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sábado, 8 de novembro de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Alén do Lago” | Carlos Folgoso



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Alén do Lago”,
de Carlos Folgoso
Curadoria | Vítor Nieves
Encontros da Imagem Braga 2025
Theatro Circo, Braga
20 Set > 18 Out 2025


A fotografia contemporânea convida-nos a interpretar o mundo que nos rodeia e a dialogar com ele. Muito para além de uma função estética, esta forma de arte procura despertar emoções, chamar a atenção para problemáticas sociais ou explorar dimensões da realidade que frequentemente escapam ao olhar comum. No ritmo acelerado dos dias de hoje, a fotografia mostra-se particularmente relevante, permitindo captar e preservar momentos efémeros do quotidiano. Inapelavelmente, tornou-se um novo meio de comunicação, capaz de transmitir mensagens e congelar instantes únicos no tempo. É neste contexto que se insere o projeto “Alén do Lago”, série vencedora do XII Prémio Galiza de Fotografia Contemporânea 2024, ao destacar-se como uma expressão visual que convida à contemplação e à introspeção.

Em “Alén do Lago”, Carlos Folgoso oferece-nos uma visão pessoal da Galiza rural, profundamente ligada às suas tradições e ao seu imaginário. Através de um olhar que emerge da floresta para revelar novas narrativas, o autor conduz-nos por uma paisagem quotidiana carregada de significado. A sua abordagem metafórica à paisagem e ao povo galego transcende a superfície e propõe uma leitura emocional e simbólica, despertando no espectador memórias, sensações e vivências passadas. Mais do que simples registos visuais, as suas imagens constroem uma narrativa não-verbal, onde cada fotografia é um fragmento de realidade social e de mitos partilhados. Através do domínio da retórica visual, Folgoso transforma a imagem numa linguagem autónoma, plena de intenção e densidade poética, que nos ensina a valorizar cada recanto do território que habitamos.

Mergulhar nas imagens que compõem “Alén do Lago” é aceder a uma nova perspetiva sobre a Galiza rural, onde o quotidiano se transforma em arte e a arte nos devolve às nossas memórias mais profundas. Nesta criação, os contrastes e as dualidades assumem um papel central, despertando a consciência para a importância de preservar a natureza, a história e os valores que definem a nossa identidade colectiva. Cabe ainda neste espaço a menção a uma iniciativa que visa fomentar a criação artística, permitindo o surgimento de propostas inovadoras e de qualidade excepcional, merecedoras de uma maior visibilidade. Criado em 2013, no âmbito do Festival Internacional Outono Fotográfico (os Encontros da Imagem dedicam a este certame uma atenção especial, com uma mostra patente ao público no Mosteiro de Tibães), o Prémio de Fotografia Contemporânea da Galiza contribui para legitimar e valorizar a fotografia enquanto forma artística contemporânea e serve também para estimular novas propostas, inovações visuais e diálogo estético, levando em conta as linguagens fotográficas alternativas.

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

FESTIVAL: Encontros da Imagem Braga 2025



FESTIVAL: Encontros da Imagem - Festival Internacional de Fotografia e Artes Visuais Braga 2025
Direcção | Manuel da Cunha Santos, Carla Bacelar Ferreira
Direcção artística | Vítor Nieves
Equipa Curatorial | Alexia Alexandropoulou, Daniel Bastos, Elina Heikka, José Bacelar, Manuel Sendón & Xosé Lois Suárez Canal, Daniel Moreira e Rita Castro Neves, Rui Prata, Xosé Lois Vázquez
Artistas | Alfredo Cunha, Carlos Folgoso, Elisa Freitas, Gérald Bloncourt, Gil Raro, José Cruzio, Matevž Čebašek, Miguel De, Pierpaolo Mittica, Roberto de la Torre, Sergio Marey, Stefanos Paikos, Vari Caramés e outros
Avintes, Barcelos, Braga, Guimarães, Porto e Vila Verde
18 Set > 02 Nov 2025


Os Encontros da Imagem constituem o maior festival de fotografia existente no país e emparceira os grandes festivais de fotografia europeus. Com inicio em 1987, o certame tem constituído, nestes últimos trinta anos, uma esteira essencial para a divulgação e a criação fotográfica. As primeiras edições centraram-se na apresentação de autores clássicos essenciais para a compreensão da história da fotografia e, simultaneamente, autores contemporâneos que apresentavam as linhas mais recentes de representação. Paulatinamente, os Encontros foram alargando os seus objetivos, chegando em 2025 à sua 35.ª edição e fazendo dela uma forma de apresentar uma verdadeira “manifestação de interesses”. Mais do que um mote, este título funciona como um gesto público, um manifesto de interesses renovados que o festival adquire e partilha, consolidando o seu legado e lançando novos compromissos para o futuro. Este mote reflete também a intenção de olhar criticamente para o seu percurso. Na sua meia-idade — 35 edições ao longo de 38 anos — os Encontros da Imagem assumem a necessidade de uma pausa reflexiva que questiona a função deste e, por extensão, de outros festivais de primeira geração: repensar as conquistas alcançadas e avaliar a sua pertinência na actualidade.

O visitante ocasional não terá esta percepção, mas os “habitués” dos Encontros da Imagem perceberão muito facilmente uma, digamos, “reconfiguração” em relação a anteriores edições. Os limites entre as disciplinas artísticas mostram-se mais diluídos, com o festival a expandir-se para além da fotografia. Embora esta continue a ser o seu foco central, o programa integra de forma decisiva a performance, a instalação, a escultura e a videoarte, explorando territórios que enriquecem a experiência estética do público. Para reforçar a ligação com a comunidade e atrair novos públicos, a edição de 2025 inclui mais exposições de rua, expandindo a presença do festival para além dos espaços convencionais. Numa assumida “Manifestação de Interesse”, esta edição do Festival estrutura-se em três núcleos expositivos, cada um com a sua abordagem única e complementar. Estes núcleos — “Dissidências”, “Argumentários” e “Transições” — foram concebidos para explorar o tema central sob diferentes perspectivas, gerando diálogos, tensões e conexões. Cada programa aponta para aspectos cruciais da fotografia contemporânea e das artes visuais, desde a celebração da inovação e diversidade até à reflexão sobre o percurso e identidade do próprio festival, culminando na exploração das conexões regionais e identidades divergentes.

Braga continua a ser o fulcro dos Encontros da Imagem, com os pólos expositivos a estenderem-se a Avintes, Barcelos, Vila Verde, Porto e Guimarães. Daquilo que me foi possível ver num dia sempre preenchido, destacaria as exposições “Lebensborn”, de Angeniet Berkers, no Museu Nogueira da Silva, e que aborda o “Lebensborn”, programa fundado na Alemanha em 1935 e que foi concebido para proporcionar ao Terceiro Reich uma nova geração de líderes e oficiais da SS, e “Reaching for Dusk”, de Stefanos Paikos, em plena Avenida da Liberdade, e que documenta o quotidiano em Mbeubeuss, o maior aterro sanitário a céu aberto da África Ocidental, localizado nos arredores de Dakar, no Senegal, uma frente negligenciada na história da migração. Patente na Galeria da Estação, “Cinematica”, de Teresa Freitas, tem a curiosidade de confrontar o visitante com uma estética cromática específica, levando-o a questionar a autenticidade das cenas apresentadas. Na sua dimensão foto-documental, “Photographo”, de Alfredo Cunha, e “A Emigração Portuguesa a Salto”, de Gérald Bloncourt, são duas exposições a não perder. A primeira pode ser vista na Zet Gallery, enquanto a segundo está patente no Arquivo Municipal. Os Encontros da Imagem prolongam-se até ao dia 02 de Novembro.

terça-feira, 29 de outubro de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Woman Go No’Gree” | Gloria Oyarzabal



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Woman Go No’Gree”,
de Gloria Oyarzabal
Curadoria | Vítor Nieves
Encontros da Imagem de Braga 2024
IPCI - Instituto de Produção Cultural e Imagem, Porto
28 Set > 02 Nov 2024


A reexposição da obra de Gloria Oyarzabal não podia faltar nestes “Legados do Colonialismo”. Vencedora dos Discovery Awards em 2018, a sua presença naquele caloroso percurso inaugural marcou de forma indelével essa edição dos Encontros da Imagem. Voltamos a encontrar a sua obra potente e provocadora, na edição deste ano, viajando até ao Porto onde pode ser vista no IPCI. Os impérios, pela sua própria natureza, personificam e institucionalizam a diferença, tanto entre metrópole/colónia como entre sujeitos coloniais. O imaginário imperial inunda a cultura popular. As categorias de género foram um tipo de “nova tradição” biológica que o colonialismo europeu institucionalizou em muitas culturas africanas. A infantilização das mulheres como parte do sistema patriarcal ocidental foi também exportada com a colonização da mente, prática subtil e alienante que, em muitos casos, aqueles que a executam nos vários planos intangíveis da vida quotidiana o fazem em nome da moral, dos valores, dos costumes proclamados com o truque do engano.

Questões como a classe, a raça, a idade, o género — todas elas construções sociais para o exercício do poder —, e até a saúde, devem ser tidas em conta como fundamentais para a experiência feminina. A beleza circula como uma forma de mercadoria com valor social, económico e cultural. No entanto, estas normas são frequentemente medidas com valores eurocêntricos, sendo as narrativas de beleza branca (magreza, juventude e brancura) e os ideais de beleza fortemente racializados. A brancura é reforçada ao mesmo tempo que é a norma, enquanto a “alteridade” se torna fetiche e algo “exótico”. Os três conceitos centrais que têm sido os pilares do feminismo ocidental — mulher, género e irmandade — só são compreendidos com uma atenção cuidada à família nuclear patriarcal de onde emergiram, forma familiar que está longe de ser universal.

O erotismo, a sexualidade, a irmandade, a maternidade, o casamento, a tradição, a domesticação, a inclusão dos homens… todos estes aspectos, com as suas luzes e sombras próprias em cada sociedade, devem ser colocados no mesmo plano para podermos comparar. Talvez compreendendo a História, possamos ultrapassar a atribuição social e simbólica apenas às diferenças que convidam à classificação hierárquica, e abrir o leque a outros factores para a construção da identidade. Aquilo que se propõe é uma conversa em torno da descolonização do feminismo, questionando os quadros teóricos racionais eurocêntricos que constroem as categorias de género de forma universalista. Chimamanda Ngozi Adichie fala sobre “o perigo da história única”. Desejemos novas formas de relacionar os géneros, novos modelos de diálogos interculturais não baseados na supremacia nem numa hierarquia excludente, e talvez as identidades, tanto individuais como comunitárias, possam evoluir naturalmente para uma sociedade em que não seja necessário ser invisível para avançar.

terça-feira, 15 de outubro de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Orixe"



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Orixe”,
de Glorianna Ximendaz
Curadoria | Vítor Nieves
Encontros da Imagem de Braga 2024
Palácio do Raio
06 Set > 03 Nov 2024


Nascida em San José, Costa Rica, em 1992, Glorianna Ximendaz destaca-se como uma fotógrafa e poliactivista cujo trabalho reflecte “uma busca pela justiça social e uma profunda conexão com as histórias pessoais e coletivas de resistência e superação”. O projecto “Orixe” – vencedor do XI Prémio Galiza de Fotografia Contemporânea, o reconhecimento mais prestigioso na sua área no vizinho país do Norte – enquadra-se perfeitamente neste contexto, acrescentando-lhe um cunho profundamente pessoal, ao encontro das histórias de abuso e violência sofridas pelas mulheres, incluindo as da família da própria artista. Para a autora, a série “Orixe” não é apenas uma narrativa visual, mas também um acto de resistência e uma declaração de existência. Ximendaz utiliza a fotografia como uma ferramenta para desafiar as normas sociais, derrubar estruturas opressoras, fomentar a cura e o empoderamento, e celebrar a força e a resiliência das mulheres. O projecto visa iniciar diálogos, consciencializar para o problema e ajudar a desmantelar os sistemas que perpetuam a violência machista.

Com uma aprendizagem de luta pelos direitos das pessoas que lhe transmitiram os seus avós, Ximendaz usa a sua câmarа como instrumento de luta. Em paralelo à produção artística, o seu desempenho como fotojornalista é um trabalho comprometido, marcado por um esforço constante para dar voz a quem constantemente é negligenciada(o). A artista iniciou este projecto de uma maneira algo inconsciente, estabelecendo ligações entre as experiências de abuso que sofreu e as narrativas encriptadas presentes no seio familiar e que, de certa forma, a marcaram desde a nascença. Este entrelaçar de histórias pessoais e colectivas proporcionou um terreno fértil para a criação artística. Através do “collage”, a autora ressignifica as imagens, recupera a memória e (re)conta a história das suas ancestrais, tornando públicas e universais as experiências pessoais e familiares. As suas imagens não procuram a excepcionalidade, mas sim a repetição, a proliferação, a multiplicidade e a expansão, em que fragmentos dispersos são reunidos para criar novas imagens e significados.

No trabalho de Glorianna Ximendaz, materiais vernáculos de álbuns de família, da grande internet e do seu próprio arquivo são manipulados, fragmentados e intervencionados como forma de distorcer a cronologia e unificar as histórias de cinco vozes distintas numa narrativa só. Este método enfatiza a universalidade do discurso, transcendendo o âmbito individual para atingir uma dimensão coletiva. Ximendaz interliga habilmente as histórias das cinco mulheres, cada uma delas representando uma dimensão diferente relacionada com as distintas lutas dos feminismos. Bisavó, mãe, trisavó, avó e a própria autora corporizam as trajetórias percorridas pelos movimentos feministas nas últimas décadas. Tópicos como o poder patriarcal, os privilégios inerentes à masculinidade normativa e de classe, a ocultação e transmissão de violências no âmbito familiar e social, as penalizações impostas às mulheres que desafiam a ordem patriarcal, a exigência de padrões de beleza opressivos, a violência obstétrica e a sexualidade forçada, são abordados nas imagens de Ximendaz, acentuando a multiplicidade e complexidade das experiências femininas.

Entre os muitos aspectos significativos desta exposição, reveladores do poder da sua mensagem, encontramos uma abordagem do desretrato, no qual a artista opta por mutilar as fotografias em vez de as descartar directamente, como uma forma catártica de transformar a raiva e a dor em expressão material. Ximendaz emprega técnicas digitais e manuais, como pintura e queima de imagens, para intervir nas fotografias. Estas intervenções, que podem ser percebidas como destrutivas, desempenham um papel duplo: são um meio para a artista se aproximar do desmantelamento do sistema patriarcal, curando a dor e a memória; e servem para criar imagens iconoclastas que desafiam, desestabilizam, e até ridicularizam, o poder. Isto é evidente no retrato de um conhecido fotógrafo argentino, implicado em inúmeros casos de abuso das suas assistentes e alunas; e na representação do ditador Tinoco, cujo discurso contribuiu significativamente para o elevado índice de feminicídios na Costa Rica e para quem uma das antepassadas da autora trabalhou. Esta critica estende-se facilmente ao atual presidente do pais caribenho, Rodrigo Chaves Robles, conhecido pelas denúncias de assédio sexual.

segunda-feira, 14 de outubro de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "As Veias Abertas"



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “As Veias Abertas”,
de Aaryan Sinha, Amina Kadous e Olga Sokal
Curadoria | Vítor Nieves
Encontros da Imagem de Braga 2024
SOMA — Plataforma Cultural, Braga
20 Set > 03 Nov 2024


Os projetos de Aaryan Sinha, Amina Kadous e Olga Sokal, finalistas do Emergentes 2023, são reunidos nesta exposição por se alinharem perfeitamente com o tema central da presente edição dos Encontros da Imagem. Do conjunto de imagens apresentadas no extraordinário espaço SOMA, uma novidade nesta edição dos Encontros, emergem histórias pessoais e familiares que nos convidam a refletir sobre as continuidades e rupturas das dinâmicas de poder e exploração, tanto em escala global quanto local. O caso português tem, nesta matéria, um bom exemplo na prospeção de minas de lítio em regiões afastadas dos centros de poder, o que evidencia como estas dinâmicas de exploração também se desenrolam em contextos locais. Recorde-se que este fenómeno foi abordado por Silvy Crespo na sua exposição “The Land of Elephants”, apresentada no Edifício do Castelo durante os Encontros da Imagem em 2021. Crespo evidenciou como estas áreas, frequentemente distantes das grandes cidades e dos centros de decisão, são escolhidas para a extração de recursos, perpetuando uma espécie de colonialismo interno que se reflete nas disparidades regionais e na marginalização das populações locais.

A obra de Aaryan Sinha, “This Isn’t Divide and Conquer” posiciona-se no seio do pensamento pós-colonial, explorando um dos conflitos mais persistentes e dolorosos da história contemporânea da Índia e do Paquistão. O projeto emerge das raízes familiares de Sinha, desenvolvendo-se ao longo de uma viagem pelos cinco estados indianos que fazem fronteira com o Paquistão. Através da fotografia, o autor busca compreender como os eventos históricos, particularmente a Partição de 1947, moldaram a paisagem e a identidade em constante transformação do povo indiano. O título da obra faz referência à estratégia colonial britânica de “dividir para conquistar”, que fomentou divisões religiosas para enfraquecer a resistência ao domínio imperial. No entanto, Sinha vai além de uma mera denúncia histórica, ao sugerir que estas táticas de divisão estão longe de serem factos do passado. Lembrando a polarização de vastas comunidades religiosas pelo actual governo de direita na Índia, o artista oferece uma poderosa contra-narrativa ao reviver de forma inquietante as mesmas dinâmicas de poder que promovem a fragmentação social e reforçam os mecanismos de controlo de uma vasta nação.

O trabalho de Amina Kadous, “White Gold”, deambula na intersecção entre as histórias pessoais e a vasta teia de dinâmicas económicas e políticas que moldaram e continuam a moldar o Egipto. O algodão egípcio, muitas vezes referido como “ouro branco”, simboliza a riqueza natural do país, mas também as complexas relações de poder que o cercam. Durante o período colonial, o extrativismo foi imposto como uma ferramenta de dominação e exploração, e, após a independência, essa lógica de controle não desapareceu; foi antes apropriada e perpetuada por oligarcas nacionais, que passaram a responder aos interesses de um capitalismo globalizado. Kadous utiliza a história do algodão como uma metáfora para explorar a identidade egípcia, tanto no plano pessoal quanto no coletivo. A história da sua família, enraizada na indústria têxtil de El Mehalla Al Kobra, reflete as transformações que o Egito sofreu ao longo do tempo. O algodão, tal como a própria Kadous, foi arrancado das suas raízes, processado, transformado e inserido numa dinâmica global que frequentemente ignora as implicações humanas e culturais dessa extração. Em “White Gold”, a artista questiona o que resta dessa “semente humana”, refletindo sobre o que foi perdido, o que ainda persiste e o que poderia ter sido.

“Black Stone Burns”,  de Olga Sokal, é uma investigação sobre as dinâmicas pós-coloniais no contexto local que reflete o impacto da extracção de carvão em comunidades ao redor do mundo. Este trabalho, que parte da história familiar e da vila natal da artista em Belchatow, na Polónia, estende-se por cinco países em três continentes, revelando como a exploração do carvão, longe de ser uma prática antiga, continua a ser uma força motriz do capitalismo global, com consequências devastadoras para as pessoas e o ambiente. Em Belchatow, onde as minas de carvão atravessaram a história da família da artista, a dinâmica de recolonização interna é evidente. A exploração do carvão, inicialmente uma fonte de sustento e orgulho, tornou-se um símbolo de degradação ambiental e social, deixando cicatrizes profundas na terra e na comunidade. Quando as pedras pretas são extraídas e o trabalho árduo é retirado, o que resta é mais do que terras devastadas; são comunidades fragmentadas e identidades esvaziadas. Através das lentes de Sokal, o carvão deixa de ser apenas uma “pedra preta” e torna-se um símbolo da luta contínua contra as dinâmicas de poder que persistem na era pós-colonial.


terça-feira, 8 de outubro de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Não Estar Nem Aí"



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Não Estar Nem Aí”,
de Elisa Mariotti, Francesca Faulin e Katerina Kouzmitcheva
Curadoria | Vítor Nieves
Encontros da Imagem de Braga 2024
Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, Braga
20 Set > 03 Nov 2024


“Não Estar Nem Aí” reúne as obras de Elisa Mariotti, Francesca Faulin e Katerina Kouzmitcheva, três das artistas finalistas do Emergentes 2023, que, através de abordagens distintas, investigam temas que a sociedade moderna tende a ignorar ou evitar. O título da exposição, inspirado na obra de Kouzmitcheva, remete-nos para uma atitude de indiferença ou distanciamento face a questões que, embora presentes no quotidiano, são frequentemente evitadas ou silenciadas. Esta postura de “não estar nem aí” funciona como uma metáfora que convida à reflexão sobre a forma como lidamos — ou, mais precisamente, como não lidamos — com problemas que afetam profundamente a nossa sociedade, tais como a doença mental e a toxicodependência. A decisão curatorial de reunir estes três projetos, à primeira vista tão distintos, constitui uma chamada de atenção, na medida em que estabelece uma ligação entre preocupações que, apesar de diferentes na sua manifestação, partilham um denominador comum: a recusa ou a fuga face a realidades incómodas. Este diálogo entre as obras evidencia como a sociedade frequentemente prefere ignorar ou evitar confrontar questões que desafiam o seu conforto e estabilidade.

Janela íntima para o mundo fechado das comunidades terapêuticas, onde a toxicodependência é abordada através de um processo rigoroso de reabilitação e reintegração, “A Letter from Home”, de Elisa Mariotti, é o resultado de uma investigação na comunidade de San Patrignano, em Itália, uma das maiores e mais conhecidas do mundo. Este conjunto de imagens desafia-nos a confrontar uma das realidades mais incómodas e frequentemente ignoradas da sociedade contemporânea: o ciclo vicioso da adição e o esforço contínuo para superá-la. Mariotti força-nos a encarar de frente as realidades da toxicodependência, que tantas vezes nos fazem “não estar nem aí”. Ao explorar as rotinas diárias, os desafios emocionais e as relações humanas dentro da comunidade, a artista subverte a narrativa típica de marginalização associada às pessoas toxicodependentes. Em vez disso, evidencia a complexidade de um processo que exige a superação de uma dependência física e a reconstrução de identidades fragmentadas, muitas vezes através de interacções cuidadosamente mediadas e de um retorno gradual a uma vida estruturada.

Francesca Faulin, com “L’originale, l’ombra e la ripetizione”, mergulha nas sombras de uma história familiar silenciada, oferecendo uma reflexão sobre a complexidade da doença mental e a construção da identidade. Inspirada na descoberta de um diário do seu avô, onde este documentou os últimos anos de vida do seu tio Francesco, que sofreu de esquizofrenia, Faulin explora a delicada linha entre a sanidade e a psicose, questionando os limites entre a normalidade e a doença. Utilizando técnicas fotográficas antigas, a artista não só revive memórias do passado, mas também enfatiza a natureza fragmentada e repetitiva da experiência de quem vive com esquizofrenia. A escolha destas técnicas confere às imagens uma qualidade etérea, quase fantasmagórica, que ecoa a citação com que a artista inicia a sua obra: “À medida que a sombra cresce, cresce também a distância entre o original e a cópia.” Neste trabalho, a sombra — a esquizofrenia — distancia progressivamente o indivíduo da sua identidade original, criando múltiplas camadas de existência que se sobrepõem e se repetem, como num ciclo interminável.

Katerina Kouzmitcheva, com a obra “My Hut Is On The Edge”, leva-nos a explorar as subtilezas do distanciamento e da indiferença através de uma investigação sobre expressões idiomáticas que refletem atitudes de desapego e desinteresse em relação ao mundo que nos rodeia. Através de uma combinação de ditados tradicionais ou expressões populares e cenários fictícios, a artista utiliza o humor negro para retratar a ignorância e a apatia, reflectindo, em última análise, a modernidade líquida perante questões que exigem uma postura activa e consciente. As obras de Katerina Kouzmitcheva, além disso, desempenham um papel fundamental na arquitectura conceptual desta exposição, operando simultaneamente como enlaces e separadores entre as demais obras apresentadas. Assim, tecem uma rede de significados que, ao mesmo tempo que unifica as diferentes abordagens temáticas, sublinha as distinções que as caracterizam, actuando como pontos de intersecção, onde o discurso da indiferença se articula com a complexidade dos temas abordados pelas outras artistas, criando uma coesão interpretativa com tanto de orgânico quanto de provocador.


segunda-feira, 7 de outubro de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Do Antropoceno: Antes, Ainda e Amanhã"



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Do Antropoceno: Antes, Ainda e Amanhã”,
de Ana Rodríguez Heinlein, Luca Rotondo, Martin Tscholl
Curadoria | Vítor Nieves
Encontros da Imagem de Braga 2024
Mosteiro de Tibães, Braga
20 Set > 03 Nov 2024


O conceito de Antropoceno, enquanto marco geológico e histórico, desafia-nos a repensar a nossa relação com o ambiente e as paisagens que nos rodeiam. As transformações que lhe são inerentes não apenas moldaram fisicamente a Terra, mas também alteraram profundamente as nossas percepções do natural. As paisagens que hoje reconhecemos e valorizamos como naturais são, muitas vezes, resultado de intervenções humanas acumuladas ao longo de séculos, tornando-se testemunhas silenciosas das forças antropogénicas que as criaram e transformaram. Integrando o programa da 34ª edição dos Encontros da Imagem, “Do antropoceno: Antes, Ainda e Amanhã” propõe-se explorar essas questões, oferecendo uma plataforma para a contemplação e para a problematização das paisagens do presente e do futuro. Os projectos de Ana Rodríguez Heinlein, Luca Rotondo e Martin Tscholl, três dos finalistas do Emergentes 2023, abordam aspectos nucleares da antropização do meio, atravessando os conceitos de memória, acção humana e tecnologia e apresentando-se num tempo não linear que funde passado e futuro. Desta forma, a degradação e a preservação do meio ambiente são reveladas como partes de um todo, sublinhando a indissociável interligação entre estes processos.

Na sua obra “Tierra sin água”, Ana Rodríguez Heinlein aborda o “Antes”, esse passado recente que se desdobra como uma advertência urgente para o futuro. Através de uma investigação visual e conceptual sobre a seca no sul da Península Ibérica, Heinlein expõe a vulnerabilidade de uma região cuja prosperidade sempre esteve intimamente ligada a este recurso vital. Como a própria artista observa, “a escassez deste recurso expõe conflitos latentes e põe à prova dependências que antes não eram questionadas”, revelando as fissuras de um sistema que insiste em explorar a água como se fosse infinita. Heinlein questiona as consequências de práticas históricas e contemporâneas que priorizam objectivos económicos, como a agricultura intensiva e o turismo, sobre a sustentabilidade a longo prazo. A artista lembra-nos que o passado, com todas as suas práticas insustentáveis, não está distante; ele molda o presente e pressagia um futuro incerto. Heinlein convida-nos a refletir sobre o legado destas práticas, sobre a irreversibilidade das mudanças que já ocorreram e sobre a responsabilidade de reavaliar a nossa relação com o ambiente para evitar um colapso que ameaça tanto a natureza quanto a vida humana.

“Kirka”, de Luca Rotondo, confronta-nos com a tensão persistente entre passado e presente, explorando a complexa relação entre os seres humanos e os ursos nos Alpes. Após quase um século de caça implacável que levou a espécie à beira da extinção na região, o projecto europeu “Life Ursus” foi implementado na esperança de restaurar uma população viável de ursos. No entanto, o retorno destes mamíferos não teve significado apenas ao nível da reintrodução da vida selvagem, mas também reacendeu antigos conflitos entre as comunidades locais e os ursos, tornados símbolos tanto de orgulho quanto de ameaça. Ao revelar o choque entre a vontade de proteger uma espécie emblemática e a necessidade de garantir a segurança e os interesses das comunidades locais, Rotondo expõe as camadas de contradições e ambiguidades que marcam esta coexistência forçada e a difícil convivência entre conservação e progresso. Neste “Ainda”, o artista convida a reflectir sobre a nossa capacidade de reparar os danos causados ao ambiente e coloca-nos no centro de um dilema moral e ecológico que persiste, lembrando que a convivência entre o ser humano e a natureza é um processo contínuo e incerto.

Martin Tscholl assina o “Amanhã” com um conjunto de imagens de grande formato que tomam o nome de “Imaginary Ecologies”. Através delas, o artista projecta-nos para um futuro especulativo onde a natureza, tal como a conhecemos, é reinventada. Fazendo a apropriação de objetos naturais, restos de animais ou de vegetais e outros elementos que podemos encontrar no ambiente, Tscholl constrói as vistas que transcendem o presente e nos desafiam a imaginar um mundo onde as fronteiras entre o natural e o artificial se esbatem. Estas ecologias imaginárias não são meras fantasias, mas sim explorações profundas das relações complexas e interdependentes que existem entre todas as formas de vida. Tscholl convida-nos a um exercício de imaginação activa, onde as espécies que povoam o seu trabalho parecem tanto familiares quanto estranhas, como se pertencessem a um tempo ainda por vir. Ao explorar essas interacções e transformações, o artista abre um espaço fotográfico que nos convida a imaginar e dialogar com um futuro em que a Humanidade deve repensar radicalmente o seu lugar no ecossistema global.