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quarta-feira, 29 de abril de 2026

CONCERTO: "Um Gelado Antes do Fim do Mundo" | Capicua



CONCERTO: “Um Gelado Antes do Fim do Mundo”,
de Capicua
Com | Capicua (voz), Luís Montenegro (guitarra, teclados), Virtus (sintetizadores), D-One (DJ), Inês Malheiro (voz) e Joana Raquel (voz)
Cineteatro António Lamoso
25 Abr 2026 | sab | 21:30


“Triste é o povo que não consegue imaginar um futuro
Nós somos esse povo”

No dia 25 de Abril, o Cineteatro António Lamoso abriu as portas a Capicua para a apresentação de “Um Gelado Antes do Fim do Mundo”, o seu mais recente trabalho discográfico. Neste convocar da memória e do presente para um mesmo acto de resistência, o “dia inicial, inteiro e limpo” não foi mero pano de fundo, atravessando o espectáculo de ponta a ponta, qual fio invisível a ligar a palavra à liberdade conquistada em 1974. Entre canções e momentos declamados, Capicua soube construiu uma narrativa na qual a sobrevivência da poesia, em tempos de colapso, se afirma, além de afectivo e empático, como gesto marcadamente político. A abrir as hostilidades, “Chiaroscuro” foi retrato mordaz da vertigem contemporânea, enquanto “Souvenir” e “Circunvalação” resgataram a cidade do Porto, ora como espaço de exclusão, ora como território de pertença. Pelo meio, “Primavera” devolveu à Revolução a sua dimensão orgânica e urgente, lembrando que a utopia não é um luxo, mas uma necessidade.

Há muito que Capicua se firmou como uma das vozes mais singulares da música portuguesa, uma arquitecta de palavras cujo universo cruza o rap, a crónica e a intervenção cívica com uma densidade rara. Neste espectáculo, essa identidade surgiu depurada e expandida, numa fluidez que alternou entre o canto, a declamação e o remoque incisivo. Segura, mas nunca hermética, a sua presença em palco fez-se de uma vulnerabilidade assumida que aproximou e convocou. As influências literárias e musicais mostraram-se de forma explícita, não como citação, mas como respiração estética. A herança de Sophia de Mello Breyner revelou-se na limpidez ética e na relação com a natureza e a liberdade; a de Sérgio Godinho emergiu da canção de intervenção, na ironia e na atenção ao colectivo. Quando revisitou “Medo do Medo” ou interpretou “Que força é essa, amiga”, o concerto ganhou outra espessura, ligando diferentes gerações no que há de inquietação e combate nos dias que correm.

Musicalmente, o espectáculo confirmou a organicidade do disco: a convivência entre instrumentos analógicos e electrónica, entre o íntimo e o dançável, foi capaz de criar um percurso dinâmico e envolvente. Temas como “Gaudí” ou “Meia-Romã” ofereceram uma respiração feita de leveza e lirismo, enquanto “Brava” ou “Mátria” foram a reafirmação da urgência política de uma obra que nunca se demite do seu tempo. Houve, ainda assim, momentos em que a palavra - esse centro gravitacional de todo o espectáculo - se perdeu na sala por culpa de um som pouco cuidado, comprometendo a nitidez de uma escrita que exige escuta plena. É um lamento que não apaga o essencial: a força de um concerto que, em pleno 25 de Abril, celebrou a liberdade como prática viva e colectiva. No fim, ficou sobretudo a beleza de um encontro onde a música e a poesia se ergueram, vivas e livres, como abrigo e promessa.

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

CERTAME: XI Festival Literário de Ovar - Dia 1



CERTAME: XI Festival Literário de Ovar
Ana Freijo, Bruno Henriques, Capicua, Carlos Alberto Moniz, Carlos Nuno Granja, CONTACTO – Companhia de Teatro Água Corrente de Ovar, Gabriel Pinto, Hugo Carvalhais, João Martins, José Ferreira, Luís Portugal, Mafalda Rocha, Tiago Schwäbl
Museu Júlio Dinis, Centro de Artes de Ovar
17 Set 2025 | qua | 18:00 e 21:30


Recuemos no tempo, a 03 de Setembro de 2015, dia em que o Festival Literário de Ovar nascia para o mundo sob os melhores auspícios. Nesse início de um fim-de-semana prolongado, a cidade vivia um primeiro grande momento à volta dos livros, numa união franca e aberta entre escritores e leitores, ilustradores, livreiros e demais agentes ligados à escrita e à leitura. Se há loucura na escrita e ousadia na literatura, se os sentimentos se revelam mais facilmente no universo literário, se é possível fugir às contradições da sociedade, foram questões, de então e de sempre, às quais Miguel Real, Carlos Campaniço, Pedro Guilherme-Moreira, Jaime Rocha, Margarida Fonseca Santos, Afonso Valente Batista, Filipa Leal, João de Melo e vários outros escritores souberam responder, num verdadeiro exercício de “dar cultura às nossas gentes”, como afirmou Salvador Malheiro, Presidente da autarquia à data. Dez anos depois, o FLO pode orgulhar-se de um currículo invejável, assente em muito trabalho e perseverança, dedicação e crer, que fazem dele um dos mais relevantes Festivais Literários do nosso país.

Passada uma década, quantos livros, quantas palavras, quantos autores? Quantas memórias? Quantas pessoas? Quantos momentos? Não haverá, no contexto do FLO, pessoa mais indicada para responder a esta questão do que Carlos Nuno Granja, a mais importante figura do certame, alguém que acredita, desde sempre, no poder inabalável da leitura para a construção do pensamento crítico, autonomia e profundidade interior da pessoa, mas também na oportunidade que os livros oferecem de desacelerar, reflectir e desenvolver uma visão mais ampla e fundamentada do mundo, ajudando a formar indivíduos mais conscientes e íntegros, menos influenciáveis. Ele, a par de uma pequena mas valiosa equipa, são os responsáveis pela manutenção de um verdadeiro selo de qualidade que o Festival detém, e que volta a programar, de forma sólida e segura, um conjunto de actividades que, ao longo de cinco ininterruptos dias – entre conversas, concertos, teatro, apresentações de livros, cinema e muito mais –, prometem transformar a cidade numa imensa e apaixonante biblioteca.

O pontapé de saída do FLO 2025 teve lugar ao final da tarde no Museu Júlio Dinis com a inauguração de “Mais tempo por aqui…”, Instalação Sonora da autoria de Tiago Schwäbl, inserida no projecto “Inovar as Letras – À Escuta da Literatura”. Oportunidade única para escutar os sons de uma casa e as palavras de um escritor, sabiamente escrutinadas na obra dinisiana e abertas ao público com sensibilidade e emoção. Seguiu-se a primeira mesa do Festival, dedicada a debater “O processo de criação artística e a obra literária”. Moderada por Carlos Nuno Granja e com Mafalda Rocha, Tiago Schwäbl, Ana Freijo e José Ferreira como convidados, a conversa foi ao encontro da Literatura e do Teatro, da Pintura, do Som e da Música, recuperando o ambiente acolhedor e familiar de uma casa ovarense e lançando a discussão em torno do processo criativo, suas dificuldades e condicionalismos, seus desafios e recompensas. A tarde encerrou com a performance “Pela Janela do Olhar”, encenada por José Ferreira e interpretada por um leque de actores da CONTACTO – Companhia de Teatro Água Corrente de Ovar, numa homenagem sentida aos autores que, desde 2008, passaram pelo Festival Escritaria, e que nos olham das paredes do Museu em belíssimas pinturas da autoria de Mafalda Rocha.

Com a presença em palco de Carlos Nuno Granja e do Presidente do Município de Ovar, Domingos Silva, a abertura oficial do FLO 2025 teve lugar ao início da noite, nela se falando de ousadia e utopia, de sonho e muito querer, elementos determinantes de afirmação de um Festival que constitui “uma das marcas identitárias de Ovar”. As palavras de Vergílio Ferreira, “Diz NÃO à liberdade que te oferecem, se ela é só a liberdade dos que ta querem oferecer” deram o mote à segunda mesa do Festival. Bruno Henriques moderou uma conversa que teve como convidados Luís Portugal e Capicua e que resultou, entre o sério e o irónico, num extraordinário momento de reflexão e partilha. De Sérgio Godinho, José Mário Branco, Fausto ou Zeca Afonso como fontes de inspiração para a escrita de canções, à dificuldade crescente em romper com o “establishment” e assumir a música como um acto de resistência, ambos os convidados coincidiram na ideia de que “a liberdade [para criar], ou é total, ou não é liberdade”. O primeiro dia do Festival encerrou com o concerto “Na Primeira Pessoa”, de Carlos Alberto Moniz. Em palco, na companhia de Gabriel Pinto (piano), Hugo Carvalhais (contrabaixo) e João Martins (bateria), o cantor ofereceu, em graça e beleza, a força da música açoriana, numa celebração da palavra de alguns dos seus maiores poetas.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

CERTAME: Festival Literário Correntes d'Escritas 2023


[Clicar na imagem para ver mais fotos]

CERTAME: Festival Literário Correntes d’Escritas
Póvoa de Varzim, vários locais
14 Fev > 18 Fev 2023


Mesas, lançamentos de livros, conferências, exposições, instalações, leituras encenadas, cinema, teatro, espetáculos musicais, conversas correntes. É assim desde 2000, na Póvoa de Varzim, com o Festival Literário Correntes d’Escritas a assumir-se como “a verdadeira festa do livro” e a transformar-se, ao longo de dias tornados únicos pelo poder da palavra, num encontro onde cabem todos aqueles que amam os livros. Um encontro de amigos, portanto. Ensejo para encontros mais ou menos esperados, para uma breve troca de ideias, para um abraço, para um café. O melhor dos pretextos para enriquecer a biblioteca com as mais recentes novidades, tornadas ainda mais valiosas por que com dedicatória e assinatura do autor na página em branco. O espanto e a admiração por tantas e tão brilhantes intervenções. E, depois, regressar de coração cheio com as conversas com a Clara Haddad, o Marcial Gala, o Juan Gabriel Vasquez ou o Geovani Martins ainda na lembrança, os abraços do Luís Osório ou do João Luís Barreto Guimarães ainda colados à alma.

Depois de aqui ter estado em 2020, regresso à Póvoa para uma (única) tarde de emoções. As Correntes deste ano atraem cerca de uma centena de escritores de quinze nacionalidades e diferentes geografias de línguas hispânicas e portuguesas, distribuídos por dez mesas. Na sala principal do Cine-Teatro Garrett, testemunho o entusiasmo costumeiro que leva a que a sala encha rapidamente. Sinto o mesmo nervoso miudinho de sempre, agora que a primeira mesa da tarde está prestes a começar. Vejo no programa que todas as mesas têm como tema versos de poemas de Ana Luísa Amaral. Nesta, moderada por Minês Castanheira, o verso diz: “Sei somente de mim aquilo que me sonharam”. É quanto basta para que André Neves afirme que “a poesia é para ser servida em copos de shot”, para que Capicua fale de “estranhamento” nesse entranhar da matrescência e José Mário Silva partilhe o teor de dois sonhos onde cabem um frio antárctico, ursos polares, auroras boreais, elevadores que deslizam para andares com números absurdos e megafones gigantes. Também o “sexagenário” Rui Zink, citando o versículo 33, que diz (“e se não diz, devia dizer”): “Abençoados os nossos inimigos porque só na imaginação deles a vida nos corre às mil maravilhas”. E ainda a “ilustradora de causas” e “livreira-criadora” Mafalda Milhões, apostada em “dar ao leitor certo o livro certo e sair de perto”, na certeza de que “onde há uma livraria há Esperança!”

Com moderação de João Céu e Silva, a segunda mesa da tarde foi lançada sob o verso “Ficar de noite no avesso das coisas”. Margarida Ferra vincou que “nunca dominamos um texto, muito menos um poema” e Ivo Machado reconheceu no pássaro que cruzou o Oceano a pega que Ana Luísa Amaral colou num dos seus últimos poemas. Ondjaki desarrumou-nos (literalmente) o coração ao lembrar que as palavras podem ser pontes entre as pessoas: Gijon, poesia, deserto, solidão, quintal, gato, Luís Sepúlveda, Ana Luísa Amaral, Manuel António Pina. Porque “os amigos e as palavras são coisas que plantamos dentro de nós, depois é só esperar.” Na mais bem humorada intervenção da mesa, João Luís Barreto Guimarães mostrou que “os poetas andam por aí, vão ao supermercado, são tangíveis e vestem calças de ganga” e exortou a não confundir cócegas com comichão. Na sua ânsia de “descascar o quotidiano”, citou poetas norte-americanos, polacos, albaneses, russos e concluiu: “Comigo os Neurologistas não vão ganhar dinheiro. O Alzheimer, à beira de um poeta, é um menino.”

terça-feira, 22 de novembro de 2022

TERTÚLIA: Música com História VI



TERTÚLIA: Música com História VI
Com Joel Cleto, Miguel Araújo, Capicua, Carlos Tê
Organização | Confraria das Almas do Corpo Santo de Massarelos
Grande Auditório da Casa de Vilar
20 Nov 2022 | dom | 16:00


Um historiador, um músico, dois convidados, muita emoção e uma enorme empatia à volta de histórias, memórias e canções partilhadas com o público. Foi este o tom da sexta edição do Música com História, conversa a quatro vozes que se constituiu numa intensa e sentida evocação do Porto e das suas gentes. Mas antes de entrar naquilo que foram estas mais de duas horas de puro prazer, gostaria de realçar o labor da Confraria das Almas do Corpo Santo de Massarelos que, à sua vocação religiosa de promoção do culto público e do ensino da doutrina cristã em nome da Igreja, junta uma vasta obra social junto dos mais necessitados, sem descurar a promoção de um riquíssimo conjunto de eventos culturais visando o conhecimento e valorização do património material e imaterial da cidade e seus arredores. É aqui que se inscreve a iniciativa que, na tarde do passado domingo, fez esgotar os mil e duzentos lugares do Grande Auditório da Casa de Vilar, tal como sucedera já com as sessões anteriores, nas quais Rui Veloso, Sérgio Godinho e Pedro Abrunhosa juntaram a sua presença e a sua voz à dos “residentes” Joel Cleto e Miguel Araújo.

Porto de abrigo de um grupo de marinheiros que, em 1394, se organizaram em Confraria para dar cumprimento ao voto de erguer uma ermida a S. Pedro Telmo, por os ter salvo de um naufrágio quando navegavam de Londres em direcção ao Porto, Massarelos foi ponto de partida de uma conversa feita de presente – os concertos e a Feira do Livro no Palácio, os rissóis do Capa Negra -, mas também de passado – da Torre da Marca ao “zorro” da Sandeman, do outro lado do rio, ou à imperativa lavagem do carro, aos domingos, na Fonte de D. Pedro V. Guiados por Joel Cleto, de Massarelos ao Bolhão foi um pequeno salto, a “mão pesada” das vendeiras do mercado a soltar-se firme na voz de Capicua: “Grito sou guerreira, desnorteio, sou nortenha / E impero porque carrego o meu sonho convicta / Tripo, sou tripeira, de ferro sou ferrenha / E não nego que mantenho o meu trono invicta!”. Fala-se de mulheres do Porto, fala-se de mulheres do Norte e fala-se da mulher em geral, com Joel Cleto a vincar que “a História foi sempre contada muito no masculino” e que começa a devolver-se à mulher o lugar que ela merece, dando como exemplo D. Teresa de Aragão, mãe de D. Afonso Henriques, vista por muitos como “a primeira rainha de Portugal”.

No lento deambular pela cidade, do Bolhão ao Campo 24 de Agosto, evoca-se o cerco de treze meses à cidade, a Carta Constitucional, D. Pedro IV e Fernandes Tomás. Inesperadamente, a pergunta cai de chofre e tem Carlos Tê por destinatário: “O que significa o Tê?”. A resposta traz com ela a paixão de sempre pela música, sobretudo pelas novidades, pelo que se fazia lá fora nesses loucos anos 70 e 80, pelas muitas revistas e discos comprados, por aquilo que fazia de Carlos Alberto Gomes Monteiro um “tarado da música”. “Caiu o Éme, ficou o Tê”, conclui, e a viagem prossegue. Na Areosa vemos passar um certo trolha, “da Baixa à cantareira” vai o Chico Fininho e em Ramalde cruzamo-nos com um alfaiate. Esse mesmo alfaiate que “quer tomar pela última vez um galão no Astória, engraxar os sapatos por baixo dos bilhares do Imperial. Acima de tudo, ter um ultimo encontro com uma certa Laura na Viela do Anjo. E, no fim, comer umas Papas de Sarrabulho na Flor dos Congregados”. O momento é solene e remete para “O Porto a Oito Vozes”, um espectáculo (e um disco) memorável do grupo a capella Canto Nono, que Miguel Araújo recupera com a interpretação do sublime “Viela do Anjo”, letra de Carlos Tê e música de José Mário Branco.

A caminhada torna-se mais leve quando é passada a bola a Capicua. É ela que nos leva à Meca da cultura de massas “nos anos 80 e ainda hoje”. Não Nova Iorque, antes Vayorken, numa viagem aos seus tempos de criança, “mais Mafalda do que Susaninha”, “uma covinha só de um lado da bochecha”, “sempre vestida como um mini comunista / Com roupas que a mãe fazia com modelos da revista”. Também Carlos Tê recua no tempo, indo aterrar numa Revolução (a dos cravos, pois claro) onde descobre que tem “uma língua nova”. “A partir daqui valia tudo, até escrever poemas em português”, diz, realçando que “se o Chico (Buarque) escreve sobre o Rio (de Janeiro), eu também posso escrever sobre o Porto”. Porquê o Porto? “Porque o Porto dá-me jeito”, acrescentando: “Tive a sorte de ter o Rui (Veloso) a cantar as minhas letras”. Sobem-se os Guindais ao som da “Serenata do Norte” – “eu vou mais longe ainda e fico aqui” – e Miguel Araújo cita Gilberto Gil: “A minha música é o que ela quiser ser”. Mas também Michael Jackson: “Não escrevas música; deixa que a música se escreva a si própria”.

O resto da viagem faz-se a bordo do eléctrico. Não o 1 para Matosinhos e não o 9 que sai do Bolhão para S. Pedro da Cova; antes o 7, que vai à Ponte da Pedra. Com direito a pica e tudo. É dele que avistamos o Corredor Verde do Leça, resultado do esforço de recuperação de um rio que já foi um dos mais poluídos da Europa. Olhamos para o lado contrário e vemos a Circunvalação, imaginando na sua placa central o largo e profundo fosso que impedia a entrada na cidade, a não ser pelos locais de portagem. Essa mesma Circunvalação que serve de deixa para Capicua nos dizer: “Fino e francesinha, cimbalino e siga / Carvalhido acima até à Nandinha / Sou cria do Porto de corpo e sentimento / "Vai no Batalha" quem disser que isto é cinzento”. E da Batalha rumamos a Sul. Atravessamos o rio pelo tabuleiro superior da Ponte D. Luís e é justamente daí, “junto à Serra do Pilar” que avistamos o “velho casario”, “ (…) abandonado / Nesse timbre pardacento / Nesse teu jeito fechado / De quem mói um sentimento”. É arrepiante escutar mil vozes que se erguem em coro, embargadas de emoção neste abraço a um “Porto Sentido”, joia e hino da cidade. Em apoteose chegámos ao fim de uma viagem que parece só agora ter começado. E que bom que foi ter tido o privilégio de abraçar esta viagem!