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quarta-feira, 16 de abril de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: Zanele Muholi



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: Zanele Muholi
Curadoria | Inês Grosso, Filipa Loureiro
Museu de Arte Contemporânea de Serralves
10 Abr > 12 Out 2025


“Ao exagerar a escuridão do meu tom de pele, estou a reclamar a minha negritude, que sinto ser constantemente representada pelo outro privilegiado. A minha realidade é que não imito essa negritude; é a minha pele, e a experiência de ser negra está profundamente enraizada em mim. Nós estamos aqui; temos as nossas próprias vozes; temos as nossas próprias vidas.”
Zanele Muholi

Zanele Muholi, activista visual e artista da África do Sul, retrata nas suas obras as vidas e experiências de pessoas negras LGBTQIA+ (Lésbica, Gay, Bissexual, Transgénero, Queer, Intersexo, Agénero, Assexual), tanto no seu país natal como em várias partes do mundo. Através da fotografia, e ao longo de vários anos, Muholi tem-se dedicado a dar visibilidade a comunidades frequentemente sub-representadas ou mal compreendidas, revelando as injustiças sociais e políticas a que estão sujeitas. Ao colocar as vivências e as lutas destas comunidades no centro da sua prática artística, Muholi transcende o simples registo visual ou documental, questionando, inspirando e reivindicando o espaço que estas comunidades merecem no panorama global da arte e da sociedade. Além de retratar histórias de luta e resiliência, Muholi serve-se da câmara para criar autorretratos que exploram questões de raça e a força do olhar negro, entre os quais se destaca a célebre série “Somnyama Ngonyama” (“Viva a Leoa Negra”), que catapultou a sua obra para o reconhecimento internacional.

A exposição, organizada cronologicamente e estruturada em núcleos temáticos, acompanha o percurso de Muholi desde que começou a sua actuação como ativista, no início de 2000, até à actualidade. Com mais de duzentas fotografias, representa a maior retrospectiva da sua trajectória até ao momento e assinala a primeira grande apresentação da sua obra em Portugal. Além de oferecer uma visão abrangente da prática de Muholi, a exposição revisita momentos marcantes da história da África do Sul, desde os anos sombrios do apartheid até à luta contínua pela igualdade e pelos direitos humanos. Em Portugal, onde o legado colonial continua profundamente enraizado na sociedade, esta mostra oferece uma oportunidade única para uma reflexão crítica sobre as implicações históricas e culturais da discriminação e opressão, enquanto nos lembra da urgência de debater questões como a identidade de género e cultural, a memória e a justiça social.

Muholi nasceu em 1972 e cresceu sob o regime do apartheid, um sistema político e social de segregação racial que garantiu o domínio da minoria branca sobre a maioria negra. Formalmente institucionalizado em 1948 pelo Partido Nacional, além de impor a segregação racial, este regime perpetuava discriminações de género e orientação sexual. Embora o apartheid tenha terminado oficialmente em 1994, com a transição democrática liderada por Nelson Mandela, e a Constituição de 1996 tenha sido um passo significativo ao proibir a discriminação baseada na orientação sexual, a comunidade LGBTQIA+ sul-africana continua a ser vítima de preconceito, crimes de ódio e violência de forma reiterada. Zanele Muholi é uma voz incontornável na arte contemporânea e no ativismo social. A sua obra combate de forma ativa o preconceito e a discriminação e convida-nos a refletir sobre a urgência de uma sociedade mais inclusiva e equitativa, inspirando novas perspectivas e diálogos necessários em matéria de igualdade, resistência e humanidade.


sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Together in Our Spirits"



EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Together in Our Spirits”,
de Oscar Murillo
Curadoria | Inês Grosso, Filipa Loureiro
Museu de Arte Contemporânea de Serralves
30 Nov 2023 > 26 Mai 2024


“Gesto poético em prol do colectivo”. É desta forma que Oscar Murillo considera “Together in Our Spirits”, mostra de pintura e instalação que oferece um vislumbre de como uma exploração multifacetada de temas como a colectividade, a comunidade, os rituais e a espiritualidade, acompanhados de considerações sobre a desigualdade social, a globalização e as tensões geopolíticas, se revela na obra do artista. Primeira exposição numa instituição museológica em Portugal, a mostra abre com uma coleção de esculturas que podem ser vestidas, intitulada “Arepas y Tamales”. Estas esculturas têm a sua origem num dos projetos mais ambiciosos e inovadores do artista até à data, “Frequencies”, que parte da visita a escolas em cujas mesas das salas de aula são fixadas telas cruas que os alunos irão marcar, consciente ou inconscientemente, ao longo de seis meses. Produzidas em escolas portuguesas durante os meses que precederam a exposição, as telas de “Frequencies” mostram-se aqui em grandes mesas que o visitante é convidado a explorar.

O conjunto encontra-se rodeado por pinturas de grandes dimensões da série “Disrupted Frequencies”, criadas a partir da intervenção nas peças de “Frequencies”, através da selecção de exemplares que são cosidos uns aos outros, sobrepondo-lhes marcas fortes criadas com barra de óleo. Em conjunto, estes trabalhos subvertem ou interferem com o projecto intelectual do arquivo: em vez de apresentar amostras cuidadosamente ordenadas e conservadas que se reivindicam como portadoras de uma verdade superior, o artista opta pela colisão de energias de diferentes contextos geográficos, sociais e culturais. Num outro espaço, Murillo apresenta três conjuntos de obras muito diferentes, que combinam elementos pictóricos e escultóricos. Penduradas nas paredes estão três novas pinturas de grandes dimensões da série “Surge”, as quais, suspensas de ganchos metálicos, adquirem uma qualidade escultórica. O seu subtítulo, «cataratas sociais», alude à progressiva perda de claridade ou escuridão provocada por esta doença degenerativa e à ideia de “cataratas sociais”, consequência da nossa falta de consciência ou sensibilidade para questões de ordem social e política.

Exemplares de menores dimensões das pinturas são apresentados numa instalação que ocupa o centro do espaço e que tem como título “Mesmerizing Beauty”. A instalação consiste em peças emolduradas realizadas sobre papel e montadas em suportes de madeira presos a cadeiras de jardim de plástico branco. Estas cadeiras foram utilizadas repetidamente por Murillo em vários trabalhos e performances, sendo reconhecíveis como peças de mobiliário populares e económicas em muitos países. Sugerem reuniões de família ou comunitárias e, para Murillo, têm fortes conotações com algo descartável, fazendo referência à natureza transitória dos encontros. Juntas, congregam-se em torno do vídeo do artista, “Collision of Intent”, projectado na parede do fundo da sala. Para Murillo, a história desta obra demonstra o seu interesse na contextualização da cultura e no famoso mural de Diego Rivera para o Rockefeller Center, que não chegou a ser exposto.

Na Capela da Casa de Serralves, Murillo apresenta dois trabalhos site-specific. O primeiro é uma nova pintura da sua série “Manifestation”, vista como “um confronto com o Eu”, que se relaciona com lugares de culto enquanto sítios de introspecção e, nalgumas tradições, de culpa e auto-condenação, bem como lugares intimamente ligados à história da arte. O segundo trabalho é uma peça da série “Telegram”, mais um ramo evolutivo que deriva do projeto colaborativo de longo termo do artista, “Frequencies”. Murillo interagiu com estas telas de diversas formas ao longo dos anos, considerando-as “dispositivos de registo” das energias de diferentes indivíduos e espaços geográficos. Para a série Telegram, Murillo intervém numa tela individual de cada vez, como que “sintonizando” ou interceptando informações que estão a ser transmitidas. Através desta íntima interacção, Murillo continua a explorar o quadro conceptual que está na raiz do projecto e cujo título sugere ideias de colaboração e ligação entre os indivíduos à distância.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

EXPOSIÇÃO: “Onde o Sol e a Água Doce se Encontram e as Árvores Sinuosas Filtram o Sol”



EXPOSIÇÃO: “Onde o Sol e a Água Doce se Encontram e as Árvores Sinuosas Filtram o Sol”,
de Kapwani Kiwanga
Curadoria | Filipa Loureiro
Museu de Arte Contemporânea de Serralves
24 Nov 2023 > 02 Jun 2024


O Museu de Arte Contemporânea de Serralves apresenta “Onde o Sol e a Água Doce se Encontram e as Árvores Sinuosas Filtram o Sol”, exposição da artista canadiana e francesa Kapwani Kiwanga, a primeira exposição individual da artista em Portugal. Kapwani Kiwanga tornou-se, nos últimos anos, uma conceituada figura no panorama internacional da arte contemporânea. A sua prática artística, iniciada em meados da década de 2000, assenta numa extensa investigação no âmbito das ciências humanas e sociais e abrange instalações complexas, esculturas, vídeos e performances. Em 2024, será ela a representante do Canadá na sexagésima edição da Bienal de Veneza. O trabalho de Kiwanga debruça-se sobre questões que envolvem desequilíbrios de poder históricos e contemporâneos e uma parte considerável da sua obra aborda os efeitos prevalentes destas assimetrias, colocando narrativas históricas em diálogo com as realidades contemporâneas, o arquivo e as possibilidades do futuro.

Para esta exposição, Kapwani Kiwanga criou uma instalação envolvente de grande escala com cerca de 14.000 metros de cordas de algodão coloridas e vibrantes. A luz natural proveniente da clarabóia e da imponente janela que marca o espaço arquitectónico da galeria assume o seu lugar nesta intrincada estrutura de várias camadas, onde a sobreposição e a transparência são elementos essenciais da instalação. A exposição contempla ainda uma escultura de grande dimensão do projeto em desenvolvimento “The Worlds We Tell: Threshold”, instalada no piso térreo da sala, e um conjunto de quatro novos painéis em cerâmica encomendados para esta exposição. Através destas peças, o espectador é convidado a reconsiderar as noções passadas e atuais de centro e periferia e a imaginar estruturas transculturais alternativas para um futuro sentido de pertença, ideias que percorrem o ADN da artista e que se reconhecem no projecto que agora apresenta em Serralves.

Ao considerar a importância do lugar no desenvolvimento dos projetos de Kiwanga, não podemos ignorar o Porto. A cidade deve o seu desenvolvimento à relação secular com o rio, o mar e, naturalmente, com as indústrias que lhe estão associadas, em particular a construção naval e a cordoaria. O algodão — material predominante nesta instalação, cujo fio foi entrançado em corda segundo saberes e práticas ancestrais — foi um dos produtos mais cobiçados nas transações coloniais. O mar serviu como palco destas trocas, mas também é arquivo e testemunha de passados violentos. Sob as linhas de cordas que se estendem das paredes, vemos um conjunto de novos relevos em cerâmica. Produzida em azulejo português, esta nova série de relevos reconhece a importância do material usado, o azulejo, e reflete as influências culturais, sociais e económicas que estão inextricavelmente ligadas à história de Portugal. A elipse é aqui a forma geométrica dominante, num encontro entre diferentes campos que se interseptam e outros mundos que partilham a mesma estrutura.

Descendo ao piso inferior da galeria, o visitante é confrontado com uma imagem que se desmultiplica em camadas, emoldurada por uma escultura de painéis de madeira coloridos. Três esferas feitas de madeira de figueira acentuam esta composição geométrica linear abstracta. Uma linha cerâmica de vidrado claro, que divide longitudinalmente a instalação em duas metades, simboliza a separação dos mundos material e espiritual. A argila branca é frequentemente associada à morte. À medida que o observador percorre a escultura de grande formato, a orientação e a ordem desta imagem do mundo — acima e abaixo, escuridão e luz — tornam-se uma questão de perspectiva e posicionamento. Em diálogo directo com a grande janela que domina o espaço, esta escultura estabelece uma ligação envolvente com a natureza e a paisagem do Parque de Serralves, que este ano celebra o seu centenário. “Onde o Sol e a Água Doce se Encontram e as Árvores Sinuosas Filtram o Sol” envolve de forma poética a história social e as narrativas culturais que moldam não só as nossas formas de ver o mundo, mas também o modo como as estruturamos.


sábado, 27 de janeiro de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Dançando com a Minha Câmara”



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Dançando com a Minha Câmara”,
de Dayanita Singh
Curadoria | Inês Grosso, Filipa Loureiro
Museu de Serralves
17 Nov 2023 > 03 Mar 2024


O trabalho que Dayanita Singh desenvolveu ao longo de quatro décadas distingue-se por uma abordagem à fotografia que desafia os vários géneros do meio, estimulando constantemente os seus limites. “Dançando com a Minha Câmara”, a mais importante exposição dedicada à artista até à data, abrange a totalidade da sua obra, desde o primeiro projeto fotográfico centrado no universo musical do percussionista Zakir Hussain, até aos trabalhos mais recentes, entre os quais “Veremos”, de 2021, inspirado no formato da prova de contacto. Esta exposição patente agora no Museu de Serralves é um testemunho da originalidade relativamente à forma que define o trabalho de Singh, destacando também a visão singular da artista em relação a temas como o arquivo, o desaparecimento, a música, a dança, a arquitetura, o género e a amizade. Através de um processo de edição singular que privilegia a intuição, a artista recorre a imagens dos seus arquivos que depois combina e reinterpreta, dando origem a composições temporárias onde se cruzam fluidamente vários períodos, lugares, figuras, arquiteturas, objetos e motivos.

Singh é particularmente reconhecida pelos livros, que constituem uma parte essencial da sua prática. Considera-os espaços de exposição por direito próprio. Neste contexto, experimenta diferentes formas de apresentação fotográfica motivada pelo seu interesse na capacidade de circulação do livro no tempo e no espaço, e na relação privilegiada e íntima que estabelece com o leitor. Desde 2004, tem vindo a colaborar estreitamente com a prestigiada editora alemã, Steidl. Os seus “livros-objeto” aparecem frequentemente nas exposições da artista. No início da década de 2010, Singh começou a incorporar as imagens em estruturas móveis de madeira - que descreve como “foto-arquitetura” -, permitindo-lhe explorar ao máximo o potencial de uma concepção de fotografia baseada na montagem e nas possibilidades narrativas proporcionadas pela justaposição de imagens. Estas estruturas podem ser organizadas em diferentes disposições, permitindo uma rápida reorganização da composição das imagens e do espaço e convidando os espectadores a movimentarem-se livremente - ou a “dançarem” – em seu redor para experimentarem as imagens.

A primeira galeria da exposição é dedicada a noções intimamente ligadas ao meio fotográfico: o arquivo e a memória, o desaparecimento e a extinção, a edição e a circulação de imagens. “File Museum” (2012), o primeiro dos “museus” concebidos pela artista, reúne imagens que retratam arquivos de várias categorias na Índia, fotografados em diferentes contextos. Destas imagens emerge uma relação sensível, quase “táctil” com estes lugares e objetos - aquilo que o romancista Orhan Pamuk descreve como a “textura do tempo”, num texto sobre a obra de Singh. Concebido posteriormente, o “Museum of Chance” (2013) representa, para a artista, a “mãe de todos os museus,” na medida em que poderia potencialmente conter todos os seus outros museus. Tendo uma escala maior e um número significativamente superior de imagens, distingue-se, sobretudo, pela heterogeneidade das fotografias que o compõem e que se relacionam com a música, a dança, o cinema, os locais de trabalho ou de habitação, bem como imagens pessoais da artista ou de pessoas que conheceu.

As obras apresentadas na segunda galeria da exposição refletem o interesse por processos de desaparecimento e extinção. A questão da perda está no centro de “Museum of Shedding” (2016), que reúne imagens caracterizadas por uma ausência, um vazio, uma “beleza austera e reduzida.” Um outro grupo de obras nesta galeria evidencia o olhar sensível de Singh para a arquitetura e os espaços de habitação. Cada uma das obras da série “Architectural Montages” (2019-21) coloca em diálogo pelo menos duas imagens e, por extensão, duas arquiteturas, duas temporalidades, duas geografias, como se criasse passagens entre elas. A montagem é feita através de um método “analógico,” cortando e sobrepondo à mão imagens existentes a partir de fotografias tiradas em vários locais à volta do globo. No centro da galeria encontra-se um dos mais recentes “museus” da artista, “Museum of Tanpura” (2021) remetendo para um instrumento de cordas cuja forma lembra a da conhecida cítara e que é uma componente essencial da música clássica indiana.

A música ocupa, desde o início, um papel central na obra de Dayanita Singh, como motivo e tema, mas também através de certas ligações formais que estabelece entre a música e a fotografia, em torno de noções de tons, temporalidades, ritmos, ou mesmo estados de espírito ou silêncio. O livro “Zakir Hussain: A Photo Essay” (1986), o primeiro projeto de fotografia de Singh, é o resultado de um encontro inevitável entre Singh e o famoso percussionista indiano Zakir Hussain. Os trabalhos em torno do tema da música é complementado pela obra “Musician’s Bus” (2021) composto por imagens de músicos em digressão, acentuando a intimidade dos laços que se formam entre eles e os diferentes “estados de espírito”. Na mesma galeria, “Let’s See” (2021) explora a profusão de personagens, corpos, ações, movimentos, contactos e relações. A exposição termina com um conjunto de obras dedicadas à amiga íntima da artista: Mona Ahmed, que Singh descreveu como a pessoa mais singular que alguma vez conheceu. O “Museum of Dance” (2021) é uma homenagem tanto a Mona como à dança, com a qual Singh compara frequentemente a sua prática fotográfica, como sugere o título da exposição.

[Texto extraído do Roteiro da Exposição, em https://cdn.bndlyr.com/nsa343pdfl/_assets/2311_dayanita_roteiro_site.pdf]