Jeff Wall é uma das figuras mais influentes da arte contemporânea, sendo reconhecido pela forma como utiliza a fotografia para reflectir sobre os modelos visuais da cultura ocidental. Envolveu-se com a fotografia na década de 1960 e, em meados da década de 1970, começou a experimentar a sua nova versão de fotografia pictórica. A sua obra está profundamente enraizada na história da pintura, particularmente no conceito de “quadro” e na tradição composicional inaugurada pela perspectiva renascentista, ainda que reinventada ao longo dos séculos. Embora o seu meio principal seja a fotografia, Wall opera numa intersecção entre a pintura, o cinema, a literatura e o teatro, criando imagens cuidadosamente encenadas, planeadas e compostas, como faria um realizador de cinema ou um pintor. Muitas das suas obras desde os anos 1990 são foto-montagens, combinando múltiplas imagens para criar uma cena unificada, embora também integrem ocasionalmente fotografias documentais. Independentemente do método, Wall rejeita a objectividade do registo documental, preferindo sublinhar a dimensão subjectiva e encenada da imagem, numa prática que designa por “cinematografia”.
A singularidade da prática de Jeff Wall reside tanto na autonomia criativa de cada imagem como na sua escala. As suas fotografias, muitas delas de grandes dimensões, desafiam os formatos convencionais da fotografia artística, estabelecendo uma relação física com o observador, aproximando a escala das figuras e objectos à do corpo humano. Esta dimensão permite intensificar a percepção e evoca tradições pictóricas que vão de Velázquez a Manet ou Pollock. A partir do outono de 1977, as suas fotografias foram feitas como transparências coloridas retro-iluminadas, apresentadas em caixas de luz, muitas delas de grande dimensão, um meio identificado na altura mais com publicidade do que com arte fotográfica. Desde meados da década de 1990, Wall expandiu o seu repertório, trabalhando com impressões tradicionais a preto e branco e, mais recentemente, impressões coloridas a jato de tinta. A sua produção visual abrange tanto cenas do quotidiano como construções inspiradas na história da arte ou na literatura, abordando temas como a alienação, a pobreza, a violência, a exclusão ou a solidão. Ao fundir elementos da pintura com características da fotografia documental, Wall propõe uma redefinição radical do estatuto da imagem, criando um espaço híbrido entre o real e o fictício, onde a subjectividade do autor molda decisivamente o que é representado.
Nas suas imagens, Jeff Wall convida à contemplação do instante suspenso, frequentemente marcado por uma ambiguidade narrativa. As cenas sugerem acontecimentos em curso ou por acontecer, operando como fragmentos de histórias cujo desfecho permanece desconhecido. Este efeito de suspense – presente em obras como "Insomnia” (1994), “A Fight on the Sidewalk” (1994) ou “Parent child” (2018) – introduz um sentimento de estranheza e dúvida, revelando tanto o banal como o enigmático nas situações retratadas. Através desta micrologia do instante, Wall explora a complexidade da percepção contemporânea, sublinhando a dificuldade em distinguir o visível do invisível, o real do construído. A exposição em Portugal, a sua primeira individual no país e a maior dos últimos vinte anos, reúne mais de sessenta obras produzidas entre 1980 e 2023, oferecendo uma ampla visão da evolução formal e temática do seu percurso artístico e da sua abordagem única à imagem como construção visual e conceptual. Trata-se de uma excelente oportunidade para conhecer o trabalho deste artista nascido em 1946 em Vancouver, onde vive e trabalha. Para ver até ao primeiro dia do próximo mês.
Sem comentários:
Enviar um comentário