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terça-feira, 14 de abril de 2026

CONCERTO: Oxímoro | Ovar em Jazz 2026



CONCERTO: Oxímoro
Com | João Martins (bateria, sintetizador, caixa de ritmos), Gabriel Neves (saxofone soprano), Daniel Dias (trombone), Nuno Trocado (guitarra eléctrica), Fernando Rodrigues (sintetizador), Laura Rui (voz e sintetizador)
Ovar em Jazz 2026
Bar do Centro de Artes de Ovar
10 Abr 2026 | sex | 23:00


Foi no cair da noite que o terceiro dia do Ovar em Jazz encontrou o seu momento mais desassombrado, com a apresentação de “Oxímoro”, projecto de João Martins, compositor e instrumentista que tem sido um dos grandes motores deste festival desde a primeira hora. Misto de lucidez e ousadia, o concerto afirmou-se como um laboratório vivo de tensões instáveis e equilíbrios precários, à altura do que de melhor podemos usufruir em matéria de jazz. Se, na tertúlia / escuta comentada de Maio de 2025 [AQUI], o músico havia exposto ao detalhe a arquitectura conceptual do álbum, aqui foi o corpo sonoro que tomou a dianteira, libertando-se de explicações para se afirmar numa linguagem de permanente risco e reinvenção. Desde os primeiros instantes, tornou-se claro que este sexteto não vinha para fazer concessões. Ora pulsante ora fragmentária, a bateria de João Martins assumiu-se como eixo catalisador de um discurso onde o inesperado recusou ser excepção, abrindo caminho a um fluxo sonoro que oscilou entre momentos de suspensão rarefeita e uma densidade quase caótica.

A instrumentação alargada revelou-se determinante na construção desta narrativa. Gabriel Neves, no saxofone soprano, desenhou linhas com tanto de abrasivo como de insinuante, enquanto Daniel Dias trouxe ao trombone uma fisicalidade rugosa, frequentemente em confronto directo com a guitarra eléctrica de Nuno Trocado, cujo registo oscilou entre texturas saturadas e subtis incursões atmosféricas. Dividida entre a voz e o sintetizador, Laura Rui evitou qualquer lirismo óbvio, optando antes por vocalizações fragmentadas, quase espectrais, integradas num tecido electrónico que Fernando Rodrigues ajudou a expandir com camadas de síntese ora envolventes, ora dissonantes. O resultado foi um contínuo em mutação, onde ritmos quebrados, loops insinuados e explosões súbitas coexistiram numa espécie de improvisação guiada, mais próxima de um “acto de fé” colectivo do que de uma execução estritamente planeada.

Não sendo música para todos os gostos e públicos - e ainda bem que assim é -, “Oxímoro” afirma-se como uma experiência estética exigente, que se impõe pela negação de uma certa linearidade e lança o desafio ao público a que abdique de todas e quaisquer referências estáveis. Momentos há em que a turbulência sonora parece roçar o colapso, com a bateria a disparar rajadas em doses industriais e os sintetizadores a distorcerem o espaço auditivo até ao limite, mas é precisamente nessa vertigem que o projecto encontra a sua coerência interna. Tal como nas melhores expressões do “free jazz”, o concerto não buscou sustentação na desobstrução por mero efeito ou acaso, antes partiu ao encontro de novas formas de articulação entre som, silêncio e gesto. No final, ficou a certeza de termos assistido a algo irrepetível, um objecto artístico em permanente devir que, fiel ao seu título, fez da contradição não um obstáculo, mas o seu mais fértil princípio criativo.

terça-feira, 26 de abril de 2022

CONCERTO: "Ascética"



CONCERTO: “Ascética”
Hugo Carvalhais Feat. Liudas Mockūnas
Ovar em Jazz 2022
Centro de Arte de Ovar
24 Abr 2022 | dom | 18:30


Só em contextos muito específicos nos atreveríamos a comparar maçãs com azulejos ou colchões com martelos pneumáticos. Talvez o mesmo se possa dizer deste “Ascética”, se quisermos atribuir-lhe um degrau na escala de valores do Ovar em Jazz 2022. É que a proposta musical que Hugo Carvalhais nos trouxe não é comparável com nada que tivéssemos escutado na edição deste ano do certame (nem deste ano nem de anos anteriores, em Ovar ou onde quer que pudesse ter sido). Refratário a rótulos, alinhado com a complexidade e as contradições que assistem à própria definição do que é ou não o jazz, “Ascética” é uma entidade única, paradoxal, com tanto de pacífico como de tempestuoso, de equilibrado como de temperamental. Com tanto de ordem como de caos. É um objecto essencialmente orgânico, que se regenera a partir do próprio núcleo, fonte irrefriável de energia, intransigentemente visceral, deliberadamente solto e livre.

Não poderíamos querer mais do concerto que, ao final da tarde do passado domingo, encerrou a quarta edição do Ovar em Jazz. De uma exigência e complexidade incomuns, as peças tocadas pediram o máximo de músicos e público, cúmplices numa experiência imersiva, ao mesmo tempo asfixiante e vivificadora. Na companhia do contrabaixista Hugo Carvalhais estiveram Fábio Almeida no saxofone alto e flauta, Gabriel Pinto no órgão e sintetizadores, Fernando Rodrigues no órgão e teclados, João Martins na bateria e Liudas Mockūnas no saxofone tenor. Mockūnas que foi uma das figuras em destaque no seio da formação, abordando os vários temas numa linha marcadamente experimental, ao arrepio de quaisquer convenções estilísticas. Mérito, logicamente, de Hugo Carvalhais, que assina todas as composições (uma ou outra em parceria com Gabriel Pinto) e cria, em todas elas, espaço para os músicos poderem explanar a sua alegria, intuição e virtuosismo.

Mas escutemos os primeiros sons que vêm da bateria. Dispensam o ritmo. Estamos no 47º andar de um prédio em construção no coração de Manhattan, numa remota aldeia do Tibete ou onde cada um de nós quiser estar. Juntam-se os saxofones e, de seguida, os sintetizadores. Discretamente, o contrabaixo faz também a sua aparição. Somos tomados por uma estranheza há medida que vamos sendo invadidos pela música. Há portões que se fecham com estrondo, há rodas que chiam na ferrugem dos eixos, há chuva que fustiga um telhado de zinco. Cúmplices, os saxofones tomam conta da paisagem. Vão mostrando como, depois da desordem, tudo consegue reorganizar-se e regressar à calma. O orgão e os seus acordes harmoniosos abrem-nos as portas do céu. Afinal, há em tudo isto muito mais do que música. Há planetas que chocam e corações que batem descompassados. Há mares de lama que borbulham e borboletas que deixam ouvir um roçar de asas. Há silêncios a explodir à nossa volta. E há esse sentir que nos traz a certeza das coisas raras e boas, mas que não se explica, que não tem uma palavra que o defina. Talvez “ascética” seja essa palavra. 

[Foto: Ovar / Cultura | facebook.com/ovarcultura/]