A retrospectiva “Wrong Answers”, patente no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, confirma aquilo que há muito distingue Jenny Holzer no panorama da arte contemporânea: a capacidade de transformar a linguagem num campo de batalha. Desde finais da década de setenta que a artista desloca as palavras do território confortável da leitura para o espaço físico, obrigando-as a disputar a nossa atenção em cartazes, painéis electrónicos, bancos de pedra ou projecções monumentais. Contudo, a exposição não se limita a revisitar esse percurso; propõe antes uma leitura sombria do presente, marcada pela erosão da confiança na linguagem. Se os célebres “Truisms” nasceram para desmontar lugares-comuns e expor a fragilidade das certezas ideológicas, hoje essas mesmas frases regressam a um mundo onde a circulação incessante da informação já não esclarece, antes obscurece. A exposição revela uma artista que compreendeu cedo que o poder político reside tanto naquilo que se diz como naquilo que se omite. Em Serralves, essa intuição ganha uma actualidade inquietante: censura, manipulação, desinformação e automatização da palavra surgem como sintomas de uma cultura em que a velocidade da comunicação anulou grande parte da sua capacidade de significar. Jenny Holzer não oferece respostas; limita-se, como sempre fez, a colocar a linguagem diante de si própria, revelando as suas contradições e a violência silenciosa que frequentemente encerra.
A montagem acentua essa leitura ao construir um percurso onde a palavra parece atravessar sucessivos estados de degradação. Os textos gravados na pedra evocam permanência e memória, enquanto os LED robotizados introduzem uma instabilidade quase nervosa, como se a linguagem tivesse perdido definitivamente qualquer possibilidade de repouso. Particularmente impressiva é a instalação em que mensagens de Donald Trump dialogam com reformulações produzidas por inteligência artificial. Mais do que um comentário circunstancial à política norte-americana, trata-se de uma reflexão sobre o modo como a tecnologia amplifica discursos até estes perderem qualquer referente humano. O efeito é profundamente desconfortável: a repetição incessante, o movimento mecânico e o ruído dos dispositivos convertem a leitura numa experiência física de saturação. Também as pinturas realizadas a partir de documentos censurados recusam qualquer sedução formal desligada do seu conteúdo. A beleza das superfícies convive com o apagamento deliberado da informação, lembrando que toda a censura produz uma imagem tão eloquente quanto o texto que pretende ocultar. Mesmo a colaboração com Kilos evita o gesto decorativo; o graffiti recupera a dimensão urbana que sempre pertenceu ao trabalho de Jenny Holzer, devolvendo-o ao espaço de conflito de onde originalmente emergiu.
O momento mais perturbador da exposição encontra-se, porém, na relação entre corpo e linguagem. “Bone Works” recorda que há experiências — a guerra, a tortura, a violência sexual — que resistem a qualquer elaboração discursiva. Quando a artista envolve ossos humanos com fragmentos de texto, reconhece simultaneamente a insuficiência e a necessidade da palavra. É precisamente nessa tensão que reside a força da sua obra. Num tempo em que tantos artistas recorrem à inteligência artificial como demonstração de novidade tecnológica, Jenny Holzer utiliza-a para denunciar a degradação contemporânea do discurso público, preservando intacta a dimensão ética do seu trabalho. Talvez seja esse o aspecto mais relevante desta exposição: não celebra a linguagem, nem lamenta nostalgicamente a sua perda; confronta-nos antes com a responsabilidade de continuar a ler criticamente quando tudo parece concebido para impedir a leitura. “Wrong Answers” demonstra que a obra de Jenny Holzer permanece extraordinariamente actual não porque antecipa o presente, mas porque insiste em recordar que nenhuma sociedade democrática subsiste quando as palavras deixam de possuir peso, memória e responsabilidade. Em Serralves, essa lição adquire uma clareza rara, fazendo desta exposição um dos acontecimentos imperdíveis deste Verão.