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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

TEATRO: "Class Enemy" | Manuel Tur



TEATRO: “Class Enemy”,
de Nigel Williams
Encenação | Manuel Tur
Cenografia | Ana Gormicho
Figurinos | Sara Pazos
Interpretação | Bernardo Gavina, Daniel Silva, Gonçalo Botelho, Gonçalo Fonseca, Lisa Reis, Tiago Araújo, Sérgio Sá Cunha
Produção | 11Zero2
110 Minutos | Maiores de 14 Anos
Teatro Aveirense
13 Fev 2026 | sex | 21:30


Escrita em 1976, “Class Enemy” conserva uma actualidade perturbadora, como se o diagnóstico de Nigel Williams tivesse sido traçado para o futuro. O dramaturgo afirmou ter concebido a peça movido pela convicção de que a busca do conhecimento deveria ocupar o centro da experiência escolar, acima da retórica pedagógica, das reuniões e dos bons resultados estatísticos. É precisamente essa inversão de prioridades que o espectáculo de Manuel Tur expõe com uma clareza implacável. Entramos na sala de aula, um espaço fechado onde o tempo deixou de avançar. Seis alunos, classificados pelo sistema como irrecuperáveis, veem nela, em simultâneo, um refúgio e uma condenação. Aqui permanecem porque a casa, a rua ou o vazio se afiguram como alternativas ainda mais inóspitas. A ausência do professor, motor narrativo da peça, assume uma dimensão simbólica contundente: é a metáfora de todas as desistências institucionais que moldaram aquelas vidas. A sala transforma-se num purgatório laico, um ciclo fechado onde a linguagem substitui a acção e onde a violência verbal emerge como arma e escudo contra o silêncio, esse território perigoso onde se insinuam a raiva e a dor.

Ao optar por um elenco mais velho do que o previsto no texto original, Manuel Tur sublinha que o que está em causa não é a idade biológica, mas o desgaste precoce de existências encurraladas. A cenografia acentua a ideia de depósito humano, com as paredes fendidas, as carteiras riscadas, uma porta partida, como se aquela Turma H existisse fora do mapa oficial da escola. Não é uma sala, é um “buraco negro” onde o sistema recolhe e esconde os seus resíduos. A analogia com o Sermão de Santo António aos Peixes ecoa na dinâmica interna do grupo: os grandes devoram os pequenos, a sobrevivência faz-se pela humilhação mútua. Ferro, líder carismático e cruel, impõe-se pela força física e pela violência do discurso, silenciando Clerasil e esmagando Pirilampo, cuja tentativa de elevação moral é punida com brutalidade. Cada “aula” improvisada revela vidas atravessadas pela pobreza e pelo racismo, pela exclusão e pela frustração, expondo a falácia meritocrática que exige esforço individual a quem nunca partiu do mesmo ponto. A escola é aqui uma máquina avaliativa, pródiga em diagnósticos e projectos avulso, mas incapaz de sustentar uma relação educativa consequente.

Entre o palavrão e a obscenidade - linguagem que aqui não é ornamento, mas sintoma - pulsa uma fome de sentido que nenhuma grelha ou classificação consegue medir. Quando as personagens improvisam as suas “aulas”, revelam não apenas vidas feridas, mas também um desejo difuso de serem vistas e ouvidas para lá da etiqueta de “problemáticas”. A encenação recusa qualquer tentação redentora: o professor que nunca chega, ou que chega já desistente, surge como figura esvaziada por metas, relatórios e dispositivos de controlo, transformando a relação pedagógica numa gestão de danos. Ao desmontar a ficção do mérito, essa narrativa confortável segundo a qual o esforço individual basta para superar a desigualdade, “Class Enemy” devolve-nos a imagem de uma escola que classifica antes de compreender e que abandona antes de assumir as suas responsabilidades. Não saímos felizes do espectáculo, antes dominados pela inquietação e pelo desconforto de percebermos ser este o sistema que ajudámos a naturalizar. Como no sermão do Padre António Vieira que nos deixava “descontentes connosco”, o teatro cumpre aqui a sua função mais exigente, a de não confortar, antes desassossegar, implicar e convidar a agir.

[Foto: Teatro Aveirense | https://www.facebook.com/teatroaveirense]

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

TEATRO: "Quem Tem Medo de Virginia Woolf?"



TEATRO: “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?”,
de Edward Albee
Encenação | Simão do Vale Africano
Cenografia | Nuno Carinhas
Figurinos | Bernardo Monteiro
Música original | Daniel Martinho
Interpretação | João Reis, Anabela Moreira, Daniel Silva, Joana Africano
Produção | Subcutâneo - Teatro Hialurónico
160 Minutos (com intervalo) | Maiores de 14 Anos
Teatro Nacional São João
16 Fev 2025 | dom | 16:00


Experiência estranha esta, a de regressar a “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?” e encontrar na peça uma força e uma intensidade que não tinha apreendido antes, nomeadamente na versão de João Perry, com Alexandra Lencastre e Diogo Infante nos principais papéis. Uma nova peça a convocar um novo olhar sobre uma peculiar situação de crise conjugal, sim, mas um olhar modelado pelo que, no palco, os actores entregam de si e que é avassalador. A peça, já o sabemos, é uma forma muito original - e abominável - de chamar ao palco a relação de um casal. Não há troca de palavras que resista ao crivo da humilhação moral e da tortura psicológica, a sua intensidade a aumentar à medida que o tempo passa e cresce o nível de álcool no sangue. Um quadro de crise profunda e que se arrasta há uma eternidade, dadas as insinuações e outras regras que parecem ainda existir neste jogo de massacre. Na sua insistência, na sua duração, na sua brutalidade, a peça torna palpável o quadro doentio em que as personagens se movem, mostrando de forma clara e tangível a loucura que as afecta.

Quando as grandes linhas da narrativa são conhecidos de antemão, tal como as causas das injúrias e afrontas e o modo violento como se instalam, há uma natural tendência para que o foco se afaste ligeiramente do essencial. Nesta linha, dois aspectos impressionaram-me profundamente e que não terei valorizado anteriormente, talvez porque não se mostrassem com esta intensidade. Por um lado, a quantidade de álcool ingerida, que vai toldando as mentes, libertando-as de juízos críticos e fazendo vir ao de cima uma total desinibição. Por outro, a violência implacável das trocas de palavras entre Anabela Moreira e João Reis, incessantes, aceradas, mordazes e que atingem o paroxismo em vários momentos da peça. Estes dois aspectos, o álcool e sobretudo a agressão moral, no seu carácter intenso e repetitivo, estão no centro de uma experiência dramática e particularmente violenta. Marido e mulher desdobram cada frase em golpes contundentes e estendem o calvário da sua relação ao casal que os acompanha numa madrugada insana. Os espectadores não escapam à carnificina, o que transforma o visionamento da peça num exercício doloroso, quase insuportável.

Na sua página pessoal [AQUI], o encenador Simão do Vale Africano diz que “(…) o melhor que eu poderia oferecer a um qualquer público seria uma qualquer reflexão sobre a condição humana, mais do que sobre a sua condição político-sócio-económica”. Uma pequenina frase que funciona como uma verdadeira carta de intenções e que se amplia infinitamente perante um exercício de teatro tão visceralmente cru como aquele que estreou no Teatro Nacional de São João. Voltamos a olhar o casal anfitrião e a estabelecer um paralelismo com o casal mais novo, interpretado por Joana Africano e Daniel Silva. Aqui, também, a experiência não é menos insuportável, a relação igualmente impregnada com tanto de amor quanto de ódio e baseada em mentiras que não conseguem esconder as mais terríveis cicatrizes. Nestas condições, o casamento assemelha-se a uma clínica psiquiátrica, fonte dos piores males e palco das mais assassinas psicoterapias. O jovem casal convidado, feito refém, acabará desintegrado pela explosão. E nós, espectadores, será que saímos ilesos disto tudo?

[Foto: João Tuna, Joana Africano | tnsj.pt]