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domingo, 26 de abril de 2026

EXPOSIÇÃO DE GRAVURA: “Paula Rego: Histórias Gravadas. Da Imaginação para a Chapa”



EXPOSIÇÃO DE GRAVURA: “Paula Rego: Histórias Gravadas. Da Imaginação para a Chapa”,
de Paula Rego
Curadoria | Catarina Alfaro
Fórum da Maia
14 Mar > 03 Mai 2026


A exposição que agora pode ser vista no Fórum da Maia serve de preâmbulo à compreensão de uma dimensão essencial da obra de Paula Rego: o desenho enquanto matriz de pensamento e a gravura enquanto território de experimentação figurativa. Longe de constituir um mero desvio técnico face à pintura, a prática da gravura afirma-se, no conjunto da obra da artista, como campo autónomo onde ela encontra uma forma de depuração e, simultaneamente, de multiplicação das suas histórias. Desde as primeiras experiências até à maturidade das séries apresentadas, percebe-se como a passagem da imaginação para a chapa implica uma tradução singular - mais directa, por vezes mais crua, mas também mais ágil. Obras como “Unicórnio”, de 2008, sintetizam esse gesto quase alquímico, a criação como acto mágico inscrito na própria matéria. Ao longo da mostra, a gravura revela-se como técnica, mas também como linguagem estruturante que permite à artista desenvolver ciclos narrativos onde as imagens se encadeiam, se repetem e se transformam, como se cada prova fosse simultaneamente tema e variação.

Avançar no percurso é ver que a exposição se organiza como uma deriva narrativa que acompanha a própria lógica de trabalho de Paula Rego. Depois do gesto inaugural de “Unicórnio”, onde a dimensão quase mágica da litografia se afirma, o visitante encontra o núcleo dedicado ao teatro, no qual as figuras assumem formas fortes e gestos expressivos para contar histórias, muitas vezes fruto de uma encenação prévia de “fantasmas” ou figuras no seu atelier antes de passar a imagem para o papel. O universo da artista assume a violência e o absurdo como motores de criação, dando origem a imagens densas, atravessadas por uma inquietação latente. Segue-se “O vinho” (2007), conjunto onde a crítica social se impõe com particular acuidade, evocando memórias do Estado Novo e expondo a banalização do consumo de álcool e as suas consequências no tecido familiar. Este núcleo marca uma inflexão, trazendo para o centro da exposição uma realidade dura, sem concessões, que contrasta com a dimensão alegórica de outros trabalhos.

A partir daqui, o percurso encaminha-se progressivamente para o território ambíguo da infância, tema estruturante na obra da artista. Na “Cruzada das Crianças”, inspirada numa enigmática narrativa medieval, as figuras infantis surgem investidas de uma gravidade desconcertante, presas entre a inocência e a responsabilidade excessiva. Em seguida, a série “Peter Pan”, baseada no texto de J. M. Barrie, revisita um imaginário aparentemente encantado para revelar o seu reverso mais sombrio, onde o medo e a crueldade se insinuam sob a superfície da fantasia. O percurso culmina nas “Nursery Rhymes”, nas quais a artista regressa às rimas e cantigas de infância da tradição inglesa, filtrando-as por um olhar que privilegia o insólito e o simbólico, num jogo subtil entre humor e perturbação. Este desfecho reforça a ideia de que, em Paula Rego, a gravura é uma linguagem viva feita de imagens que prolongam e reinventam incessantemente o poder das histórias.

sábado, 20 de dezembro de 2025

EXPOSIÇÃO: “Sonhos e Metamorfoses: O Surrealismo de Paula Rego”


EXPOSIÇÃO: “Sonhos e Metamorfoses: O Surrealismo de Paula Rego”,
de Paula Rego
Curadoria | Catarina Alfaro, Marlene Oliveira, Perfecto E. Cuadrado
Fundação Cupertino de Miranda, Vila Nova de Famalicão
11 Abr 2025 > 04 Jan 2026


“Havia livros de arte em casa. Meu pai dava-me livros depois de ver que era isso que me interessava. Quando tinha 14 anos, comprou-me um livro sobre Dadá e Surrealismo. Era como um livro de histórias; simplesmente maravilhoso estar a ver aquelas ilustrações. Revelação, não posso dizer que fosse, pois para mim era exactamente como um conto de fadas. Não me deu surpresas. Eu estava habituada a imagens daquelas.”
Paula Rego

A exposição dedicada ao surrealismo na obra de Paula Rego parte de um pressuposto certeiro: Mais do que uma adesão programática a um movimento, o surrealismo foi para a artista um território natural, quase doméstico, onde a imaginação sempre falou mais alto do que qualquer academismo. Educada visualmente desde cedo e marcada pela revelação precoce de um livro sobre dadaísmo e surrealismo, oferecido pelo pai quando a artista tinha 14 anos, Rego reconheceu nessas imagens algo que não lhe era estranho, mas familiar, como se de um livro de contos de fadas se tratasse. Essa naturalidade perante o estranho, o disforme e o onírico atravessa o núcleo expositivo, que reúne pinturas, desenhos e gravuras, sobretudo das décadas de 1960 e 1970, período em que a artista procurava ainda uma identidade própria. A exposição sublinha, com pertinência, a importância da imaginação como motor do processo criativo, revelando obras em que o sonho comanda a composição e onde o jogo entre dissimulação e revelação cria imagens de inquietante magnetismo.

Um dos eixos mais bem explorados pela curadoria é o da metamorfose, conceito central na obra da artista e assumido por ela como metáfora do próprio acto de criar. Nas salas da Fundação Cupertino de Miranda, essa ideia manifesta-se através de figuras em constante mutação, corpos que oscilam entre o humano e o animal, personagens suspensas entre a infância e a violência simbólica do mundo adulto. O universo fantástico que emerge destas obras não é evasivo, mas profundamente ligado à experiência concreta do amor e do medo, do poder e da sedução, da obediência e da resistência, sentimentos entrelaçados numa iconografia onde nada é inocente. Os animais humanizados, recorrentes, funcionam tanto como agentes de encantamento como de ameaça, remetendo para um mundo carregado de tensão psicológica que ultrapassa os limites do consciente. Ao convocar o sonho como método e matéria, Paula Rego aproxima-se do surrealismo sem nunca abdicar da narrativa, da teatralidade e de uma relação crítica com a realidade. O resultado é uma obra onde o maravilhoso convive com o perturbador e onde a fantasia surge como matéria de revelação, nunca como instrumento de fuga.

Embora a exposição se apresente em forma de homenagem - particularmente significativa num ano em que Paula Rego, caso fosse viva, completaria 90 anos de idade -, o seu maior mérito reside em propor uma leitura menos cristalizada da artista. Aqui, o surrealismo não surge como rótulo, mas como fase fértil de experimentação, decisiva para a construção de uma linguagem visual única, que mais tarde se expandiria para outros territórios narrativos e políticos. Fica clara a forma como Paula Rego assimilou influências literárias, culturais e artísticas - de Lewis Carroll à tradição popular -, para criar um universo próprio, onde o corpo é lugar de conflito, a infância é memória activa e a autoridade nunca é estável. Ao privilegiar o encantamento, o enigma e a transformação, esta exposição convida o visitante a entrar num mundo onde as imagens não oferecem respostas fáceis, mas antes perguntas persistentes. E é precisamente nessa capacidade de inquietar, seduzir e desestabilizar que reside a atualidade e a força duradoura da obra de Paula Rego. Para ver só até 04 de Janeiro.

quarta-feira, 28 de maio de 2025

EXPOSIÇÃO: "Meninas Exemplares" | Paula Rego



EXPOSIÇÃO: “Meninas Exemplares”,
de Paula Rego
Curadoria | Catarina Alfaro
Museu Nacional Grão Vasco
15 Mar > 29 Jun 2025


“Ela ouve a voz dele [Rochester] a chamá-la e, no livro, ela corre logo para ele [...]. Mas ela devia ter algumas dúvidas, evidentemente. Porque, para ela, não é um negócio assim tão proveitoso. Mas ela acaba mesmo por ir ter com ele e, supostamente, esse é um final feliz. E até é. Mas aqui, eu faço-a duvidar.”
Paula Rego

Paula Rego (1935–2022) é uma das artistas portuguesas contemporâneas mais conhecidas. Residiu e trabalhou em Londres, cidade onde estudou pintura, na Slade School of Fine Art, entre 1952 e 1956. Ao longo do seu percurso artístico, com mais de seis décadas, pintou para contar e foi, ao mesmo tempo, personagem e narradora de histórias. Na sua livre interpretação de diversas narrativas, Paula Rego reinscreveu a voz das mulheres no seu próprio tempo. Nesse seu contar pela pintura ou pela gravura assistimos sempre a um processo de questionamento, mas também de revelação crua e, muitas vezes, brutal da natureza humana e das relações que os humanos estabelecem entre si, sejam elas familiares, amorosas ou políticas. A sua obra, multifacetada, não conhece limitações, não se cinge ao domínio das artes visuais, cruzando-se com outras manifestações artísticas como a literatura ou a poesia. Estes territórios privilegiados das histórias que inspiraram a artista, confrontam-se numa exposição cujo título remete para o texto literário “Meninas Exemplares”, da Condessa de Ségur, que mereceu a atenção de Paula Rego desde a sua infância. As brincadeiras da infância, o lado perverso, cruel e brutal das crianças, são igualmente explorados poeticamente por Adília Lopes, que em junho de 2000 convida Paula Rego a criar imagens para um livro que iria reunir toda a sua obra e das quais podemos apreciar um breve conjunto, acompanhados de alguns textos da poetisa.

Também as litografias coloridas de Paula Rego da série “Jane Eyre” resultam de uma apropriação transformadora do romance vitoriano da escritora Charlotte Brontë e destacam o sofrimento, a determinação e o caráter independente da sua protagonista. Inspiradas no romance vitoriano de Charlotte Brontë, publicado em Inglaterra em 1847, a artista deixa-se seduzir pelo carácter fascinante da sua protagonista, Jane Eyre, e sobretudo pelo modo como questiona as expectativas sociais sufocantes que pendiam, à época, sobre as mulheres, e as suas estratégias de fuga através da leitura, recurso que lhe possibilita uma vida interior, um escape ao pesadelo da realidade familiar, criando um mundo imaginário, menos cruel e mais próximo da natureza. Jane Eyre é sobretudo a história de um amor triunfante, entre a protagonista e o Sr. Rochester, apesar de todas as crueldades e obstáculos que se atravessam no seu caminho. Paula Rego faz também sobressair nas suas imagens um outro lado da história, que não é contada. A última litografia desta série, “Vem a mim”, é decisiva para o tratamento caracterial psicológico de Jane, sugerindo a sua complexidade, a sua hesitação em aceitar um destino que será sempre, de certo modo, sacrificial, como o céu tingido de vermelho sugere.

Exemplares são também as meninas e mulheres que dão face à prática escondida do aborto, na sua série de oito águas-fortes. Identificando-se cada uma delas com as pinturas a pastel realizadas em 1998, resultam diretamente das experiências traumáticas de Paula Rego mas também de um sentimento de indignação perante a indiferença dos portugueses, traduzida em abstenção, no referendo realizado em 28 de Junho desse mesmo ano sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez. As águas-fortes e os pastéis apresentam correspondências evidentes na composição e retratam de forma vívida o sofrimento de jovens mulheres que praticam o aborto numa clandestinidade imposta pela proibição legal, deitadas em macas, rodeadas de baldes e trapos, num ambiente improvisado de domesticidade e solidão. São mulheres que, apesar da dor e da humilhação, mantêm a sua dignidade. Nestas águas-fortes, Paula Rego recriou formas de expressão gráfica tão directas como as do próprio desenho que originou os pastéis, redireccionando o foco de tensão das suas composições para a presença física e o carácter emocional das mulheres que dão a face à prática escondida do aborto. Foi o sofrimento físico e psicológico da artista que ditou a vontade de intervir diretamente sobre a mudança da legislação em Portugal, utilizando a sua obra como um instrumento de propaganda ao qual é impossível não prestar atenção.

sábado, 8 de junho de 2024

EXPOSIÇÃO: "Rutura e Continuidade"



EXPOSIÇÃO: “Rutura e Continuidade”,
de Paula Rego
Curadoria | Catarina Alfaro
Museu do Côa
01 Dez 2023 > 28 Jul 2024


Na sequência de uma programação que vem privilegiando nomes maiores da pintura portuguesa, o Museu do Côa tem para mostrar “Rutura e Continuidade”, conjunto de trabalhos de Paula Rego centrado no período de reconhecimento e afirmação da artista em Londres, onde estudou e viveu a maior parte da sua vida. Dos anos 1980 surge-nos parte da obra que que justificou o seu reconhecimento internacional, incluindo séries referenciais do seu percurso como as litografias de Jane Eyre. Mais tardio é o conjunto de gravuras e pinturas “Sem título”, de 1998–2000, mais comummente conhecido como a “série do aborto”. Propõe-se, assim, uma abordagem diferente à obra de uma das artistas portuguesas contemporâneas mais conhecidas mundialmente, cuja personalidade insubmissa e o combate por uma liberdade de expressão levaram-na a declarar a sua independência dos movimentos artísticos do seu tempo e a uma redefinição constante da sua linguagem figurativa.

Na primeira sala, o tema da ruptura é abordado de forma directa como resultado das mudanças pessoais, sociais e artísticas vividas nos anos 1980 e que provocaram em Paula Rego uma vontade de libertação em relação às expectativas impostas quanto ao modo de “fazer arte”. A artista recupera o simbolismo dos animais provenientes das fábulas, dos contos populares, sobretudo na sua relação de dualidade ou metamorfose com o humano, ao estabelecer uma linguagem visual radicalmente nova para contar as suas histórias pessoais, criando um universo complexo e ambíguo em que os animais são criaturas com qualidades e comportamentos humanos atiradas para situações peculiares. Ainda nesta sala, podemos ver o interesse de Paula Rego pela Arte Bruta, numa altura em que descobre a obra de Jean Dubuffet em Londres, em 1959, o que muito terá contribuído para o fim do impasse criativo em que se encontrava. É, mais uma vez, um exemplo de ruptura, o encontro definitivo com uma linguagem pessoal reconhecida e valorizada no contexto artístico londrino e que lhe permitirá contar as histórias de forma mais direta e regressar à infância através de uma técnica livre e sem hesitações. 

Independentemente da importância e alcance das obras expostas, é para a série “Jane Eyre” que o olhar do visitante se dirige de imediato ao entrar na segunda sala. Inspirada no romance vitoriano de Charlotte Brontë, esta série de litografias coloridas mostra até que ponto a artista se deixou seduzir pelo carácter fascinante da sua protagonista, Jane Eyre, e sobretudo pelo modo como questiona as expectativas sociais sufocantes que pendiam, à época, sobre as mulheres. Apesar de todas as crueldades e obstáculos que se atravessam no seu caminho, Jane Eyre é a história de um amor triunfante entre a protagonista e o Sr. Rochester, mas Paula Rego faz também sobressair nas suas imagens um outro lado da história, que não é contada. A última litografia desta série, “Vem a mim”, é decisiva para o tratamento caracterial psicológico de Jane, sugerindo a sua complexidade, a sua hesitação em aceitar um destino que será sempre, de certo modo, sacrificial, como o céu tingido de vermelho sugere.

Na última sala, o olhar recai sobre o tríptico “Vanitas”, pela forma como a artista concebe, a partir de um conto fantasmático de Almeida Faria, a sua própria visão da “vanitas”, mas são as oito águas-fortes da série “sem título”, de 1999-2000, que prendem a nossa atenção. Conhecida como a “série do aborto”, os trabalhos derivam diretamente de obras realizadas antes em pintura e são reveladores das experiências traumáticas da artista, mas também de um sentimento de indignação perante a indiferença dos portugueses, traduzida em abstenção, no referendo realizado em 28 de Junho desse mesmo ano sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez. Musculadas, como a generalidade das personagens femininas de Paula Rego, estas mulheres mostram-se em dignidade, apesar da dor e da humilhação sofridas. Algumas apresentam os olhos bem abertos, revelando um assombroso conhecimento do que estão a viver. Tudo nelas é sentimento e emoção, tornando-se impossível desviar o nosso olhar. De forma intensa e viva, elas são inestimáveis testemunhas da importância do aborto seguro, apenas uma parte do notável legado de Paula Rego.