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sábado, 20 de dezembro de 2025

EXPOSIÇÃO: “Sonhos e Metamorfoses: O Surrealismo de Paula Rego”


EXPOSIÇÃO: “Sonhos e Metamorfoses: O Surrealismo de Paula Rego”,
de Paula Rego
Curadoria | Catarina Alfaro, Marlene Oliveira, Perfecto E. Cuadrado
Fundação Cupertino de Miranda, Vila Nova de Famalicão
11 Abr 2025 > 04 Jan 2026


“Havia livros de arte em casa. Meu pai dava-me livros depois de ver que era isso que me interessava. Quando tinha 14 anos, comprou-me um livro sobre Dadá e Surrealismo. Era como um livro de histórias; simplesmente maravilhoso estar a ver aquelas ilustrações. Revelação, não posso dizer que fosse, pois para mim era exactamente como um conto de fadas. Não me deu surpresas. Eu estava habituada a imagens daquelas.”
Paula Rego

A exposição dedicada ao surrealismo na obra de Paula Rego parte de um pressuposto certeiro: Mais do que uma adesão programática a um movimento, o surrealismo foi para a artista um território natural, quase doméstico, onde a imaginação sempre falou mais alto do que qualquer academismo. Educada visualmente desde cedo e marcada pela revelação precoce de um livro sobre dadaísmo e surrealismo, oferecido pelo pai quando a artista tinha 14 anos, Rego reconheceu nessas imagens algo que não lhe era estranho, mas familiar, como se de um livro de contos de fadas se tratasse. Essa naturalidade perante o estranho, o disforme e o onírico atravessa o núcleo expositivo, que reúne pinturas, desenhos e gravuras, sobretudo das décadas de 1960 e 1970, período em que a artista procurava ainda uma identidade própria. A exposição sublinha, com pertinência, a importância da imaginação como motor do processo criativo, revelando obras em que o sonho comanda a composição e onde o jogo entre dissimulação e revelação cria imagens de inquietante magnetismo.

Um dos eixos mais bem explorados pela curadoria é o da metamorfose, conceito central na obra da artista e assumido por ela como metáfora do próprio acto de criar. Nas salas da Fundação Cupertino de Miranda, essa ideia manifesta-se através de figuras em constante mutação, corpos que oscilam entre o humano e o animal, personagens suspensas entre a infância e a violência simbólica do mundo adulto. O universo fantástico que emerge destas obras não é evasivo, mas profundamente ligado à experiência concreta do amor e do medo, do poder e da sedução, da obediência e da resistência, sentimentos entrelaçados numa iconografia onde nada é inocente. Os animais humanizados, recorrentes, funcionam tanto como agentes de encantamento como de ameaça, remetendo para um mundo carregado de tensão psicológica que ultrapassa os limites do consciente. Ao convocar o sonho como método e matéria, Paula Rego aproxima-se do surrealismo sem nunca abdicar da narrativa, da teatralidade e de uma relação crítica com a realidade. O resultado é uma obra onde o maravilhoso convive com o perturbador e onde a fantasia surge como matéria de revelação, nunca como instrumento de fuga.

Embora a exposição se apresente em forma de homenagem - particularmente significativa num ano em que Paula Rego, caso fosse viva, completaria 90 anos de idade -, o seu maior mérito reside em propor uma leitura menos cristalizada da artista. Aqui, o surrealismo não surge como rótulo, mas como fase fértil de experimentação, decisiva para a construção de uma linguagem visual única, que mais tarde se expandiria para outros territórios narrativos e políticos. Fica clara a forma como Paula Rego assimilou influências literárias, culturais e artísticas - de Lewis Carroll à tradição popular -, para criar um universo próprio, onde o corpo é lugar de conflito, a infância é memória activa e a autoridade nunca é estável. Ao privilegiar o encantamento, o enigma e a transformação, esta exposição convida o visitante a entrar num mundo onde as imagens não oferecem respostas fáceis, mas antes perguntas persistentes. E é precisamente nessa capacidade de inquietar, seduzir e desestabilizar que reside a atualidade e a força duradoura da obra de Paula Rego. Para ver só até 04 de Janeiro.

sábado, 22 de fevereiro de 2025

EXPOSIÇÃO: “Surrealismo: Um Salto no Vazio”



EXPOSIÇÃO: “Surrealismo: Um Salto no Vazio”
Fundação Cupertino de Miranda
Curadoria | Marlene Oliveira, Perfecto Cuadrado
Sociedade Nacional de Belas Artes
30 Jan > 08 Mar 2025


“Pedrada no charco” do panorama artístico em França e que rapidamente alastrou ao resto do mundo, o Primeiro Manifesto do Surrealismo, por André Breton, cumpre agora 100 anos. Muito mais poeta do que médico, Breton personifica aquele que deve ser considerado o maior movimento artístico do século XX, o qual ajudou a fundar e a dar vida. No seu manifesto, o surrealismo é definido como um “automatismo psíquico puro” que permite expressar a realidade dos próprios pensamentos, sem censura, seja por meio da escrita, do desenho ou de qualquer outro meio. Espera-se que o labor criativo não envolva a consciência ou a vontade própria, cada obra como fruto de um estado de desapego, entre o sono e a vigília. Ao longo dos últimos 100 anos, o Surrealismo influenciou profundamente as artes visuais, a literatura, o cinema e até a filosofia, desafiando as convenções e explorando o inconsciente, o onírico e o absurdo. É o centenário da obra bretoniana que “Surrealismo: Um Salto no Vazio” visa assinalar, confrontando-nos com uma vanguarda artística que transcendeu a arte, ao lançar mão do humor, da contra-lógica e do non-sente para libertar o homem de uma existência cada vez mais sujeita ao utilitarismo das sociedades burguesas.

A assinalar a efeméride, a Fundação Cupertino de Miranda apresenta-se na Sociedade Nacional de Belas Artes com uma mostra singular, abrindo ao visitante a possibilidade de ver ou rever um alargado conjunto de obras emblemáticas que retratam o espírito subversivo e a liberdade criativa definidores deste movimento artístico. “Surrealismo: Um Salto no Vazio” reúne uma vasta seleção de obras de artistas e autores portugueses e estrangeiros, cujas criações estão intimamente ligadas ao movimento, desde os seus primórdios até à contemporaneidade. Em França, como em Espanha, na Bélgica ou nos Estados Unidos, Salvador Dalí , Marc Chagall , René Magritte , Max Ernst , Joan Miró , Dora Maar  ou Man Ray, foram alguns dos pintores e escultores que aderiram ao movimento de forma mais ou menos duradoura. Entre nós avultam nomes como os de Cruzeiro Seixas, Mário Cesariny, Mário de Sá-Carneiro, António Maria Lisboa, António Pedro ou Mário Henrique-Leiria, para citar só alguns. Todos eles foram capazes de superar a contradição entre objectividade e subjectividade, tentando consagrar uma poética da alucinação, de ampliação da consciência, “uma espécie de realidade absoluta, de sobre-realidade [surrealité]”.

Numa pintura de Cândido Costa Pinto, numa fotografia de Fernando Lemos, numa escultura de Mário Cesariny ou num desenho de António Areal, aquilo que o visitante pode apreciar são obras que, para além do seu carácter estético, têm o propósito subversivo de abolir a realidade que uma sociedade vacilante impôs como a única verdadeira. Mais do que a criação de uma arte nova, é da criação de um homem novo que nos fala o surrealismo, projectando-se em forma e cor, gesto e poesia. Além de uma quantidade apreciável de obras de extraordinária qualidade, das mais representativas do movimento em Portugal e não só, pode o visitante deliciar-se com algumas secções que particularizam momentos ou figuras ligadas ao surrealismo. A homenagem a Sérgio Lima, um dos grandes representantes do movimento surrealista brasileiro, é uma delas. Outra tem a ver com o catálogo da primeira exposição dos surrealistas, em 1949, e no qual se insere um vasto conjunto de poemas. E há, ainda, uma extraordinária mostra de publicações do universo surrealista, casos da pioneira La Révolution Surrealiste e da sua sucessora, Minotaure, fundada por Albert Skira, editada por André Breton e com obras originais desenhadas por artistas de prestígio como Pablo Picasso.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

EXPOSIÇÃO: “Mário Cesariny: Em Todas as Ruas te Encontro”



EXPOSIÇÃO: “Mário Cesariny: Em Todas as Ruas te Encontro”
Curadoria | Marlene Oliveira, Perfecto Cuadrado, João Pinharanda
Fundação Cupertino de Miranda, Vila Nova de Famalicão
05 Ago 2023 > 08 Ago 2024


Numa ocasião em que se comemora o centenário do nascimento de Mário Cesariny, a Fundação Cupertino de Miranda promove uma exposição intitulada “Mário Cesariny: Em Todas as Ruas te Encontro”, recorrendo ao espólio do artista da qual é detentora. Obras de arte e elementos do arquivo e biblioteca pessoal de Cesariny, entre os quais se encontram mais de quatro mil fotografias, cadernos, correspondência, livros intervencionados e vários registos manuscritos em simples papéis, constituem a base de uma mostra com um forte cunho sentimental. A reforçar esta ideia, são igualmente expostos inúmeros objectos que se encontravam nas paredes da casa ou espalhados pelo quarto de Cesariny, e é apresentado “Autografia” – título de um poema seu –, um documentário realizado por Miguel Gonçalves Mendes, belo e íntimo retrato da vida, do percurso e individualidade do poeta e pintor surrealista.

Mário Cesariny, homem de natureza excepcional que representou de forma exemplar o Surrealismo como expressão artística e literária e, sobretudo, como uma forma revolucionária de ver, entender e viver a vida, é aqui revisitado de uma forma muito próxima, abrindo-se ao visitante a possibilidade de conhecer e aceder ao ambiente que o rodeava, a partir da observação dos objectos expostos, das construções e das suas criações. Uma parte da coleção de quarenta fotografias de Duarte Belo registadas na casa de Cesariny, em 2003, e que revelam a intimidade do espaço de habitação e de criação do artista, permite uma contextualização em relação a muitos dos objetos que se encontram em exposição. Trata-se de uma rara oportunidade de fortalecer o conhecimento do homem e do artista, que fez História e Estórias em Portugal, e que nos faz entender a personalidade irreverente de Mário Cesariny e o seu universo surreal.

Nascido a 09 de agosto de 1923, em Lisboa, Cesariny de Vasconcelos estudou na Academia de Amadores de Música, sob a orientação do professor Fernando Lopes Graça, e ingressou no princípio da década de 1940 na Escola de Artes Decorativas António Arroio, onde conheceu, entre outros, Fernando José Francisco e Cruzeiro Seixas, que o acompanharam na aventura surrealista. Foi protagonista de muitas acções e criações polémicas com os outros artistas surrealistas, mas a partir do início dos anos 1950 o grupo começou a desintegrar-se. Manteve-se activo na poesia, nas artes plásticas e na tradução, passando a conviver com Luís Pacheco, Manuel de Lima, António José Forte, João Vieira e Hélder Macedo. “Titânia”, “Pena Capital” e “Antologia do Cadáver Esquisito” são alguns exemplos da sua obra poética. Cesariny recebeu vários prémios pela obra escrita e plástica, nomeadamente o Prémio Vida Literária, da Associação Portuguesa de Escritores, e o Grande Prémio EDP de Artes Plásticas. Faleceu em Lisboa, aos 83 anos.