-feira, 22 de maio de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Sente-se II" | Miguel Louro



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Sente-se II”,
de Miguel Louro
iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes 2025
Biblioteca Pública Municipal de Vila Nova de Gaia
02 Mai > 31 Maio 2025


“[A Platinotipia] é o Rolls Royce dos processos fotográficos.”
Manuel Gomes Teixeira

Em 2024, o iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes ofereceu aos visitantes uma pérola designada “Memórias”, mostra de valor incalculável composta por vinte placas de vidro, cujos positivos permitiram recordar o quotidiano das vinhas do Douro nos primórdios do século XX, desde a colheita nas encostas debruçadas sobre o rio até ao momento da exportação para os mais diversos mercados do muito apreciado Vinho do Porto. Um ano volvido, a organização do Festival volta a cumprir o desígnio de mostrar a fotografia nas suas mais variadas vertentes - conceptuais, estéticas, orgânicas ou filosóficas -, convidando-nos a apreciar o trabalho do médico e fotógrafo Miguel Louro, especialista em Medicina do Trabalho e Medicina Geral e Familiar e que completa, em 2025, cinquenta anos de carreira fotográfica. Além do significado e interesse das imagens, o grande valor da série intitulada “Sente-se II” (“sentar e sentir-se num banco de assento") reside na Platinotipia, expoente máximo da impressão das fotografias a preto e branco no mundo, e que tem em Miguel Louro um dos raríssimos cultores desta técnica no nosso país.

A impressão em Platina tem uma longa tradição, remontando ao início da história da fotografia, apesar da primeira patente do processo só ter sido registada em Inglaterra em 1873 por William Willis. Fotógrafos como Frederick Evans, Paul Strand, Alfred Stieglitz, Edward Weston ou Irving Penn, foram alguns dos mais importantes utilizadores desta técnica. Os procedimentos de impressão iniciam-se com a escolha criteriosa de um papel de alta qualidade, de algodão puro, seguindo-se o seu emulsionamento com uma solução especial de sais de platina e paládio. A segunda etapa consiste em expor o papel a luz ultra-violeta em contacto com o negativo do mesmo tamanho da prova, sendo posteriormente processada e lavada. De todo este processo resulta uma imagem com uma inconfundível atmosfera, formada unicamente com micropartículas metálicas de platina e paládio puros, embebidas nas fibras do papel e sem qualquer substrato adicional. As imagens tornam-se tão permanentes como o papel que lhes serve de suporte, podendo a sua duração, em perfeitas condições, ser avaliada na ordem das centenas de anos.

Seja em Toronto ou Reiquiavique, em Havana ou Nova Iorque, na Patagónia ou em Freixo de Espada à Cinta, as imagens têm em comum o facto de nelas haver um ou mais bancos. Simples ou estilizados, utilitários ou decorativos, vazios ou com gente, num parque de merendas ou à porta de uma loja, eles aí estão a convidar ao descanso e ao relaxamento. Apesar do vidro que cobre as fotografias lhes roubar detalhe e acrescentar indesejáveis reflexos, olhamos para o conjunto de imagens, podemos apreciar as subtis variações de uma riquíssima paleta de cinzentos, a gama tonal muito extensa e delicada e a sensação de tridimensionalidade e outros atributos menos tangíveis que revestem o trabalho de Miguel Louro e lhe acrescentam um carácter e uma luminosidade únicos. A irregularidade dos bordos das composições e as legendas delicadamente escritas à mão remetem para uma certa artesania de processos que confere a cada imagem um carácter autoral único. “Sente-se II” pode agora ser vista na Biblioteca Pública Municipal de Vila Nova de Gaia e, como se percebe, oferece aos amantes da fotografia uma possibilidade única de relacionamento com uma técnica de enorme efeito. Para ver até 31 de Maio.

sábado, 17 de maio de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Aos Olhos de Eduardo” | Eduardo Teixeira Pinto



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Aos Olhos de Eduardo”,
de Eduardo Teixeira Pinto
iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes 2025
Casa da Cultura de Avintes
02 Mai > 31 Maio 2025


“ (...) Na boca descansava um cigarro já moribundo e nas mãos uma máquina muito esquisita. Chamam-lhe Eduardo e dizem que é fotógrafo.”
Pedro Basto, in “Testemunhos” [https://www.eduardoteixeirapinto.com/]

Num mundo dominado por novas tecnologias em constante evolução, é com admiração e alguma perplexidade que assistimos ao ressurgimento do interesse pelas fotografias antigas, também designadas “vintage”. É quase paradoxal que, na era do digital, onde tudo é instantâneo e descartável, as pessoas sejam cada vez mais atraídas pelo processo lento e deliberado da captura do momento, sabendo que aquelas imagens foram feitas, as mais das vezes, com base em mecanismos rudimentares. O que há de mágico nestas imagens antigas é que elas evocam uma sensação de nostalgia, transportando-nos de volta a uma época em que cada fotografia era uma obra de arte tangível. Ao contrário das fotos digitais modernas, que podem ser infinitamente editadas e filtradas, as fotografias vintage carregam o peso da autenticidade. As suas imperfeições – demasiado grão, nitidez deficiente, excesso ou ausência de luminosidade - são aquilo que as torna tão cativantes, ao mesmo tempo que nos dizem da passagem do tempo e da beleza de momentos que jamais serão replicados.

Estão neste caso as imagens de Eduardo Teixeira Pinto, reunidas sob o título “Aos Olhos de Eduardo”, e que podem ser apreciadas na Casa da Cultura de Avintes. Joia da coroa da décima segunda edição do iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes, a mostra reúne um conjunto de fotografias a preto e branco, representativas do percurso do autor. Através delas, recuamos às décadas de 50, 60 e 70 do século passado, ao encontro da então Vila de Amarante e de um modo de vida particularmente ligado à terra e ao rio. As crianças que jogam ao arco ou ao pião, as vendedeiras no mercado, os carros de bois carregados de pipas de vinho, os barcos a remos que cruzam o rio, a roupa estendida nos varais, um pescador solitário ou o fogo dos festejos trazem-nos um tempo que quase se palpa e sente, de tal forma a sensibilidade do artista se mostra capaz de tamanho milagre. O foco suave, os tons monocromáticos e a iluminação única são marcas da assinatura autoral que, de mãos dadas com a beleza dos motivos e a riqueza dos enquadramentos, fazem com que nas imagens ressoe um nível emocional intenso e profundo.

Cada fotografia de Eduardo Teixeira Pinto conta uma história, capturando não apenas as pessoas e os lugares do passado, mas também os contextos culturais e sociais de toda uma época. São verdadeiros tesouros artísticos, que nos conectam intimamente com os tempos idos e nos convidam a criarmos relações empáticas com aqueles que nos precederam. O olhar honesto e franco do autor faz-nos parar para pensar e ganhar consciência de que as nossas fotografias são, para a maioria de nós, a coisa mais duradoura que legaremos à posteridade. Muito mais do que as mensagens que possamos deixar escritas ou postadas nas redes sociais. Posto isto, escusado será dizer que há aqui um motivo que, por si só, justifica uma deslocação a Avintes. Poderá sempre apreciar o trabalho de um punhado de outros fotógrafos que expõem no iNstantes, poderá (deverá) ainda provar a tão afamada broa de Avintes, mas não deixe de olhar nos olhos este “ilustre amarantino” e, sem saudosismos, atentar na sua arte. A experiência é verdadeiramente fascinante. Só até 31 de Maio.

quinta-feira, 15 de maio de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “A Terra dos Filhos do Sol – Desafio do Povo Xokleng” | Anderson Coelho



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “A Terra dos Filhos do Sol – Desafio do Povo Xokleng”,
de Anderson Coelho
iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes 2025
Bombeiros Voluntários de Avintes
02 Mai > 31 Maio 2025


Foi com emoção e júbilo que o povo Laklãnõ-Xokleng viu, no dia 21 de Setembro de 2023, o Supremo Tribunal Federal do Brasil colocar um ponto final na lei indigna do Marco Temporal, devolvendo aos povos indígenas a justiça e o respeito pelos seus direitos. Originários de uma vasta região inserida nos Estados de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul, os Laklãnõ-Xokleng enfrentam uma histórica perseguição desde o século XIX, quando teve início o processo de colonização e ocupação de terras no sul do Brasil levado a cabo por bugreiros contratados para dizimar os indígenas - então pejorativamente chamados de “bugres”. Os ciclos de violência, porém, nunca cessaram, sendo o Marco Temporal - uma interpretação ruralista que estabeleceu a data de 5 de outubro de 1988 como limite para o reconhecimento da ocupação tradicional indígena no país – o mais recente atentado à comunidade. Ora, os Laklãnõ-Xokleng não ocupavam as suas terras apenas e só porque estavam impedidos de o fazer por força das circunstâncias que marcam a sua história naquele território. Com o acórdão do Supremo, não só foi feita justiça, abrindo portas à demarcação definitiva da TI Ibirama-La Klãnõ, como se reconheceram ciclos consecutivos de violência praticados contra os Xokleng, com a participação directa do Estado brasileiro.

Os ecos dos festejos faziam-se sentir ainda quando nova tragédia sobreveio aos Laklãnõ-Xokleng. Na noite de 13 de outubro de 2023, a comunidade enfrentou uma cheia sem precedentes, causada pelo fecho, com recurso à força policial, das comportas do reservatório da Barragem Norte. Mais de trezentas pessoas viram as suas casas invadidas pelas águas e as suas aldeias isoladas, sendo forçadas a deslocar-se para áreas seguras, uma saga que se repete desde a década de 1970, a cada nova cheia. Sem acesso à água potável, alimentos básicos e instalações sanitárias nos abrigos onde se socorreram, as pessoas reclamaram da atitude do Governo Federal que tem, sistematicamente, mostrado a sua prepotência no tratamento dado aos indígenas com a construção da barragem na década de 70. É que a Barragem Norte não só veio reduzir drasticamente as áreas agrícolas e habitacionais, como degradou o rio, provocando cheias no inverno e impondo secas nas restantes estações. Acresce que a barragem e a sua zona de impacto estão dentro dos parcos 15% de área “útil” que resta das expropriações do território tradicional Xokleng.

Ensaio fotográfico de enorme relevância, “A terra dos filhos do sol – O Desafio do povo Xokleng” é uma pequena mostra dos embates que estes povos indígenas do sul do Brasil enfrentam para poder sobreviver. Na sua força e na sua luta, eles tipificam as minorias esmagadas pela opressão capitalista na sua sede de mais dinheiro e mais poder. Inscrita na 12.ª edição do iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes, a exposição oferece pistas importantes sobre o viver e o sentir destas comunidades, dando a ver um conjunto de imagens de cunho documental reveladoras de um quotidiano intimamente ligado à mãe-natureza, uma cultura e uma tradição devedoras de práticas ancestrais, a riqueza que um curso de rio ou uma floresta de araucárias encerram. Mas Anderson Coelho não esconde, antes releva, a outra face da moeda: a revolta de quem rejeita viver na situação de refugiado no seu próprio território e clama por liberdade e por justiça. De forma honesta e genuína, “A terra dos filhos do sol – Desafio do povo Xokleng” convida-nos a olharmos a beleza que se esconde nas coisas mais simples e a entendermos o quão melhor seria este mundo se livre de exploradores e opressores. Para ver até ao final deste mês de Maio.

sexta-feira, 9 de maio de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Curar Feridas” | Xacobe Meléndrez Fassbender



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Curar Feridas”,
de Xacobe Meléndrez Fassbender
iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes 2025
Centro de Reabilitação do Norte
02 Mai > 31 Maio 2025


O Verão desse “annus horribilis” de 2020 caminhava para o final. Os números da pandemia escalavam pelo mundo, mas Portugal, “aluno bem comportado”, não sentia tão intensamente os efeitos devastadores da COVID-19, como sucedia em Espanha ou em França, na Grécia ou em Itália. Passáramos do estado de emergência para o de calamidade, e deste para o de alerta. O uso da máscara e o distanciamento social vigoravam ainda, mas havia liberdade para sair de casa e circular. Destes momentos preservo na memória as coisas simples, quando fotografava sem me afastar de casa. Levantamento minucioso de uma nesga de floresta, de um simples muro, de um pequeno jardim, cada série fotográfica era a descoberta de novos mundos, novas paisagens, aos quais dava novas interpretações, novos sentidos. Cada saída era um momento de apaziguamento, de catarse, um exercício curativo da alma, que sabia bem e fazia bem. Por esse motivo, foi de sobressalto o primeiro olhar sobre “Curar Feridas”, de tão vivas as imagens entraram por mim adentro, tão próximas, tão “minhas” na sua importância, significado e alcance.

Arcando consigo recordações boas e más enrodilhadas num mesmo novelo, “Curar Feridas” é uma exposição do fotógrafo galego Xacobe Meléndrez Fassbender, patente por estes dias no Centro de Reabilitação do Norte, no âmbito do iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes 2025. Nas fotografias que a compõem, percebemos um conjunto de metáforas e aforismos visuais directamente ligados aos tempos da pandemia, os quais permanecem acesos nas nossas vidas, como uma ferida que tarda em sarar. São imagens que “procuram situar-se no momento que impulsiona uma mudança de enquadramentos, nas fronteiras, nos limites do contacto-divisão que se estabelece pela tensão narrativa que dá vida e razão”. Olhá-las é olhar para dentro de nós através da mediação de objectos, luzes, situações, encontrados ao acaso ou avidamente procurados, num processo de observação crítica do espaço em volta e do lugar que ocupamos. A dúvida, essa, permanece viva: O que é que aprendemos com a pandemia?

Entre a razão e a emoção, Xacobe Meléndrez Fassbender fala-nos do valor das coisas banais, da importância de lhes prestamos mais atenção, de nelas podermos demorar o olhar e descobrir-lhes o poder de convocarem emoções. Ao mesmo tempo, desafia-nos a encontrar o nunca antes visto, num jogo de associações que dirá muito mais sobre nós do que sobre os objectos da nossa observação. A debilidade que reside numa planta seca, a “sutura” num balde, a higienização das mãos numa bacia de esmalte, a distância de segurança entre os fungos que cobrem uma pedra, as coordenadas de sombra de uma velha esteira desenhadas na areia, a violência que se abriga no acto de sacar uma rolha, são apenas alguns exemplos de imagens construídas com recurso à memória, a partir dos pequenos nadas de que a vida é feita. Elas são, nas palavras do artista, “círculos que partem do íntimo e transcendem o próprio conflito na relação com os outros e na identidade social, na identidade natural, na procura de esferas cosmogónicas”. Até 31 de Maio, a não perder!

terça-feira, 6 de maio de 2025

CERTAME: iNstantes - Festival Internacional de Fotografia de Avintes 2025



CERTAME: iNstantes - Festival Internacional de Fotografia de Avintes 2025
Vários artistas
Curadoria | Pereira Lopes
Organização | iNstantes - Associação Cultural
Avintes, Braga, Lourosa, Valadares e Vila Nova de Gaia
02 Mai > 31 Mai 2024


Inaugurado no passado dia 02 de Maio, o iNstantes - Festival Internacional de Fotografia de Avintes volta a atrair as atenções dos amantes e curiosos da fotografia, trazendo a doze espaços dos concelhos de Vila Nova de Gaia, Santa Maria da Feira e Braga os olhares de 55 fotógrafos de onze países. Como vem sendo hábito, o dia de sábado foi dedicado à visita às exposições, reunindo quase uma centena de interessados que tiveram, assim, a oportunidade de juntar ao lado artístico a dimensão social, transformando o dia num momento especial de aprendizagem e convívio. O dia começou com a visita à exposição intitulada “Sal da Terra”, do egípcio Loai Zedan, patente na Casa da Cultura de Lourosa, e que documenta o trabalho agrícola em torno do trigo, do algodão ou da vinha nas férteis regiões banhadas pelo rio Nilo. Estreia muito saudada enquanto espaço expositivo do iNstantes, a Biblioteca Municipal de Gaia acolhe o trabalho de quatro fotógrafos, com propostas muito distintas entre si. Natural de Barcelona mas há muito radicado na cidade do Porto, Eduardo Perez Sanchez mostra-nos a sua “Fotografia de Cena”, conjunto de imagens captadas entre o início dos anos de 1980 e o presente, representativas de diferentes formas de expressão teatral, dança ou, de uma forma mais geral, manifestações de Arte Cénica.

Da série “sente-se (sentar-se e sentir-se num banco de assento)”, Miguel Louro apresenta, também na Biblioteca Municipal de Gaia, uma das suas quatro exposições de “Platinotipias”, expoente máximo da impressão fotográfica a preto e branco. No mesmo local, a fotógrafa brasileira Paula Sampaio traz-nos o projecto “O Lago do Esquecimento”, conjunto de imagens captadas desde 2011 na região do lago de Tucuruí (PA), verdadeiro cemitério de árvores vítimas da retenção das águas do rio Tocantins para a construção de uma central hidroeléctrica. Também na Biblioteca, Sérgio Santos mostra o porquê do mar ser “o último sítio livre do mundo” (Ernest Hemingway), ao apresentar “Abismos de cor: a magia subaquática”, magnífico conjunto de imagens que documentam ecossistemas marinhos e exploram a beleza que se abriga em várias áreas do Atlântico, Caraíbas, Mediterrâneo, mar Vermelho e oceano Índico. Fugindo ao itinerário da visita, uma rápida incursão no bonito e bem cuidado espaço do Centro de Reabilitação do Norte, outra novidade no mapa das exposições, permite apreciar um muito inspirador “Curar Feridas”, trabalho do fotógrafo galego Xacobe Meléndrez Fassbender, através do qual reflecte sobre o tempo recente, vivido durante a pandemia de COVID-19.

A Junta de Freguesia de Avintes volta a abrir as suas portas ao Festival e à parceria entre fotógrafos de Portugal e da Finlândia. Subordinada ao tema “Ambiente Digital”, a exposição colectiva abrange o olhar de dezanove fotógrafos e pretende assinalar o Ano Europeu da Educação para a Cidadania Digital, conforme declaração do Conselho Europeu. Na Fundação Joaquim Oliveira Lopes, Hélder Luís mostra “Atlântico”, conjunto soberbo de imagens que documentam duas viagens a bordo do Íris do Mar, barco de pesca registado em Ponta Delgada. Do mesmo fotógrafo, na Pérgula do Largo do Palheirinho, “Rumo à Pesca” segue a linha do projecto anterior, olhando um barco da pesca do cerco dos mais antigos (e eficazes) a operar em Portugal. Num dos espaços dos Plebeus Avintenses, a espanhola Nati Esmel expõe “Analógica / Digital”, série de registos feitos ao longo do seu percurso fotográfico, entre 1977 e 2023, representativos de uma maneira singular de sentir e fazer fotografia. Noutro novo espaço desta décima segunda edição do iNstantes, o CCDR Adriano Correia de Oliveira, Leonor de Blas, fotógrafa documental independente radicada no Paraguai, mostra “Memórias do Corpo”, cartografia de histórias íntimas que provam que não existe corpo que não contenha beleza.

Os Bombeiros Voluntários de Avintes acolhem sete das vinte e três exposições que compõem o certame. “A terra dos filhos do sol - Desafio do povo Xokleng”, do brasileiro Anderson Coelho, fala da luta do povo Laklãnõ-Xokleng que, como todos os povos indígenas do Brasil, procura preservar a sua identidade cultural e defender o território. “Carmela”, do uruguaio Fede Ruiz Santesteban, reconstrói uma história familiar atravessada pela migração e pelo cultivo da terra como evocação, memória e legado. Em “Artistas de Rua”, o norte-americano Joe Votano mostra o trabalho daqueles que fornecem entretenimento aos transeuntes, animando as ruas e praças das nossas cidades. Jorge Alves apresenta “Entre Cidades”, conjunto de imagens que mostram como “luz e trevas coexistem para criar profundidade e emoção, tanto na fotografia quanto na vida”. Do norte-americano Ken Carlson podemos ver “Sombras no Deserto”, conjunto de imagens que destacam o valor das sombras como ferramenta para fotografar, mas também como forma de expressão da própria fotografia. O brasileiro Paulo Heise faz de “Luzes Líquidas” a sua maneira de contar histórias. Finalmente, o macaense Tang Kuok Hou apresenta “Here we go again”, projecto que procura redefinir a imagem monótona da cidade, integrando todos os seus elementos numa representação visual coesa que abrange pessoas, comunidade, cultura local, natureza e memórias pessoais.

A visita terminou na Casa da Cultura de Avintes, onde está instalada a sede do iNstantes - Associação Cultural. São quatro as exposições que aqui podem ser vistas, mas antes falarei de dois projectos que, integrando o Festival em espaços distintos dos mencionados, merecem igualmente uma referência. Um denomina-se “Metamorphosis” e contempla uma oportuna reflexão sobre as tensões entre tradição e modernidade em três comunidades rurais do concelho de Góis, pelo olhar atento de António Luís Moreira (filme) e Carmen Serejo (livro). O outro direcciona-nos para a Universidade do Minho, em Braga, onde a paraguaia Jessica Isfrán Perez mostra “Quantas recordações guarda a memória?”, ensaio fotográfico sobre a vida de Liz Paola Cortaza, uma mulher trans de 64 anos que viveu a maior parte da sua vida e início da sua transição de género durante a Ditadura Militar no Paraguai. Da espanhola Beni Pons Villalonga podemos ver, na Casa da Cultura de Avintes, “Arquitecturas subjectivas”, narrativa visual a partir de elementos objetivos, onde a arquitetura se transforma num inesperado jogo de linhas, cores, contrastes e composições. “A presença da matriz portuguesa em Macau, nas imagens entre tempos” é outra das exposições patentes neste espaço, através da qual o colectivo Halftone - Macau Photographic Association olha o território de Macau, “o dragão aparentemente tranquilo, mas sempre acordado”. Iván Castiblanco Ramirez, fotógrafo colombiano, traz-nos “Corpo (des)medido / Corpo perdido” e a ideia do corpo como um novo objecto de consumo. Enfim, “Aos olhos de Eduardo” encerra esta visita guiada com um conjunto de imagens a preto e branco de Eduardo Teixeira Pinto, representativas do percurso do autor amarantino que nos deixou no início de 2009.

quinta-feira, 23 de maio de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Correspondências, 2020-21”



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Correspondências, 2020-21”,
de Ana Sabiá
iNstantes 2024 – Festival Internacional de Fotografia de Avintes
Casa da Cultura de Avintes
10 Mai > 26 Mai 2024


“Qual a imagem da tua identidade? Que país é esse? O que eu diria à criança que fui? Sou racista? Quais os sentimentos despertados pelo confinamento? O que me surpreende? Quem pensas que és? Qual o valor do meu trabalho para o coletivo? Quais momentos me sinto livre? Quais escolhas influenciaram meu destino? Quais monstros escondo sob sete chaves? Quais são as coisas do mundo que me olham?” Estas e outras questões, de um modo aproximado, abrangem o clássico desafio filosófico transcendental à espécie humana: “Quem somos, de onde viemos e para onde vamos”. Foi sobre isto que a artista visual brasileira Ana Sabiá refletiu, como se de uma urgência se tratasse, quando, em pleno período pandémico, se viu confrontada com as medidas de confinamento e com o inerente isolamento social. É nestas alturas que tal introspecção ganha força e adquire um alcance surpreendente no “conhece-te a ti mesmo”, aforismo do grego antigo que convida a moderar os nossos impulsos e a lidar de maneira menos intransigente ante as impossibilidades.

Cartão de visita do Festival iNstantes, partilhando o hall de entrada da Casa da Cultura de Avintes com “The Aviary”, do norte-americano CJ Karch, “Correspondências 2020-21” é uma das mais interessantes exposições do certame. Baseando o seu trabalho nas pesquisas a partir do corpo, no surrealismo e na auto-representação como estratégia de problematização crítica de temáticas que perpassam feminismos, identidades e autobiografia, Ana Sabiá convida-nos a decifrar os enigmas que se abrigam nas imagens que nos são mostradas. Retratando um conjunto de composições cuidadosamente estruturadas, o corpo de trabalho desta exposição abre-se à reflexão sobre momentos capitais da nossa existência, o nascimento e a morte, desde logo, mas também o casamento, o nascimento dos filhos, a consolidação dos vínculos familiares, o envelhecimento, as saudades de quem está longe ou disse adeus para sempre. Através dos objectos que as compõem - fotografias antigas, sobrescritos, desenhos, rendas, penas, lâmpadas, favos -, as imagens adquirem uma enorme carga simbólica, parecendo abrigar passado e presente sob uma capa chamada destino.

As palavras de Ana Sabiá são reveladoras das “correspondências” que pretende estabelecer: Diz ela que “a historia humana é feita de adversidades. Do nascer ao morrer, desde o início dos tempos, a vida é tecida por histórias de amores e lutas. Em que instante a minha história individual se entrelaça à das demais bilhões de pessoas desde que o mundo é mundo? Quais foram / são / serão as contingências que tramam tais aparições? Essas interrogações nortearam a construção do meu trabalho no qual sou tanto destinatária quanto remetente destas Correspondências. A partir de antigos retratos de pessoas desconhecidas, comprados em sebo e feiras, respondo às proposições em metáforas justamente intentando não encerrar a reflexão mas, ao contrário, expandi-la para além de mim. Através daquelas faces desconhecidas busco reconhecer a minha e, no esforço de revitalizar suas existências, me debato a preencher os evidentes hiatos entre suas histórias e a minha própria.” A exposição está patente só até ao próximo domingo e, como se percebe pelo que atrás referi, é de visita obrigatória.

terça-feira, 21 de maio de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Memórias"



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Memórias”,
de Américo Santos
iNstantes - Festival Internacional de Fotografia de Avintes 2024
Casa da Cultura de Avintes
10 Mai > 26 Mai 2024


Julgo não errar ao afirmar que todas as edições do iNstantes - Festival Internacional de Fotografia de Avintes tiveram o seu ponto alto numa exposição ou num debate, num documentário ou na apresentação de um livro de artista, e este ano não é excepção. No seu objectivo de mostrar a Fotografia nas suas mais variadas vertentes - conceptuais, estéticas, orgânicas ou filosóficas - a organização do Festival traz ao conhecimento do público a exposição “Memórias”, mostra de um valor incalculável, não apenas pela qualidade intrínseca das imagens que a constituem, como pelas personalidades artísticas a elas associadas, entre as quais avulta o nome de Emílio Biel. A exposição é composta por vinte placas de vidro, algumas de dimensão apreciável, nas quais estão fixadas imagens recolhidas na sua maioria há mais de um século. Paralelamente, estão expostos vinte positivos que resultam da sua digitalização e retocagem, dando a ver aspectos do quotidiano da vindima nos primórdios do século XX, desde a colheita nas encostas debruçadas sobre o Douro até ao momento da exportação.

A História da fotografia faz-se de episódios notáveis, alguns deles verdadeiramente mirabolantes, fruto da inventividade e tenacidade de um conjunto de visionários que apostaram na criação e desenvolvimento de técnicas revolucionárias à época. Da primeira fotografia permanente da história, criada por Joseph Nicéphore Niépce em 1826, à daguerreotipia e à calotipia, invenções de 1839 que acrescentavam detalhe às imagens e, no caso da calotipia, possibilitava múltiplas reproduções da mesma imagem, o caminho é feito de evolução e conquista. Em Março de 1851, Frederick Scott Archer mostra ao mundo o colódio húmido, uma solução viscosa de piroxilina que, quando misturada com outros reagentes e em contacto com nitrato de prata se torna sensível à luz. A aplicação do colódio ainda líquido faz-se sobre uma placa de vidro ou metal, a qual é submersa por alguns minutos numa solução de nitrato de prata, o que a torna foto-sensível. Depois, o processo de exposição através da câmera é já conhecido, ficando o negativo nas placas, das quais podemos ver vários exemplos na exposição agora patente.

As placas agora em exposição na Casa da Cultura de Avintes são propriedade de Américo Santos, mestre joalheiro de profissão e um apaixonado pela fotografia. Seleccionadas de um total de noventa que lhe foram oferecidas por um amigo que não tinha interesse no material, as placas permitem identificar, com absoluta certeza, o nome de alguns fotógrafos proeminentes de finais do século XIX e início do seculo XX. Olhando as imagens, aquilo que se destaca é o olhar do fotógrafo e o seu objectivo de registar o património natural, histórico, social e etnográfico. Embora em lugar recuado nas fotografias de grupo, a mulher surge como parte integrante do negócio do vinho, estando presente em todos os momentos da sua produção. Quais arqueólogos, recuamos um século e queremos perceber que pessoas são aquelas, se os locais ainda existem, se estas imagens são únicas ou se há outras reproduções algures em museus ou casas particulares. Para já, fica o fascínio perante tão importantes quanto belos exemplares que nos são dados a apreciar.

domingo, 19 de maio de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Diários do Cáucaso"



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Diários do Cáucaso”,
de José Luís Santos
iNstantes 2024 - Festival Internacional de Fotografia de Avintes
Salão Nobre dos Bombeiros Voluntários de Avintes
10 Mai > 26 Mai 2024


Geórgia, jóia do Cáucaso. Parada no meio da rua, uma mulher ergue o olhar para algo que se desenrola mais à frente. Também a criança ao seu lado, com uma boneca ao colo, parece olhar na mesma direcção. Em volta, vemos blocos de habitação de um lado e do outro da rua, varandas com marquises, carros estacionados, um céu de nuvens dispersas. Num quotidiano aparentemente normal, a nota de sobressalto está na ansiedade e na inquietação que percebemos naqueles rostos. O mesmo olhar ansioso e inquieto que vemos no rosto da rapariga parada no passeio em frente a um grande edifício no centro da cidade ou no de outra mulher que caminha apressada, tendo ao seu lado um prédio decrépito. Esse olhar sob um céu sempre carregado de nuvens, que se alonga e que torna os passos incertos e inseguros, que dá conta de quem teme pelo futuro e tem como única opção o viver o momento presente, como se cada dia fosse sempre o último das suas vidas.

Terra de fronteira e zona-tampão entre os impérios russo, persa e otomano, o Cáucaso é daqueles territórios que continuarão a sofrer pelo enorme peso com que a História se abate sobre ele. Basta olharmos para os vários conflitos que o assolam, como a guerra entre a Geórgia e a Abecazia, a autoproclamada república independente que se desvinculou do país que foi o berço de Estaline, um conflito ainda não resolvido e que parece arrastar-se indefinidamente no tempo. Mas a lista é longa e estende-se a todo o Cáucaso, com a disputa do Nagorno-Karabakh que opõe a Arménia ao Azerbaijão, os conflitos separatistas na Ossétia do Sul ou na Tchechénia, no Daguestão ou na Inguchétia. Do colapso da União Soviética, em terra onde há petróleo, sobram o desejo de uma ligação à União Europeia e aos interesses norte-americanos ou, antes, a manutenção e reforço do histórico cordão umbilical com a Rússia.

Viajante incansável, José Luís Santos volta a expor no Festival iNstantes, depois de aqui ter mostrado imagens da “Rota da Seda”, na edição de 2019. A paixão pelos vastos horizontes e pelas culturas milenares leva-o desta feita à Geórgia, onde capta um quotidiano ambíguo e impreciso, as interrogações a formarem-se em cada imagem desta série verdadeiramente impressiva. O olhar do fotógrafo cruza-se com os olhares das pessoas e, entre ambos, é a dúvida que persiste. Ele assegura que, “no meio de toda esta problemática, a vida continua porque tem de continuar”. Por isso o seu olhar poisa, de igual modo, no rosto da mulher que vende batatas num mercado ao ar livre, na carroça que se afasta deixando para trás a escultura de uma arma com um nó no cano, dos banhistas que abrem o guarda-sol nas areias do Mar Negro ou das crianças que brincam na rua indiferentes à violência que se abriga nas três estátuas decepadas de Lenine.