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sábado, 1 de abril de 2023

TEATRO: "United Colors Of"



TEATRO: “United Colors Of”
Ideia original | Daniela Amaral Cardoso, João Amorim, João Garcia Neto
Encenação | Ricardo Neves-Neves, Joana Magalhães, João Amorim, Daniela Amaral Cardoso
Dramaturgia original | Guilherme Gomes, Raquel S., João Amorim
Realização | João Garcia Neto
Cenografia e figurinos | Bárbara Rosário
Interpretação | Daniela Amaral Cardoso, João Amorim
Produção | Companhia Bandevelugo
80 Minutos | Maiores de 14
Museu Escolar Oliveira Lopes
01 Abr 2023 | sab | 16:00


Com os olhos da imaginação abrimos o espaço em volta e transformamos a pequena sala da Cantina do Museu Escolar Oliveira Lopes (MEOL) numa vasta galeria do Hermitage ou do Rijksmuseum. Com todo o cuidado, dois funcionários contemplam um quadro que se preparam para devolver às paredes. Não coincidem nas apreciações que fazem, esgrimem perspectivas, acentuam pormenores. “- Se tivéssemos o título da obra, ajudava”, diz um, ao que o outro contrapõe: “Não, os títulos só estragam, abstraem.” Rodam o quadro e a lógica inverte-se. Começa aqui uma viagem pela arte naquilo que tem de inquietação, de sublimação, de transgressão. Questiona-se o seu papel formativo, o significado que confere à vida, o confronto entre o real e o virtual, a relação entre passado e futuro. Seguindo o esquema de uma visita guiada, “United Colors Of” convida o espectador a “seguir o amarelo”, a atravessar salas e corredores, propondo-lhe uma reflexão sobre a sua própria concepção da arte como um todo e, em particular, sobre o objecto artístico. O exercício representa uma mão cheia de desafios. O resultado - acreditem! - é avassalador.

A peça, como disse, tem como ponto de partida uma performance. Chama-se “Abstração de Herbert MacCartney” e faz da arte um imenso mar por onde voga a imaginação de cada um. Nem Tróia, nem Ítaca. O importante é a viagem, o que dela recolhemos, o que com ela aprendemos. Para muitos dos espectadores com quem vi a peça, alunos de uma turma do secundário da Monsenhor Miguel de Oliveira, ali ao lado, a “viagem” mal começou. Se tiverem sabido aproveitar a riqueza da performance e o significado da sua mensagem, guardarão para sempre uma frase impactantes: “Só saberemos, se tivermos vivido para o saber”. Novo quadro, nova performance. Vivendo apenas de sons do quotidiano, “Duas pessoas falam num café” convoca o universo das relações interpessoais, a imponderabilidade de um simples encontro, a vulnerabilidade das ligações, a forma como se fortalecem ou se quebram. Mas deixemos por momentos o espaço do MEOL. Chamaríamos arte a uma conversa banal, que escutamos inadvertidamente enquanto tomamos um café no Tílias? Ser ou não ser, eis a questão.

Subimos as escadas de serviço até ao primeiro andar. Subimos na escala do tempo ao encontro do futuro. Adensa-se a máscara que há em cada um de nós. Camadas sobre camadas sobre camadas são fruto da alienação que aceitamos sem reservas, dessa transformação que nos “eleva” à condição de avatares. Densamente “retocados”, abraçamos o Metaverso, esse lugar onde o nosso gato não morre, onde conseguimos criar relações mais profundas, onde (também) é possível fazer sexo. “É mesmo incrível!!!”. A indiferença toma conta de nós a ponto de deixarmos de ver o quão reaccionária pode ser uma frase do género: “Ainda ficamos é racistas com tanta manifestação antirracista”… (Rui Rio). “Viagem no Tempo Mental” fecha a viagem. O “ainda me lembro (de cozinhar uma sopa, de apanhar amoras, de Portugal ganhar o Europeu…)” de um dos actores, diz-nos que o espaço temporal desta viagem é curto, que este futuro onde o avanço da tecnologia levará ao desconhecimento das coisas mais básicas é já aqui. Por agora, o futuro está parado!

“O futuro está parado!”. A frase é como um murro no estômago e é com ela que o pano desce sobre “United Colors Of”. Um turbilhão de emoções toma conta de mim. Na minha cabeça baila o contraste entre a exaltação de Putin e dos seus acólitos e o clima de terror que se espalha por toda a Ucrânia enquanto, em fundo, se escuta o hino nacional de Portugal (depois disto, haverá quem consiga entoar “contra os canhões…”?). Ainda estou a ver o lápis azul da censura que me acena sob a forma de um desentupidor quando chego a casa e me sento para escrever. Mas escrever o quê? Pesquiso “Bandevelugo” e percebo que foi um deus pré-romano e é, também, uma estrutura teatral com sede em Oliveira de Azeméis. Um colectivo fundado em 2021 - “um tempo estranho que nos inibiu de agir” -, que arregaçou as mangas e deu asas à criatividade e à imaginação. “Quase clandestinos”, foram em busca “das matrizes pedagógicas que sedimentaram uma das mais eficazes e duradouras ditaduras da Europa.” Fizeram-no com arte e com génio, oferecendo-nos uma peça plena de actualidade e profundamente perturbadora. Bandevelugo é “United Colors Of” e “United Colors Of” somos nós. A desconfiança é a cola que nos une.

terça-feira, 12 de junho de 2018

TEATRO: "Longe"



TEATRO: “Longe”
Direcção e texto | Raquel S.
Interpretação | Margarida Gonçalves
Cenografia | Catarina Barros
Música | José Alberto Gomes
Produção | Noitarder – Associação Cultural
FITEI 2018 – Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica


“Longe”, de Raquel S., abriu a 41ª edição do FITEI – Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica sob os melhores auspícios. No Auditório do Teatro do Campo Alegre, sozinha em palco, Margarida Gonçalves agarrou o público “pelas tripas” ao invadir os domínios do hiper-realismo, num monólogo intenso e carregado  de emoção. Minimalista, o cenário pode muito bem ser o de uma sala de aula onde decorre uma dissertação científico-filosófica, o palco a estender-se inteligentemente para lá das suas linhas de demarcação e a fazer com que o público se torne parte integrante da peça. No intimismo desse espaço restrito (que a grande proximidade entre actriz e público acentua), “professora” e “alunos” congregam interesses e esforços, irmanados num mesmo propósito, o de perceber os contornos e os limites da memória ou o que fica de alguém próximo que morreu.

Baseada num texto engenhosamente trabalhado, a peça remexe no mais íntimo de cada um, ao encontro de matéria que preencha o vazio da perda. Apoiando-se em palavras, ideias, artigos ou histórias de figuras ilustres – Rimbaud, Freud, Susan Sontag, Proust, Samuel Beckett, Herberto Hélder ou Edgar Allan Poe – ou de simples “apontamentos de aluno desconhecido de uma aula da disciplina de Medicina Legal”, Raquel S. constrói uma peça que cruza vários campos, trabalhando a temática da morte com o distanciamento que se exige mas aproximando-se o suficiente para a tornar matéria palpável de análise e reflexão. Uma reflexão que, no imediato, conduz o espectador ao encontro das suas próprias vivências e memórias, dos seus medos e fantasmas, vergado ao peso de um enorme ponto de interrogação.

Uma cortina que divide o palco, ora funciona como um adereço que sugere a “passagem” do lado material para o imaterial, do campo dos vivos para o dos mortos (e vive-versa), ora sublinha as inúmeras dimensões duma discussão que nunca se afasta do valor da memória, do sonho ou da fantasia, enquanto rastos de vidas que já não voltam. Convidado a “passear” pelos cenários interiores do “eu” e a partilhar as dúvidas que se avolumam em torno do que é real ou apenas aparente (a fotografia, entendida como “verdade”, alcança neste contexto o valor de insofismável embuste), o espectador acaba mergulhado na certeza de não ter já certeza alguma. No limite, com “Longe”, o teatro exerce de forma superior a sua função transformadora, criando um forte impacto emocional e levantando questões a exigir respostas. A isto não é alheio – importa sublinhar – a notável representação de Margarida Gonçalves, uma verdadeira máquina de “dizer texto”, sem quebras no ritmo e na dinâmica em palco e, com isso realçando a qualidade literária da peça e garantindo o empolgamento crescente do público. Bravo!