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terça-feira, 12 de junho de 2018

TEATRO: "Longe"



TEATRO: “Longe
Direcção e texto | Raquel S.
Interpretação | Margarida Gonçalves
Cenografia | Catarina Barros
Música | José Alberto Gomes
Produção | Noitarder – Associação Cultural
FITEI 2018 – Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica


“Longe”, de Raquel S., abriu a 41ª edição do FITEI – Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica sob os melhores auspícios. No Auditório do Teatro do Campo Alegre, sozinha em palco, Margarida Gonçalves agarrou o público “pelas tripas” ao invadir os domínios do hiper-realismo, num monólogo intenso e carregado  de emoção. Minimalista, o cenário pode muito bem ser o de uma sala de aula onde decorre uma dissertação científico-filosófica, o palco a estender-se inteligentemente para lá das suas linhas de demarcação e a fazer com que o público se torne parte integrante da peça. No intimismo desse espaço restrito (que a grande proximidade entre actriz e público acentua), “professora” e “alunos” congregam interesses e esforços, irmanados num mesmo propósito, o de perceber os contornos e os limites da memória ou o que fica de alguém próximo que morreu.

Baseada num texto engenhosamente trabalhado, a peça remexe no mais íntimo de cada um, ao encontro de matéria que preencha o vazio da perda. Apoiando-se em palavras, ideias, artigos ou histórias de figuras ilustres – Rimbaud, Freud, Susan Sontag, Proust, Samuel Beckett, Herberto Hélder ou Edgar Allan Poe – ou de simples “apontamentos de aluno desconhecido de uma aula da disciplina de Medicina Legal”, Raquel S. constrói uma peça que cruza vários campos, trabalhando a temática da morte com o distanciamento que se exige mas aproximando-se o suficiente para a tornar matéria palpável de análise e reflexão. Uma reflexão que, no imediato, conduz o espectador ao encontro das suas próprias vivências e memórias, dos seus medos e fantasmas, vergado ao peso de um enorme ponto de interrogação.

Uma cortina que divide o palco, ora funciona como um adereço que sugere a “passagem” do lado material para o imaterial, do campo dos vivos para o dos mortos (e vive-versa), ora sublinha as inúmeras dimensões duma discussão que nunca se afasta do valor da memória, do sonho ou da fantasia, enquanto rastos de vidas que já não voltam. Convidado a “passear” pelos cenários interiores do “eu” e a partilhar as dúvidas que se avolumam em torno do que é real ou apenas aparente (a fotografia, entendida como “verdade”, alcança neste contexto o valor de insofismável embuste), o espectador acaba mergulhado na certeza de não ter já certeza alguma. No limite, com “Longe”, o teatro exerce de forma superior a sua função transformadora, criando um forte impacto emocional e levantando questões a exigir respostas. A isto não é alheio – importa sublinhar – a notável representação de Margarida Gonçalves, uma verdadeira máquina de “dizer texto”, sem quebras no ritmo e na dinâmica em palco e, com isso realçando a qualidade literária da peça e garantindo o empolgamento crescente do público. Bravo!

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