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terça-feira, 27 de janeiro de 2026

EXPOSIÇÃO: “Fun ist ein Stahlbad” | Anne Imhof



EXPOSIÇÃO: “Fun ist ein Stahlbad”,
de Anne Imhof
Curadoria | Inês Grosso
Museu e Parque de Serralves
12 Dez 2025 > 19 Abr 2026


“Fun ist ein Stahlbad” marca a primeira apresentação de Anne Imhof em Portugal e afirma-se como uma exposição de contenção e tensão, com tanto de silenciosa como de espectacular. Concebida maioritariamente para o espaço de Serralves, a mostra parte da célebre formulação de Adorno — “o divertimento é um banho de aço” — para interrogar a proximidade entre lazer, disciplina e controlo na contemporaneidade. A artista apropria-se dessa crítica à indústria cultural e actualiza-a num presente dominado pela aceleração, pela economia da atenção e pela promessa ilusória de liberdade. Desde o início do percurso, o visitante é confrontado com espaços que suspendem o tempo e corpos que não se movem, criando uma atmosfera de inquietação difusa que espelha um mundo saturado de estímulos e, paradoxalmente, esvaziado de escolha real. Imhof não denuncia de forma panfletária; constrói antes um campo de forças onde a sensação de autonomia convive com a internalização de rotinas, normas e expectativas. A exposição propõe-se assim como uma reflexão crítica sobre o modo como o entretenimento, longe de funcionar como pausa, se tornou a continuação do trabalho por outros meios.

No centro simbólico da exposição está “Stahlbad” (2025), uma piscina vazia em ferro negro instalada no exterior do museu. Privada de água e de qualquer possibilidade de uso, a escultura funciona como um negativo do imaginário moderno do lazer. A forma permanece, mas a função desaparece, transformando a piscina num corpo pesado e severo, mais próximo de um vestígio arqueológico do que de um equipamento recreativo. A obra convoca tanto a memória das piscinas públicas do pós-guerra europeu, ligadas a ideais de racionalidade e bem-estar colectivo, como de imagens de infra-estruturas abandonadas, promessas falhadas de progresso. A referência ao “banho de aço” adquire aqui densidade material e aquilo que prometia revitalização converte-se em endurecimento. Esta lógica prolonga-se na plataforma de saltos instalada no interior do museu, inspirada na piscina abandonada de Pripyat, em Chernobyl. Subida, impulso e mergulho são apenas imaginados, nunca realizados. O corpo é convocado, mas mantido em suspensão. Entre piscina e torre, Imhof constrói um sistema fechado onde o gesto previsto não acontece, expondo a falência da promessa de recreação.

Esse vocabulário de estruturas subtraídas ao uso estende-se a “Arena” (2025), composta por barreiras metálicas que desenham um anel fechado logo à entrada. Reconhecíveis do espaço público - concertos, eventos, controlo de multidões -, estas estruturas transportam consigo uma lógica disciplinar mesmo quando desligadas da sua função original. O visitante ajusta o corpo, mede distâncias, regula a velocidade: a experiência torna-se física antes de ser conceptual. Piscina, plataforma e arena formam um tríptico rigoroso que trabalha a profundidade, o impulso e a circulação, sem permitir a sua realização plena. Entre estas esculturas surgem relevos em bronze com corpos andróginos, presos à parede, e um conjunto de pinturas atmosféricas que introduzem outro ritmo no percurso. Ondas, explosões e superfícies líquidas surgem suspensas, como acontecimentos interrompidos. Estas obras aliviam o peso da matéria, mas não oferecem redenção; mantêm-se, tal como as esculturas, num tempo intermédio, melancólico, onde a energia permanece latente e o devir não se cumpre.

O percurso culmina com “Citizen”, filme que prolonga a performance “Doom – House of Hope” e introduz corpos em movimento num espaço que parecia até então dominado pela imobilidade. Aqui, dança, canto e fala surgem como gestos de resistência num enquadramento que expõe, subtilmente, os mecanismos de visibilidade e exclusão próprios da cultura contemporânea. A promessa de acesso universal revela-se condicionada por arquitecturas físicas e simbólicas que filtram e hierarquizam. A crítica de Adorno ressoa com particular nitidez: o lazer tornou-se produtivo, mensurável, optimizado. O “banho de aço” já não é choque, mas atmosfera. Sem recorrer ao excesso visual que marcou outros momentos do seu percurso, Imhof apresenta em Serralves uma exposição depurada, quase austera, que testa os limites da ideia de liberdade num mundo onde o entretenimento opera segundo a mesma lógica do trabalho. Não há facilidades nem consolo, mas há insistência. Entre formas duras e corpos obstinados, “Fun ist ein Stahlbad” deixa em aberto a possibilidade de outro tempo. Frágil, sem brilho, mas ainda assim objecto de reflexão.


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