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segunda-feira, 13 de outubro de 2025

FESTIVAL: Encontros da Imagem Braga 2025



FESTIVAL: Encontros da Imagem - Festival Internacional de Fotografia e Artes Visuais Braga 2025
Direcção | Manuel da Cunha Santos, Carla Bacelar Ferreira
Direcção artística | Vítor Nieves
Equipa Curatorial | Alexia Alexandropoulou, Daniel Bastos, Elina Heikka, José Bacelar, Manuel Sendón & Xosé Lois Suárez Canal, Daniel Moreira e Rita Castro Neves, Rui Prata, Xosé Lois Vázquez
Artistas | Alfredo Cunha, Carlos Folgoso, Elisa Freitas, Gérald Bloncourt, Gil Raro, José Cruzio, Matevž Čebašek, Miguel De, Pierpaolo Mittica, Roberto de la Torre, Sergio Marey, Stefanos Paikos, Vari Caramés e outros
Avintes, Barcelos, Braga, Guimarães, Porto e Vila Verde
18 Set > 02 Nov 2025


Os Encontros da Imagem constituem o maior festival de fotografia existente no país e emparceira os grandes festivais de fotografia europeus. Com inicio em 1987, o certame tem constituído, nestes últimos trinta anos, uma esteira essencial para a divulgação e a criação fotográfica. As primeiras edições centraram-se na apresentação de autores clássicos essenciais para a compreensão da história da fotografia e, simultaneamente, autores contemporâneos que apresentavam as linhas mais recentes de representação. Paulatinamente, os Encontros foram alargando os seus objetivos, chegando em 2025 à sua 35.ª edição e fazendo dela uma forma de apresentar uma verdadeira “manifestação de interesses”. Mais do que um mote, este título funciona como um gesto público, um manifesto de interesses renovados que o festival adquire e partilha, consolidando o seu legado e lançando novos compromissos para o futuro. Este mote reflete também a intenção de olhar criticamente para o seu percurso. Na sua meia-idade — 35 edições ao longo de 38 anos — os Encontros da Imagem assumem a necessidade de uma pausa reflexiva que questiona a função deste e, por extensão, de outros festivais de primeira geração: repensar as conquistas alcançadas e avaliar a sua pertinência na actualidade.

O visitante ocasional não terá esta percepção, mas os “habitués” dos Encontros da Imagem perceberão muito facilmente uma, digamos, “reconfiguração” em relação a anteriores edições. Os limites entre as disciplinas artísticas mostram-se mais diluídos, com o festival a expandir-se para além da fotografia. Embora esta continue a ser o seu foco central, o programa integra de forma decisiva a performance, a instalação, a escultura e a videoarte, explorando territórios que enriquecem a experiência estética do público. Para reforçar a ligação com a comunidade e atrair novos públicos, a edição de 2025 inclui mais exposições de rua, expandindo a presença do festival para além dos espaços convencionais. Numa assumida “Manifestação de Interesse”, esta edição do Festival estrutura-se em três núcleos expositivos, cada um com a sua abordagem única e complementar. Estes núcleos — “Dissidências”, “Argumentários” e “Transições” — foram concebidos para explorar o tema central sob diferentes perspectivas, gerando diálogos, tensões e conexões. Cada programa aponta para aspectos cruciais da fotografia contemporânea e das artes visuais, desde a celebração da inovação e diversidade até à reflexão sobre o percurso e identidade do próprio festival, culminando na exploração das conexões regionais e identidades divergentes.

Braga continua a ser o fulcro dos Encontros da Imagem, com os pólos expositivos a estenderem-se a Avintes, Barcelos, Vila Verde, Porto e Guimarães. Daquilo que me foi possível ver num dia sempre preenchido, destacaria as exposições “Lebensborn”, de Angeniet Berkers, no Museu Nogueira da Silva, e que aborda o “Lebensborn”, programa fundado na Alemanha em 1935 e que foi concebido para proporcionar ao Terceiro Reich uma nova geração de líderes e oficiais da SS, e “Reaching for Dusk”, de Stefanos Paikos, em plena Avenida da Liberdade, e que documenta o quotidiano em Mbeubeuss, o maior aterro sanitário a céu aberto da África Ocidental, localizado nos arredores de Dakar, no Senegal, uma frente negligenciada na história da migração. Patente na Galeria da Estação, “Cinematica”, de Teresa Freitas, tem a curiosidade de confrontar o visitante com uma estética cromática específica, levando-o a questionar a autenticidade das cenas apresentadas. Na sua dimensão foto-documental, “Photographo”, de Alfredo Cunha, e “A Emigração Portuguesa a Salto”, de Gérald Bloncourt, são duas exposições a não perder. A primeira pode ser vista na Zet Gallery, enquanto a segundo está patente no Arquivo Municipal. Os Encontros da Imagem prolongam-se até ao dia 02 de Novembro.

sábado, 16 de fevereiro de 2019

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “O Olhar de Compromisso com os Filhos dos Grandes Descobridores”


[Clicar na imagem para ver mais fotos]

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “O Olhar de Compromisso com os Filhos dos Grandes Descobridores”,
de Gérald Bloncourt
iNstantes 2019 – Festival Internacional de Fotografia de Avintes
Junta de Freguesia de Avintes
01 Fev > 03 Mar 2019


“(...) Em vida vive-se a morte
Se o trabalho não dá fruto
Morre-se em cada minuto
Se o fruto nunca se alcança
Porque lhe foi dura a sorte
Vai para terras de França (...)”

Excerto de “Trova do Emigrante”, de Manuel Alegre


A emigração de portugueses para França, a partir de finais da década de 1950, é um dos episódios mais marcantes da nossa história. A sua natureza é determinada por uma profunda descrença nas capacidades de desenvolvimento do país, sob o jugo de uma ditadura que se prolonga no tempo e que mantém as condições dos que aqui vivem e trabalham em níveis degradantes. Entre 1958 e 1974, cerca de um milhão de portugueses instalam-se em França, dispostos a trabalharem no que lhes apareça, suportando a custo todo o tipo de humilhações. Com este acto de partir, em massa, clandestinamente, “a sua oposição é revolucionária, mesmo que a sua consciência não o seja”, como escreve Herbert Marcuse. Há, portanto, movimento. É o “salto”. Parte-se silenciosamente, às escondidas. Em primeiro lugar, os homens, sozinhos. Em seguida, as mulheres, depois as crianças. Em poucos anos despovoam-se regiões inteiras abrindo-se profundas rupturas na suas estruturas económicas, sociais e culturais. Nada voltará a ser como dantes!


Acompanhando gerações de portugueses que fugiam das condições miserabilistas que o país tinha para lhes oferecer, Gérald Bloncourt estabeleceu com eles um forte compromisso social. Mergulhando no coração dos gigantescos oceanos de lama em que os bidonvilles se convertem quando chove, Bloncourt mostra que aqueles homens que vemos caminhar com um passo vivo, a caminho do trabalho, estão, com toda a evidência, acima da lama com que tiveram de contemporizar durante demasiado tempo. Mas o fotógrafo não escolhe apenas denunciar a miséria em que viviam os imigrantes em França, apostando também em transmitir a sua determinação em sair dela. As suas imagens são disso a prova, retratando homens e mulheres que, apesar de viveram num despojamento quase total, ostentam uma enorme dignidade e orgulho na afirmação dessa vontade em oferecer um futuro melhor aos seus filhos.

Prodigioso poder esse, o da fotografia de Bloncourt, que nos revela o mundo tal como ele é. No seu livro, editado em 2004, “Le Regard Engagé”, escreve: “Lénine disse que podemos acelerar a História. Esta seria a minha maneira de tentar fazê-lo”. Este olhar comprometido de Bloncourt com os portugueses, que o fotógrafo, agraciado com o grau de cavaleiro da Ordem Nacional da Legião de Honra francesa e com o de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique, identifica como os descendentes dos grandes descobridores do mundo, pode ser agora apreciado no edifício da Junta de Freguesia de Avintes. No seu conjunto, são duas dezenas de preciosos documentos que nos devolvem imagens duras, mas de uma enorme determinação e firmeza no coração daqueles que, lá fora, foram ainda e sempre Portugal. A não perder!