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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Território de Absoluta Liberdade” | Nadir Afonso



EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Território de Absoluta Liberdade”,
de Nadir Afonso
Comissária | Alexandra Silvano
Sociedade Nacional de Belas-Artes
04 Fev > 14 Mar 2026


“O raciocínio compreende, a sensibilidade sente. A arte é a única disciplina que exige as duas faculdades: uma sensibilidade intuitiva, elaborada e elevada ao nível do raciocínio mas não o raciocínio que tenta em vão compreender a exactidão essencial. E foi este o trabalho isolado, único da minha vida.”
Nadir Afonso

Entre o regresso e a repetição vai um abismo que só a grande arte consegue abrir. Voltar a ver “Território de Absoluta Liberdade”, agora na Sociedade Nacional de Belas-Artes, depois da apresentação no Museu do Côa, não é um mero exercício de confirmação; é antes a prova de que a obra de Nadir Afonso resiste à memória e desafia o hábito. Com algumas excepções, os trabalhos são os mesmos, mas o olhar nunca o é. E é precisamente nessa fricção, entre o já visto e o inesperado, que se revela a força de um percurso construído ao longo de mais de sete décadas, assente numa convicção rara, a de que a arte obedece a leis universais de criação. A itinerância da mostra — que passou também pelo Museu Amadeo de Souza-Cardoso e seguirá para a Galeria Nova Ogiva — reforça essa ideia de permanência em movimento. O que se desloca não é apenas um conjunto vasto de obras, mas um pensamento plástico coerente, imune a modas e circunstâncias, que encontra em cada espaço novas tensões e ressonâncias.

Formado em Arquitectura pela Universidade do Porto, colaborador de Le Corbusier em Paris e de Oscar Niemeyer no Brasil, Nadir Afonso cedo percebeu que o seu território não poderia ser o da função, mas o da intuição estética. A ruptura definitiva com a arquitectura, em 1965, marca mais do que uma mudança pessoal e profissional: afirma uma posição filosófica. Para o artista, a cidade não é lugar, é ideia; não é urbanismo, é geometria pensada. As telas reunidas nesta exposição — sobretudo as de grande formato da fase final — mostram uma depuração extrema, onde linhas e planos cromáticos se articulam com um rigor matemático e uma vibração sensível. Há nelas ecos das vanguardas europeias, do abstraccionismo geométrico ao cinetismo, mas há sobretudo uma fidelidade inabalável a um programa pessoal: a descoberta das leis objectivas da beleza. Cada composição parece propor uma cartografia do invisível, uma arquitectura mental onde nada falta e nada sobra.

Se a curadoria propõe uma leitura simultaneamente cronológica e sensorial, o visitante é convocado para algo mais exigente: um confronto com a ideia de liberdade enquanto disciplina. “Território de Absoluta Liberdade” não celebra o gesto espontâneo, mas a construção rigorosa de um mundo autónomo, erguido contra a arbitrariedade. Entre o surrealismo inicial, as fases organicistas e os “Espacillimités”, até ao realismo geométrico maduro, reconhece-se uma coerência que desmente qualquer dispersão. A liberdade de Nadir não é a do improviso, mas a da fidelidade a uma verdade interior que se quer universal. Talvez por isso voltar ao mesmo lugar nunca seja redundante: cada reencontro com estas cidades imaginadas produz uma inquietação renovada. Ao regressar às mesmas obras, descobrimos que não são elas que mudaram - somos nós. E é nesse desfasamento, nesse intervalo entre a obra fixa e o olhar móvel, que a pintura de Nadir Afonso continua a afirmar-se como um dos mais sólidos e perturbadores capítulos da arte portuguesa do século XX.

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Território de Absoluta Liberdade” | Nadir Afonso



EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Território de Absoluta Liberdade”,
de Nadir Afonso
Curadoria | Alexandra Silvano
Museu do Côa
06 Jun > 02 Nov 2025


A exposição “Nadir Afonso: Território de Absoluta Liberdade” inscreve-se numa lógica de valorização da Arte Contemporânea em Portugal, promovida no âmbito da candidatura “Paisagens Visuais”, à Rede Portuguesa de Arte Contemporânea, numa parceria realizada entre o Museu do Côa, o Museu Amadeu de Souza Cardoso, a Sociedade Nacional de Belas Artes e a Galeria Ogiva. A escolha de Nadir Afonso como figura central desta mostra não é acidental, antes reflecte um justo reconhecimento da relevância e singularidade do seu percurso artístico. Nascido em Chaves, cidade periférica no contexto artístico nacional, Nadir projetou-se internacionalmente com uma obra que alia um rigor científico a uma sensibilidade plástica invulgar. Mais do que um artista isolado, ele representa um ponto de confluência entre pensamento, arte e ciência, e esta exposição propõe um reencontro com essa complexa teia de influências, percursos e visões que marcam a sua produção. “Território de Absoluta Liberdade” é, pois, uma expressão precisa daquilo que define o legado de Nadir Afonso: a busca incessante por uma linguagem própria, liberta de convenções, mas fundada numa matriz de ordem universal.

Formado em Arquitetura pela Universidade do Porto, Nadir Afonso teve contacto com grandes nomes da arquitectura modernista, como Le Corbusier e Oscar Niemeyer, colaborando activamente com o primeiro em Paris. No entanto, a sua relação com a arquitectura foi sempre tensa e ambivalente. Nadir negava-lhe o estatuto de arte, pois considerava que a arte se funda na percepção directa e na intuição estética, enquanto a arquitectura obedece a condicionantes práticas e funcionais. Essa cisão marca uma viragem fundamental na sua vida: a entrega plena à pintura, território onde a sua visão filosófica e estética poderia expandir-se livremente. Influenciado pelas vanguardas europeias — nomeadamente o abstracionismo geométrico, o cinetismo e o surrealismo — o artista português construiu um corpus teórico e plástico notável, no qual a cidade surge como tema recorrente. Para Nadir, a cidade não é uma realidade construída, mas antes uma estrutura formal de pensamento, uma entidade estética sujeita a leis matemáticas e universais. A sua obra é, nesse sentido, tanto uma investigação sobre a beleza quanto um exercício de decifração da ordem do cosmos.

Ao longo da sua vasta carreira, Nadir Afonso desenvolveu múltiplas fases — do surrealismo ao realismo geométrico, passando por etapas como a organicista, antropomórfica ou a dos “Espacillimités” —, mas sempre fiel à ideia de que a arte resulta da descoberta de leis objetivas que regem a beleza. Esta visão, próxima da tradição pitagórica e platónica, afasta-o de uma leitura meramente subjectiva ou expressiva da criação artística. A presente exposição, ao reunir trinta e duas obras — incluindo vinte e cinco pinturas sobre tela, das quais sete de grande formato realizadas nos seus últimos anos, e doze desenhos — oferece um panorama representativo dessa coerência e evolução estética. A curadoria de Alexandra Silvano incita o público a entrar num “diálogo sensorial, absoluto e rigoroso”, em perfeita consonância com a exigência formal que o próprio Nadir Afonso impunha à sua produção. Mais do que uma retrospectiva, esta mostra é uma celebração da liberdade criativa, do pensamento estruturado e da eterna procura pela beleza essencial que definem uma figura ímpar da arte portuguesa do século XX.