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quinta-feira, 23 de outubro de 2025

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Território de Absoluta Liberdade” | Nadir Afonso



EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Território de Absoluta Liberdade”,
de Nadir Afonso
Curadoria | Alexandra Silvano
Museu do Côa
06 Jun > 02 Nov 2025


A exposição “Nadir Afonso: Território de Absoluta Liberdade” inscreve-se numa lógica de valorização da Arte Contemporânea em Portugal, promovida no âmbito da candidatura “Paisagens Visuais”, à Rede Portuguesa de Arte Contemporânea, numa parceria realizada entre o Museu do Côa, o Museu Amadeu de Souza Cardoso, a Sociedade Nacional de Belas Artes e a Galeria Ogiva. A escolha de Nadir Afonso como figura central desta mostra não é acidental, antes reflecte um justo reconhecimento da relevância e singularidade do seu percurso artístico. Nascido em Chaves, cidade periférica no contexto artístico nacional, Nadir projetou-se internacionalmente com uma obra que alia um rigor científico a uma sensibilidade plástica invulgar. Mais do que um artista isolado, ele representa um ponto de confluência entre pensamento, arte e ciência, e esta exposição propõe um reencontro com essa complexa teia de influências, percursos e visões que marcam a sua produção. “Território de Absoluta Liberdade” é, pois, uma expressão precisa daquilo que define o legado de Nadir Afonso: a busca incessante por uma linguagem própria, liberta de convenções, mas fundada numa matriz de ordem universal.

Formado em Arquitetura pela Universidade do Porto, Nadir Afonso teve contacto com grandes nomes da arquitectura modernista, como Le Corbusier e Oscar Niemeyer, colaborando activamente com o primeiro em Paris. No entanto, a sua relação com a arquitectura foi sempre tensa e ambivalente. Nadir negava-lhe o estatuto de arte, pois considerava que a arte se funda na percepção directa e na intuição estética, enquanto a arquitectura obedece a condicionantes práticas e funcionais. Essa cisão marca uma viragem fundamental na sua vida: a entrega plena à pintura, território onde a sua visão filosófica e estética poderia expandir-se livremente. Influenciado pelas vanguardas europeias — nomeadamente o abstracionismo geométrico, o cinetismo e o surrealismo — o artista português construiu um corpus teórico e plástico notável, no qual a cidade surge como tema recorrente. Para Nadir, a cidade não é uma realidade construída, mas antes uma estrutura formal de pensamento, uma entidade estética sujeita a leis matemáticas e universais. A sua obra é, nesse sentido, tanto uma investigação sobre a beleza quanto um exercício de decifração da ordem do cosmos.

Ao longo da sua vasta carreira, Nadir Afonso desenvolveu múltiplas fases — do surrealismo ao realismo geométrico, passando por etapas como a organicista, antropomórfica ou a dos “Espacillimités” —, mas sempre fiel à ideia de que a arte resulta da descoberta de leis objetivas que regem a beleza. Esta visão, próxima da tradição pitagórica e platónica, afasta-o de uma leitura meramente subjectiva ou expressiva da criação artística. A presente exposição, ao reunir trinta e duas obras — incluindo vinte e cinco pinturas sobre tela, das quais sete de grande formato realizadas nos seus últimos anos, e doze desenhos — oferece um panorama representativo dessa coerência e evolução estética. A curadoria de Alexandra Silvano incita o público a entrar num “diálogo sensorial, absoluto e rigoroso”, em perfeita consonância com a exigência formal que o próprio Nadir Afonso impunha à sua produção. Mais do que uma retrospectiva, esta mostra é uma celebração da liberdade criativa, do pensamento estruturado e da eterna procura pela beleza essencial que definem uma figura ímpar da arte portuguesa do século XX.

sábado, 4 de outubro de 2025

CERTAME: 12.ª Bienal Internacional de Gravura do Douro 2025



CERTAME: 12.ª Bienal Internacional de Gravura do Douro 2025
Vários Artistas
Alijó, Peso da Régua e Vila Nova de Foz Côa
10 Ago > 31 Out 2025


Nascida em 2001 com a ambição de descentralizar a cultura e promover a arte da gravura, a Bienal de Gravura do Douro regressa em 2025 num formato mais reduzido, porquanto limitado a três Municípios apenas: Alijó, Peso da Régua e Vila Nova de Foz Côa. A aposta numa programação de qualidade, essa mantém-se, com mais de cinquenta países presentes na presente edição da Bienal, e uma plêiade de artistas de renome internacional, ao nível da gravura contemporânea. Alicerçada na mais antiga região vinícola demarcada do mundo, região laureada por dois patrimónios da humanidade atribuídos pela UNESCO e mundialmente reconhecidos quer pela sua paisagem vinhateira, quer pelo património arqueológico do Vale do Côa (o maior santuário de gravura paleolítica do mundo), o Douro é palco, também na contemporaneidade, de um dos maiores eventos de arte gráfica do mundo, reunindo dentro de si, uma força e dimensão que ultrapassa as fronteiras do país e se projecta para horizontes infinitos.

Perseguindo este propósito e ambição alcançada, a Bienal do Douro tem vencido os desafios da interioridade, da crise económica, da crise cultural, da própria crise da gravura e tem sabido manter vivos os pressupostos da arte e a autonomia da gravura no contexto da arte contemporânea. Para tal, muito têm contribuído os tributos da gravura tradicional e as suas alquimias seculares, mas não menos importantes, das renovadas tendências da gravura digital e dos novos media ao seu dispor, no sentido de lhe conferir a autonomia que ela necessita para subsistir. O campo aberto à gravura pelas novas linguagens híbridas e técnicas não tóxicas, têm projectado o seu impacto de uma forma inovadora e com a vitalidade há muito desejada nos seus domínios.

Assumindo a responsabilidade de ser a única Bienal de obra gráfica do país, a sua evolução desde a sua origem em 2001, colocam-na hoje num patamar inimaginável a par das mais importantes Bienais do mundo. A comprovar tal fasquia, salientam-se os artistas homenageados mundialmente reconhecidos como Antoni Tàpies, Paula Rego, Vieira da Silva, Júlio Pomar, José de Guimarães, Júlio Resende, Graça Morais, Cruzeiro Seixas e outros. O núcleo de Vila Nova de Foz Côa, instalado no magnífico Museu do Côa - o único que me foi possível visitar - tem muitos e bons motivos a justificar uma deslocação. Desde logo, pelo diálogo inédito que é possível estabelecer entre gravura rupestre e gravura contemporânea, transformando-a numa coisa única do ponto de vista artístico. Mas também pela qualidade dos trabalhos apresentados, de autores de diversas latitudes, e que não deixam ninguém indiferente. Para ver até ao último dia deste mês.

sábado, 8 de junho de 2024

EXPOSIÇÃO: "Rutura e Continuidade"



EXPOSIÇÃO: “Rutura e Continuidade”,
de Paula Rego
Curadoria | Catarina Alfaro
Museu do Côa
01 Dez 2023 > 28 Jul 2024


Na sequência de uma programação que vem privilegiando nomes maiores da pintura portuguesa, o Museu do Côa tem para mostrar “Rutura e Continuidade”, conjunto de trabalhos de Paula Rego centrado no período de reconhecimento e afirmação da artista em Londres, onde estudou e viveu a maior parte da sua vida. Dos anos 1980 surge-nos parte da obra que que justificou o seu reconhecimento internacional, incluindo séries referenciais do seu percurso como as litografias de Jane Eyre. Mais tardio é o conjunto de gravuras e pinturas “Sem título”, de 1998–2000, mais comummente conhecido como a “série do aborto”. Propõe-se, assim, uma abordagem diferente à obra de uma das artistas portuguesas contemporâneas mais conhecidas mundialmente, cuja personalidade insubmissa e o combate por uma liberdade de expressão levaram-na a declarar a sua independência dos movimentos artísticos do seu tempo e a uma redefinição constante da sua linguagem figurativa.

Na primeira sala, o tema da ruptura é abordado de forma directa como resultado das mudanças pessoais, sociais e artísticas vividas nos anos 1980 e que provocaram em Paula Rego uma vontade de libertação em relação às expectativas impostas quanto ao modo de “fazer arte”. A artista recupera o simbolismo dos animais provenientes das fábulas, dos contos populares, sobretudo na sua relação de dualidade ou metamorfose com o humano, ao estabelecer uma linguagem visual radicalmente nova para contar as suas histórias pessoais, criando um universo complexo e ambíguo em que os animais são criaturas com qualidades e comportamentos humanos atiradas para situações peculiares. Ainda nesta sala, podemos ver o interesse de Paula Rego pela Arte Bruta, numa altura em que descobre a obra de Jean Dubuffet em Londres, em 1959, o que muito terá contribuído para o fim do impasse criativo em que se encontrava. É, mais uma vez, um exemplo de ruptura, o encontro definitivo com uma linguagem pessoal reconhecida e valorizada no contexto artístico londrino e que lhe permitirá contar as histórias de forma mais direta e regressar à infância através de uma técnica livre e sem hesitações. 

Independentemente da importância e alcance das obras expostas, é para a série “Jane Eyre” que o olhar do visitante se dirige de imediato ao entrar na segunda sala. Inspirada no romance vitoriano de Charlotte Brontë, esta série de litografias coloridas mostra até que ponto a artista se deixou seduzir pelo carácter fascinante da sua protagonista, Jane Eyre, e sobretudo pelo modo como questiona as expectativas sociais sufocantes que pendiam, à época, sobre as mulheres. Apesar de todas as crueldades e obstáculos que se atravessam no seu caminho, Jane Eyre é a história de um amor triunfante entre a protagonista e o Sr. Rochester, mas Paula Rego faz também sobressair nas suas imagens um outro lado da história, que não é contada. A última litografia desta série, “Vem a mim”, é decisiva para o tratamento caracterial psicológico de Jane, sugerindo a sua complexidade, a sua hesitação em aceitar um destino que será sempre, de certo modo, sacrificial, como o céu tingido de vermelho sugere.

Na última sala, o olhar recai sobre o tríptico “Vanitas”, pela forma como a artista concebe, a partir de um conto fantasmático de Almeida Faria, a sua própria visão da “vanitas”, mas são as oito águas-fortes da série “sem título”, de 1999-2000, que prendem a nossa atenção. Conhecida como a “série do aborto”, os trabalhos derivam diretamente de obras realizadas antes em pintura e são reveladores das experiências traumáticas da artista, mas também de um sentimento de indignação perante a indiferença dos portugueses, traduzida em abstenção, no referendo realizado em 28 de Junho desse mesmo ano sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez. Musculadas, como a generalidade das personagens femininas de Paula Rego, estas mulheres mostram-se em dignidade, apesar da dor e da humilhação sofridas. Algumas apresentam os olhos bem abertos, revelando um assombroso conhecimento do que estão a viver. Tudo nelas é sentimento e emoção, tornando-se impossível desviar o nosso olhar. De forma intensa e viva, elas são inestimáveis testemunhas da importância do aborto seguro, apenas uma parte do notável legado de Paula Rego.

quarta-feira, 15 de novembro de 2023

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA E PINTURA: "Todos os Animais"



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA E PINTURA: “Todos os Animais”,
de Luís Paulo Costa
Museu do Côa
11 Ago > 19 Nov 2023


Está a chegar ao fim a exposição que, no último trimestre, ocupou uma das salas de exposições temporárias do Museu do Côa. Trata-se de “Todos os animais”, obra realizada por Luís Paulo Costa entre 2020 e 2021 e que integra uma série de centena e meia de elementos. Para o seu autor, “Todos os Animais são pinturas que simultaneamente escondem e dão a ver, alicerçadas num território pictórico nada alheio a questões relacionadas com a imaginação e a representação. Imagens pintadas das minhas mãos a tocarem uma na outra, na tentativa de produzir a silhueta de um animal na sombra que estas projetam na parede.” De um ponto de vista técnico, para que melhor se compreenda aquilo que nos é dado a ver, inicialmente são fotografadas as mãos do artista, conduzidas mais pela intuição do movimento e fortaleza do que pela intenção de captar figuras precisas. Posteriormente, são impressas e recebem cor – sempre em derivações de cinzento.

Entramos na sala e o olhar é atraído pelo alinhamento de sessenta e cinco quadros dispostos ao longo das enormes paredes da sala. São mãos e, individualmente ou em união de esforços, adoptam o gesto cuja sombra possa corresponder à silhueta de um animal projectada na sombra da parede. Não há dois gestos iguais, como não há aqui animais. As sombras foram obliteradas da imagem, quedando-se apenas o movimento congelado num disparo, as mãos como que ensaiando uma dança – tocando-se e encostando-se, sobrepondo-se e agarrando-se. Levemente ou com firmeza. Esvaziadas do seu propósito, do sentido do seu emaranhar, as mãos recebem enfim a atenção que merecem, sujeito e objecto que são das suas próprias pulsões – do desejo, do entrelaçamento dos corpos, das suas temperaturas, sem recurso à linguagem verbal.

O trabalho de Luís Paulo Costa estende-se a outra sala do museu, onde se expõe um conjunto de pinturas a óleo, na sua maioria inéditas. São pinturas que, como refere o artista, “contam histórias, revelam uma narrativa sem princípio nem fim declarados”, na busca da construção de um diálogo entre elas, “onde o que é dito tem a mesma relevância daquilo que fica por dizer.” Com estas obras há o convite implícito a “ouvir o silêncio, escutar as imagens que as pinturas mostram, olhar para as coisas com tempo, sem pressa, devagar, escutar o que as pinturas querem dizer.” Luís Paulo Costa nasceu em Abrantes, em 1968, e iniciou o seu percurso expositivo no final da década de 1990. O seu trabalho está representado em várias coleções públicas e privadas, tanto em Portugal como no estrangeiro. Para ver até ao próximo domingo.

quarta-feira, 10 de agosto de 2022

LUGARES: Museu do Côa


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LUGARES: Museu do Côa
Rua do Museu, Vila Nova de Foz Côa
Horários | Outubro a Fevereiro: 09h00 – 17h30; Março a Maio: 09h00 – 18h00; Junho a Setembro: 09h00 – 19h00
Ingressos | 7,00 € (bilhete adulto)


O Museu do Côa foi projectado por Camilo Rebelo e Tiago Pimentel, uma equipe de arquitectos do Porto. Construído a partir de Janeiro de 2007 foi inaugurado em 30 de Julho de 2010. A concepção do edifício parte da ideia de que “a arte paleolítica no Vale do Côa é talvez a primeira manifestação de ‘Land art’”. Embora seja um dos maiores museus portugueses, assenta graciosamente, com parte do seu volume como que engastado no topo da colina que, na sua margem esquerda, encima a foz do Côa, celebrando o encontro dos dois patrimónios mundiais da região: a Arte Pré-histórica do Vale do Côa e a Paisagem Vinhateira do Douro.

Se de longe o edifício se assemelha a um enorme afloramento irrompendo do solo, uma inspecção mais próxima reforça essa percepção, uma vez que no betão foram utilizados pigmentos minerais tendo a fachada sido objecto de tratamento superficial imitando as irregularidades naturais do xisto, a rocha predominante na região. Segundo a memória descritiva constante do anteprojecto de Julho de 2005, o “pressuposto Único” do Museu é a sua perfeita “integração na paisagem”, convertendo-se o seu corpo, se bem que em “gesto forte e afirmativo”, numa marca “subtil, sensível à topografia, pouco modificando o perfil do monte e dialogante com a paisagem”.

O Museu do Côa não substitui a visita aos sítios de arte rupestre do Parque Arqueológico do Vale do Côa, afinal o ‘verdadeiro’ Museu. Constitui-se como o portal que permitirá aos visitantes começar a descobrir a arte rupestre dos vales do Côa e do Douro. O Museu é também um centro de acolhimento para investigadores que desejam estudar o Côa aproveitando a maior biblioteca nacional dedicada à arte rupestre. Os Serviços Educativos da Fundação Côa Parque desenvolvem as suas actividades de modo a acolher quer o público escolar quer o público em geral.

sexta-feira, 22 de julho de 2022

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Mapas da Terra e do Tempo"


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EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Mapas da Terra e do Tempo”,
de Graça Morais
Curadoria | Jorge da Costa
Museu do Côa
04 Jun > 25 Set 2022


Graça Morais nasceu no Vieiro, concelho de Vila Flor, cinquenta quilómetros a norte do santuário rupestre do Vale do Côa. Em criança, aproveitando um intervalo da escola ou um dos seus momentos de brincadeira, era vê-la pegar num pedaço de telha ou numa pedrinha aguçada e dar asas à imaginação, espalhando rabiscos pelas superfícies rugosas das fragas graníticas que, como toalhas, se estendiam ao redor da aldeia. Aquilo que a artista fazia nos seus tempos de menina não era mais do que responder a um irreprimível apelo que em todos nós se manifesta pela necessidade absoluta de comunicar. Já tinha sido assim há 20.000 anos, com os artistas que deixaram as suas assinaturas nos imponentes “telões” de xisto das margens do Côa, de cabras, cavalos e auroques feitas. Assim permanece nos dias de hoje, não fazendo Graça Morais mais do que perpetuar as marcas distintivas de uma ancestralidade em torno da figuração do homem e da sua ligação à mãe natureza.

Patente no Museu do Côa até ao próximo dia 25 de Setembro, “Mapas da Terra e do Tempo” é uma extraordinária exposição de pintura da artista, reunindo meia centena de trabalhos inspirados na arte do Paleolítico, muitos deles inéditos. Neste “acerto de agulhas” com as mais antigas manifestações artísticas – que ultrapassam as fronteiras do Côa e se estendem às grutas de Chauvet ou de Altamira, à enigmática figura conhecida pelo “homem-bisonte”, encontrada na caverna de Les Trois-Frères, em França, ou à Vénus de Willendorf -, Graça Morais explora, com sensibilidade e virtuosismo, as origens da arte tal como hoje a entendemos, bem como a própria motivação do artista a sós com a tela, intermediário de uma “conversa” maior que une deuses e homens. Na sobreposição de linhas e formas, na interrupção abrupta do traço ou na aglomeração dos elementos, é a relação com as gravuras do Côa que nos surge de forma evidente nos trabalhos de Graça Morais, ao mesmo tempo que nos mergulha na transversalidade destes elementos em relação ao conjunto da sua obra.

Tomados pelo encantamento, penetramos nas salas de exposições temporárias do Museu do Côa como quem entra numa gruta e se vê, de súbito, confrontado com a magia de um lugar onde a presença do homem se manifesta de forma esmagadora. Está lá todo um quotidiano que gira em torno dos animais, das plantas e das próprias pessoas, como está uma panóplia de sinais gráficos abstratos, de natureza mística, cuja linguagem visual se firma em territórios dos conceitos, símbolos, valores e crenças. A beleza das composições, a forma clara e simples de se abrirem ante o nosso olhar, adquire um significado ainda maior quando pensamos no espaço que nos envolve e em tudo o que representou e representa em matéria de evolução de mentalidades e conhecimento. Na tela ou na rocha, profundamente actuais ou guardiãs de um tempo que se conta em milénios, exuberantemente vivas ou ténues e gastas pela exposição aos elementos, as obras de Graça Morais ou as gravuras rupestres dos artistas do Paleolítico fundem-se em simplicidade e harmonia e mostram o quanto a arte, por insondáveis mistérios, é parte inalienável da própria natureza humana.