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segunda-feira, 23 de março de 2026

CONCERTO: Chico César - Aos Vivos



CONCERTO: Chico César - Aos Vivos
Cine Teatro de Estarreja
21 Mar 2026 | sab | 21:30


No quase desfecho de uma digressão intensa pelo nosso País, o concerto de Chico César trouxe ao Cine Teatro de Estarreja a nostalgia dos momentos inaugurais, a beleza do reencontro e o fulgor da celebração. Trinta anos depois de “Aos Vivos”, o gesto feito de voz e violão, despojamento radical e risco absoluto, reapareceu não como memória, mas como presença. Em palco, Chico César não representou um passado, antes reabitou-o com a mesma entrega do primeiro instante, como se o tempo não tivesse passado mas apenas aprofundado a escuta. E o público, cúmplice, mostrou saber estar não apenas perante um alinhamento de canções, mas a assistir a um exercício de permanência quase ritual. Num exercício à capella,“Beradêro” abriu o concerto como uma ponte suspensa entre tempos, chamando não só o sertão mas também uma formidável plateia portuguesa e brasileira, já íntima, já pertencente e inscrita nesse território simbólico. A nudez do formato devolveu às palavras o seu peso original e ao silêncio a sua função esquecida, criando uma tensão subtil entre o dito e o sugerido. Nada sobrou, nada faltou. E nessa economia residiu uma força rara, difícil de alcançar, que fez de cada som e cada fala um instante único e necessário.

Erguendo bem alto a bandeira da celebração, Estarreja apresentou-se como território de depuração. Ao longo de quase duas horas, as canções respiraram menos urgentes - à excepção de “Pedrada” e desse grito “fogo nos fascistas”, a fechar a noite - e mais densas, como se cada verso carregasse a poeira de todos os palcos anteriores e a memória de todas as vozes que as cantaram. “Mama África” irrompeu ainda com a sua energia incontornável, mas trouxe consigo uma gravidade nova, iminentemente política, ecoando um mundo que, como o próprio artista tem lembrado, permanece ferido e desigual, atravessado por fracturas que a música não resolve, mas ilumina. Já “À Primeira Vista” desenhou-se com uma delicadeza quase táctil, sem pressas, como se o tempo tivesse aprendido a escutar e a respirar com o público. Entre estas âncoras mais reconhecíveis, houve espaço para o murmúrio íntimo de “Saharienne” ou para a sabedoria terna de “Mulher Eu Sei”, revisitadas como organismos vivos, capazes de se adaptarem ao presente sem perderem a sua raiz profunda. Pelo meio, as histórias, contadas com humor e precisão, foram tecendo uma narrativa paralela, aproximando distâncias e humanizando o gesto artístico.

Mas talvez o mais notável tenha sido essa qualidade de sussurro que atravessou toda a noite, como uma linha invisível a unir palco e plateia. Num tempo saturado de ruído e artifício, o concerto em Estarreja soou, de facto, como um acto de resistência - ou, mais precisamente, de humanidade consciente de si mesma. Chico César cantou como quem conversa, como quem partilha inquietações sem necessidade de as amplificar, confiando na escuta do outro e na força intrínseca da palavra dita com verdade. Tudo naquele serão se vestiu de política, no sentido mais amplo e mais necessário do termo: a escolha de permanecer simples, de insistir na palavra, de convocar afectos como forma de resposta a um mundo crispado e fragmentado. Longe de ser mero espectador, o público tornou-se a extensão desse gesto, cantando, batendo palmas, fazendo coro com o músico e preenchendo os interstícios com uma atenção rara, quase devocional. No final, mais do que a estrondosa apoteose, houve algo talvez mais duradouro e difícil de nomear: a sensação de que aquelas canções, nascidas há três décadas, continuam a atravessar gerações e geografias e a dizer o essencial. E que, apesar dos pesares, seguimos vivos. Ao vivo.

sábado, 14 de março de 2026

CONCERTO: “O Lado Vazio do Sofá” | Rodrigo Alarcon



CONCERTO: “O Lado Vazio do Sofá”,
Rodrigo Alarcon
Escola de Artes e Ofícios
12 Mar 2026 | qui | 21:30


Na noite desta quinta-feira, o espaço acolhedor da Escola de Artes e Ofícios voltou a abrir as portas a Rodrigo Alarcon, dois anos depois da sua primeira passagem por um palco que parece feito à medida das suas canções. Integrado na digressão que celebra uma década de “O Lado Vazio do Sofá”, o concerto foi como que um reencontro, o regresso a uma casa onde já se foi feliz. Acima de tudo, o momento resultou numa conversa demorada entre cantor e público, daquelas que se fazem com voz sussurrada e de coração aberto. Desde o primeiro instante percebeu-se que a sala estava habitada por ouvintes cúmplices, alguns deles conhecedores atentos da obra do compositor paulista, que acompanharam versos inteiros com a delicadeza de quem sabe que há letras que nasceram para serem cantadas. Entre histórias simples, pequenas confissões e momentos de humor desarmante, Alarcon desenhou a paisagem emocional que faz dele um dos nomes mais singulares da nova geração da música popular brasileira. Simultaneamente frágil e firme, a sua voz foi atravessando a sala em tons delicados e subtis, reacendendo memórias colectivas e mostrando a relação rara de um artista que não apenas canta para quem o escuta, mas parece cantar com quem o escuta.

O alinhamento do concerto desenhou uma verdadeira narrativa sentimental, como se cada canção fosse um capítulo de um romance discreto. Tudo começou com a doçura literária de “Amor Acidente”, o amor como um acontecimento inesperado à volta do qual se junta gente curiosa, a metáfora perfeita para os encontros que mudam tantas vidas. Seguiram-se momentos de despedida e recomeço, como em “O Dia Seguinte”, a rotina doméstica transformada em despedida silenciosa, ou na ternura inquieta de “Frágil Coração”. A narrativa avançou entre feridas abertas e pequenas epifanias: “Onde Mora Deus” transformou um olhar num lugar sagrado, enquanto “Dama da Noite” fez florescer um amor súbito, desses que nascem numa escada e permanecem no peito. Pelo caminho surgiram confissões de erro e saudade — “Você Nunca Prometeu”, “15B” — como páginas arrancadas de um diário íntimo. O concerto tornou-se assim uma viagem pelas geografias do afecto, das paixões repentinas, das despedidas mal resolvidas e das lembranças que regressam sem aviso. O público revelou a sua cumplicidade em cada uma dessas estações emocionais, reconhecendo nas histórias cantadas fragmentos das suas próprias memórias.

O que torna Rodrigo Alarcon tão particular reside justamente nessa capacidade de transformar pequenas fragilidades em poesia quotidiana. As suas canções habitam o território delicado onde o humor, a melancolia e a ternura se encontram sem pedir licença. Em palco, essa escrita ganha corpo através de uma interpretação desarmante: a voz nunca se impõe, antes se oferece, como quem partilha uma confidência. Em momentos como “Menino Amor”, “O Óbvio Sobre o Amor” ou “Passageiro”, percebe-se que o compositor constrói as suas histórias com matéria profundamente humana, feita de dúvidas, saudades e pequenos desastres sentimentais que todos reconhecemos. Há também um cuidado evidente com as composições musicais, nas quais a simplicidade nunca é descuido, antes escolha estética, cada melodia uma clareira a abrir-se para que a palavra respire. Talvez seja essa a chave do seu encanto junto do público: Rodrigo Alarcon escreve como quem observa o mundo pela janela de casa, atento aos gestos mínimos da vida. No final, quando regressou inevitavelmente a “O Lado Vazio do Sofá”, a sala parecia suspensa entre nostalgia e gratidão. E percebeu-se então que certas canções não são apenas de quem as compôs. Elas pertencem, também, àqueles que, numa noite tranquila em Ovar, as quis devolver na emoção da voz.