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sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Zona da Meia-Noite" | Maria Constanza Ferreira



EXPOSIÇÃO: “Zona da Meia-Noite”,
de Maria Constanza Ferreira
Curadoria | Constança Pupo Cardoso
Centro Português de Fotografia
08 Nov 2025 > 08 Mar 2026


“Zona da Meia-Noite”, misto de exposição fotográfica e vídeo-instalação da autoria de Maria Constanza Ferreira, ocupa duas enxovias do Centro Português de Fotografia, transformando-as num espaço de suspensão entre a luz e a penumbra, entre o corpo e a memória. Num primeiro momento, o azul profundo dos cianótipos — resultado de um processo fotográfico tão químico quanto ritual — envolve doze corpos-imagem que parecem flutuar fora do tempo. São formas devocionais, fragmentos de ausência, objectos que já não existem, mas insistem em permanecer. Nestes trabalhos, a artista convoca uma temporalidade expandida nos quais a fotografia deixa de ser mero registo para se transformar em testemunho espiritual, mediando a tensão entre presença e desaparecimento. Num outro momento, a vídeo-instalação “Alminha” funciona como rito de passagem, um gesto de cuidado que liga o mundo dos vivos ao dos mortos e conduz o visitante até “Midnight Zone”, obra em dois canais que combina película de 16 mm e vídeo digital, revelando-se como uma pintura em movimento, marcada por rituais, práticas populares e uma escuta atenta do incorpóreo.

O conceito de “Zona da Meia-Noite”, tomado da oceanografia - o lugar onde a luz solar já não chega -, é aqui reapropriado como metáfora de um território liminar, onde “ver” implica outros modos de percepção. Tal como os seres bioluminescentes das profundezas marinhas, capazes de gerar a sua própria luz, Maria Constanza Ferreira procura iluminar o que escapa ao olhar directo: crenças, gestos, saberes e histórias transmitidas no interior de uma comunidade. A artista ancora esta pesquisa numa genealogia pessoal iniciada em 2022 e no território específico do Repolão, em Oliveira do Bairro, onde o sagrado se infiltra no quotidiano através de alminhas do purgatório, procissões, romarias, flores, orações e trabalhos manuais. A meia-noite deixa então de ser apenas um ponto científico ou cronológico e torna-se um lugar de divisão e encontro: entre vida e morte, céu e inferno, peso e leveza, matéria e espírito.

Neste espaço intermédio, encontra a exposição a sua força mais sensível. O purgatório, entendido como estado de espera e cuidado, atravessa todo o corpo de trabalho, tanto nos materiais — ferro, mármore, cera, fio, água, luz — como nos gestos documentados no filme: mulheres que limpam túmulos, preparam altares, benzem corpos, cuidam da memória. A dimensão doméstica e feminina surge como guardiã de um saber ancestral, onde o ritual se confunde com a rotina e o afecto com a devoção. O croché, em particular, ganha um papel simbólico central, tornado objecto íntimo, herdado, repetitivo, que marca ciclos de vida e luto e que a artista reinventa ao colocá-lo em diálogo com o movimento e a instabilidade do cianótipo. Assim, “Zona da Meia-Noite” constrói-se como um ensaio visual sobre o tempo e a persistência, um trabalho que não procura respostas, mas permanece atento, no escuro fértil onde é possível encontrar a luz.

[Texto baseado na Folha de Sala, com redacção de Constança Pupo Cardoso]

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