“Estamos em 71, no Chiume, e a minha filha acaba de nascer. Acaba de nascer e a essa hora as senhoras do Movimento Nacional Feminino devem estar pensando em nós sob os capacetes marcianos dos secadores dos cabeleireiros, os patriotas da união Nacional pensam em nós comprando roupa interior preta, transparente, para as secretárias, a Mocidade Portuguesa pensa em nós preparando carinhosamente heróis que nos substituam, os homens de negócios pensam em nós fabricando material de guerra a preço módico, o Governo pensa em nós, mal agradecidos, alvos de tanto amor, saímos do arame em que apodrecemos para morrer por perversidade de mina ou emboscada, ou deixamos negligentemente filhos sem pais a quem ensinam a apontar com o dedo o nosso retrato ao lado da televisão, em salas de estar onde tão-pouco estivemos.”
Publicado em 1979, “Os Cús de Judas” permanece como uma das mais violentas e belas descidas aos infernos da nossa memória colectiva. Tudo começa num bar lisboeta, durante uma noite de álcool e insónia, ao longo da qual um homem fala sem descanso a uma desconhecida. O que poderia parecer um jogo de sedução transforma-se numa confissão febril, num longo monólogo em que a guerra colonial emerge como uma doença incurável alojada no corpo e na fala. Médico militar em Angola, o narrador regressa vivo ao seu país, mas deixa na selva africana a possibilidade de voltar inteiro. Entre copos sucessivos, é tempo de revisitar uma infância sufocada pela moral salazarista, a educação católica, a tradição militar da família, o casamento falhado, a distância da filha recém-nascida, os mortos anónimos da guerra e os fantasmas de um império apodrecido, que insistiu em sobreviver à custa da juventude enviada para morrer longe de casa. Simultaneamente inferno e revelação, Angola é aqui território de mutilação, de febre, de minas e cadáveres abandonados, mas também espaço de uma vitalidade quase mítica, sensual e telúrica, que contrasta brutalmente com a Lisboa cinzenta, imóvel e decadente para onde regressa.
A grandeza do romance reside por inteiro na linguagem de António Lobo Antunes, essa torrente verbal hipnótica que parece escrita à beira do colapso. Desde a primeira frase, o leitor é arrastado por períodos longos, sinuosos, excessivos, cheios de imagens improváveis e metáforas ferozes, como se a sintaxe tradicional já não bastasse para conter a violência da experiência narrada. Há qualquer coisa de Faulkner, de Céline ou de Conrad naquela escrita convulsa, mas a voz do autor permanece absolutamente singular: barroca sem ornamentos gratuitos, poética sem perder a brutalidade concreta das coisas. António Lobo Antunes fala como quem sangra. Cada memória regressa deformada pelo álcool, pela culpa e pela exaustão moral, compondo um fluxo de consciência onde passado e presente se confundem incessantemente. Lisboa invade Angola; Angola contamina Lisboa. Um gesto amoroso mostra-se capaz de convocar uma criança esfomeada suspensa no arame farpado; o corpo de uma mulher mistura-se com o cheiro da decomposição e do medo. O resultado é uma escrita visceral, saturada de ruídos, cheiros, febres, suor, ferrugem e carne, a beleza nascida, paradoxalmente, do contacto directo com o horror.
Mais do que narrar a guerra, o que António Lobo Antunes faz é reproduzir por palavras a desordem interior de quem a viveu. O romance avança assim por espirais, regressos obsessivos, associações delirantes, como se o narrador procurasse desesperadamente impor alguma ordem no caos das suas memórias e ser capaz de transformar a fragmentação psicológica numa narrativa emocionalmente coerente. “Os Cus de Judas” não procura reconstruir os acontecimentos da guerra segundo uma lógica histórica; prefere mergulhar na consciência fragmentada de um homem destruído, transformando a memória num labirinto de imagens, vozes e associações. O narrador não se apresenta como vítima pura nem como consciência iluminada. Pelo contrário, expõe sem piedade a sua cobardia, o seu cinismo, a sua impotência, a degradação afectiva e moral em que caiu. O romance transforma-se, assim, numa reflexão amarga sobre identidade, culpa e desenraizamento, mostrando como a guerra prolonga os seus efeitos muito para além do campo de batalha.
Direi, enfim, que são raros os livros portugueses que conseguem unir de forma tão lúcida a violência histórica e a invenção poética, a denúncia política e a vertigem íntima. “Os Cus de Judas” não é de leitura fácil, nem poderia sê-lo. Exige disponibilidade, concentração, entrega total à musicalidade irregular das frases, aos movimentos imprevisíveis da memória. Há momentos em que o leitor sente estar a atravessar um pesadelo febril, cercado por espectros, vozes e cadáveres que teimam em insinuar-se. O autor obriga-nos a olhar para aquilo que Portugal persiste em querer esquecer, do trauma da guerra colonial ao colapso moral do império, da violência subterrânea da ditadura ao abandono daqueles que regressaram mutilados, física ou mentalmente. E, ao fazê-lo, transforma a experiência individual de um homem arruinado numa meditação universal sobre a solidão, o medo e a fragilidade humana. No final, fica a sensação de se ter escutado um homem à deriva agarrado ao balcão de um bar como a um destroço no meio do mar, tentando salvar-se pela palavra. Um náufrago gritando na escuridão, enquanto a literatura, única forma possível de resistência, tenta ainda arrancar alguma beleza aos escombros. Obra-prima!
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