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quinta-feira, 24 de setembro de 2026

CERTAME: XII Festival Literário de Ovar - Dia 5



CERTAME: XII Festival Literário de Ovar
Ágata Pereira, Aurelino Costa, Aurora Gaia, Carlos Nuno Granja, Cristiana Rodrigues, Hélder Bruno, Iuri Oliveira, João Pedro Vala, Jorry, José J. Cabral, Mara Domingues, Maria Martins, Marisa Lemos, Miguel Gouveia, Rafael Gallo, Rui Guedes, Surma, Teresa Carvalho, Zetho Cunha
Parque Urbano de Ovar, Bar do CAO e Centro de Artes de Ovar
20 Set 2026 | dom | 10:00 e 15:00


Há sempre uma espécie de melancolia no último dia de um Festival. Em Ovar, no passado domingo, ela foi-se insinuando devagar, entre livros, desenhos, histórias e conversas, como se ninguém se atrevesse a dar por adquirido que a festa estava a chegar ao fim. O Parque Urbano recebeu as primeiras palavras do dia, com a apresentação de “Sr. Loisas - A biblioteca itinerante é bastante extravagante”, de Carlos Nuno Granja, ilustrado por Yana Marques. Seguiu-se uma oficina de ilustração de Cristiana Rodrigues e uma conversa moderada por Rui Guedes e dedicada à mediação da leitura. Marisa Lemos, Ágata Pereira e Mara Domingues, as convidadas desta penúltima mesa do FLO, falaram da escrita como lugar de humildade, da leitura como encontro e das histórias como instrumentos capazes de nos tocar antes mesmo de sabermos exactamente porquê. “A criança lê pelos ouvidos”, lembrou Marisa Lemos. Ágata Pereira haveria de dizer que, mesmo se tivesse escrito vinte livros, não abdicaria nunca de ser professora. E Mara Domingues deixou uma ideia particularmente bonita: um livro pode ser apenas uma história que nos soube bem; não tem necessariamente de carregar consigo uma moral. Depois, os contos de Miguel Gouveia prolongaram essa manhã em que as palavras ainda hesitavam em despedir-se.

À tarde, já no Bar do CAO, a literatura ganhou outros contornos. “Cinzas & Sudário”, de Aurelino Costa, abriu caminho para uma “Poesia A Meias”, partilhada pelo próprio autor, com Zetho Cunha Gonçalves e Aurora Gaia, num encontro em que a palavra poética encontrou uma particular dimensão de voz, respiração e presença. Mas seria na última mesa do Festival, moderada por Teresa Carvalho, que a conversa haveria de se deter sobre esse território onde a literatura respira entre o íntimo e o colectivo. João Pedro Vala falou de uma literatura mais próxima da vírgula do que do ponto de exclamação, um espaço de respiração e não de exaltação. Rafael Gallo lembrou o perigo dos pontos de exclamação quando se pretende dar demasiado peso às frases e falou do medo de perder a casa ou o emprego de que se alimentam as narrativas neofascistas. José J. Cabral reclamou para os escritores a responsabilidade de reflectirem a verdade dos seus países e contrariarem as narrativas institucionais: nem tudo o que vemos, disse, é postal ilustrado. Entre o manguito e a vírgula, entre a História que herdámos e aquilo que ainda precisamos de reinventar, ficou a literatura como lugar de confronto, mas também de conforto e transformação.

A música reservava uma surpresa para o final de um programa que, ao longo de cinco dias, teve tudo para agradar a todos. “Ether Sculptures”, de Hélder Bruno, encerrou o Festival Literário de Ovar como se o fim pudesse, afinal, ser uma outra forma de começo. No palco, piano, baixo eléctrico, teclados, guitarra, sintetizadores, bateria, percussões e violoncelo construíram uma matéria narcadamente sensorial. Hélder Bruno, acompanhado por Jorri, Surma, Iúri Oliveira e Maria Redes Martins, levou o público para esse território onde o som deixa de ser apenas som e passa a ser paisagem, memória, emoção. Foi, em grande medida, a despedida perfeita para um Festival feito de palavras: depois de tantos livros, autores, leitores, perguntas e respostas, restava aquilo que talvez seja mais difícil de nomear. Uma atmosfera. Uma vibração. Qualquer coisa que permaneceu dentro de nós quando as cadeiras começaram a esvaziar-se e as luzes se apagaram. Se uma imagem vale mil palavras, como dizia a apresentação do espectáculo, talvez uma música possa valer mil imagens. E naquela última hora, Ovar pareceu guardar dentro de si todas elas.

Foi assim que terminou a XII edição do Festival Literário de Ovar: sem um verdadeiro ponto final, porque os livros não sabem terminar assim, nem as histórias, nem as conversas que ficam a trabalhar dentro de quem as ouviu ou nelas participou. Escritores e leitores despediram-se da cidade, guardando consigo aquilo que os festivais verdadeiramente deixam: frases impossíveis de esquecer, outras tantas perguntas, encontros que continuam para lá destes dias inesquecíveis e a sensação rara de ter pertencido, por instantes, a uma comunidade reunida em torno da palavra. Depois, começa o silêncio. A cidade regressa ao seu ritmo habitual, os lugares onde durante dias se ouviram vozes ficam novamente à espera, instala-se aquele vazio agridoce que acompanha todas as despedidas felizes. O festival acaba, mas Ovar fica com a memória do que aconteceu e com a longa, quase insuportável espera pelo dia em que os livros voltarão a ocupar a cidade, as palavras tornarão a atravessar praças e ruas e alguém voltará a dizer que é hora de recomeçar.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

CERTAME: XII Festival Literário de Ovar - Dia 1



CERTAME: XII Festival Literário de Ovar
Alexandra Gondin, Ana Paula Tavares, António França, Aurora Gaia, Bruno Henriques, Carlos Nuno Granja, Domingos Silva, Filipa Leal, Hélder Ventura, João Martins, Joaquim Arena, José Ferreira, José Ferreira Soares (Zé da Vesga), Lourdes Lara, Óscar Graça
Museu Júlio Dinis, Centro de Artes de Ovar
16 Set 2026 | qua | 18:00 e 21:00


Vivo, dinâmico, alegre, disponível e recheado de propostas irrecusáveis, o Festival Literário de Ovar abriu as portas da sua décima segunda edição na passada quarta-feira. Entre o Museu Júlio Dinis e o Centro de Artes de Ovar, o FLO começou a desenhar o seu território, preenchendo-o de livros, de vozes, de memórias, de música e, sobretudo, de encontros. Primeiro, Aurora Gaia, 87 anos de uma vida entregue às artes, foi estrela em cena através da exposição “Aurora – (Com)Vivências… Teatro, Cinema, Televisão e Literatura”, como que regressada a uma casa onde persistem tantos pedaços de si. Depois, na abertura oficial do certame, Carlos Nuno Granja lembrou que o FLO é essa utopia que se tornou realidade e que não desiste de aproximar os escritores dos leitores, a cidade dos livros. Domingos Silva, Presidente do Município, falou de um espaço de encontros que o tempo tornou necessário, evocando a contradição de um presente em que “preferimos o resumo ao ensaio, a legenda ao artigo”. E talvez o FLO exista para contrariar isso mesmo, afirmando-se como uma espécie de resistência tranquila à voragem dos dias, um lugar onde ainda se pode parar. Parar para ouvir. Parar para pensar. Parar, simplesmente, para estar.

Foi nesse lugar de encontro que se escutou o “Grito Calado”, de Zé da Vesga, livro onde a poesia se mistura com as canções e onde uma vida inteira parece procurar palavras para serem contadas. Lourdes Lara disse-o com uma imagem feliz: “[Zé da Vesga] aprendeu a falar com a vida através das palavras, a falar com o coração através da música”. Nisto reside a essência de um livro que reúne poemas, inquietações e memórias, mas também muitas das canções que escreveu para o Cantar os Reis, guardando nas suas páginas uma parte da memória colectiva da cidade. Aos 87 anos, o autor entrou na noite sem a solenidade dos que chegam para falar de uma obra acabada. Chegou com desassombro, as dúvidas à flor da pele: “Porque não brincam os homens ao pião em vez de se preocuparem em brincar às mortes?”. E depois deixou uma frase que podia ser lema, desejo ou oração: “Menos armas, mais poesia”. Quando a música e a poesia tomaram finalmente o palco, Filipa Leal, João Martins e Óscar Graça fizeram exactamente isso: procuraram um lugar onde as palavras pudessem encontrar ninho. Entre silêncios, piano, teclados e sopros, os poemas foram deixando de ser apenas palavras para se tornarem matéria sonora. Num gesto cúmplice, os instrumentos souberam acompanhar a voz sem nunca a aprisionar, respeitando-lhe as pausas, prolongando-lhe os silêncios, sublinhando uma frase mais emotiva ou apenas sussurrada, acrescentando camadas de sentido aos poemas.

Mas houve um momento em que o FLO se agigantou e que correspondeu à primeira de onze mesas que, até ao final da tarde do próximo domingo, assumirão o papel de protagonistas numa programação rica e variada. Sentados frente a frente, sob a moderação inteligente e bem humorada de Bruno Henriques, Ana Paula Tavares e Joaquim Arena falaram de viagens que nem sempre precisam de estrada ou geografias e que, mesmo quando ficam para trás, continuam a viver dentro de quem parte. Ana Paula Tavares, Prémio Camões 2025, falou de Angola como se fala de uma ausência que nunca se ausenta. “Estar fora de Angola tira muito mais do que acrescenta”, disse. A distância não lhe resolveu a relação com os lugares de nascimento e crescimento; pelo contrário, devolveu-os na forma de solidão, memória e escrita. Mas a memória, sabe-o a historiadora, não é imóvel. É fugaz, reconstrói-se, reinventa-se. “A memória da guerra, numa Angola onde 75 por cento da população tem hoje vinte anos, já não é necessariamente memória vivida: é memória reconstruída, recebida, retrabalhada”, afirma. É contra a possibilidade da perda que a sua escrita se ergue. A memória da mãe, da avó, das vozes antigas, das formas de dizer e de entender o mundo, tudo isso se reúne nesse “fio da memória” que a poeta procura tecer no laboratório da poesia. Escrever é, para Ana Paula Tavares, uma forma de não deixar morrer. Uma maneira de trazer para o presente aquilo que o presente, tantas vezes, parece querer esquecer.

Joaquim Arena acrescentou à conversa outra geografia da ausência. Cabo Verde, os que partem e os que ficam, as famílias que aprendem a viver separadas, a diáspora, a saudade que se torna matéria de escrita. “Movimento é literatura. A minha escrita é uma escrita em trânsito”, disse. E, por momentos, Angola e Cabo Verde pareceram encontrar-se nesse lugar sem fronteiras onde a literatura transforma a distância em presença e a ausência em memória. Joaquim Arena falou da literatura como “um dos poucos espaços da nossa liberdade”; Ana Paula Tavares falou da poesia como espaço capaz de recuperar formas de vida ameaçadas pela voragem do mundo moderno. Houve, nas palavras de ambos, uma inquietação comum: o que acontece quando se perde a memória? O que acontece quando se perde a capacidade de ler, de reflectir, de pensar? Falaram de controlo, de vigilância, do incómodo que o pensamento livre provoca nos que detêm o poder. E falaram do escritor como alguém que permanece na linha da frente dessa batalha silenciosa. “O escritor é uma espécie de ‘frente de combate’ contra aqueles que querem cercear a nossa liberdade”, afirmou Joaquim Arena. Ana Paula Tavares lembrou que os poderes não gostam de ser incomodados. E foi nesse cruzamento entre memória e liberdade, entre identidade e escrita, que a conversa ganhou uma dimensão maior do que a própria literatura, obrigando-nos a reflectir sobre o que ainda queremos ou podemos preservar de nós mesmos.

Talvez por isso, noite alta, quando as luzes do Centro de Artes se desvaneceram e Filipa Leal começou a descobrir lugares para as suas palavras, os resistentes da sessão encontraram um lugar cinestésico, imune às leis da gravidade, da cor do arco-íris, que foi colo, afago, doçura e amor. Porque as palavras tinham passado toda a tarde e noite a procurar esse lugar: na vida de Aurora Gaia, nas memórias e canções de Zé da Vesga, nas palavras de dois autores que escreveram a partir da distância, da história e da ausência, e finalmente na música que João Martins e Óscar Graça lhes ofereceram como espaço de escuta. “Ouvir é a maneira mais pura de calar”, dizia o projecto. Terá sido essa a última lição da noite inaugural do FLO: compreender que há palavras que não pedem respostas, pedem presença. Que há memórias que só sobrevivem se forem ditas. Que há viagens que começam muito depois de regressarmos. E que a literatura, quando assim acontece, não termina no momento em que o leitor fecha o livro, nem quando o poema acaba, nem quando a música deixa de se ouvir. Fica. Algures entre a memória e o silêncio. Agora que a cidade dorme, as palavras dormem com ela, certas de terem encontrado o seu lugar.

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

CERTAME: XI Festival Literário de Ovar - Dia 4



CERTAME: XI Festival Literário de Ovar
Ana Zorrinho, aRita, Aurelino Costa, Aurora Gaia, Bruno M. Franco, Carla Pais, Cátia Cardoso, Cristina Marques, Diana de Oliveira, Elsa Teixeira, Filipa Amorim, Filipa Vera Jardim, Helena Ribeiro, Joana Nogueira, João B. Ventura, José Riço Direitinho, Joaquim Margarido, Lúcia Moniz, Luís Correia Carmelo, Miguel d’Alte, Minês Castanheira, Miriam Gonçalves, Nuno Alexandre Vieira, Paula Mendes Coelho, Pedro Lamares, Pedro Reisinho, Ricardo Santos, Raquel Patriarca, Rita Tormenta, Rodrigo Vieira Dias, Rui Sobral, Sara Dias Oliveira, Sílvia Lima, Trigo Limpo – Teatro ACERT, Vasco Prazeres, Vera Morgado, Vítor Gil Cardeira, Zetho Gonçalves
Parque do Buçaquinho, Museu Júlio Dinis, Jardim dos Campos, Centro de Artes de Ovar e Bar do CAO
20 Set 2025 | sab | 10:00, 14:00 e 21:30


Tradicionalmente o mais exigente, mas também o mais aliciante, o quarto dia do Festival Literário de Ovar voltou a prender a atenção dos amantes do livro e da leitura, pela sua rica e variada oferta. “Patrulha Raposa – Vigilantes da floresta”, escrito por Diana de Oliveira e apresentado por Pedro Reisinho, deu início a uma viagem que teve o seu início no Parque Ambiental do Buçaquinho e viria a terminar, mais de quinze horas depois, no Bar do Centro de Artes de Ovar. Num espaço dedicado à Literatura Infantil, a manhã foi preenchida com uma Oficina de Ilustração dinamizada por aRita, uma sessão de contos com Luís Correia Carmelo e ainda uma Mesa moderada por Helena Ribeiro e que teve num painel constituído por Miriam Gonçalves, Elsa Teixeira e Rodrigo Vieira Dias, três figuras muito especiais. Entre as estratégias para adormecer os mais novos e o poder das ideias em frente da folha em branco, os convidados falaram de livros, das fontes de inspiração dos seus trabalhos, da necessidade da literatura infantil para o crescimento e desenvolvimento infantil, mas também da importância do “aborrecimento” das crianças, da ausência de estímulos que muitas vezes deixam os pais exauridos, mas que as obriga a serem criativas.

Ao início da tarde, no Museu Júlio Dinis, procedeu-se à entrega de prémios da “III Edição do Concurso Literário e de Ilustração Júlio Dinis 2025”, uma iniciativa do Agrupamento de Escolas Ovar Sul e que conta com o apoio da Câmara Municipal de Ovar. A mais conhecida “Casa Ovarense” da cidade foi igualmente palco da apresentação do livro “O Flâneur de Paris”, de João B. Ventura, e de uma conversa com o escritor Bruno M. Franco sobre o género policial na literatura portuguesa contemporânea. Simultaneamente, no Jardim dos Campos, decorria a apresentação dos livros “Truz Truz, Abre a Porta, Avestruz”, de Vera Morgado, e “Agora sou capaz”, de Ricardo Santos e Joana Nogueira, com ilustração de Sílvia Lima, a par com uma bem participada Oficina de Ilustração com Nuno Alexandre Vieira e, no espaço fronteiro da Câmara Municipal de Ovar, uma nova representação de “Teatro Paraíso / Palavra Ambulante” pelos actores da companhia Trigo Limpo - Teatro ACERT, de Tondela. A apresentação de livros teve ainda um último capítulo ao início da noite, num Centro de Artes de Ovar quase lotado, com as atenções a virarem-se para “Cartografia”, “poesia escrita a quatro mãos e dois corações” por Minês Castanheira e Raquel Patriarca, e que resultou num momento de generosa partilha de poemas, afectos e emoções.

Além do momento da manhã referido anteriormente, o programa teve para oferecer mais três mesas de conversa, duas das quais no Museu Júlio Dinis. Rico, vivo, apaixonante, o primeiro desses momentos contou com a moderação de Cátia Cardoso e deu a escutar as impressões de Rita Tormenta, Filipa Vera Jardim e Vítor Gil Cardeira sobre a vaidade e a inveja no seio do complexo mundo da escrita. Em termos muito gerais, Vitor Cardeira falou da escrita como uma doença da qual não é possível livrar-se, no que foi acompanhado por Filipa Vera Jardim, ciente de que “sem livros morreria”. Rita Tormenta admitiu que “ninguém escreve sem um pouco de vaidade” e Filipa Vera Jardim acrescentou que “é preciso saber distinguir a inveja da admiração: narcisos somos todos”. Enfim, sobre o acto da escrita, Vítor Gil Cardeira afirmou que “o escritor constrói e destrói mundos” e que “escrever é uma luta brutal contra a auto-censura”. Uma frase de Agustina Bessa-Luís - “Eu pretendo dizer da amizade o que Diógenes dizia do dinheiro: que ele o reavia dos seus amigos, e não que o pedia.” - serviu de mote à segunda mesa da tarde. Com moderação de Sara Dias de Oliveira, para quem “escrever é um processo doloroso e um acto de amor”, Miguel D’Alte, José Riço Direitinho e Vasco Prazeres abordaram os temas da amizade e da inveja, do interesse e da distração que as redes sociais constituem (para o bem e para o mal) e, naturalmente, do amor, nas suas mais variadas vertentes. A conversa estendeu-se ao público, com a escritora Raquel Patriarca a fazer notar que “os livros dão algo aos leitores que estes nunca irão pagar”.

A mesa da noite, no Centro de Artes de Ovar, foi beber o tema a uma citação de Raúl Brandão: “Invejo os que se deitam cismando nos seus livros e se levantam pensando com obstinação nos seus livros.” Foi sobre o ofício da escrita e as muitas reflexões que suscita que se debruçaram as escritoras Carla Pais, Filipa Amorim, Ana Zorrinho, numa conversa moderada por Cristina Marques. Ofício da escrita onde se cruzam os episódios do quotidiano, as personagens saídas de um imaginário fácil de contextualizar mas difícil de explicar, a surpresa com aquilo que vai passando para o papel e um certo grau de loucura. Numa mesa que abriu espaço à leitura de excertos dos livros das autoras, o destaque vai para o conto “O Louco”, de Ana Zorrinho, lido superiormente pela autora e sobre o qual Carla Pais afirmou: “Quem não se arrepiou com este momento, não percebe nada acerca do poder da Literatura”. Outro ponto alto do serão foi a performance “Para atravessar contigo o deserto do mundo”, com Lúcia Moniz e Pedro Lamares a cruzarem a poesia de Jorge de Sena e de Sophia de Mello Breyner Andresen com as cartas que ambos trocaram ao longo de dezoito anos e que constituem um impressionante retrato social, histórico e moral do Portugal dos anos 60 e 70, o retrato de um país roubado. Já a noite ía adiantada quando, no Bar do CAO, “Poesia A Meias”, de Aurelino Costa & Zetho Cunha Gonçalves, com Aurora Gaia, fechou da melhor forma o penúltimo dia do Festival.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

TERTÚLIAS LITERÁRIAS: "Conversas às 5" | Aurora Gaia



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”,
com Aurora Gaia
Participação especial | Tomás Caroço (piano)
Centro de Reabilitação do Norte
25 Fev 2025 | ter | 17:00


Quando temos fome, o que fazemos é sair à procura de comida. Tem sido assim desde tempos imemoriais, sabendo nós que a produção de alimentos foi a razão pela qual os seres humanos abandonaram o nomadismo e formaram comunidades. Aliás, a própria conformação do corpo humano é fruto da evolução alimentar, na medida em que a necessidade de colher alimentos em pontos cada vez mais altos levou à progressiva alteração da postura física. Mas não é de antropologia que quero falar hoje, nem de necessidades físicas, antes da fome de cultura e da consequente busca de alimento para o espírito. Fome, entenda-se, motivada por um vírus louco que, nos períodos mais críticos, barrou o acesso ao teatro e à dança, ao cinema e aos concertos, às galerias e museus, às conversas e tertúlias. Ora, “se Maomé não pode ir à montanha, pois que venha a montanha a Maomé”, que o mesmo é dizer que dessa fome nasceram as Tertúlias Literárias “Conversas às 5”, persistente prova de amor aos livros e à literatura, a completarem agora o bonito número de vinte edições.

Antes de abordar uma sessão verdadeiramente especial, importa render homenagem e abraçar com a maior emoção e gratidão aqueles que ajudaram a erguer e a consolidar estas “conversas”. Desde logo os escritores Sandra Barão Nobre, Sérgio Almeida, Miguel Araújo, Gustavo Carona, Álvaro Domingues, Minês Castanheira, Pedro Guilherme-Moreira, Rosa Alice Branco, Marta Duque Vaz, André Domingues, Valdemar Cruz, Isabel Rio Novo, Aurelino Costa, Diogo Leite Castro, Cláudia Cruz Santos, Marta Pais Oliveira, Dora Gago e, em dois momentos distintos, João Luís Barreto Guimarães. Foram eles que, desde esse longínquo 27 de Abril de 2021, abriram portas à magia e ao sonho que só os livros podem conter, falando do seu mester, dando a ver as suas obras, falando de outros autores, de outros livros, de novas viagens. Importa estender o agradecimento às muitas centenas de participantes que nos têm dado o prazer da sua presença, mas também àqueles que fazem com que as tertúlias aconteçam, da Administração e Direção Clínica do Centro aos muitos colaboradores nas mais diversas unidade de internamento e áreas terapêuticas.

Em tempo de celebração, a poetisa Aurora Gaia e o pianista Tomás Caroço foram os ilustres convidados de uma sessão que se constituiu num abraço à poesia e à música. Aurora Gaia nasceu no Porto, a 7 de setembro de 1938, tendo vivido longos anos em Gaia e atualmente a viver no Furadouro, Ovar. Desde sempre associada a projetos de cariz cultural, desenvolveu a sua atividade profissional na televisão como caracterizadora. Tem o seu nome ligado ao teatro, em peças como “Um cálice de Porto”, “A dama de copas” e “Felizmente há luar” e ao cinema, tendo participado em longas, médias e curtas metragens, entre as quais se destaca o filme “Uma relação fiel e verdadeira” de Margarida Gil. Publicou dois livros de poesia “E por isso eu amo tanto a Palavra” e “A Palavra na Arte”. Tomás Caroço é médico interno de Medicina Física e de Reabilitação no Hospital de Faro. Iniciou os estudos musicais aos 7 anos no piano, e aos 10 anos na viola d’arco. Concluiu a classe de instrumento (viola d’arco) na Escola de Música do Conservatório Nacional. Actualmente, dedica-se, entre outras áreas, à Medicina das Artes Performativas, tocando regularmente com a Orquestra Médica Ibérica.

“Palavras são como facas que trespassam os nossos sentidos”. Na beleza das palavras, na suavidade dos gestos e na delicadeza e harmonia dos sons, o tempo da sessão foi de emoção e encanto. Os poemas escolhidos foram pretexto para Aurora Gaia render homenagem a alguns poetas da sua predilecção, de João Luís Barreto Guimarães a Eugénio de Andrade, de Aurelino Costa a Amadeu Baptista ou a António Gedeão. “Simplesmente Aurora”, tornada “Gaia” pela “falta de estética” do apelido Carvalhais, Aurora Gaia quis mostrar também alguma da sua poesia e, simultaneamente, mostrar-se a si mesma no amor e apego aos outros, chamando para o pé de si a actriz Luísa Pinto ou a fotógrafa Lauren Maganete. A música foi-se imiscuindo nos poemas e António Pinho Vargas fez-se ouvir em duas peças muito belas, “Tom Waits” e “Dança dos Pássaros”. Chick Corea e um mexido “Armando’s Rhumba” foi outra das peças interpretadas, sendo ainda possível, em fim de festa, ouvir “The Heart Asks Pleasure First”, um dos mais inspirados temas de Michael Nyman. O melhor, porém, chegaria justamente no fim, com Aurora Gaia a cantar uma pérola do Cante, “Para Que Quero Eu Olhos”. Sim, a cantar - “(…) oh és tão linda, oh és tão formosa” - e a encantar. Memorável!

sábado, 21 de dezembro de 2024

TERTÚLIA LITERÁRIA: “Tomai lá do O’Neill!”



TERTÚLIA LITERÁRIA: “Tomai lá do O’Neill!”
Com Aurora Gaia
Agrupamento de Escolas de Ovar Sul
Biblioteca Escolar Júlio Dinis
19 Dez 2024 | qui | 18:30


“Imaginar, primeiro, é ver.
Imaginar é conhecer, portanto agir.”
Alexandre O’Neill. Excerto de “Ao Rosto Vulgar dos Dias”, in “No Reino da Dinamarca

Escritor autodidacta, escultor de palavras, publicitário brilhante, Alexandre O’Neill foi um dos grandes vultos da literatura portuguesa do século XX. Com Mário Cesariny, António Pedro, Moniz Pereira e outros, fundou o Movimento Surrealista de Lisboa. Entre poesia e prosa, traduções e antologias, escreveu muito, apaixonou-se muito, amuou muito. “Moreno português, cabelo asa de corvo”, sustentou que a regra é não haver regra. Perfilou-se de medo, seguiu o cherne, povoou de gaivotas o céu de Lisboa, deu novos sonhos à vida e fez da morte um lugar-comum. Nunca deixou de lançar um olhar irónico sobre este “País Relativo” (o que lhe valeu ter sido preso pela PIDE por diversas vezes), vertido em palavras que deixam entender o quotidiano mesquinho de um “modo funcionário de viver”. Autor de “Uma Coisa em Forma de Assim”, “Feira Cabisbaixa” ou “Um Adeus Português” – no qual lavra o epitáfio “Aqui jaz Alexandre O'Neill/ Um homem que dormiu muito pouco/ Bem merecia isto” –, faria anteontem 100 anos, caso tivesse tido pachorra para tanto.

A assinalar a efeméride, o Agrupamento de Escolas de Ovar Sul teve a iniciativa de promover uma sessão evocativa aberta à comunidade escolar. No acolhedor espaço da Biblioteca da Escola Secundária Júlio Dinis, a sessão arrancou com a projeção de “E Se Um Dia a Liberdade…”, curta-metragem de animação coordenada por João Católico e que envolveu alunos e professores de cinco escolas dos concelhos de Espinho e Ovar. Momento inaugural inteiro e lindo, o filme fez-nos recuar a 25 de Abril de 1974, convidando a olhar o antes, o durante e o após a libertação da ditadura. A primeira parte mostra-se preciosa num grafismo delirante, no cruzamento original da poesia de O’Neill e de Natália Correia e nas muitas camadas que encerra, feitas de mensagens subliminares e “private jokes”. A segunda parte segue os passos de Celeste Caeiro, a mulher que ofereceu cravos aos soldados, fazendo com que as armas florissem no “dia em que imergimos da noite e do silêncio”. O “hoje” dá-nos uma visão orwelliana de um mundo cinzento, as pessoas fechadas sobre si mesmas, cada vez menos capazes de pensar pelas próprias cabeças, submissas a um “big brother” insaciável que quanto mais as conecta às redes sociais, mais as afasta da realidade.

“Há palavras que nos beijam / Como se tivessem boca. / Palavras de amor, de esperança, / De imenso amor, de esperança louca”. Entre uma belíssima caricatura, da autoria de Adélia Oliveira, e um conjunto de trabalhos espalhados pela sala, ilustrativos de uma forma diferente de ler Alexandre O’Neill, poesia e prosa preencheram o momento seguinte, nas vozes das Professoras Manuela Bastos e Ana Maria Ferreira e, também, do Gustavo e da Rita, do Vasco, das duas Leonores, da Joana, da Matilde, do André Maia. Convidada especial, a poetisa e actriz Aurora Gaia encerrou a sessão, trazendo um “inusitado alinhavado de memórias”, nele avultando a sua relação profissional com a cineasta Noémia Delgado, que foi casada com Alexandre O’Neill. Também aqui a poesia não podia faltar e, na sua forma única de declamar, Aurora Gaia pintou, com gestos e palavras, “Um Adeus Português”, “O Emigrante”, “Ode à Liberdade” e “Gaivota”, este último a convocar a música de Alain Oulman e a voz de Amália. Encerrada a sessão, os momentos finais foram de convívio, à volta de uma “Mesa dos Sonhos”, recheada de acepipes. Cantam-se os parabéns aos 100 anos do poeta, parte-se o bolo. Brindo com um cálice de Porto, despeço-me. Para trás fica O'Neill e as pessoas bonitas que tão bem o souberam lembrar. Fica a biblioteca e o momento “onde vi o necessário onde aprendi / que só entre os homens e por eles / vale a pena sonhar”.