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sábado, 3 de janeiro de 2026

EXPOSIÇÃO: “Sussurro” | Maurizio Cattelan



EXPOSIÇÃO: “Sussurro”,
de Maurizio Cattelan
Curadoria | Philippe Vergne
Museu de Arte Contemporânea de Serralves
04 Jul 2025 > 18 Jan 2026


Maurizio Cattelan, um dos artistas mais provocadores e influentes da arte contemporânea desde os anos 1990, apresenta em Serralves a retrospetiva “Sussurro”, uma exposição que ocupa esse notável expoente da Art Déco que é a Casa de Serralves e se estende aos espaços do Parque. Nascido em Pádua, em 1960, Cattelan construiu uma obra marcada tanto pelo humor e pela ironia, quanto pela apropriação de imagens simbólicas amplamente reconhecíveis. Em “Sussurro”, o artista propõe um percurso que cruza arte, arquitectura e paisagem, explorando momentos de transição entre a infância e a idade adulta, a vida e a morte, o riso e a tragédia, que se tornam centrais na sua iconografia. As obras seleccionadas revelam o seu interesse pelos traumas da História e pela fragilidade dos sistemas de poder, transformando episódios suspensos e ambíguos em imagens icónicas, passíveis de gerar desconforto e empatia em simultâneo. O visitante é conduzido por cenários cuidadosamente encenados, onde nada é neutro: o espaço, o enquadramento e a ordem das obras são parte essencial da narrativa construída pelo artista.

A exposição assume uma lógica quase teatral, composta por breves momentos encenados, habitadas por figuras históricas, autorretratos, animais e personagens da cultura popular. Logo à entrada, os cavalos suspensos de “Novecento” anunciam um presságio de queda e desintegração, subvertendo símbolos tradicionais de poder e glória. Ao longo do percurso surgem obras emblemáticas como “All”, “La Nona Ora” e “Him”, nas quais Cattelan aborda a vulnerabilidade da autoridade, a memória do mal e a persistência do trauma histórico. “Sem título”, réplica em escala reduzida da Capela Sistina, dialoga com a tradição da cópia enquanto transmissão de conhecimento. “Comedian”, a famosa banana colada à parede, surge como um ponto de ruptura: mais do que objecto, a obra afirma-se como evento, gesto conceptual e fenómeno mediático. Esta peça consolidou Cattelan como um criador que compreende profundamente os mecanismos do espectáculo, da circulação de imagens e da controvérsia, transformando o debate público em parte integrante da obra.

No exterior, o Parque de Serralves prolonga esta reflexão com esculturas que cruzam humor, melancolia e crítica social, como o Pinóquio afogado de “Daddy Daddy” ou a mão obscena de “L.O.V.E.”, símbolo ambíguo de protesto e poder. Apesar de trabalhar sobretudo com escultura, Cattelan afirma-se acima de tudo como um criador de imagens: figuras que habitam a fronteira entre representação e imitação, extraídas de um vasto arquivo colectivo que inclui a história da arte, a religião, o cinema e a cultura de massas. Tal como nas “Tentações de Santo Antão” de Bosch, evocadas como paralelo curatorial, “Sussurro” constrói um espectáculo do grotesco e do absurdo, onde o riso funciona como resposta ao mal-estar contemporâneo. As imagens de Cattelan são intrusivas, desconfortáveis e memoráveis, obrigando o público a confrontar-se com os seus próprios tabus. No fim, o sussurro de Cattelan revela-se tudo menos discreto: é um eco persistente da nossa relação ambígua com a História, o poder e a própria Humanidade. Para ver só até ao próximo dia 18 de Janeiro.


segunda-feira, 28 de agosto de 2023

EXPOSIÇÃO DE ESCULTURA E PINTURA: "Alexander Calder, Uma Linha de Equilíbrio"


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EXPOSIÇÃO DE PINTURA E ESCULTURA: “Alexander Calder, Uma Linha de Equilíbrio”
Curadoria | Philippe Vergne
Casa e Parque de Serralves
22 Jun 2023 > 19 Mai 2024


No Museu de Arte Contemporânea de Serralves está patente a exposição “Alexander Calder, Uma Linha de Equilibrio”, dedicada a um dos mais influentes escultores do século XX. Distribuídas entre o espaço da Casa de Serralves e o Parque, as obras ilustram a visão singular do artista ao longo das suas cinco décadas de envolvimento com a forma abstracta. A exposição apresenta algumas das peças mais importantes do escultor, criadas durante a sua estadia em Paris, feitas em arame e produzidas ao mesmo tempo que as figuras do famoso “Circo Calder”, bem como um importante grupo de móbiles da década de 1940. No ano em que se comemora o centenário do Parque de Serralves, a mostra inclui ainda quatro esculturas monumentais de Calder, dispostas nos jardins em vários locais. Fazendo uso da linguagem da abstracção, Alexander Calder deixou-se fascinar, ao longo da sua carreira, pelo potencial cinético da arte e captou o movimento através de uma série de estruturas que se apresentavam como alternativas radicais às noções tradicionais de escultura da época e que tiveram um impacto profundo na história da arte do século XX. “Uma Linha de Equilíbrio” revela o desejo do artista de criar uma arte que ressoasse com a vida, através de um envolvimento constante com a força da gravidade, a circulação do ar e o jogo do acaso.

Alexander Calder começou a sua carreira como pintor e rapidamente desenvolveu uma paixão pelos guaches, aprofundando esta técnica nos anos 1930, enquanto vivia em Paris. Preferia guache porque secava rapidamente e tinha uma pronunciada opacidade. A facilidade com que podia trabalhar com este meio atraiu-o, permitindo-lhe combinar o seu gosto pelo desenho e o seu olho para a cor. Os seus guaches revelam um domínio da linha, um equilíbrio de composição e uma preferência pelas cores primárias. Nesta exposição, as obras “Composition”, “White Spiral”, “Pointes” e “Cercles”, denotam a mesma angularidade e cinetismo que iremos encontrar nas suas esculturas. Na mesma sala, o visitante pode observar a obra “Yellow Panel”, pintura em relevo que dá continuidade à investigação do artista acerca da integração pintura / escultura, cinética e do enquadramento de formas tridimensionais num quadro espacial. No chão, somos confrontados com uma peça singular, “Requin et Baleine”, duas peças de diferentes tipos de formas de madeira, um conjunto frágil e ténue que ilustra a atenção que Calder dispensa ao movimento e testemunha o gosto pelo primitivismo, reavivado aqui pelos seus contactos com o surrealismo.

A exposição é pontuada por obras da série “Constelações”, iniciada em 1943, cujo título reflete a influência de Marcel Duchamp e do crítico James Johnson Sweeney. Alexander Calder produziu um grupo de móbiles suspensos e móbiles em pé (stabiles) em madeira e arame que, décadas mais tarde, em 1971, relacionou com as “Constelaciones” de Joan Miró, uma série de vinte e três pinturas a guache e têmpera realizadas entre 1940 e 1941, que Calder viu em 1944 quando foram expostas em Nova Iorque. Calder concebeu esta série, expandindo o seu interesse pela física do mundo natural. As “Constelações”, criadas durante a escassez de metal em tempo de guerra, eram feitas através da anexação de formas de madeira esculpidas à mão, algumas lisas, outras pintadas, às extremidades de fios de aço rígidos. Calder criou, aproximadamente, vinte e nove constelações nesta altura, cujas estruturas variam consideravelmente. O átrio do piso inferior é dominado pela presença de “Les Boucliers”, 1944. O visitante pode passear em torno da obra, composta por uma constelação de grandes elementos de chapa metálica preta, de tamanho variável e formas ligeiramente ameaçadoras, na sua maioria rombóides alongados, que têm o potencial de se sobreporem uns aos outros à medida que giram a partir de um complexo sistema de hastes interligadas, equilibradas num tripé.

Na sala hexagonal, é exposto um grupo de três delicados móbiles — “Fish Bones”, “Mobile, 1949” e “Mobile, 1955” —, confrontando o visitante com o seu movimento e a visão para o espaço exterior. A exposição abre-se para o Parque de Serralves, onde estão patentes quatro importantes obras de exterior. Calder dedicou-se também à realização deste tipo de esculturas em grande escala, em chapa de aço aparafusada. Na década de 1950, o reconhecimento internacional de Calder aumentou significativamente, permitindo-lhe expandir os seus estúdios nos Estados Unidos e em França. Como resultado, foi capaz de criar os seus móbiles e stabiles numa escala monumental e que hoje adornam praças públicas em cidades de todo o mundo. No Parque de Serralves, podemos ver três stabiles importantes: “Les Trois Ailes”, “Guillotine pour Huit” e “Nageoire”, bem como “Horizontal”, um monumental móbil assente no chão. Este último é constituído por uma secção de suporte fixa com uma estrutura móvel no topo. Cinco lâminas rebitadas são movidas por correntes de ar, conferindo à peça a componente lúdica e otimista que é tão essencial à arte de Calder, ao mesmo tempo que produz um contraste espontâneo entre a solidez estética industrial da base e a variabilidade da parte superior.

[Texto composto a partir do Roteiro da Exposição]

domingo, 20 de novembro de 2022

EXPOSIÇÃO: "Chegar Sem Partir" | Rui Chafes


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EXPOSIÇÃO: “Chegar Sem Partir”,
de Rui Chafes
Curadoria | Philippe Vergne e Inês Grosso
Museu e Parque de Serralves
20 Jul 2022 > 05 Mar 2023


“O vazio é absoluto e só pode ser preenchido pela verdade (beleza), pela identidade e pela consciência do nada do próprio vazio. Só a forma e o vazio são universais. Tudo o mais é pó.”

Perseguindo o objectivo de promover e dinamizar a arte contemporânea nacional através da organização e produção de exposições monográficas com artistas portugueses de diferentes gerações e áreas de formação, o Museu de Serralves convidou o artista Rui Chafes para integrar a programação do segundo semestre de 2022 com uma grande exposição que se estende do interior do edifício projectado pelo arquitecto Álvaro Siza aos jardins exteriores. Com uma obra teórica conceptualmente ancorada nas premissas fundamentais do gótico tardio e do romantismo alemão, enriquecida pelas heranças universais de Marcel Duchamp, dos pós-minimalistas americanos e de artistas incontornáveis como Joseph Beuys, Chafes é um autor que se define por uma consistência e rigor incomuns, e que discretamente se tem mantido distante de tendências e preocupações politicamente intervencionistas. Amplamente representado na Coleção de Serralves, o artista tem sido uma presença regular na programação do Museu, participando de várias exposições no Porto, mas também nas instituições parceiras que integram o Programa Nacional de Itinerâncias da Fundação de Serralves.

“Chegar Sem Partir”, com curadoria de Philippe Vergne e Inês Grosso, em estreito diálogo com o artista, representa o culminar de anos de colaboração, assim como um pretexto para revisitar momentos marcantes do percurso de um dos mais relevantes escultores da atualidade. No período inicial da sua produção, e em particular no contexto das primeiras individuais organizadas pela Galeria LEO (1986 e 1987) e pelo Espaço Poligrupo / Renascença (1988), ambas em Lisboa, destacam-se as instalações temporárias realizadas com materiais banais e perecíveis, como o platex, ripas de madeira, troncos e canas. Estes trabalhos já anunciavam um dos aspetos centrais do que viria a ser a sua obra escultórica: a relação entre escultura, espaço e corpo. A partir de então dedica-se ao uso exclusivo do ferro, que posteriormente é polido e pintado a negro mate, fazendo desaparecer os vestígios e marcas da execução. Rui Chafes martela, solda e combina placas de ferro para criar famílias de objetos enigmáticos e misteriosos que, parafraseando o artista, são sombras ou uma espécie de negativo do mundo que encarcera e aprisiona o vazio, o silêncio absoluto: casulos, ninhos, insetos, couraças, máscaras ou peças de vestuário representam simultaneamente uma memória e uma pele que protegem e anunciam um corpo ausente.

Cobrindo mais de três décadas de atividade, a exposição inclui trabalhos da fase inicial da sua produção escultórica e um conjunto de obras especificamente pensadas para o Museu e Parque de Serralves. O título remete para a noção de ciclicidade do tempo, da repetição infinda de acontecimentos, lembrando que todos estamos sujeitos a esta circularidade, à vertigem abissal do eterno retorno. Do seu enunciado à sua materialização, este grupo de peças sugere sensações de estranhamento, tensão e angústia. Incisões que ferem e abalam as nossas crenças e certezas existenciais. No interior do edifício podemos encontrar uma sequência de momentos e ambientes, instalações tão mentais quanto sensoriais que colocam o corpo do espectador em confronto com o espaço e as obras e, em última instância, consigo mesmo. A exposição convoca conceitos e dualidades muito presentes na obra do artista, tais como, silêncio-vazio, presença- -ausência, escuro-frio, dor-sofrimento, pausa-movimento, memória-tempo, vida-morte.

“Sudário”, uma escultura de 2018 cujo título evoca a mortalha que envolveu o Corpo de Cristo, é a peça que primeiro recebe os visitantes. Suspensa no corredor, a poética espiritual e mística desta obra funciona como prólogo e epílogo. Uma vez na primeira sala, somos engolidos por uma escuridão profunda à medida que o silêncio e o vazio se impõem. Depois de uns minutos, quando os olhos se habituam, identificamos a presença espetral de cinco esculturas que pairam no ar como vultos de objetos cortantes. A partir daí, a exposição apresenta-nos um conjunto de obras significativas no percurso de Rui Chafes, nomeadamente “Burning In a Forbidden Sea”, acompanhada por uma composição sonora e texto da artista irlandesa Orla Barry que nos transporta para o ambiente de uma melodia mântrica ou ritual, uma evocação de práticas ancestrais que conjuga escultura, som e palavra. O diálogo e interação entre corpo, obras e espaço está também presente nas esculturas de menores dimensões, como as obras da série Cristal — máscaras que constrangem, enclausuram e torturam o corpo.

No hall do Museu, uma sequência de mais de vinte esculturas pertencentes à série Balthazar recorda-nos a paixão que o artista nutre pelo cinema, neste caso uma alusão a “Au Hasard Balthazar”, um dos filmes mais aclamados do cineasta francês Robert Bresson, que conta a história de um burro desde a sua infância bucólica, numa pacata aldeia dos Pirenéus, até à idade adulta como animal de carga oprimido. A obra recorda-nos os acessórios de equitação, entre eles cabeçadas e rédeas, dispostos em fileira como troféus numa alusão à nossa própria condição humana. A exposição prossegue nos jardins de Serralves, um passeio pelo Parque e pela carreira do artista que apresenta esculturas de diferentes períodos e outras criadas especificamente para este contexto — como é o caso de “Chegar Sem Partir”, a escultura de 6 metros que dá título à exposição. Neste caso, o artista cria a ilusão de um movimento de rotação, um vórtice centrípeto que propõe conceitos aparentemente dicotómicos: peso e solidez, fluidez e leveza. A obra teve como ponto de partida uma gravura do pintor e gravador japonês Katsushika Hokusai, na qual um grupo de viajantes é atingido por uma rajada repentina de vento, que leva chapéus e papéis pelos ares. Outra obra concebida para os jardins de Serralves, “Tu e Eu”, encontra afinidade com uma peça anterior, atualmente no Museu de Arte Contemporânea de Roma, e consiste em dois elementos verticais, de oito metros de altura encostados num improvável equilíbrio que nos lembra as varas de ferro sustentadas por bolas de golfe patentes no corredor do Museu.

Das obras instaladas nos jardins de Serralves, relevam-se ainda as peças “Comer o Coração” — que teve origem numa parceria entre o artista e a coreógrafa e bailarina Vera Mantero no âmbito da 26.ª Bienal de São Paulo (2004), um trabalho que convoca uma negociação entre escultura, corpo e performance e tem a Casa de Serralves como pano de fundo — e “Volúpia Prudente, Indómita Fome” que, totalmente camuflada nos jardins, envolve o tronco de uma árvore como uma armadura ou carapaça. Por último, no âmbito desta exposição, é inaugurada ainda uma escultura subterrânea intitulada “Travessia”, um projeto especialmente pensado para o Passeio da Levada que amplia a área de visitação do Parque. Evocando as ideias de peregrinação e de renovação mística, o artista convida-nos a percorrer um trilho sinuoso, um túnel escuro que termina numa câmara central iluminada por raios de luz natural que são até ali conduzidos por um óculo, e revelam uma escultura de formas orgânicas reminiscentes de um casulo em metamorfose. O artista convoca as relações entre arte, arquitetura e espiritualidade, templo e arquitetura, abrigo e refúgio, sagrado e profano, luz e trevas, misticidade e transcendência. Com a inauguração desta obra, Rui Chafes junta-se à lista de artistas com esculturas permanentes nos jardins do museu — uma coleção de arte contemporânea viva, em constante crescimento e atualização — entre as quais se destacam as obras de Alberto Carneiro e Richard Serra, nomes relevantes na formação do escultor português.


segunda-feira, 14 de março de 2022

EXPOSIÇÃO: "Entrelaçar"


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EXPOSIÇÃO: “Entrelaçar”, 
de Ai Weiwei 
Parque de Serralves 
23 Jul 2021 > 09 Jul 2022 


Artista, pensador e ativista, Ai Weiwei é uma referência incontornável no mundo das artes por, através da sua obra, abordar questões prementes do nosso tempo. Ele é uma das figuras culturais mais destacadas da sua geração e um símbolo da liberdade de expressão, tanto na China como internacionalmente. Disso deu prova na extraordinária mostra intitulada “Rapture” e que pudemos apreciar no espaço da Cordoaria Nacional, em Lisboa. Em Serralves, o artista apresenta um corpo de trabalho que reflete a sua preocupação com as questões ambientais e, mais especificamente, com a desflorestação da Mata Atlântica brasileira, através de um conjunto de esculturas representativas do que resta desses gigantes outrora verdejantes e que não são hoje mais do que a consequência da gananciosa devastação do meio ambiente natural.

Uma visita do artista ao Brasil está na origem desta exposição, cuja principal peça é uma árvore moldada em ferro, com mais de trinta e dois metros de altura e que pesa cerca de sessenta toneladas. Trata-se de um enorme modelo à escala real de um Pequi vinagreiro (Caryocar bresiliense), uma árvore em vias de extinção, cujo tronco e ramos intrincados foram transpostos para ferro em bruto naturalmente oxidado. Resultado de três anos de trabalho, Pequi Vinagreiro é uma obra de arte irreplicável, provavelmente a mais complexa que Ai WeiWei jamais criou em termos de volume de trabalho, mão de obra e tempo de feitura. Uma peça que traz com ela uma importante mensagem de intervenção social e política, a forma encontrada pelo artista para prestar homenagem ao poder da natureza e aos esforços da humanidade para o conquistar. Uma peça que deve ser vista como um testemunho da desaparição da coexistência harmoniosa entre natureza e seres humanos, passando da madeira para o metal e de mortal a eterno, como elemento de prova e como monumento.

Juntamente com a árvore, encontram-se dispostas em diferentes locais do Parque de Serralves sete peças que, no seu conjunto, tomam a designação de “Raízes de Ferro”. São esculturas feitas a partir de raízes de árvores, recolhidas em vários locais da Mata Atlântica e moldadas em ferro, tal como o Pequi vinagreiro. Ao contemplar estas raízes, não podemos deixar de nos interrogar sobre o valor das florestas — pulmões da Terra — que fornecem o oxigénio de que necessitamos para respirar. Preservar estes recursos em rápido desaparecimento é uma questão fundamental para o futuro dos seres humanos. Concebida para o Parque de Serralves e para a sala central do Museu, “Entrelaçar” tem curadoria de Philippe Vergne e Paula Fernandes, tendo podido contar com o apoio do estúdio do artista, galeria Lisson e neugerriemschneider, Berlim. A exposição pode ser vista, agora apenas no espaço do Parque de Serralves, até ao próximo dia 09 de Julho.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

EXPOSIÇÃO: Olafur Eliasson | "O Vosso / Nosso Futuro É Agora"


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EXPOSIÇÃO: Olafur Eliasson | “O Vosso / Nosso Futuro É Agora
Museu e Parque de Serralves
31 Jul 2019 > 08 Mar 2020 (Museu) e 14 Jun 2020 (Parque)


Autor de uma vasta obra centrada nas mútuas relações entre a humanidade, a natureza, a arte, a ciência, a arquitectura e a sociedade, o artista dinamarquês-islandês Olafur Eliasson (Copenhaga, 1967) é conhecido pelas suas esculturas e instalações de grande escala. A sua prática artística estimula uma percepção viva do espaço entre o natural e o artificial e aborda questões e ideias fulcrais para a sociedade e a cultura contemporâneas, como o urbanismo, o desenvolvimento sustentável, as alterações climáticas e novas formas de produção de energia. Todas as obras apresentadas na exposição “O Vosso / Nosso Futuro É Agora” partem de fenómenos naturais para simultaneamente apelar aos nossos sentidos e suscitar temas filosóficos, estéticos, éticos e sociais que enquadram e informam a incessante reflexão do artista em torno dos diferentes modos de a arte influenciar e melhorar o futuro da humanidade.

Esta exposição em Serralves dá a ver uma selecção de obras produzidas nos últimos anos, que aqui dialogam com o parque envolvente do Museu e o átrio e a galeria central do edifício desenhado por Álvaro Siza. No átrio central do Museu, os visitantes são convidados a percorrer o caminho definido pela “Yellow Forest”, uma floresta artificial formada por dois grupos de bétulas que, sob uma luz amarela, evocam a ideia da floresta como um espaço onírico, um lugar de ligação entre os seres humanos e a Terra. A relação do ser humano com o meio envolvente é também o tema da obra “The Listening Dimension (Orbit 1, Orbit 2, Orbit 3), apresentada na galeria central do Museu. Ao entrar neste espaço, o espectador depara-se com espelhos do tamanho das paredes e anéis de grandes dimensões que parecem flutuar no espaço. Aparentando desafiar as leis da física e da óptica, eles produzem um efeito desestabilizador e inquietante, levando o público a questionar a sua percepção linear do espaço, a linha de fronteira entre a realidade e a representação, a relação entre o conhecimento e a experiência do visível.

Já no exterior, na rotunda da Avenida dos Liquidâmbares, “The Curious Vortex” assume-se como a mais espectacular entre as onze peças que compõem esta exposição. Associado às pesquisas de Olafur Eliasson em torno da geometria, da construção de espaços, da criação de ambientes e da sua reflexão sobre questões sociais e culturais, este pavilhão de grandes dimensões em aço inoxidável inspira-se nos movimentos giratórios do redemoinho, fenómeno natural criado por uma massa rodopiante de vento e água. O artista relaciona este fenómeno com a actividade das instituições museológicas na sociedade contemporânea: tal como os campos de força do vórtice se desenvolvem em redor de um centro de rotação, também os museus têm a capacidade de canalizar pensamentos, ideias, sentimentos, afectos.

Na Clareira dos Teixos, são apresentadas as três esculturas “Human Time Is Movement (Winter, Spring and Summer). As formas criadas por estas três espirais de aço inoxidável pretas e brancas, criadas a partir de um modelo matemático, desenvolvem-se no espaço como se de três desenhos se tratasse. Variações sobre uma curva Clelia — uma linha traçada pela rota de um ponto à medida que se move em simultâneo em torno de dois eixos de uma esfera —, as três formas, muito diversas entre si, comunicam o sentido da passagem do tempo materializada no movimento. Retomando uma tipologia de obras já apresentadas noutros contextos, Eliasson distribuiu também por vários espaços do Parque “Arctic Tree Horizon, replicando nos espaços verdes de Serralves as costas da Islândia — país onde chegam constantemente troncos trazidos da Sibéria pelas correntes marítimas. Para esta exposição, o artista revestiu troncos com tinta preta que evoca o alcatrão — um material noutros tempos usado para impermeabilizar os navios —, criando marcos na paisagem que evocam as migrações, a circulação e, num âmbito mais lato, o sistema ecológico em que vivemos. A exposição mantém-se patente ao público até 14 de Junho, excepção feita ao núcleo instalado no interior do Museu, o qual é visitável apenas até ao próximo dia 08 de Março.