Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta Hugo Carvalhais. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Hugo Carvalhais. Mostrar todas as mensagens

domingo, 28 de setembro de 2025

CONCERTO: "Na Primeira Pessoa" | Carlos Alberto Moniz



CONCERTO: “Na Primeira Pessoa”,
de Carlos Alberto Moniz
Com | Gabriel Pinto (piano), Hugo Carvalhais (contrabaixo), João Martins (bateria)
XI Festival Literário de Ovar 
Centro de Artes de Ovar
17 Set 2025 | qua | 22:30


Carlos Alberto Moniz é, indiscutivelmente, uma das figuras mais singulares e versáteis da música portuguesa do pós-25 de Abril. Nascido em Angra do Heroísmo, assumiu desde muito novo um papel destacado num período em que a música era, acima de tudo, veículo de consciência política e social. A sua participação activa no movimento da música de intervenção traduziu-se numa obra profundamente comprometida com os valores da liberdade, da justiça e da solidariedade, servindo de contraponto às narrativas da ditadura e como força mobilizadora no processo de transição democrática. Colaborou com Fausto Bordalo Dias, José Mário Branco, Sérgio Godinho ou José Afonso, e envolveu-se em projectos colectivos como o Grupo de Acção Cultural – Vozes na Luta. Apesar da clara matriz ideológica, a sua música não se limitou ao panfleto; nela, a dimensão estética e a qualidade melódica foram uma preocupação constante, conferindo-lhe um carácter poético, imune ao desgaste do tempo e das conjunturas políticas.

Não foi no papel de cantor da revolução que Carlos Alberto Moniz se apresentou em Ovar, na noite inaugural da décima primeira edição do Festival Literário. Dedicado a alguns dos autores que Moniz musicou ao longo da sua carreira, o concerto abraçou o desígnio do activismo literário, cruzando a música e a poesia e potenciando uma nova forma de fruição da palavra escrita. Superiormente acompanhado pelo pianista Gabriel Pinto, pelo contrabaixista Hugo Carvalhais e pelo baterista João Martins, Moniz abriu o concerto com “Coração Ilhéu”, um poema de Fernando Gomes dos Santos que abraça com carinho os Açores - “Nasci no meio do mar, / O meu berço foi a espuma. / Aprendi cedo a escutar / O ritmo das marés, o som da bruma.” Temas como “Angra 50 Anos Depois”, “Se Vieres à Ilha Como Dizes”, “Recados da Ilha” e “Avé Sardinha” serviram para homenagear o poeta Álamo Oliveira, com quem Carlos Alberto Moniz manteve uma colaboração de cinquenta anos de canções e que nos deixou há muito pouco tempo.

Mas a voz do cantor não nos trouxe apenas a poesia de Álamo Oliveira, arrastando consigo uma plêiade de poetas talentosos, de Avelino Gualdino Rodrigues a Manuel Alberto Valente, de António Melo e Souso a Liliana Lima, fazendo das suas palavras canção e tornando-as memória colectiva e emoção partilhada. A riqueza da lírica insular teve nas “Populares Açoreanas” um momento destacado, com a interpretação da “Charamba” e do “Bravo”, da “Lira” e do “Samacaio”, a saltarem do palco e a estenderem-se à plateia. Num serão feito de poesia, os últimos temas - “E um Dia fez-se Abril” e “Quero Agradecer” - lembraram tempos de liberdade e projectaram futuros que se esperam de paz e harmonia, temas universais que, a juntar à qualidade artística do cantautor, elevaram o concerto a um patamar de excelência. Simultaneamente voz da terra que o viu nascer e ponte entre as margens da cultura nacional, Carlos Alberto Moniz mostrou em Ovar a riqueza do nosso cancioneiro e a pertinência de o escutarmos e acarinharmos.

[Foto: Manuel Vitoriano | https://www.facebook.com/ovarcultura]

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

CERTAME: XI Festival Literário de Ovar - Dia 1



CERTAME: XI Festival Literário de Ovar
Ana Freijo, Bruno Henriques, Capicua, Carlos Alberto Moniz, Carlos Nuno Granja, CONTACTO – Companhia de Teatro Água Corrente de Ovar, Gabriel Pinto, Hugo Carvalhais, João Martins, José Ferreira, Luís Portugal, Mafalda Rocha, Tiago Schwäbl
Museu Júlio Dinis, Centro de Artes de Ovar
17 Set 2025 | qua | 18:00 e 21:30


Recuemos no tempo, a 03 de Setembro de 2015, dia em que o Festival Literário de Ovar nascia para o mundo sob os melhores auspícios. Nesse início de um fim-de-semana prolongado, a cidade vivia um primeiro grande momento à volta dos livros, numa união franca e aberta entre escritores e leitores, ilustradores, livreiros e demais agentes ligados à escrita e à leitura. Se há loucura na escrita e ousadia na literatura, se os sentimentos se revelam mais facilmente no universo literário, se é possível fugir às contradições da sociedade, foram questões, de então e de sempre, às quais Miguel Real, Carlos Campaniço, Pedro Guilherme-Moreira, Jaime Rocha, Margarida Fonseca Santos, Afonso Valente Batista, Filipa Leal, João de Melo e vários outros escritores souberam responder, num verdadeiro exercício de “dar cultura às nossas gentes”, como afirmou Salvador Malheiro, Presidente da autarquia à data. Dez anos depois, o FLO pode orgulhar-se de um currículo invejável, assente em muito trabalho e perseverança, dedicação e crer, que fazem dele um dos mais relevantes Festivais Literários do nosso país.

Passada uma década, quantos livros, quantas palavras, quantos autores? Quantas memórias? Quantas pessoas? Quantos momentos? Não haverá, no contexto do FLO, pessoa mais indicada para responder a esta questão do que Carlos Nuno Granja, a mais importante figura do certame, alguém que acredita, desde sempre, no poder inabalável da leitura para a construção do pensamento crítico, autonomia e profundidade interior da pessoa, mas também na oportunidade que os livros oferecem de desacelerar, reflectir e desenvolver uma visão mais ampla e fundamentada do mundo, ajudando a formar indivíduos mais conscientes e íntegros, menos influenciáveis. Ele, a par de uma pequena mas valiosa equipa, são os responsáveis pela manutenção de um verdadeiro selo de qualidade que o Festival detém, e que volta a programar, de forma sólida e segura, um conjunto de actividades que, ao longo de cinco ininterruptos dias – entre conversas, concertos, teatro, apresentações de livros, cinema e muito mais –, prometem transformar a cidade numa imensa e apaixonante biblioteca.

O pontapé de saída do FLO 2025 teve lugar ao final da tarde no Museu Júlio Dinis com a inauguração de “Mais tempo por aqui…”, Instalação Sonora da autoria de Tiago Schwäbl, inserida no projecto “Inovar as Letras – À Escuta da Literatura”. Oportunidade única para escutar os sons de uma casa e as palavras de um escritor, sabiamente escrutinadas na obra dinisiana e abertas ao público com sensibilidade e emoção. Seguiu-se a primeira mesa do Festival, dedicada a debater “O processo de criação artística e a obra literária”. Moderada por Carlos Nuno Granja e com Mafalda Rocha, Tiago Schwäbl, Ana Freijo e José Ferreira como convidados, a conversa foi ao encontro da Literatura e do Teatro, da Pintura, do Som e da Música, recuperando o ambiente acolhedor e familiar de uma casa ovarense e lançando a discussão em torno do processo criativo, suas dificuldades e condicionalismos, seus desafios e recompensas. A tarde encerrou com a performance “Pela Janela do Olhar”, encenada por José Ferreira e interpretada por um leque de actores da CONTACTO – Companhia de Teatro Água Corrente de Ovar, numa homenagem sentida aos autores que, desde 2008, passaram pelo Festival Escritaria, e que nos olham das paredes do Museu em belíssimas pinturas da autoria de Mafalda Rocha.

Com a presença em palco de Carlos Nuno Granja e do Presidente do Município de Ovar, Domingos Silva, a abertura oficial do FLO 2025 teve lugar ao início da noite, nela se falando de ousadia e utopia, de sonho e muito querer, elementos determinantes de afirmação de um Festival que constitui “uma das marcas identitárias de Ovar”. As palavras de Vergílio Ferreira, “Diz NÃO à liberdade que te oferecem, se ela é só a liberdade dos que ta querem oferecer” deram o mote à segunda mesa do Festival. Bruno Henriques moderou uma conversa que teve como convidados Luís Portugal e Capicua e que resultou, entre o sério e o irónico, num extraordinário momento de reflexão e partilha. De Sérgio Godinho, José Mário Branco, Fausto ou Zeca Afonso como fontes de inspiração para a escrita de canções, à dificuldade crescente em romper com o “establishment” e assumir a música como um acto de resistência, ambos os convidados coincidiram na ideia de que “a liberdade [para criar], ou é total, ou não é liberdade”. O primeiro dia do Festival encerrou com o concerto “Na Primeira Pessoa”, de Carlos Alberto Moniz. Em palco, na companhia de Gabriel Pinto (piano), Hugo Carvalhais (contrabaixo) e João Martins (bateria), o cantor ofereceu, em graça e beleza, a força da música açoriana, numa celebração da palavra de alguns dos seus maiores poetas.

quarta-feira, 19 de junho de 2024

CONCERTO: João Paulo Esteves da Silva Trio



CONCERTO: João Paulo Esteves da Silva Trio
Jazz no Reservatório 2024
Reservatório de Água da Pasteleira
16 Jun 2024 | dom | 18:00


Chegou ao fim a segunda edição do “Jazz no Reservatório”, série de quatro concertos com palco montado no bonito e bem cuidado espaço da cobertura do Reservatório de Água da Pasteleira. Programado por Hugo Carvalhais, o certame encerrou com o Trio de João Paulo Esteves da Silva, proporcionando ao muito público presente uma hora de jazz e improvisação livre com o toque mágico de um dos nossos maiores pianistas e compositores. Com um vasto percurso que passou pelo acompanhamento de artistas como Fausto e Sérgio Godinho, entre tantos outros, muito daquilo que reconhecemos historicamente como sonoridade do jazz português é fruto da criatividade de João Paulo Esteves da Silva, firmada em nome próprio em álbuns como “Sem Serra”, “Memórias de Quem”, “White Works” ou o muito recente “Farnel”, para além das colaborações com Maria Ana Bobone, Carlos Bica, Filipe Raposo, Mário Laginha, Maria João, Vitorino Salomé ou Cristina Branco.

A prática da “composição instantânea” é aquilo que melhor define a música do João Paulo Esteves da Silva Trio. Constituído por João Paulo Esteves da Silva (piano), Mário Franco (contrabaixo) e Samuel Rohrer (bateria), o agrupamento tem na improvisação a pedra de toque da sua música, entregando-se a ela em permanente movimento, num fluxo contínuo, como o correr de um rio que, ora é um fio de água, ora caudalosa torrente, dispensando intenções banais para as suas peças e composições. Firmemente enraizada nas convenções jazzísticas, a música do trio bebe na tradição popular e no classicismo uma parte significativa da sua inspiração, valendo-se de um entendimento intuitivo, da fluidez e transparência da comunicação entre os músicos, das suas ações e reacções, das sequências solísticas que prolongam a fluidez do som e a cultura e nobreza musical. Aqui, a profundidade emotiva assume, sempre, maior importância que o virtuosismo.

Aquilo a que pudemos assistir na tarde do passado domingo foi mágico. Adequando a música ao espaço, tirando o melhor partido dos sons da cidade, fazendo deles causa e efeito das suas “composições instantâneas”, o João Paulo Esteves da Silva Trio mostrou o quanto de belo pode existir naquilo a que se convencionou chamarmos “ruído”. Conduzindo o trio numa base de grande harmonia, João Paulo Esteves da Silva brindou os presentes com a versatilidade e organicidade da sua música, onde couberam os gritos das gaivotas, o estralejar dos foguetes ou as correrias das crianças atrás de uma bola. Ver a música a desenhar-se de forma espontânea e livre e sentir a sua pureza num espaço tão único foi o privilégio que assistiu a todos quantos marcaram presença no concerto. Ficam os momentos de verdadeiro deleite graças à qualidade e virtuosismo dos três executantes e fica essa nota muito pessoal de dar por mim a acompanhar um som grave, que aos poucos se desvanece, e que não é mais do que o barulho dos motores de um avião que se afasta rumo a Sul.

terça-feira, 26 de abril de 2022

CONCERTO: "Ascética"



CONCERTO: “Ascética”
Hugo Carvalhais Feat. Liudas Mockūnas
Ovar em Jazz 2022
Centro de Arte de Ovar
24 Abr 2022 | dom | 18:30


Só em contextos muito específicos nos atreveríamos a comparar maçãs com azulejos ou colchões com martelos pneumáticos. Talvez o mesmo se possa dizer deste “Ascética”, se quisermos atribuir-lhe um degrau na escala de valores do Ovar em Jazz 2022. É que a proposta musical que Hugo Carvalhais nos trouxe não é comparável com nada que tivéssemos escutado na edição deste ano do certame (nem deste ano nem de anos anteriores, em Ovar ou onde quer que pudesse ter sido). Refratário a rótulos, alinhado com a complexidade e as contradições que assistem à própria definição do que é ou não o jazz, “Ascética” é uma entidade única, paradoxal, com tanto de pacífico como de tempestuoso, de equilibrado como de temperamental. Com tanto de ordem como de caos. É um objecto essencialmente orgânico, que se regenera a partir do próprio núcleo, fonte irrefriável de energia, intransigentemente visceral, deliberadamente solto e livre.

Não poderíamos querer mais do concerto que, ao final da tarde do passado domingo, encerrou a quarta edição do Ovar em Jazz. De uma exigência e complexidade incomuns, as peças tocadas pediram o máximo de músicos e público, cúmplices numa experiência imersiva, ao mesmo tempo asfixiante e vivificadora. Na companhia do contrabaixista Hugo Carvalhais estiveram Fábio Almeida no saxofone alto e flauta, Gabriel Pinto no órgão e sintetizadores, Fernando Rodrigues no órgão e teclados, João Martins na bateria e Liudas Mockūnas no saxofone tenor. Mockūnas que foi uma das figuras em destaque no seio da formação, abordando os vários temas numa linha marcadamente experimental, ao arrepio de quaisquer convenções estilísticas. Mérito, logicamente, de Hugo Carvalhais, que assina todas as composições (uma ou outra em parceria com Gabriel Pinto) e cria, em todas elas, espaço para os músicos poderem explanar a sua alegria, intuição e virtuosismo.

Mas escutemos os primeiros sons que vêm da bateria. Dispensam o ritmo. Estamos no 47º andar de um prédio em construção no coração de Manhattan, numa remota aldeia do Tibete ou onde cada um de nós quiser estar. Juntam-se os saxofones e, de seguida, os sintetizadores. Discretamente, o contrabaixo faz também a sua aparição. Somos tomados por uma estranheza há medida que vamos sendo invadidos pela música. Há portões que se fecham com estrondo, há rodas que chiam na ferrugem dos eixos, há chuva que fustiga um telhado de zinco. Cúmplices, os saxofones tomam conta da paisagem. Vão mostrando como, depois da desordem, tudo consegue reorganizar-se e regressar à calma. O orgão e os seus acordes harmoniosos abrem-nos as portas do céu. Afinal, há em tudo isto muito mais do que música. Há planetas que chocam e corações que batem descompassados. Há mares de lama que borbulham e borboletas que deixam ouvir um roçar de asas. Há silêncios a explodir à nossa volta. E há esse sentir que nos traz a certeza das coisas raras e boas, mas que não se explica, que não tem uma palavra que o defina. Talvez “ascética” seja essa palavra. 

[Foto: Ovar / Cultura | facebook.com/ovarcultura/]