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domingo, 3 de agosto de 2025

EXPOSIÇÃO: “Analogias à Geometria e ao Orgânico”,



EXPOSIÇÃO: “Analogias à Geometria e ao Orgânico”,
de Cheila Peças
Museu do Vinho de Alcobaça - Adega dos Balseiros
17 Jul > 17 Ago 2025


“Sugo-te o conhecimento raivoso, impaciente. Questiono-me quem sou. Que parte de mim sou? Quando eu sou? Quando tu és? Vagueando entre raízes duras que me sugam a inocência, agradeço as palavras que lhes saem entornadas. Sou uma tela como todas as outras, o ar continua a derreter os passos que dou e faz-me inspirá-los para dentro do meu ser. Escuto os pelos arrepiados pelos sons que já não podem ouvir da mesma forma que antes. Tomo a decisão e uso-os como pincel, são agora o meu instrumento invisível”.

Imaginação, intuição, experimentação e aceitação são vectores maiores de “Analogias à Geometria e ao Orgânico”, exposição da artista plástica alcobacense Cheila Peças no âmbito do seu trabalho de doutoramento em Belas Artes. Multifacetada, entre o desenho, a pintura, a instalação, a fotografia e o vídeo, a mostra resulta do trabalho directo com utentes do Centro de Educação Especial, Reabilitação e Integração de Alcobaça e das Cooperativas de Ensino, Reabilitação, Capacitação e Inclusão de Peniche e da Nazaré, focando-se na experiência do sair de si e abdicar da personalidade própria para viver a realidade do outro através da arte. Entre a inquietação de nos percebermos e percebermos o outro, e a surpresa das narrativas que, extravasando os limites da tela, servem de base à criação artística, é no instante e na persistência, na cumplicidade e na partilha, que se perfila o corpo de trabalho da artista.

Reflexo da importância do primário e elementar sobre o complexo e elaborado, a exposição pretende destacar as múltiplas dimensões do objecto artístico, secundarizando a sua organização racional e lógica, em favor da linguagem emocional e do poder da imaginação de quem observa. “Na sua individualidade, o objecto artístico, vivendo para si, surge das impressões que retemos do mundo”. Esta afirmação de Cheila Peças alcança uma significado profundo ao atentarmos no trabalho que a artista desenvolveu com pessoas no espetro do autismo, fazendo da partilha de experiências, em áreas como a percepção ou o reconhecimento, o ponto de partida de um percurso para a criação de algo que se dá às mais variadas interpretações. O resultado pode ser surpreendente, pelo que convoca de alterações profundas na forma como olhamos o mundo, mas também como nos olhamos a nós mesmos e, por conseguinte, olhamos o fazer artístico.

Experiência intuitiva que fala mais do sentimento do que da razão e abre novas perspectivas à compreensão do mundo e da vida, “Analogias à Geometria e ao Orgânico” é a viagem ao encontro do outro que antecede o reencontro da artista consigo mesma. As transformações pessoais sofridas nesta viagem acrescentam valor ao processo criativo e espoletam novas narrativas, mas é sobretudo a consciência que o espectador tem de si no momento de interpretação da obra que importa, num exercício que é também de auto-observação. É esse o desafio que Cheila Peças lança, num exercício que supõe entrega, atenção e tempo. Desdobramento sobre momentos artísticos e sobre processos construídos, “Analogias à Geometria e ao Orgânico” é a demonstração prática do poder comunicativo, interpretativo ou de reconhecimento do objecto artístico, na relação íntima entre a arte e a pessoa. Para ver até 17 de Agosto.

quarta-feira, 30 de julho de 2025

LUGARES: Museu Nacional do Vinho de Alcobaça



LUGARES: Museu Nacional do Vinho de Alcobaça
Rua de Leiria - Olival Fechado, Alcobaça
Horários | Terça-feira a Domingo e Feriados: Visitas às 10:00, 11:00 e 12:00 / 14h00, 15h00, 16h00 e 17h00
Ingressos | Bilhete individual sem prova: € 4,00 (com prova, € 10,00 e € 12,00)


É em Alcobaça que se encontra a maior colecção nacional vitivinícola em contexto museológico. Instalado numa antiga adega, o Museu Nacional do Vinho de Alcobaça é o mais completo da temática do vinho e da vinha em Portugal, com um acervo que reflete quatro séculos de legado científico, histórico e industrial. Foi pelas mãos de José Eduardo Raposo de Magalhães que surgiu, em finais do século XIX, a adega do Olival Fechado, espaço hoje ocupado pelo Museu. Alcobacense ilustre, de índole generosa e de personalidade multifacetada, José Eduardo Raposo de Magalhães licenciou-se em Engenharia Militar, cursou Filosofia e Matemática em Coimbra, tendo também sido músico amador e regente, mas foi na sua dedicação à Agricultura que deu alto renome à sua terra. De facto, responsável maior pela fama e desenvolvimento da vitivinicultura de Alcobaça, José Eduardo Raposo de Magalhães aplicou, na construção da sua Adega, a tecnologia mais avançada do seu tempo, patente ainda hoje na qualidade dos materiais, na racionalidade dos espaços e nas condições de higiene preconizadas.

Em 1948, a Junta Nacional do Vinho, organismo corporativo e de coordenação económica, adquiriu aos Herdeiros de José Eduardo Raposo de Magalhães, a referida adega e terrenos adjacentes, passando aí a funcionar a Adega Cooperativa e os Armazéns da Junta, devidamente modernizados e ampliados. Em 1968, decorrente do encerramento de alguns dos Armazéns da Junta Nacional do Vinho um pouco por todo o território, foi dado início à recolha de material vinário disperso nas suas várias Delegações. Exercendo, na época, funções de Delegado da Junta em Leiria, Manuel Augusto Paixão Marques, pessoa de grande sensibilidade para a conservação patrimonial, cedo se interessou pelo espólio que se adensava e que, por razões logísticas, ia sendo reunido em Alcobaça. Em 1976, com a passagem da Adega Cooperativa para novas instalações e correspondente desactivação das adegas e dos depósitos, deu início a uma colecção única e preciosa, ciente do valor histórico, científico e etnográfico de peças que cobrem um arco temporal do século XVII ao advento do século XXI.

Distribuído por cinco espaços distintos - Adega dos Balseiros, Adega dos Depósitos, Adega dos Tonéis, Taberna e Jardim de Baco -, o espólio do Museu conta com um importante acervo com mais de dez mil peças móveis, preenchendo um universo eclético cujas tipologias contemplam a enologia, a etnologia, a tecnologia tradicional, a arqueologia industrial e as artes gráficas, plásticas e decorativas. O espólio reflecte ainda uma dimensão nacional, única no País, que reporta à memória da antiga Junta Nacional do Vinho, com destaque para os magníficos e elucidativos quadros informativos e estatísticos datados do seu período de afirmação, nas décadas de 1950 e 1960. Ao olhar do visitante abre-se um vasto conjunto integrado de peças de enorme valor e interesse, contextualizando a viticultura e a vinicultura em diferentes momentos históricos, assim como as industrias correlativas - tanoaria, engarrafamento e vidro de embalagem -, o armazenamento, a distribuição ou o consumo do vinho. Sujeito a visita guiada, o Museu é visitável de terça-feira a domingo, sendo aconselhável marcação prévia.