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segunda-feira, 18 de maio de 2026

CERTAME: iNstantes - Festival Internacional de Fotografia de Avintes 2026



CERTAME: iNstantes - Festival Internacional de Fotografia de Avintes
Curadoria | Pereira Lopes
Organização | iNstantes - Associação Cultural
Vários Locais
08 Mai > 31 Mai 2026


A 13.ª edição do iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes confirma aquilo que, desde 2014, se foi sedimentando longe dos centros de legitimação cultural habituais e que faz dele um dos mais consistentes encontros internacionais de fotografia realizados em Portugal. Entre 08 e 31 de Maio, o Festival reúne quarenta e oito fotógrafos de doze países e espalha vinte e quatro exposições por Avintes, Valadares, Lourosa, Vila do Conde e Braga, transformando o território num mapa visual de urgências humanas, memórias políticas, geografias íntimas e inquietações contemporâneas. A visita começa inevitavelmente em Avintes, vila operária e ribeirinha onde o Festival mantém o seu centro nevrálgico e onde a fotografia parece ocupar os espaços com uma naturalidade rara: a Casa da Cultura, os Bombeiros Voluntários, a Junta de Freguesia, o Centro de Fotografia iNstantes ou os Plebeus Avintenses deixam de ser apenas edifícios para se tornarem estações de uma deriva visual. Há qualquer coisa de profundamente democrático nesta ocupação do espaço público e comunitário. O visitante percorre ruas, atravessa portas improváveis, encontra imagens no coração da vida quotidiana. É precisamente aí que o Festival encontra a sua maior força, numa ideia de proximidade que devolve a fotografia às pessoas e as pessoas à fotografia.

Ao longo desta edição, o iNstantes constrói um itinerário marcado por deslocamentos físicos, políticos e emocionais. Em “Migrantes climáticos no Bangladesh – Uma história global de humanidade partilhada”, Abir Abdullah transforma a devastação ambiental numa narrativa profundamente humana, recusando o distanciamento estatístico das catástrofes climáticas para mostrar rostos, perdas e deslocações forçadas. Já José Luís Santos, em “Caderno Afegão”, desmonta os clichés ocidentais sobre o Afeganistão através de um olhar que procura dignidade, hospitalidade e quotidiano num território frequentemente reduzido à guerra. Também Sara Ruiz, em “Cicatrizes”, trabalha a violência patriarcal como memória íntima e colectiva, cruzando dor, afecto e sobrevivência num ensaio duro e sensível. Em paralelo, Radilson Gomes e José Medeiros levam-nos às questões indígenas do Brasil, não como exotismo etnográfico, mas como reflexão urgente sobre território, apagamento e resistência cultural. Em “No Sul da Macaronésia”, Ana Roque de Oliveira encontra em Cabo Verde uma convivência entre aridez e humanidade que escapa à simples sedução turística. E em “Equilíbrios Instáveis”, Lesley Mattuchio lembra-nos a fragilidade dos ecossistemas através de imagens de vida selvagem onde a beleza nunca apaga a ameaça. O resultado é um corpo expositivo que evita o espectáculo vazio da imagem perfeita e prefere uma fotografia que pensa, questiona e convoca.

Mas esta edição do iNstantes também encontra espaço para uma reflexão mais formal sobre o acto fotográfico, o olhar e a construção visual. Em “Entre luz e forma”, Adelino Marques transforma o Multiusos de Gondomar, de Siza Vieira, num laboratório de luz e sombra, onde a arquitectura deixa de ser objecto estático para se tornar matéria viva. A preto e branco, as superfícies respiram, os volumes deslocam-se, o tempo entra literalmente na imagem. Hélder Vinagre, em “Dualidades urbanas”, trabalha igualmente o preto e branco como linguagem de suspensão, procurando na rua pequenas fricções entre solidão e multidão, velocidade e permanência. Já Jim Bostick, com “Arcanum”, encena o universo do tarot como teatro fotográfico, cruzando narrativa, simbolismo e uma elaborada construção cénica que aproxima a fotografia das artes performativas. Impossível não destacar “Passos em volta”, dedicada ao espólio de Eduardo Gageiro, figura maior do fotojornalismo português recentemente desaparecida. A exposição funciona simultaneamente como homenagem e redescoberta, revelando imagens onde o documento histórico convive com uma impressionante densidade humana. O festival demonstra assim uma notável elasticidade curatorial ao acolher fotografia documental, experimental, antropológica, poética ou conceptual, sem perder coerência nem cair na dispersão temática.

Há, finalmente, algo de particularmente significativo na forma como o iNstantes continua a afirmar-se a partir da periferia. Num país excessivamente concentrado em Lisboa, este Festival ergueu, ao longo de treze edições, uma rede internacional de cumplicidades artísticas a partir de Avintes, recusando a ideia de que a centralidade cultural depende da geografia. Pelo contrário: o iNstantes vive ancorado na relação afectiva com os seus lugares, sejam eles colectividades, teatros, quartéis de bombeiros, escolas ou instituições de saúde. Essa dimensão territorial dá-lhe uma autenticidade rara no panorama dos Festivais de fotografia, muitas vezes excessivamente formatados ou dependentes de circuitos institucionais fechados. No iNstantes, sente-se essa possibilidade do encontro inesperado entre autores consagrados e visitantes ocasionais, entre linguagens distintas, entre comunidades locais e olhares vindos da Coreia do Sul ou do Bangladesh, da Colômbia ou da Finlândia. O Festival constrói-se como cartografia do mundo contemporâneo vista a partir de uma vila do concelho de Gaia. E talvez essa seja a sua marca mais vincada: a de uma fotografia que não procura apenas mostrar o mundo, antes aproximá-lo.

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