DANÇA: “Bichos”
Coreografia | Rui Lopes Graça
Desenho de luz e espaço cénico | Cristóvão Cunha
Máscaras | Robert Allsopp and Associates
Direcção artística | Henrique Amoedo
Interpretação | Aléxis Fernandes, Bárbara Matos, Bernardo Graça, Gleidson Vigne, Joana Caetano, Laura Ávila, Rui João Costa, Sofia Marote, Telmo Ferreira
Produção | Companhia Dançando com a Diferença
50 Minutos | Maiores de 6 Anos
Coºrdenadas - Laboratório para o Território
Ponto C - Cultura e Criatividade
15 Mai 2026 | sex | 10:00
Há espectáculos que procuram apenas entreter e há outros que se assumem como um gesto de deslocação do olhar. “Bichos”, da Companhia Dançando com a Diferença, pertence claramente à segunda categoria. A partir do universo literário de Miguel Torga, a coreografia de Rui Lopes Graça instala em palco uma reflexão áspera sobre liberdade, identidade e pertença, recusando qualquer leitura complacente da condição humana. Estreado em 2016 e apresentado agora em Penafiel, o espectáculo encontra na fisicalidade dos intérpretes uma dimensão profundamente humana e digna. Não há aqui espaço para paternalismos ou para o exotismo fácil da chamada “arte inclusiva”. O que se vê é dança contemporânea no seu estado mais exigente: corpos distintos entre si, com ou sem deficiência intelectual, convocados para uma linguagem comum onde a diferença deixa de ser tema para passar a ser matéria da criação. Entre gestos abruptos, tensões corporais e momentos de suspensão quase ritual, “Bichos” desmonta a domesticação social do indivíduo, construindo uma atmosfera de permanente confronto do homem consigo próprio, com os outros e com uma ideia abstracta de transcendência. A encenação evita qualquer linearidade narrativa, optando por uma sucessão de imagens densas, por vezes inquietantes, que colocam o espectador perante uma pergunta simples e brutal: até que ponto permanecemos livres dentro das estruturas que nos moldam?
Ao longo de um quarto de século de actividade, a Companhia Dançando com a Diferença, fundada e dirigida por Henrique Amoedo, transformou profundamente o modo como a dança contemporânea portuguesa olha para o corpo. Quando iniciou o seu percurso, falar de bailarinos com deficiência em contextos profissionais era ainda encarado como excepção ou experiência paralela. Hoje, muito por força de um trabalho contínuo, de grande exigência técnica e que recusa reduzir os artistas à sua condição física ou intelectual, essa discussão deslocou-se para outro patamar: o da criação artística enquanto território plural. “Bichos” surge, assim, não apenas como mais uma peça de repertório, mas como síntese madura de uma visão estética e ética construída ao longo de décadas. Longe da mera ilustração de conceitos, os corpos em cena pensam, resistem, desafiam e perturbam. Há momentos em que a fragilidade aparente de determinados movimentos revela todo um enorme potencial cénico, precisamente porque nasce da singularidade de cada intérprete e não da tentativa de uniformização. Aquilo que importa nunca é a deficiência, mas a intensidade humana que cada corpo transporta e que nos diz que a verdadeira inclusão acontece quando desaparece a necessidade de a anunciar.
O mergulho neste particular universo torguiano revela-se particularmente feliz num espectáculo que vive da tensão entre instinto e civilização. Tal como nos contos do escritor transmontano, também aqui os animais funcionam como espelho moral dos homens, expondo medos, pulsões e formas de submissão que a organização social frequentemente procura esconder. O palco transforma-se numa espécie de Arca de Noé contemporânea, habitada por criaturas que lutam por um lugar próprio sem abdicarem da sua identidade. Há qualquer coisa de profundamente libertador na forma como o espectáculo rejeita categorizações fáceis. A dança surge aqui como linguagem de confronto e emancipação, mas também como possibilidade de comunidade. Mesmo nos momentos mais sombrios, quando os intérpretes parecem esmagados por forças invisíveis, subsiste sempre uma energia de resistência que impede a resignação. Ao fim de 25 anos de percurso artístico, a Dançando com a Diferença continua a provar que a revolução pode acontecer através do corpo. E “Bichos”, pela sua intensidade poética e política, confirma a companhia madeirense como uma das experiências mais transformadoras no campo da dança, lembrando que a dignidade humana não se esgota na sobrevivência, mas exige liberdade, desobediência e inconformismo.
[Foto: Dançando com a Diferença | https://danca-inclusiva.com/galeria/2/bichos]
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