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quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

O MELHOR DE 2025: TEATRO



10. Welcome to Europe
Texto, encenação, espaço cénico e vídeo | Ricardo Correia
Interpretação | Beatriz Antunes, Fábio Saraiva, Sofia Coelho e Ricardo Correia
Produção | Casa da Esquina – Associação Cultural
FESTOVAR 2025 - XXXII Festival de Teatro de Ovar
Centro de Arte de Ovar
25 Out 2025 | sab | 17:30

“ (…) Neste Museu feito de peças efémeras, no final não haverá “merchandising” ou“souvenirs” à venda - quando muito, os interessados podem adquirir o livro do espectáculo -, mas as interrogações persistem muito para lá dos 70 minutos de duração da peça. “Welcome to Europe” confronta-nos com uma Europa excludente, com a redução dos migrantes a meros números, ameaças latentes, corpos sem história cujas histórias têm no risco, na desumanização ou na perda denominadores comuns. Neles, porém, reconhecemos uma força vital que desafia a indiferença e expõe a fragilidade de um sistema que, enquanto proclama os direitos humanos, nega a humanidade a quem os reclama. Que Europa é esta que recebe e exclui, que promete e recusa, que soube construir-se no encontro com o outro e que agora o rejeita?”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/10/teatro-welcome-to-europe.html



9. Babel
Encenação, dramaturgia, cenografia e figurinos | Nuno Cardoso
Interpretação e co-criação | Carlos Rodrigues, Cristina Almeida, Edilson Wa Ka Chambe, Emílio Costa, Hermínia Teixeira, José Teixeira, Luísa Costa, Madalena Costa, Marlene Pacheco, Rodrigo Matos, Roldy Harrys
Produção | Teatro Nacional São João
Teatro Nacional Carlos Alberto
14 Jun 2025 | sab | 19:00

“ (…) A Babel que veio do teatro do mundo para o Teatro Carlos Alberto não é nenhum rebanho conduzido por pastor ou cão. Do tumulto dos dias, transportando vidas contraditórias, as personagens desaguam uma a uma num lugar de onde vão partir novamente. Medem-se, evitam-se e olham-se com sentimentos de superioridade ou desprezo. Pelo telefone de cada uma, este lugar desdobra-se numa teia de assuntos: cada qual tenta organizar o seu mundo e dar conta do estranhamento e da incomodidade que as outras lhe causam. Um padre difunde um velho discurso de Salazar sobre a autoridade e o povo submisso: “Está tudo bem assim e não poderia ser de outra forma”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/06/teatro-babel.html



8. A Médica
Encenação | Ricardo Neves-Neves
Interpretação | Adriano Luz, Custódia Gallego, Eduarda Arriaga, Igor Regalla, Inês Castel-Branco, José Leite, Luciana Balby, Maria José Paschoal, Pedro Laginha, Rita Cabaço, Sandra Faleiro e Vera Cruz
Produção | Teatro do Eléctrico
Teatro da Trindade Inatel - Sala Carmen Dolores
02 Fev 2025 | dom | 16:30

“ (…) “The Doctor”, no original, coloca-nos perante um conjunto de temas que estão na ordem do dia. Partindo dessa espécie de braço de ferro da medicina e da ciência com a religião, o texto possui um lado engenhoso que consiste em deixar as questões em aberto, em busca de respostas que cada um terá (ou não) dentro de si. Ciência, religião, sexualidade, identidade ou racismo, são como cartas atiradas para a mesa de todas as discussões, ora funcionando como um desafio às nossas convicções, ora mostrando a forma como lidamos com o preconceito e tendemos a falar daquilo que não sabemos”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/02/teatro-medica.html



7. Frágua de Amor
Encenação | António Augusto Barros
Interpretação | Ana Teresa Santos, Carlos Meireles, Igor Lebreaud, Maria Quintelas, Miguel Magalhães, Mónica Camaño, Nuno Meireles, Ricardo Kalash, Sérgio Ramos
Produção | A Escola da Noite, O Bando de Surunyo
Teatro Carlos Alberto
17 Jan 2025 | sex | 15:00

“ (…) Encantadora, a peça encenada por António Augusto Barros e que tem em Hugo Sanches o responsável pela parte musical permite-nos apreciar algo de verdadeiramente incomum e que podemos classificar como um musical vicentino. Posta em cena desta forma, com a componente lírica a assumir uma tão grande preponderância, a peça faz jus à ideia de um teatro a ampliar-se e a separar-se dos momos e chacotas, composto agora por monólogos, diálogos, música tocada, cantada e bailada, sagrada e profana, popular ou palaciana, como ensina Carolina Michaëlis de Vasconcelos. Aliás, muito deste modus faciendi está patente em indicações textuais do dramaturgo, que também foi músico e autor de canções”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/01/teatro-fragua-de-amor_01480197978.html



6. À Primeira Vista (Prima Facie)”
Encenação | Tiago Guedes
Interpretação | Margarida Vila-Nova
Produção | Força de Produção
31º Encontro de Teatro do CiRAC
Cine-Teatro António Lamoso
15 Fev 2025 | sab | 21h30

“ (…) A peça faz passar, de forma admirável, a mensagem de que o sistema jurídico é moldado pela experiência masculina, os casos são decididos por gerações de juízes homens e as suas normas estabelecidas por gerações de políticos do sexo masculino, num contexto em que as mulheres foram em tempos classificadas como propriedade dos seus maridos, pais e irmãos. Por isso, a legislação sobre a agressão sexual está desajustada da experiência real vivida pelas mulheres. São sempre as vítimas, normalmente mulheres, que são “julgadas”, interrogadas e obrigadas a reviver a sua experiência humilhante, e depois postas em causa acerca dos motivos que as levaram a denunciar um crime hediondo contra a sua pessoa. No entanto, e significativamente, a investigação demonstrou que as pessoas simplesmente não acreditam nas mulheres que testemunham em casos de agressão sexual. Mesmo outras mulheres!”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/02/teatro-primeira-vista-prima-facie.html



5. Chuva Pasmada
Adaptação, direcção artística e encenação | Leandro Ribeiro
Interpretação | Clara Oliveira, Mafalda Reis, Maria Inês Campos, Paulo Cruz e Rita Camões
Produção | Sol d’Alma – Associação de Teatro
Centro das Artes do Espectáculo Sever do Vouga
16 Nov 2025 | dom | 16:00

“ (…) “Chuva Pasmada” é um imenso, intenso milagre. A sensibilidade que Mia Couto coloca em cada palavra, a forma como, entre a voz e o silêncio, leva a que identidade e memória dancem em comunhão, é um convite à autodescoberta, um rasgar de atalhos para o mais fundo de cada um de nós. Motor secreto da peça e do romance, o amor é semente capaz de transformar dúvidas em certezas, a hesitação em voo, o receio em pertença. A materialização de todo este imaginário fabuloso constrói-se em comunhão de talentos: Onde apenas existiam telas, as luzes abrem rios; o vazio veste-se de emoção ao som de uma música inspirada; o invisível faz-se presente na riqueza dos sons; os figurinos acrescentam cor à própria respiração”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/11/teatro-chuva-pasmada-mia-couto.html



4. Quem Tem Medo de Virginia Woolf?
Encenação | Simão do Vale Africano
Interpretação | João Reis, Anabela Moreira, Daniel Silva, Joana Africano
Produção | Subcutâneo - Teatro Hialurónico
Teatro Nacional São João
16 Fev 2025 | dom | 16:00

“ (…) A peça, já o sabemos, é uma forma muito original - e abominável - de chamar ao palco a relação de um casal. Não há troca de palavras que resista ao crivo da humilhação moral e da tortura psicológica, a sua intensidade a aumentar à medida que o tempo passa e cresce o nível de álcool no sangue. Um quadro de crise profunda e que se arrasta há uma eternidade, dadas as insinuações e outras regras que parecem ainda existir neste jogo de massacre. Na sua insistência, na sua duração, na sua brutalidade, a peça torna palpável o quadro doentio em que as personagens se movem, mostrando de forma clara e tangível a loucura que as afecta”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/02/teatro-quem-tem-medo-de-virginia-woolf.html



3. 1984
Encenação | Pedro Carraca
Interpretação | Ana Castro, Carolina Salles, Gonçalo Carvalho, Inês Pereira, Paulo Pinto, Pedro Caeiro, Raquel Montenegro, Tiago Matias, Victor Gonçalves
Produção | Artistas Unidos
Ponto C - Cultura e Criatividade, Penafiel
08 Fev 2025 | sab | 17h00

“ (…) Verdadeiro teste à tolerância do público face à violência que dela se derrama, a peça coloca em perspectiva a obra-prima de George Orwell, transformando em passado longínquo o futuro que o autor desenhou em 1948 (o título será um anagrama da data), sobre factos ocorridos em 1984, ao situá-lo num vindouro ano para lá de 2050. Assim, para além da história de Winston Smith, que não sabemos se verdadeira ou não, aquilo a que assistimos é à história do próprio romance ao longo do tempo decorrido desde que foi escrito, e de como é que o livro contribuiu ou não para alterar a nossa visão de futuro”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/02/teatro-1984.html



2.  House
Dramaturgia e encenação | Amos Gitai
Interpretação | Bahira Ablassi, Dima Bawab, Irène Jacob, Alexey Kochetkov, Micha Lescot, Pini Mittelman, Kioomars Musayyebi, Menashe Noy, Minas Qarawany, Mark Bonney, Danielle O’Neill, Nathan Mercieca, Ghassan Ashkar
Produção | La Colline – Théâtre National
Teatros del Canal - Sala Roja Concha Velasco, Madrid
25 Abr 2025 | sex | 20:00

“ (…) Ao atrair-nos para a teia emaranhada de violência ontológica por trás do projeto sionista de anexar lares palestinos, Gitai rejeita qualquer enquadramento dialético. A violência de construir uma casa sobre as ruínas de outra, ou de viver dentro da casa de outra pessoa, faz parte da identidade israelita, ao mesmo tempo que procura apagar da história qualquer traço de presença palestiniana. A dominação transversal do colonialismo de povoamento, que busca estabelecer uma pátria permanente por meio do deslocamento, é visceralmente sentida através do refrão percussivo dos dois pedreiros martelando blocos de arenito ao longo das duas horas e meia de duração da peça, os ritmos sincopados formando como que um coro pulsante de violência que abafa qualquer perspectiva de paz ou tranquilidade”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/04/teatro-house.html



1. A Colónia
Direcção e dramaturgia | Marco Martins, a partir de uma reportagem de Joana Pereira Bastos
Interpretação | Manuela Canais Rocha, Conceição Lopes, Conceição Matos, Domingos Abrantes, Humberto Candeias, Olga Sequeira Santos, Rita Veloso, Valentina Marcelino, João Pedro Vaz, Sara Carinhas, Ana Vilaça
Produção | Arena Ensemble 
Teatro Nacional de S. João
26 Jan 2025 | dom | 16:00

“ (…) Reunindo em palco um elenco multifacetado, que juntou actores, não actores e aspirantes a actores, Marco Martins trabalhou a peça a partir de histórias e experiências pessoais, propondo uma ampla reflexão sobre história, memória e opressão. Algumas dessas histórias falam do desconhecimento do verdadeiro nome do pai ou da mãe, de apenas conhecerem irmãos pela palavra bebé, de não corrigirem deficiências de nascença por não estarem registados e serem considerados ilegais, de terem no cartão de visita da prisão o seu primeiro documento de identidade”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/01/teatro-colonia.html

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

TEATRO: "Quem Tem Medo de Virginia Woolf?"



TEATRO: “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?”,
de Edward Albee
Encenação | Simão do Vale Africano
Cenografia | Nuno Carinhas
Figurinos | Bernardo Monteiro
Música original | Daniel Martinho
Interpretação | João Reis, Anabela Moreira, Daniel Silva, Joana Africano
Produção | Subcutâneo - Teatro Hialurónico
160 Minutos (com intervalo) | Maiores de 14 Anos
Teatro Nacional São João
16 Fev 2025 | dom | 16:00


Experiência estranha esta, a de regressar a “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?” e encontrar na peça uma força e uma intensidade que não tinha apreendido antes, nomeadamente na versão de João Perry, com Alexandra Lencastre e Diogo Infante nos principais papéis. Uma nova peça a convocar um novo olhar sobre uma peculiar situação de crise conjugal, sim, mas um olhar modelado pelo que, no palco, os actores entregam de si e que é avassalador. A peça, já o sabemos, é uma forma muito original - e abominável - de chamar ao palco a relação de um casal. Não há troca de palavras que resista ao crivo da humilhação moral e da tortura psicológica, a sua intensidade a aumentar à medida que o tempo passa e cresce o nível de álcool no sangue. Um quadro de crise profunda e que se arrasta há uma eternidade, dadas as insinuações e outras regras que parecem ainda existir neste jogo de massacre. Na sua insistência, na sua duração, na sua brutalidade, a peça torna palpável o quadro doentio em que as personagens se movem, mostrando de forma clara e tangível a loucura que as afecta.

Quando as grandes linhas da narrativa são conhecidos de antemão, tal como as causas das injúrias e afrontas e o modo violento como se instalam, há uma natural tendência para que o foco se afaste ligeiramente do essencial. Nesta linha, dois aspectos impressionaram-me profundamente e que não terei valorizado anteriormente, talvez porque não se mostrassem com esta intensidade. Por um lado, a quantidade de álcool ingerida, que vai toldando as mentes, libertando-as de juízos críticos e fazendo vir ao de cima uma total desinibição. Por outro, a violência implacável das trocas de palavras entre Anabela Moreira e João Reis, incessantes, aceradas, mordazes e que atingem o paroxismo em vários momentos da peça. Estes dois aspectos, o álcool e sobretudo a agressão moral, no seu carácter intenso e repetitivo, estão no centro de uma experiência dramática e particularmente violenta. Marido e mulher desdobram cada frase em golpes contundentes e estendem o calvário da sua relação ao casal que os acompanha numa madrugada insana. Os espectadores não escapam à carnificina, o que transforma o visionamento da peça num exercício doloroso, quase insuportável.

Na sua página pessoal [AQUI], o encenador Simão do Vale Africano diz que “(…) o melhor que eu poderia oferecer a um qualquer público seria uma qualquer reflexão sobre a condição humana, mais do que sobre a sua condição político-sócio-económica”. Uma pequenina frase que funciona como uma verdadeira carta de intenções e que se amplia infinitamente perante um exercício de teatro tão visceralmente cru como aquele que estreou no Teatro Nacional de São João. Voltamos a olhar o casal anfitrião e a estabelecer um paralelismo com o casal mais novo, interpretado por Joana Africano e Daniel Silva. Aqui, também, a experiência não é menos insuportável, a relação igualmente impregnada com tanto de amor quanto de ódio e baseada em mentiras que não conseguem esconder as mais terríveis cicatrizes. Nestas condições, o casamento assemelha-se a uma clínica psiquiátrica, fonte dos piores males e palco das mais assassinas psicoterapias. O jovem casal convidado, feito refém, acabará desintegrado pela explosão. E nós, espectadores, será que saímos ilesos disto tudo?

[Foto: João Tuna, Joana Africano | tnsj.pt]

segunda-feira, 8 de maio de 2023

TEATRO: "Longa Jornada para a Noite"



TEATRO: “Longa Jornada para a Noite”,
de Eugene O’Neill
Encenação | Ricardo Pais
Cenografia | Pedro Tudela
Música | Ricardo Pinto
Figurinos | Bernardo Monteiro
Interpretação | Emília Silvestre, Joana Africano, João Reis, Pedro Almendra, Simão do Vale Africano
Produção | Ensemble – Sociedade de Actores
180 Minutos (com intervalo) | Maiores de 14 anos
Teatro Nacional de São João
07 Mai 2023 | dom | 16:00


“ (…) Nunca sonhei que a Santa Madre me fosse dar um tal conselho! Fiquei mesmo escandalizada. Disse ‑lhe, claro, farei tudo o que me sugeriu, mas sabia que era simplesmente uma perda de tempo. Depois de a deixar, senti ‑me completamente confusa, e fui ao santuário e rezei à Virgem Santíssima e encontrei de novo a paz porque sabia que ela ouvira a minha prece e haveria sempre de amar‑me e livrar‑me do mal desde que nunca perdesse a fé nela. (Faz uma pausa e surge‑lhe na face um desconforto crescente. Passa a mão pela testa como se afastasse teias de aranha do cérebro – vagamente.) Foi no inverno do meu ano de finalista. Depois, na primavera, aconteceu‑me uma coisa. Sim, lembro‑me. Apaixonei‑me por James Tyrone e fui tão feliz por uns tempos.”

Drama familiar denso e particularmente doloroso, “Longa Jornada para a Noite” centra a acção em 1912 e decorre num único dia na casa de veraneio dos Tyrone. James, o patriarca da família, foi em tempos um conceituado actor, mas acabou por se vulgarizar ao escolher encenar sempre a mesma peça e agora entrega-se ao álcool e a pequenas negociatas nem sempre lucrativas. A esposa, Mary, abandonou os sonhos da meninice para acompanhar o marido nas suas constantes viagens e, na sequência do nascimento do filho mais novo, criou uma dependência da morfina. Jamie, o filho mais velho do casal, é emocionalmente instável, estoira o pouco dinheiro que ganha em mulheres e bebida e tem ciúmes do irmão mais novo, Edmund, um jovem que pretende tornar-se escritor, mas que está gravemente doente, com tuberculose. Há, finalmente, Cathleen, a criada da casa, espécie de contraponto de leveza e inocência ao drama que se desenrola à sua volta.

Conhecer um pouco da biografia de Eugene O’Neill permite-nos perceber que “Longa Jornada para a Noite” não é apenas um texto extraordinário. Nele se abrigam a dor e o sofrimento que ensombraram a vida do dramaturgo: uma família cativante mas destruidora, uma saúde frágil (entre a tuberculose da juventude e a doença de Parkinson sobrevinda aos 60 anos), uma tentativa de suicídio, dois divórcios, as tentações do álcool, um filho que se droga, um outro que vem a suicidar ‑se. O próprio mundo, por volta dos anos 1940 - a peça foi escrita em 1941 e encenada pela primeira vez em 1956, três anos depois do falecimento de O’Neill -, fornece à sua alma sensível boas razões para alimentar angústias, amarguras, decepções, um abismo cavado entre o sonho americano e a realidade, entre os sonhos de juventude e as transformações advindas no adulto. O’Neill fará dizer a Mary: “Nenhum de nós tem culpa das coisas que a vida nos fez. Estão feitas antes de darmos por isso, e assim que estão feitas fazem‑nos fazer outras coisas até que por fim tudo se mete entre nós e o que gostávamos de ser, e perdemos o nosso verdadeiro eu para sempre.”

Num cenário resumido ao ambiente de uma sala de estar, “Longa Jornada para a Noite” é uma peça de actores. Segurar, com a intensidade que o texto exige, quase três horas de teatro, é obra. O casal Tyrone (João Reis e Emília Silvestre) pauta a sua relação pelo muito que se foi acumulando no seu mais íntimo, incapaz de contrariar o acelerado declínio de uma vida toda ela vivida em função do homem. Neste particular, Emília Silvestre é comovente na forma como assume o desfasamento da realidade e nos brinda com monólogos de uma enorme tensão, nomeadamente aquele que encerra a peça. Os desempenhos de Pedro Almendra (Jamie) e Simão do Vale Africano (Edmund) são deveras convincentes, reforçando um drama que cresce até aos limites do suportável. Sem sarcasmos nem ironias, os apontamentos bem humorados de Joana Africano, no papel da criada, emprestam à peça o necessário toque de humanidade. Numa altura em que andamos todos tão fartinhos que nos atirem areia para os olhos, não dar por Ricardo Pais e saber que ele está lá em todos os momentos - nas marcações, nas falas, nos gestos, nas entradas e saídas de cena, num rosto a contraluz -, é o maior elogio que se pode dar a uma encenação feita de rigor, engenho e subtileza.

[Foto: TNSJ | https://www.tnsj.pt/]