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domingo, 22 de fevereiro de 2026

EXPOSIÇÃO: “A Marginália de Amadeo” | Amadeo Souza-Cardoso



EXPOSIÇÃO: “A Marginália de Amadeo”,
de Amadeo Souza-Cardoso
Curadoria | Samuel Silva
Sociedade Nacional de Belas Artes
30 Jan > 28 Fev 2026


O que retemos de Amadeo ao demorarmos o nosso olhar sobre a sua inquietude criativa desde tenra idade? O que nos revela a sua marginália? Patente na Sociedade Nacional de Belas Artes, a exposição “A Marginália de Amadeo” parte dessas interrogações para deslocar o foco das composições consagradas para as franjas do gesto, para o risco aparentemente distraído, para o desenho que nasce no canto da página. Ao recentrar a obra do pintor nas suas margens, a mostra propõe uma revisão crítica do modernismo português, no preciso lugar onde o traço hesita, falha ou se interrompe, onde revela a sua energia primordial. A incerteza torna-se método; o esboço, território de liberdade. Dos tempos de infância, nos manuais escolares guardados na biblioteca da Casa de Manhufe, emergem figuras satíricas, deformações caricaturais, pequenas cenas mordazes. Há humor e crueldade benigna, mas também uma atenção aguda ao detalhe, uma pulsão gráfica que antecede a pintura e a contamina. O que parecia acessório ganha estatuto de centro. A margem deixa de ser limite para se afirmar como campo de ensaio e laboratório de linguagem, onde a dúvida se teatraliza e o desenho se assume como gesto infinito, sempre em aberto.

Organizada em quatro núcleos cromáticos, a exposição conduz o visitante por territórios distintos dessa inquietação. No “amarelo-milho”, o humor e as metamorfoses surpreendem pela precocidade, com os seus narizes exagerados, professores caricaturados, objectos do quotidiano investidos de teatralidade. No “azul-cobalto turquesa”, a animália e as paisagens revelam uma “anima” em expansão. Cavalos, aves, touros e criaturas híbridas convivem com rios, comboios e casas, numa geografia afectiva que oscila entre o real e o imaginado. O núcleo “preto”, dedicado ao retrato e ao autorretrato, expõe a veia crítica do artista, visível desde cedo na forma como interpela figuras de autoridade e estruturas de poder. Já o “vermelho veneziano” encerra a vertigem verbicovisual: assinaturas reescritas até à exaustão, monogramas, jogos caligráficos, a palavra transformada em imagem. Pelo caminho, cruzam-se postais, cartas e pinturas paradigmáticas, compondo um arquivo vivo onde o risco e a dúvida são assumidos como motores de criação. A margem, aqui, é espaço de insubmissão e questionamento.

Um dos momentos mais eloquentes da mostra coloca em diálogo a pintura “Canção Popular” com um postal enviado a Constantin Brancusi. A moldura original, encomendada por Amadeo aos tanoeiros de Manhufe, é intervencionada com letras e algarismos que extravasam o plano pictórico, convertendo o quadro em objecto expandido. Tal gesto ecoa a ruptura operada por Brancusi ao libertar a escultura do pedestal. Em ambos avulta a insurgência contra a margem enquanto fronteira estanque. A imagem de uma onda que rebenta sobre o paredão de Biarritz - escolhida para o postal - funciona como metáfora dessa pulsão transbordante. Também no interior de livros, como “Cavar em ruínas” de Camilo Castelo Branco, surgem retratos desenhados nas guardas, testemunho de uma leitura activa e interventiva. A marginália revela, assim, um artista que nunca aceita o suporte como dado adquirido: intervém, comenta, corrige, ironiza. O espaço da página torna-se arena crítica, onde a intimidade do traço convive com a ousadia conceptual.

A exposição culmina com a projecção do manuscrito ilustrado “A lenda de São Julião Hospitaleiro”, a partir do texto de Gustave Flaubert, realizado na Bretanha em 1912. Não se trata de mera adaptação, mas de interpretação plástica e subjectiva, onde literatura, pintura e design gráfico se fundem numa síntese experimental rara no contexto português. Ao reunir um vasto conjunto de obras - muitas inéditas, provenientes de colecções privadas, do Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso e da própria família, a mostra inscreve-se no projecto “Paisagens Visuais”, apoiado pela Direcção-Geral das Artes, e propõe uma itinerância que reforça o diálogo com o território. Na Sociedade Nacional de Belas Artes, “A Marginália de Amadeo” afirma-se como chave de leitura maior: revela um artista livre, irreverente, experimental, para quem a criação começa precisamente onde a norma termina. Demorar o olhar sobre essas margens é reconhecer que nelas pulsa o coração inquieto da modernidade.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Território de Absoluta Liberdade” | Nadir Afonso



EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Território de Absoluta Liberdade”,
de Nadir Afonso
Comissária | Alexandra Silvano
Sociedade Nacional de Belas-Artes
04 Fev > 14 Mar 2026


“O raciocínio compreende, a sensibilidade sente. A arte é a única disciplina que exige as duas faculdades: uma sensibilidade intuitiva, elaborada e elevada ao nível do raciocínio mas não o raciocínio que tenta em vão compreender a exactidão essencial. E foi este o trabalho isolado, único da minha vida.”
Nadir Afonso

Entre o regresso e a repetição vai um abismo que só a grande arte consegue abrir. Voltar a ver “Território de Absoluta Liberdade”, agora na Sociedade Nacional de Belas-Artes, depois da apresentação no Museu do Côa, não é um mero exercício de confirmação; é antes a prova de que a obra de Nadir Afonso resiste à memória e desafia o hábito. Com algumas excepções, os trabalhos são os mesmos, mas o olhar nunca o é. E é precisamente nessa fricção, entre o já visto e o inesperado, que se revela a força de um percurso construído ao longo de mais de sete décadas, assente numa convicção rara, a de que a arte obedece a leis universais de criação. A itinerância da mostra — que passou também pelo Museu Amadeo de Souza-Cardoso e seguirá para a Galeria Nova Ogiva — reforça essa ideia de permanência em movimento. O que se desloca não é apenas um conjunto vasto de obras, mas um pensamento plástico coerente, imune a modas e circunstâncias, que encontra em cada espaço novas tensões e ressonâncias.

Formado em Arquitectura pela Universidade do Porto, colaborador de Le Corbusier em Paris e de Oscar Niemeyer no Brasil, Nadir Afonso cedo percebeu que o seu território não poderia ser o da função, mas o da intuição estética. A ruptura definitiva com a arquitectura, em 1965, marca mais do que uma mudança pessoal e profissional: afirma uma posição filosófica. Para o artista, a cidade não é lugar, é ideia; não é urbanismo, é geometria pensada. As telas reunidas nesta exposição — sobretudo as de grande formato da fase final — mostram uma depuração extrema, onde linhas e planos cromáticos se articulam com um rigor matemático e uma vibração sensível. Há nelas ecos das vanguardas europeias, do abstraccionismo geométrico ao cinetismo, mas há sobretudo uma fidelidade inabalável a um programa pessoal: a descoberta das leis objectivas da beleza. Cada composição parece propor uma cartografia do invisível, uma arquitectura mental onde nada falta e nada sobra.

Se a curadoria propõe uma leitura simultaneamente cronológica e sensorial, o visitante é convocado para algo mais exigente: um confronto com a ideia de liberdade enquanto disciplina. “Território de Absoluta Liberdade” não celebra o gesto espontâneo, mas a construção rigorosa de um mundo autónomo, erguido contra a arbitrariedade. Entre o surrealismo inicial, as fases organicistas e os “Espacillimités”, até ao realismo geométrico maduro, reconhece-se uma coerência que desmente qualquer dispersão. A liberdade de Nadir não é a do improviso, mas a da fidelidade a uma verdade interior que se quer universal. Talvez por isso voltar ao mesmo lugar nunca seja redundante: cada reencontro com estas cidades imaginadas produz uma inquietação renovada. Ao regressar às mesmas obras, descobrimos que não são elas que mudaram - somos nós. E é nesse desfasamento, nesse intervalo entre a obra fixa e o olhar móvel, que a pintura de Nadir Afonso continua a afirmar-se como um dos mais sólidos e perturbadores capítulos da arte portuguesa do século XX.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “À Flor da Pele” | Ana Teixeira



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “À Flor da Pele”,
de Ana Teixeira
Curadoria | Ana Lima-Netto
Sociedade Nacional de Belas Artes - Galeria de Arte Moderna
16 Jan > 14 Fev 2026


“Não fora o grito a faca
de súbito rasgando
a fronteira possível
Não fora o rosto o riso
a serena postura
do cadáver na praia (…)”
Daniel Filipe

“À Flor da Pele” insinua-se como uma longa e lenta respiração, o tempo não mero intervalo, antes matéria activa de criação. Cobrindo um arco temporal que liga 2010 a 2023, Ana Teixeira constrói um corpo de trabalho que ultrapassa a fixidez da imagem fotográfica para a transformar em território de encontro entre teatro e paisagem, gesto e silêncio, presença e vestígio. A Serra do Louro não é aqui só cenário, mas um organismo vivo, atravessado por camadas de memória e por uma dramaturgia invisível que se revela à superfície das coisas. Resultante da exposição “Ao Relento”, um conjunto de máquinas de cena e figurinos desenhada ao longo de um percurso pela Serra do Louro viria a permanecer no território muito além do expectável, vindo a sofrer o desgaste do vento, da luz e da erosão. A partir desse evento, a artista regressa, ano após ano, não para fixar uma paisagem idêntica a si própria, mas para testemunhar a sua contínua metamorfose. É nesta persistência que se inscreve uma ética do olhar na qual nada é definitivo, tudo se transfigura. A fotografia torna-se, assim, lugar de escuta e de espera, onde o humano se reconhece na fragilidade dos objectos e na resistência silenciosa da matéria.

Simultâneo, plural, interligado, esse olhar em rede afasta-se de uma perspectiva única, afirmando uma concepção expandida da imagem. As fotografias de Ana Teixeira não se apresentam como instantes isolados, mas como paisagens-cadência, compostas por sobreposições e montagens que integram diferentes tempos e planos de realidade. Há nelas uma dimensão quase coreográfica: os actores de “Jangada de Pedra”, captados no auge do gesto durante os ensaios de 2013, reaparecem integrados na vastidão da Serra, como se a ficção tivesse encontrado morada na terra. O corpo teatral funde-se com o relevo, enquanto a narrativa de Saramago ecoa na tensão das figuras suspensas entre partida e enraizamento. A montagem assume, aqui, um papel decisivo. Ao articular fragmentos dispersos, a artista constrói painéis que evocam vitrais contemporâneos, onde a luz não é apenas elemento físico, mas força simbólica. Cada composição irradia uma vibração interior, como se a paisagem respirasse através das fissuras da imagem, convocando o espectador para uma experiência simultaneamente íntima e cósmica.

O incêndio de 2022 poderia ter imposto uma leitura trágica e conclusiva deste percurso. No entanto, ao regressar à Serra, Ana Teixeira encontra, mais do que apenas silêncio e devastação, antes sinais de recomeço. A terra queimada torna-se superfície de inscrição de uma nova possibilidade, o negro do carvão em contraste evidente com a promessa discreta da regeneração. É neste confronto entre destruição e força criadora que a exposição atinge uma intensidade poética avassaladora. “À Flor da Pele” fala do luto sem ceder ao desespero, da ausência como forma de presença latente, do tempo como ciclo e não como linearidade. Ao integrar múltiplas imagens num todo orgânico, a artista sugere que a vida persiste na articulação dos fragmentos, na memória que sobrevive ao facto consumado da perda. O que vemos não é apenas paisagem, mas um espelho da condição humana: vulnerável, transitória, e contudo capaz de renascer. Nesta tensão entre finitude e continuidade, a obra de Ana Teixeira afirma-se como um acto de resistência sensível, a fotografia tornada gesto de cuidado e de esperança.

sábado, 22 de fevereiro de 2025

EXPOSIÇÃO: “Surrealismo: Um Salto no Vazio”



EXPOSIÇÃO: “Surrealismo: Um Salto no Vazio”
Fundação Cupertino de Miranda
Curadoria | Marlene Oliveira, Perfecto Cuadrado
Sociedade Nacional de Belas Artes
30 Jan > 08 Mar 2025


“Pedrada no charco” do panorama artístico em França e que rapidamente alastrou ao resto do mundo, o Primeiro Manifesto do Surrealismo, por André Breton, cumpre agora 100 anos. Muito mais poeta do que médico, Breton personifica aquele que deve ser considerado o maior movimento artístico do século XX, o qual ajudou a fundar e a dar vida. No seu manifesto, o surrealismo é definido como um “automatismo psíquico puro” que permite expressar a realidade dos próprios pensamentos, sem censura, seja por meio da escrita, do desenho ou de qualquer outro meio. Espera-se que o labor criativo não envolva a consciência ou a vontade própria, cada obra como fruto de um estado de desapego, entre o sono e a vigília. Ao longo dos últimos 100 anos, o Surrealismo influenciou profundamente as artes visuais, a literatura, o cinema e até a filosofia, desafiando as convenções e explorando o inconsciente, o onírico e o absurdo. É o centenário da obra bretoniana que “Surrealismo: Um Salto no Vazio” visa assinalar, confrontando-nos com uma vanguarda artística que transcendeu a arte, ao lançar mão do humor, da contra-lógica e do non-sente para libertar o homem de uma existência cada vez mais sujeita ao utilitarismo das sociedades burguesas.

A assinalar a efeméride, a Fundação Cupertino de Miranda apresenta-se na Sociedade Nacional de Belas Artes com uma mostra singular, abrindo ao visitante a possibilidade de ver ou rever um alargado conjunto de obras emblemáticas que retratam o espírito subversivo e a liberdade criativa definidores deste movimento artístico. “Surrealismo: Um Salto no Vazio” reúne uma vasta seleção de obras de artistas e autores portugueses e estrangeiros, cujas criações estão intimamente ligadas ao movimento, desde os seus primórdios até à contemporaneidade. Em França, como em Espanha, na Bélgica ou nos Estados Unidos, Salvador Dalí , Marc Chagall , René Magritte , Max Ernst , Joan Miró , Dora Maar  ou Man Ray, foram alguns dos pintores e escultores que aderiram ao movimento de forma mais ou menos duradoura. Entre nós avultam nomes como os de Cruzeiro Seixas, Mário Cesariny, Mário de Sá-Carneiro, António Maria Lisboa, António Pedro ou Mário Henrique-Leiria, para citar só alguns. Todos eles foram capazes de superar a contradição entre objectividade e subjectividade, tentando consagrar uma poética da alucinação, de ampliação da consciência, “uma espécie de realidade absoluta, de sobre-realidade [surrealité]”.

Numa pintura de Cândido Costa Pinto, numa fotografia de Fernando Lemos, numa escultura de Mário Cesariny ou num desenho de António Areal, aquilo que o visitante pode apreciar são obras que, para além do seu carácter estético, têm o propósito subversivo de abolir a realidade que uma sociedade vacilante impôs como a única verdadeira. Mais do que a criação de uma arte nova, é da criação de um homem novo que nos fala o surrealismo, projectando-se em forma e cor, gesto e poesia. Além de uma quantidade apreciável de obras de extraordinária qualidade, das mais representativas do movimento em Portugal e não só, pode o visitante deliciar-se com algumas secções que particularizam momentos ou figuras ligadas ao surrealismo. A homenagem a Sérgio Lima, um dos grandes representantes do movimento surrealista brasileiro, é uma delas. Outra tem a ver com o catálogo da primeira exposição dos surrealistas, em 1949, e no qual se insere um vasto conjunto de poemas. E há, ainda, uma extraordinária mostra de publicações do universo surrealista, casos da pioneira La Révolution Surrealiste e da sua sucessora, Minotaure, fundada por Albert Skira, editada por André Breton e com obras originais desenhadas por artistas de prestígio como Pablo Picasso.

domingo, 26 de fevereiro de 2023

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Viva Manta!"


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EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Viva Manta!”,
de João Abel Manta
Curadoria | João Paulo Queiroz, Luísa da Rocha
Sociedade Nacional de Belas Artes
17 Jan > 18 Fev 2023


João Abel Manta é conhecido pelo seu traço como cartoonista, mas o seu caminho espalhou-se também pela arquitectura, ilustração, pintura, cerâmica, tapeçaria e mosaico. Ao longo de um mês, a Sociedade Nacional de Belas Artes dedicou-lhe uma exposição retrospectiva que incidiu sobre os trabalhos de pintura, aos quais se dedica em exclusivo desde os anos 80 do século passado. “Viva Manta” acompanha o percurso intenso do artista que se inicia com a expressão neo-figurativa dos anos 60 e 70, através de grafismos planificados e composição assente na justaposição na página, com referencias na Pop Arte, a que se somam apontamentos letristas. Após decidir encerrar a sua atividade como cartoonista, cerca de 1980, o autor dedica-se à pintura como que começando de novo, mergulhando na paisagem, e tomando como referência Gouveia, terra natal do seu pai, o pintor Abel Manta.

O interesse pelas figuras da cultura está presente desde sempre, e também na extensa galeria de retratos, onde escritores, pintores, filósofos, actores, músicos, são convocados com a proximidade intensa e o companheirismo ameno que se conhecia dos seus desenhos e cartoons. “A minha atração por alguns artistas do chamado impressionismo, deriva do modo notável como utilizam a técnica da pintura e talvez também pela tranquilidade dos temas, tranquilidade curiosa numa época agitada e revolucionária: intimidade da vida burguesa, paisagens repousantes, gente feliz, bailarinas”, conta, a propósito da exposição no Palácio Galveias, levada a cabo em 2009. Mas a sua aparente proximidade formal com o impressionismo é enganadora, e nas suas pinturas das décadas de 1980 a 2000 deparamos frequentemente com um universo sombrio de onde emergem “figuras inomináveis e terríveis, produtos da alucinação”.

Já no lado esquerdo da exposição estão presentes os últimos trabalhos de João Abel Manta, que evocam tanto a mitologia revisitada, como a biografia familiar, no contexto dos referentes profundos das relações humanas: a sexualidade, as idades, os livros, as viagens. A visão perturbante de João Abel Manta funde o “quotidiano e o fantástico, em paisagens lisboetas invadidas de seres estranhos”, a par de uma recorrente presença de auto-figurações que remetem para um território autorreferencial até aí desconhecido na sua obra. Identifica-se o artista, ora como criança, de três ou quatro anos, ora como pintor, adulto e envelhecido, assim como também se identifica a sua companheira de vida, entre outros referentes da sua biografia.