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segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

CERTAME: MIRA Pinhole Photography - 11.ª edição



CERTAME: MIRA Pinhole Photography - 11.ª edição
Vários Artistas
Curadoria | Adelino Marques, António M. Teixeira, Augusto Lemos e Rui Apolinário
Ciclo de Fotografia LESTA e LENTA
MIRA Galerias | MIRA artes performativas
08 Nov > 20 Dez 2025


Ao entrar no espaço acolhedor do MIRA artes performativas para a 11.ª edição do MIRA Pinhole Photography, a sensação dominante é a de atravessar um portal temporal onde a fotografia se despede dos automatismos e recupera o seu grau zero, feita de luz, matéria e tempo. O texto inaugural de Rui Apolinário funciona como uma bússola crítica, lembrando que esta prática - tão primitiva quanto actual - remonta a Brewster e aos experimentalistas do século XIX, mas repousa sobre um saber ainda mais antigo, conhecido pelo menos desde o século V a.C. Essa arqueologia do olhar não é evocada como exercício nostálgico, antes opera como consciência histórica num espaço que aposta, entre o lesto e o lento, na fricção entre velocidades. A inauguração simultânea da mostra pinhole e da fotografia mobile no MIRA Galerias reforça essa tensão produtiva: uma celebra a volatilidade tecnológica, outra resiste-lhe através da lentidão que devolve ao gesto fotográfico a espessura do tempo. O visitante percebe que este diálogo não é forçado, tratando-se apenas de colocar em confronto dois modos distintos de captura para pensar o significado de fixar o mundo nos dias de hoje.

Diante das imagens, a imprevisibilidade evocada por Apolinário revela-se como princípio estético estruturante. Cada fotografia parece carregar o silêncio de uma operação sem visores, sem lentes, sem pré-visualização — uma espécie de pacto com o desconhecido que, ao materializar-se, convoca o imaginário do visitante. Esta suspensão entre intenção e acaso produz um regime visual distinto do habitual consumo digital de imagens: aqui há falhas, derivas, difusões, zonas onde a luz hesitou e deixou marcas que são tanto ópticas quanto emocionais. No contexto do Ciclo LESTA e LENTA, a pinhole apresenta-se quase como um antídoto contra a aceleração permanente, não como rejeição do presente, mas como contraponto crítico. O que surpreende, no entanto, é perceber que essa lentidão não significa menos intensidade. Pelo contrário, há uma vibração particular nestas imagens, como se cada uma trouxesse consigo a memória da sua própria formação. A experiência de visita é, por isso, também uma experiência de reeducação do olhar: aprende-se a demorar, a observar a respiração da luz, a aceitar que ver pode ser um acto radicalmente lento.

No seu conjunto, o certame reafirma o papel do MIRA como espaço de experimentação e de confronto crítico entre práticas fotográficas. Este “funcionamento em espelho” entre duas open calls internacionais é revelador do espectro expandido da fotografia contemporânea. Se a fotografia mobile responde ao mundo com a rapidez que as sociedades actuais lhe imprimem, a fotografia estenopeica devolve a esse mesmo mundo uma imagem que parece emergir de um sonho, como bem refere Apolinário. O visitante sente essa dimensão onírica não como fuga, mas como outra forma de verdade: a verdade do tempo dilatado, da imagem que se forma devagar e que, por isso, resiste melhor ao esquecimento. Ao circular pela sala, ou vendo as imagens que vão sendo projectadas, percebe-se que cada fotografia é também um gesto de resistência a uma cultura visual saturada. Ao expor lado a lado duas formas extremas de produzir imagens, o MIRA não escolhe um caminho: convida-nos a pensar o intervalo entre ambos. E é nesse intervalo, onde a urgência e a contemplação convivem, que esta 11.ª edição encontra a sua força crítica e a sua relevância cultural.

domingo, 26 de maio de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: MIRA Mobile Prize 2024



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: Mira Mobile Prize 2024
Vários artistas
Curadoria | Manuela Matos Monteiro, João Lafuente
MIRA | Artes Performativas
04 Mai > 08 Jun 2024


Quem não tem, nos dias de hoje, um smartphone? Serão poucos os braços erguidos num país onde o número de telemóveis ultrapassa largamente a população portuguesa. A percepção que temos, enquanto utilizadores destes equipamentos, é que a sua evolução tecnológica tem sido uma constante e que isso vem alterando, de forma significativa, a utilização que lhes damos. Mais do que uma ferramenta para comunicar com o mundo, eles funcionam, cada vez mais, como uma janela para a nossa percepção desse mesmo mundo, abrindo espaço às múltiplas interpretações da realidade que nos rodeia. Celebrando a fotografia mobile há quase 10 anos, a dinâmica e atenta equipa do Mira Fórum - Manuela Matos Monteiro e João Lafuente, assistidos por Luísa Rosas da Silva - voltou a lançar o repto à comunidade mobile, na certeza do seu espírito de abertura em relação ao novo que se traduz, sempre, num vastíssimo conjunto de imagens enviadas de todo o mundo. Assim foi, uma vez mais, nesta 17ª edição do concurso, dedicada a Marian Seid Rubin, pioneira da fotografia mobile e um membro ativo e solidário da comunidade organizadora.

A novidade desta edição é a inclusão, nas categorias a concurso, da “IA” - imagens construídas com recurso à Inteligência Artificial -, ao lado das categorias “Arte Digital”, “Arquitectura”, “Minimal”, “Paisagem”, “Retrato” e “Vida Quotidiana”. Na base desta opção está a percepção de que este é um espaço de futuro, algo que começa a mexer com a curiosidade de todos e a levar alguns a experimentar novos caminhos na arte de construir imagens. É inegável que são cada vez mais os membros da comunidade mobile a apresentar excelentes trabalhos com recurso à Inteligência Artificial e é esse espírito de experimentalismo e alguma irreverência que levou os organizadores a ousar arriscar aquilo que provoca e inquieta: a Inteligência Artificial na Fotografia. Ao Júri do concurso - constituído por Andrea Bigiarini, Gina Costa, Giulia Baita, Joanne Carter e Mário Pires - coube a tarefa de seleccionar, de entre os muitos milhares de fotografias recebidas, as duzentas melhores e, numa fase posterior, as cinquenta de uma “short list” que ocupam o espaço do MIRA | Artes Performativas, bem como os vencedores do Prémio Mira Mobile Prize 24’, português mais bem classificado e, ainda, a melhor classificação na categoria IA.

O Júri decidiu atribuir o Prémio Mira Mobile Prize 24’ à arquitecta e fotógrafa artística brasileira Andrea Seligman, enquanto o nosso bem conhecido António Tedim foi o português mais bem classificado. Diana N. Jeon foi distinguida com o melhor trabalho de IA. Estes trabalhos podem ser vistos na belíssima “caixa de cortiça” da Rua Padre António Vieira, ao lado de imagens igualmente muito belas e significativas da autoria de, entre outros, Adelino Marques, Ana Valente, Teresa David, Bruna Costa, Clara Magalhães, Nuno do Carmo, Paulo C. Amado, Selene Vicente, Amo Passicos, Pati John, Aylin Argun, Mary J. Rosenfeld, Catherine Caddigan, Karen Divine, Jane Schulz, Alex Imas ou Eliza Tsitsimeaua. Face à grande qualidade das fotografias, a organização do concurso decidiu aumentar, nesta edição, o número de imagens em projecção para as duzentas, o que revela que a fotografia mobile consolidou, de facto, o seu lugar no mundo da fotografia. Para aqueles que não tiverem a possibilidade de se deslocar ao Porto até ao próximo dia 08 de Junho e acompanhar a exposição, podem sempre ver esta selecção alargada no canal de Youtube do MIRA Fórum, em https://www.youtube.com/@miraforum2184.