Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta Junta de Freguesia de Avintes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Junta de Freguesia de Avintes. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 12 de maio de 2022

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Encontros Parisienses"


[Clicar na imagem para ver mais fotos]

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Encontros Parisienses”
Colectivo Regards Parisiens
iNstantes - Festival Internacional de Fotografia de Avintes
Junta de Freguesia de Avintes
29 Abr > 29 Mai 2022


Percorrer Paris ao encontro da luz matinal que se derrama sobre o empedrado das ruas ou do nevoeiro que tudo envolve no seu manto, dos pequenos quiosques ou das lojas mais chiques, das ruas desertas ou dos engarrafamentos de trânsito gigantescos, das crianças que brincam na neve ou das pessoas que se abrigam debaixo de um guarda-chuva numa paragem de autocarro, tal é o desígnio do colectivo Regards Parisiens, conjunto de homens e mulheres que, ao gosto pela fotografia, juntam uma verdadeira paixão pela cidade-luz. Na linha de Henri Cartier-Bresson, Robert Doisneau, Édouard Boubat, André Kertész, Sabine Weiss e tantos outros grandes nomes da fotografia dita “humanista”, os elementos do colectivo primam pelo desejo de partilhar o seu olhar sobre a vida parisiense, carregando-o de momentos poéticos, onde o belo e o insólito se passeiam de mãos dadas, surpreendendo e maravilhando a cada instante.

Representado pela primeira vez no Festival iNstantes em 2019, naquela que foi a sexta edição do certame, o colectivo Regards Parisiens está uma vez mais em Avintes, expondo os seus olhares no salão da Junta de Freguesia daquela vila gaiense. Emanuelle Radenac, Laurent Dufour, Jean-Pierre Dunyach, Fabrice Mercier, Grégoire Brossard e Helder Vinagre são os fotógrafos que, pousando gentilmente a mão sobre o nosso ombro, nos convidam a acompanhá-los ao encontro da cidade e das suas gentes. Com eles passeamos, observamos as pessoas, o seu comportamento, os pequenos nadas de que a sua vida é feita. Espectadores atentos da singularidade de cada um dos retratados, adivinhamos o momento passado que se faz presente, o tempo distendido por uma observação cuidada em contraste com o ir e vir frenético da multidão, os quadros sempre renovados a sucederem-se no palco da vida. É então que damos conta dele, do fotógrafo, aquele que esteve ali o tempo todo e de cuja existência sobram as imagens que desfilam ante o nosso olhar.

Rejeitando a fotografia sensacionalista, fugindo dos clichés como o diabo da cruz, ao colectivo “Regards Parisiens” interessa exclusivamente o quotidiano que passa facilmente despercebido, aquele que arrisca escapar-se por entre os dedos sem que lhe seja prestada atenção. Ao fotógrafo cabe o mérito de ousar olhar e saber capturar os pequenos momentos que, únicos e preciosos, se desenrolam mesmo à sua frente. A recompensa, adivinhamos, vem do olhar cúmplice dos retratados, dos sorrisos devolvidos, das breves palavras que arriscam trocar, de mais e mais fotografias que testemunham momentos únicos e irrepetíveis. Virá mais tarde com o reconhecimento da sua arte por quem, como eu, aceitou colocar-se no lugar do espectador. Por isso este texto, não apenas de apreço pelo trabalho desenvolvido, mas também como expressão da minha gratidão pela forma como estas fotografias convidam a valorizar o tempo, a pesá-lo sem pressas, antes de regressar à espiral de loucura que nos afasta dos outros e de nós próprios.

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Tás co' Olho!?"


[Clicar na imagem para ver mais fotos]

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Tás Co’ Olho!?”,
de Milton Ostetto, Tadeu Vilani e Orlando Azevedo
iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes
Junta de Freguesia de Avintes
04 Set > 30 Set 2020


Primeiro destino de emigração da diáspora açoriana, o Brasil conserva, ainda hoje, verdadeiras comunidades culturais que teimam em preservar o legado histórico que as liga à terra-mãe, transmitindo-o geração após geração naquilo que nele há de mais valioso: os usos e a tradição. Esta herança cultural encontra-se disseminada no litoral continental do Brasil meridional e concentrada na ilha de Santa Catarina, com a arquitectura colonial portuguesa a evidenciar-se em alguns edifícios públicos, nas igrejas e nas casas, nos nomes de família e, necessariamente, no Culto do Divino Espírito Santo. Acrescentaria que o grande fluxo de emigração ocorreu em 1847, com a saída de seis milhares de açorianos para os Estados de São Paulo e do Rio de Janeiro, com o intuito de colonizá-los. Todavia, já em 1742, um grupo de colonizadores açorianos tinha fundado a vila de Porto dos Casais, depois cidade de Porto Alegre e capital estadual do Rio Grande do Sul.

Documentar a presença e as influências açorianas no Brasil, da toponímia ao folclore, das festas a uma vida de trabalho votada ao mar, tal foi o propósito de Milton Ostetto, Tadeu Vilani e Orlando Azevedo, este último nascido nos Açores, ao reunirem um conjunto de imagens sob o título “Tás co’ Olho!?”. O resultado pode ser visto no espaço da Junta de Freguesia de Avintes, no âmbito do iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes e é, sem sombra de dúvida, um dos momentos mais altos desta sétima edição do certame. Cifrando-se num conjunto de setenta e cinco belíssimas imagens a preto e branco, “Tás co’ Olho!?” colhe-nos de surpresa naquilo que de mais genuíno pode haver no viver e no sentir destas pessoas em cujos genes se inscreve a palavra Açores.

Com uma enorme sensibilidade e um sentido estético sobejamente apurado, os três fotógrafos completam-se naquilo que oferecem do seu trabalho, individualmente, nele se vislumbrando a ponte que une as duas margens do Atlântico, com escala em cada uma das nove ilhas açorianas. É por elas que um par de olhos brilha em cada rosto marcado pela dureza do trabalho, é nelas que as almas se refugiam e aquecem, é por elas que os corações batem. Se não o soubéssemos de antemão, diríamos que as imagens teriam sido captadas em Terra Chã, no Nordeste ou em Rabo de Peixe, quando na verdade nos encontramos a mais de seis mil quilómetros de distância. Com esta mostra, Ostetto, Vilani e Azevedo conseguem esse “milagre” de nos mostrarem que os Açores estão onde está um açoriano. Um enorme trabalho, uma exposição imperdível!

sábado, 16 de fevereiro de 2019

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “O Olhar de Compromisso com os Filhos dos Grandes Descobridores”


[Clicar na imagem para ver mais fotos]

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “O Olhar de Compromisso com os Filhos dos Grandes Descobridores”,
de Gérald Bloncourt
iNstantes 2019 – Festival Internacional de Fotografia de Avintes
Junta de Freguesia de Avintes
01 Fev > 03 Mar 2019


“(...) Em vida vive-se a morte
Se o trabalho não dá fruto
Morre-se em cada minuto
Se o fruto nunca se alcança
Porque lhe foi dura a sorte
Vai para terras de França (...)”

Excerto de “Trova do Emigrante”, de Manuel Alegre


A emigração de portugueses para França, a partir de finais da década de 1950, é um dos episódios mais marcantes da nossa história. A sua natureza é determinada por uma profunda descrença nas capacidades de desenvolvimento do país, sob o jugo de uma ditadura que se prolonga no tempo e que mantém as condições dos que aqui vivem e trabalham em níveis degradantes. Entre 1958 e 1974, cerca de um milhão de portugueses instalam-se em França, dispostos a trabalharem no que lhes apareça, suportando a custo todo o tipo de humilhações. Com este acto de partir, em massa, clandestinamente, “a sua oposição é revolucionária, mesmo que a sua consciência não o seja”, como escreve Herbert Marcuse. Há, portanto, movimento. É o “salto”. Parte-se silenciosamente, às escondidas. Em primeiro lugar, os homens, sozinhos. Em seguida, as mulheres, depois as crianças. Em poucos anos despovoam-se regiões inteiras abrindo-se profundas rupturas na suas estruturas económicas, sociais e culturais. Nada voltará a ser como dantes!


Acompanhando gerações de portugueses que fugiam das condições miserabilistas que o país tinha para lhes oferecer, Gérald Bloncourt estabeleceu com eles um forte compromisso social. Mergulhando no coração dos gigantescos oceanos de lama em que os bidonvilles se convertem quando chove, Bloncourt mostra que aqueles homens que vemos caminhar com um passo vivo, a caminho do trabalho, estão, com toda a evidência, acima da lama com que tiveram de contemporizar durante demasiado tempo. Mas o fotógrafo não escolhe apenas denunciar a miséria em que viviam os imigrantes em França, apostando também em transmitir a sua determinação em sair dela. As suas imagens são disso a prova, retratando homens e mulheres que, apesar de viveram num despojamento quase total, ostentam uma enorme dignidade e orgulho na afirmação dessa vontade em oferecer um futuro melhor aos seus filhos.

Prodigioso poder esse, o da fotografia de Bloncourt, que nos revela o mundo tal como ele é. No seu livro, editado em 2004, “Le Regard Engagé”, escreve: “Lénine disse que podemos acelerar a História. Esta seria a minha maneira de tentar fazê-lo”. Este olhar comprometido de Bloncourt com os portugueses, que o fotógrafo, agraciado com o grau de cavaleiro da Ordem Nacional da Legião de Honra francesa e com o de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique, identifica como os descendentes dos grandes descobridores do mundo, pode ser agora apreciado no edifício da Junta de Freguesia de Avintes. No seu conjunto, são duas dezenas de preciosos documentos que nos devolvem imagens duras, mas de uma enorme determinação e firmeza no coração daqueles que, lá fora, foram ainda e sempre Portugal. A não perder!