Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta Fábio Almeida. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Fábio Almeida. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

CONCERTO: Phantom Trio



CONCERTO: Phantom Trio
A Sede
17 Jan 2024 | qua | 21:30


Da comunhão de interesses e da partilha de ideias em torno de uma enorme paixão pelo jazz nasceu o Phantom Trio, projecto musical que reúne o contrabaixista Sérgio Tavares, o saxofonista Fábio Almeida e o baterista João Martins. Ancorado no experimentalismo e na improvisação livre, o trio deu-se a conhecer em Abril de 2016, altura em que lançou o seu primeiro (e até hoje único) álbum de originais e que serviu de impulso a que a sua música se pudesse escutar em variados palcos – Ovar incluído, na primeira edição do Ovar em Jazz –, sempre numa onda de boa disposição, energia, qualidade e bom gosto. O envolvimento dos três músicos em vários outros projectos e o longo período pandémico foram de molde a que só esporadicamente tenham vindo a público nos anos mais recentes, o que acaba por justificar o epíteto de “fantasmas”. Fantasmas que resolveram materializar-se de novo e descer à terra para “assombrar” a noite de ontem ali para os lados da Arruela, no simpático e acolhedor espaço d’A Sede. O trio saiu a ganhar, mas também o público, brindado com cinquenta minutos de um jazz sedutor e pleno de energia, comprometido com a arte da improvisação, entusiasta e caloroso, empenhado e inspirador.

Nas breves palavras proferidas antes da sessão, João Martins falou deste concerto como uma oportunidade para os três amigos voltarem a tocar juntos, agora que Fábio Almeida abraçou um projecto em Tilburg, nos Países Baixos, e só esporadicamente se desloca ao nosso país. Foi, pois, uma sessão marcada pelo prazer do reencontro e da partilha, pela amizade e cumplicidade que une os músicos e que se estendeu ao público e o envolveu num abraço caloroso, amplificando assim os momentos de alegria e diversão. A música foi disso prova, a arte do improviso como uma constante, os “diálogos” mantidos com total abertura, ora entusiásticos e expressivos, ora contidos, ciciados, um quase nada. Entre a estridência e o silêncio, nada ficou por dizer. Como as cerejas, a “conversa” fluiu de forma franca, apenas cortada pelos aplausos nos intervalos entre os três temas interpretados e pela sentida ovação final. Abertas as portas de um mundo singular, foi tempo de contemplar as mais fascinantes paisagens, ora serenas e relaxantes, ora revoltas e impetuosas, mas sempre livres e vivas, plenas de raiva e de paixão.

Com João Martins a marcar o ritmo, nisso sendo extraordinariamente coadjuvado por Sérgio Tavares, foi a Fábio Almeida que coube a tarefa de conduzir a música pelas mais inesperadas paragens. Com o avançar do concerto, o conceito de espaço foi cedendo o lugar à noção de tempo, para isso contribuindo o trabalho sincopado da bateria, a dar a sensação de estarmos perante uma infinidade de relógios de ruidosos mecanismos na sua marcha inexorável. O tempo e o instante, a sua única realidade, “suspenso entre dois nadas”, como disse Gaston Bachelard. Foi sobre este eixo que atravessámos as múltiplas dimensões do concerto, em solos inspirados e em diálogos produtivos, nos quais sobressaíram aqueles em que a bateria e o contrabaixo se colocaram frente a frente. Na mente fica o arco sobre as cordas do contrabaixo, levado pelos movimentos elípticos do braço de Sérgio Tavares, a intensidade e exuberância dos agudos do saxofone de Fábio Almeida e os múltiplos recursos de João Martins, aos quais não escapou um punhado de chocalhos. O único reparo é que soube a pouco.

terça-feira, 26 de abril de 2022

CONCERTO: "Ascética"



CONCERTO: “Ascética”
Hugo Carvalhais Feat. Liudas Mockūnas
Ovar em Jazz 2022
Centro de Arte de Ovar
24 Abr 2022 | dom | 18:30


Só em contextos muito específicos nos atreveríamos a comparar maçãs com azulejos ou colchões com martelos pneumáticos. Talvez o mesmo se possa dizer deste “Ascética”, se quisermos atribuir-lhe um degrau na escala de valores do Ovar em Jazz 2022. É que a proposta musical que Hugo Carvalhais nos trouxe não é comparável com nada que tivéssemos escutado na edição deste ano do certame (nem deste ano nem de anos anteriores, em Ovar ou onde quer que pudesse ter sido). Refratário a rótulos, alinhado com a complexidade e as contradições que assistem à própria definição do que é ou não o jazz, “Ascética” é uma entidade única, paradoxal, com tanto de pacífico como de tempestuoso, de equilibrado como de temperamental. Com tanto de ordem como de caos. É um objecto essencialmente orgânico, que se regenera a partir do próprio núcleo, fonte irrefriável de energia, intransigentemente visceral, deliberadamente solto e livre.

Não poderíamos querer mais do concerto que, ao final da tarde do passado domingo, encerrou a quarta edição do Ovar em Jazz. De uma exigência e complexidade incomuns, as peças tocadas pediram o máximo de músicos e público, cúmplices numa experiência imersiva, ao mesmo tempo asfixiante e vivificadora. Na companhia do contrabaixista Hugo Carvalhais estiveram Fábio Almeida no saxofone alto e flauta, Gabriel Pinto no órgão e sintetizadores, Fernando Rodrigues no órgão e teclados, João Martins na bateria e Liudas Mockūnas no saxofone tenor. Mockūnas que foi uma das figuras em destaque no seio da formação, abordando os vários temas numa linha marcadamente experimental, ao arrepio de quaisquer convenções estilísticas. Mérito, logicamente, de Hugo Carvalhais, que assina todas as composições (uma ou outra em parceria com Gabriel Pinto) e cria, em todas elas, espaço para os músicos poderem explanar a sua alegria, intuição e virtuosismo.

Mas escutemos os primeiros sons que vêm da bateria. Dispensam o ritmo. Estamos no 47º andar de um prédio em construção no coração de Manhattan, numa remota aldeia do Tibete ou onde cada um de nós quiser estar. Juntam-se os saxofones e, de seguida, os sintetizadores. Discretamente, o contrabaixo faz também a sua aparição. Somos tomados por uma estranheza há medida que vamos sendo invadidos pela música. Há portões que se fecham com estrondo, há rodas que chiam na ferrugem dos eixos, há chuva que fustiga um telhado de zinco. Cúmplices, os saxofones tomam conta da paisagem. Vão mostrando como, depois da desordem, tudo consegue reorganizar-se e regressar à calma. O orgão e os seus acordes harmoniosos abrem-nos as portas do céu. Afinal, há em tudo isto muito mais do que música. Há planetas que chocam e corações que batem descompassados. Há mares de lama que borbulham e borboletas que deixam ouvir um roçar de asas. Há silêncios a explodir à nossa volta. E há esse sentir que nos traz a certeza das coisas raras e boas, mas que não se explica, que não tem uma palavra que o defina. Talvez “ascética” seja essa palavra. 

[Foto: Ovar / Cultura | facebook.com/ovarcultura/]