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terça-feira, 18 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO: “Vexation of Spirit. The Duerckheim Collection x Serralves”,



EXPOSIÇÃO: “Vexation of Spirit. The Duerckheim Collection x Serralves”,
de Darren Almond, Tommy Ballestrem, Georg Baselitz, Isaak Brodski, Roman Buxbaum, Leon Delarbre, Jake e Dinos Chapman, Cerith Wyn Evans, Theaster Gates, Gilbert & George, Antony Gormley, Francisco de Goya, Peter Gut, Damien Hirst, Zhang Huan, Stefan Hunstein, Anselm Kiefer, Alfred Kremer, Michael Landy, Konrad Lueg, Markus Lüpertz, Raoef Mamedov, Hermann Nitsch, Haralampi G. Oroschakoff, Blinky Palermo, A.R. Penck, Sigmar Polke, Gerhard Richter, Sam Taylor-Johnson, Matthias Wähner, Carl-Heinz Wegert, Rémy Zaugg
Curadoria | Marta Moreira de Almeida
Museu de Arte Contemporânea de Serralves
15 Mai > 01 Nov 2026


“Vexation of Spirit”, conjunto de trinta e sete obras de dezanove artistas provenientes da Coleção Duerckheim, em depósito na Fundação de Serralves, é uma exposição que promete não deixar ninguém indiferente. Não porque os assuntos que aborda sejam, maioritariamente, a guerra, a religião ou os totalitarismos - temas que nunca abandonaram verdadeiramente a arte contemporânea -, mas pela forma como contraria a ideia, hoje tão difundida, de que a História é um objecto acabado. Percebemos isso ao percorrer a exposição, na medida em que ela nos permite ver que o passado não está atrás de nós; habita-nos. As imagens que julgávamos encerradas nos livros regressam sob a forma de matéria, cinza, chumbo, corpos mutilados, livros queimados, devastação e silêncio. No seu conjunto, ajudam-nos a compreender que coleccionar não consiste em acumular objectos, mas em construir uma gramática do que inquieta. Christian Duerckheim, o aristocrata que, ao longo das últimas quatro décadas, conseguiu reunir uma colecção admirável a todos os títulos, recusa a ideia da obra-prima enquanto troféu; interessa-lhe antes a obra como testemunha. Não procura aquilo que tranquiliza o olhar, mas aquilo que o desassossega. É por isso que esta primeira apresentação pública da colecção em Serralves possui uma importância que ultrapassa largamente o enriquecimento do acervo do Museu, ao oferecer uma hipótese de leitura do nosso tempo.

Retirada do Eclesiastes, a expressão que dá título à exposição paira sobre todo o percurso como uma espécie de aviso. Ao definir um estado interior, “Vexation of Spirit” descreve também uma condição histórica. Vivemos rodeados por imagens, mas talvez nunca tenhamos visto tão pouco. A sucessão vertiginosa da actualidade dissolve a memória antes mesmo de ela se sedimentar. A arte responde a essa vertigem de maneira oposta: desacelera. Kiefer cobre os livros de chumbo porque sabe que o conhecimento tem peso; Zhang Huan pinta com cinzas porque compreende que toda a espiritualidade deixa resíduos materiais; Darren Almond filma a espera diante de Auschwitz porque sabe que há lugares onde a ausência diz mais do que qualquer representação da violência. Nenhuma destas obras explica a História. Limitam-se a colocá-la diante de nós, com uma insistência quase física. Nisto reside o verdadeiro desígnio da arte: recusar-se a servir de mera ilustração dos acontecimentos, antes impedir que o esquecimento os transforme em paisagem.

É curioso verificar como muitas destas obras, realizadas há vinte ou trinta anos, parecem ter sido concebidas para este preciso momento. Não porque antecipassem os conflitos do presente, mas porque compreenderam algo de permanente na natureza humana: a facilidade com que a violência muda de rosto sem alterar a sua lógica. Não é frequente encontrar uma exposição que permita pensar, ao mesmo tempo, Kiefer, Blake, Goya, o Eclesiastes, Adorno e a cultura visual contemporânea. Por outro lado, as vitrinas infernais dos irmãos Chapman, o laboratório mortuário de Damien Hirst ou as palavras secas de Gilbert & George deixaram de pertencer apenas ao imaginário da provocação dos anos noventa. Hoje, depois da Ucrânia, de Gaza e da normalização quotidiana da barbárie transmitida em directo pelas televisões, perderam o estatuto de alegorias para adquirirem uma desconfortável proximidade documental. Num mundo entregue à velocidade dos algoritmos, à tirania da opinião instantânea e ao conforto das convicções fáceis, “Vexation of Spirit” recorda-nos que pensar continua a ser um acto que exige tempo. Creio que reside aqui, afinal, a mais discreta e mais radical das lições desta extraordinária exposição.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

EXPOSIÇÃO: "O Homem é Fenómeno Magistral"



EXPOSIÇÃO: “O Homem é Fenómeno Magistral”,
de Fernando Lanhas
Curadoria | Marta Moreira de Almeida
Museu de Arte Contemporânea de Serralves
07 Dez 2023 > 03 Mar 2024


Começo com uma sugestão: Se pretende visitar “O Homem é Fenómeno Magistral”, exposição de Fernando Lanhas patente no Museu de Serralves, detenha-se durante algum tempo na sua Autobiografia. Vai descobrir que esta figura destacada da Arte Portuguesa do século XX, aos 5 anos já observava formigas com o auxílio de uma lupa, aos 12 via a bioluminescência dos antípodes na Praia da Boa Memória, aos 17 desenhava a posição das manchas solares ao longo de dias e aos 19 executava em barro um modelo da superfície da Lua, da zona entre os Mares Imbrium e Nubium. Esta quase fixação pelo visível e mensurável tem o seu contraponto nos sonhos, que o artista começa a registar regularmente a partir de 24-25 de Agosto de 1943. Será o ser humano - esse “fenómeno magistral” - e a tentativa de o compreender, a moldar o pensamento de Fernando Lanhas, o seu entendimento do mundo e a compreensão de algo mais vasto do que o mundo, o universo. E será o ser humano que, de forma natural, acabará por constituir a escala de todo o seu processo artístico.

Arquiteto de formação, Lanhas cedo concluiu que teria de explorar outras áreas de interesse para atingir os seus propósitos de pesquisa, como a pintura, o desenho, a arqueologia, a botânica, a astronomia, a etnologia, a museografia, assim como a escrita poética e ficcional. A exposição agora apresentada reúne um núcleo muito significativo de obras suas e constitui uma oportunidade única para a compreensão da simultânea, e conciliável, diversidade e coerência de uma das obras mais fascinantes da segunda metade do século passado. O percurso proposto para esta apresentação passa pela criação de um eixo central no espaço da galeria do museu definido pela exibição das peças “Ortoscópio”, “Carta das distâncias e das rotas dos planetas do sistema solar e de algumas estrelas” e, ainda, “O Sol”. Estas três peças são emblemáticas das preocupações do artista relativas à representação e medição das distâncias do Universo.

A paleta de Lanhas é caracterizada por uma forte homogeneidade e por uma incessante busca da cor primordial, referencialmente criadas a partir de pedras moídas, que na maioria das vezes eram recolhidas durante as suas expedições na natureza. Este modo de construção da paleta de cores reflete de forma exímia a sua paixão pela arqueologia, pela botânica e pela geologia que irão influenciar de forma determinante o modo como o artista intitulou as suas obras, como se de um inventário se tratasse: catalogadas numericamente, exatamente como se fossem referências museográficas ou científicas, identificando o suporte, a ordem e, separados por um hífen, o ano de criação: a primeira letra indica o suporte utilizado, “C” para colagens, “D” para desenho, “O” para óleo e “P” para pedras. Um percurso de vida fascinante, traduzido num todo artístico de enorme coerência e significado. Para ver só até 03 de Março.


quinta-feira, 24 de agosto de 2023

EXPOSIÇÃO: "In My Own Language I Am Independent"


[Clicar na imagem para ver mais fotos]

EXPOSIÇÃO: “In My Own Language I Am Independent”,
de Carla Filipe
Curadoria | Marta Moreira de Almeida
Organização | Fundação de Serralves
Museu de Arte Contemporânea de Serralves
24 Mar > 17 Set 2023


Artista multidisciplinar, autora de uma obra que explora criticamente a relação entre objetos de arte, cultura popular e activismo, Carla Filipe é uma das artistas mais marcantes do actual panorama artístico em Portugal. Ancorado no desenho, em experiências pessoais e numa acepção da autobiografia enquanto arquivo experimental da contemporaneidade, o seu processo criativo resulta da apropriação de artefactos e documentos com que é construída uma forma própria de retrato social e, simultaneamente, de autorretrato. Aproximando-se das metodologias da antropologia, a artista observa, recolhe, entrevista e documenta vestígios de narrativas individuais e coletivas, interpelando de modo idiossincrático as discursividades convencionadas acerca do passado recente e da própria atualidade. Neste processo, aborda conteúdos tão transversais quanto as noções de território, trabalho, propriedade, memória, identidade ou representação. São estes os temas presentes nesta exposição antológica da artista no Museu de Serralves, que reúne obras produzidas ao longo de cerca de duas décadas de trabalho.

O título da exposição, “In My Own Language I Am Independente”, é retirado de uma inscrição da própria artista numa imagem do seu arquivo fotográfico. Sem preconceitos e com uma grande liberdade, Carla Filipe erige uma plataforma de criação e de análise única sobre as transformações políticas, económicas, sociais e culturais do passado e do presente, através de um pensamento sem fronteiras geográficas. Nascida numa família de ferroviários, apropria-se de formas e sinaléticas que fazem parte do universo dos caminhos de ferro para falar da estrutura social de Portugal no século XX. O título da obra “Memorial ao Vagão Fantasma” retrata um episódio histórico da greve dos trabalhadores dos caminhos de ferro em 1919. Já as bandeiras que compõem o conjunto são elaboradas a partir de cartazes sindicais do período pós-25 de Abril de 1974, ampliando uma narrativa reivindicativa dos direitos laborais e sociais. A própria disposição dos pendões, numa arquitetura instável, transporta-nos para espaços e ambientes efémeros ligados a manifestações públicas ou comícios políticos.

Em “As Casas Desejadas”, é feita referência aos bairros construídos entre as décadas de 1910 e 1920 para os guardas das Passagens de Nível e suas famílias. A criação destes complexos arquitectónicos foram importantes no combate ao problema da habitação, potenciando o crescimento urbano do país. Ainda dentro deste contexto da história dos caminhos de ferro, Carla Filipe tem vindo a construir e plantar hortas que funcionam como visão alternativa de modelos de organização comunitária e social. Intituladas “Migração, resistência e exclusão”, estas instalações in situ, compostas por plantas alimentícias não-convencionais, colocam em discussão a seleção entre o ornamento, a sobrevivência e a exclusão. Por outro lado, “Ordem de Assalto” remete para a distribuição e o racionamento de bens alimentares, acções de resposta a situações de precariedade e instabilidade social. Concebida durante o período da troika, esta peça evidencia um forte pendor político ao evocar a memória histórica das condições sociais e económicas precárias com que muitas famílias viviam em Portugal no início do século XX, comparando-as com as verificadas um século depois, numa sociedade global marcada por grandes clivagens na divisão da riqueza.

Uma das salas tem as paredes revestidas por trabalhos gráficos maioritariamente de produção recente, apresentando-se ao público como verdadeiros murais que testemunham as indagações e o modus operandi da artista. Obras como “Celas”, “Paisagens Pedonais Noturnas” ou “Escape from Reality”, resultam da observação atenta, perscrutadora e muitas vezes irónica do que a rodeia, e de um sistemático trabalho de recolha de dispositivos de comunicação que são depois intervencionados e reinterpretados. No decurso da visita somos igualmente confrontados, através das obras expostas nas paredes e em mesas-vitrina, quer com a multiplicidade de meios com que Carla Filipe desenvolve as suas pesquisas, quer com os seus processos subjetivos de “trabalho de campo”. Na série “Bordas de Alguidar”, por exemplo, Carla Filipe reutiliza o grafismo de revistas de sátira política criadas no final do século XIX por Rafael Bordalo Pinheiro, transpondo todo um universo crítico e caricatural para a realidade portuguesa do século XXI. Ao Zé Povinho bordaliano juntam-se agora novas personagens do meio político nacional e internacional, protagonistas na governação de um Portugal com dificuldades em incrementar os seus sectores produtivos e em investir em áreas como a educação e a cultura.

Numa outra sala são apresentadas obras de várias cronologias que, mais uma vez, traduzem a atitude não passiva de Carla Filipe perante a sua pulsão de arquivo. Entre outros, os trabalhos das séries “Falar das coisas como elas são”, “Trabalho”, “Introdução à Economia” e “Mastigar papel mastigado e cuspir o velho continente”, resultam de uma reflexão sobre a relação subjectiva que todos temos com os testemunhos visuais da sociedade de hoje e sobre o poder da imagem e da palavra nos processos individuais ou coletivos de construção, fixação e manipulação da memória e da identidade. Na última sala da exposição são apresentadas as obras das séries “Família” e “Ser pós-moderno em Portugal”, de foro mais íntimo, onde se incluem registos soltos ou cadernos gráficos que revelam a génese de um contínuo trabalho marcado pela importância da expressão primária do desenho e da sua relação com a palavra. Aqui, podemos ver em potência e em síntese tudo o que é apresentado ao longo da exposição, tornando-se evidente como as experiências pessoais e a realidade quotidiana — a família, os amigos, a rua, a própria arte — são para a artista a matéria-prima que deve ser colectada, arquivada, registada e interpretada para, depois, se reinventar em novas imagens, textos e objectos.

[Texto composto a partir do Roteiro da Exposição]