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terça-feira, 21 de maio de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Memórias"



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Memórias”,
de Américo Santos
iNstantes - Festival Internacional de Fotografia de Avintes 2024
Casa da Cultura de Avintes
10 Mai > 26 Mai 2024


Julgo não errar ao afirmar que todas as edições do iNstantes - Festival Internacional de Fotografia de Avintes tiveram o seu ponto alto numa exposição ou num debate, num documentário ou na apresentação de um livro de artista, e este ano não é excepção. No seu objectivo de mostrar a Fotografia nas suas mais variadas vertentes - conceptuais, estéticas, orgânicas ou filosóficas - a organização do Festival traz ao conhecimento do público a exposição “Memórias”, mostra de um valor incalculável, não apenas pela qualidade intrínseca das imagens que a constituem, como pelas personalidades artísticas a elas associadas, entre as quais avulta o nome de Emílio Biel. A exposição é composta por vinte placas de vidro, algumas de dimensão apreciável, nas quais estão fixadas imagens recolhidas na sua maioria há mais de um século. Paralelamente, estão expostos vinte positivos que resultam da sua digitalização e retocagem, dando a ver aspectos do quotidiano da vindima nos primórdios do século XX, desde a colheita nas encostas debruçadas sobre o Douro até ao momento da exportação.

A História da fotografia faz-se de episódios notáveis, alguns deles verdadeiramente mirabolantes, fruto da inventividade e tenacidade de um conjunto de visionários que apostaram na criação e desenvolvimento de técnicas revolucionárias à época. Da primeira fotografia permanente da história, criada por Joseph Nicéphore Niépce em 1826, à daguerreotipia e à calotipia, invenções de 1839 que acrescentavam detalhe às imagens e, no caso da calotipia, possibilitava múltiplas reproduções da mesma imagem, o caminho é feito de evolução e conquista. Em Março de 1851, Frederick Scott Archer mostra ao mundo o colódio húmido, uma solução viscosa de piroxilina que, quando misturada com outros reagentes e em contacto com nitrato de prata se torna sensível à luz. A aplicação do colódio ainda líquido faz-se sobre uma placa de vidro ou metal, a qual é submersa por alguns minutos numa solução de nitrato de prata, o que a torna foto-sensível. Depois, o processo de exposição através da câmera é já conhecido, ficando o negativo nas placas, das quais podemos ver vários exemplos na exposição agora patente.

As placas agora em exposição na Casa da Cultura de Avintes são propriedade de Américo Santos, mestre joalheiro de profissão e um apaixonado pela fotografia. Seleccionadas de um total de noventa que lhe foram oferecidas por um amigo que não tinha interesse no material, as placas permitem identificar, com absoluta certeza, o nome de alguns fotógrafos proeminentes de finais do século XIX e início do seculo XX. Olhando as imagens, aquilo que se destaca é o olhar do fotógrafo e o seu objectivo de registar o património natural, histórico, social e etnográfico. Embora em lugar recuado nas fotografias de grupo, a mulher surge como parte integrante do negócio do vinho, estando presente em todos os momentos da sua produção. Quais arqueólogos, recuamos um século e queremos perceber que pessoas são aquelas, se os locais ainda existem, se estas imagens são únicas ou se há outras reproduções algures em museus ou casas particulares. Para já, fica o fascínio perante tão importantes quanto belos exemplares que nos são dados a apreciar.

quarta-feira, 13 de abril de 2022

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Memórias"


[Clicar na imagem para ver mais fotos]

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Memórias”,
de Ricardo Fonseca
Leica Gallery Porto
19 Fev > 30 Abr 2022


Numa cidade relativamente pequena como o Porto, termos a possibilidade de ver duas exposições de fotografia ao mesmo tempo, com estéticas convergentes e olhares tão próximos sobre a cidade e as suas gentes, só pode ser visto como um acaso feliz. É assim com “Bernardino Pires o Fotógrafo e a Cidade”, patente no Mira Fórum, mostra sobre a qual falei anteriormente no blogue [AQUI]. É assim também com “Memórias”, de Ricardo Fonseca, fotógrafo nascido em Baião mas que viveu no Porto a maior parte da sua vida, aqui se licenciando em Economia pela Faculdade de Economia na Universidade do Porto e tendo estado à frente de grandes empresas como a STCP, a Administração dos Portos do Douro e Leixões e a Metro do Porto. Foi precisamente no Porto, mas também noutros cantos do país e em lugares tão díspares como a China ou o México, Cuba, a Turquia, a Tailândia ou o Perú, que registou preciosos momentos fotográficos ao longo de mais de meio século, dos quais uma pequena parte pode ser vista por estes dias na Leica Gallery Porto.

Curiosamente, os acasos da vida terão juntado Ricardo Fonseca e o já referido Bernardino Pires na sede da extinta Associação Fotográfica do Porto, nos anos 60 do século passado. Nessa altura, conforme recorda na introdução do seu livro “Memórias”, Ricardo Fonseca "pouco além teria ido das fotos de família” e foi justamente de Bernardino Pires, a par de António Mendes (director de fotografia do filme “Douro, Faina Fluvial, de Manoel de Oliveira) e de outros fotógrafos, que recebeu o conselho de trocar a sua câmara fotográfica Halina, “de qualidade manifestamente insuficiente”, por uma Rolleicord Vb, cuja compra foi feita por intermédio de Sérgio Godinho, que vivia e estudava em Genebra e conseguia obter material fotográfico mais em conta. Terá sido este o grande estímulo para que o seu gosto pela fotografia crescesse mais ainda, levando a que a expressão da sua arte adquirisse contornos a roçar, com frequência, o sublime.

Com um olhar delicado e sensível e um enorme bom gosto, Ricardo Fonseca foi guardando os mais variados momentos, ora fruto das viagens que o levaram a correr mundo, ora obra de uma atitude mais intimista em lugares tão próximos como a sua própria casa. Fiel ao registo analógico e em preto e branco, o artista é um admirador confesso de Henri Cartier-Bresson, cujas marcas se percebem na linguagem acentuadamente documental e nos diversos momentos de um mundo real que ao longo dos anos foi capaz de captar. Gentileza e harmonia são os instantes que facilmente associamos às suas imagens a que sempre foi fiel. Nesta exposição o visitante é presenteado com algumas imagens que demonstram tudo aquilo que Ricardo Fonseca sentiu ao longo da sua vida sempre que teve a camara na mão e que hoje, com a sua partilha, nos permite absorver em parte. Para ver até ao próximo dia 30 de Abril.