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sexta-feira, 18 de setembro de 2026

CERTAME: XII Festival Literário de Ovar - Dia 1



CERTAME: XII Festival Literário de Ovar
Alexandra Gondin, Ana Paula Tavares, António França, Aurora Gaia, Bruno Henriques, Carlos Nuno Granja, Domingos Silva, Filipa Leal, Hélder Ventura, João Martins, Joaquim Arena, José Ferreira, José Ferreira Soares (Zé da Vesga), Lourdes Lara, Óscar Graça
Museu Júlio Dinis, Centro de Artes de Ovar
16 Set 2026 | qua | 18:00 e 21:00


Vivo, dinâmico, alegre, disponível e recheado de propostas irrecusáveis, o Festival Literário de Ovar abriu as portas da sua décima segunda edição na passada quarta-feira. Entre o Museu Júlio Dinis e o Centro de Artes de Ovar, o FLO começou a desenhar o seu território, preenchendo-o de livros, de vozes, de memórias, de música e, sobretudo, de encontros. Primeiro, Aurora Gaia, 87 anos de uma vida entregue às artes, foi estrela em cena através da exposição “Aurora – (Com)Vivências… Teatro, Cinema, Televisão e Literatura”, como que regressada a uma casa onde persistem tantos pedaços de si. Depois, na abertura oficial do certame, Carlos Nuno Granja lembrou que o FLO é essa utopia que se tornou realidade e que não desiste de aproximar os escritores dos leitores, a cidade dos livros. Domingos Silva, Presidente do Município, falou de um espaço de encontros que o tempo tornou necessário, evocando a contradição de um presente em que “preferimos o resumo ao ensaio, a legenda ao artigo”. E talvez o FLO exista para contrariar isso mesmo, afirmando-se como uma espécie de resistência tranquila à voragem dos dias, um lugar onde ainda se pode parar. Parar para ouvir. Parar para pensar. Parar, simplesmente, para estar.

Foi nesse lugar de encontro que se escutou o “Grito Calado”, de Zé da Vesga, livro onde a poesia se mistura com as canções e onde uma vida inteira parece procurar palavras para serem contadas. Lourdes Lara disse-o com uma imagem feliz: “[Zé da Vesga] aprendeu a falar com a vida através das palavras, a falar com o coração através da música”. Nisto reside a essência de um livro que reúne poemas, inquietações e memórias, mas também muitas das canções que escreveu para o Cantar os Reis, guardando nas suas páginas uma parte da memória colectiva da cidade. Aos 87 anos, o autor entrou na noite sem a solenidade dos que chegam para falar de uma obra acabada. Chegou com desassombro, as dúvidas à flor da pele: “Porque não brincam os homens ao pião em vez de se preocuparem em brincar às mortes?”. E depois deixou uma frase que podia ser lema, desejo ou oração: “Menos armas, mais poesia”. Quando a música e a poesia tomaram finalmente o palco, Filipa Leal, João Martins e Óscar Graça fizeram exactamente isso: procuraram um lugar onde as palavras pudessem encontrar ninho. Entre silêncios, piano, teclados e sopros, os poemas foram deixando de ser apenas palavras para se tornarem matéria sonora. Num gesto cúmplice, os instrumentos souberam acompanhar a voz sem nunca a aprisionar, respeitando-lhe as pausas, prolongando-lhe os silêncios, sublinhando uma frase mais emotiva ou apenas sussurrada, acrescentando camadas de sentido aos poemas.

Mas houve um momento em que o FLO se agigantou e que correspondeu à primeira de onze mesas que, até ao final da tarde do próximo domingo, assumirão o papel de protagonistas numa programação rica e variada. Sentados frente a frente, sob a moderação inteligente e bem humorada de Bruno Henriques, Ana Paula Tavares e Joaquim Arena falaram de viagens que nem sempre precisam de estrada ou geografias e que, mesmo quando ficam para trás, continuam a viver dentro de quem parte. Ana Paula Tavares, Prémio Camões 2025, falou de Angola como se fala de uma ausência que nunca se ausenta. “Estar fora de Angola tira muito mais do que acrescenta”, disse. A distância não lhe resolveu a relação com os lugares de nascimento e crescimento; pelo contrário, devolveu-os na forma de solidão, memória e escrita. Mas a memória, sabe-o a historiadora, não é imóvel. É fugaz, reconstrói-se, reinventa-se. A memória da guerra, numa Angola onde 75 por cento da população tem hoje vinte anos, já não é necessariamente memória vivida: é memória reconstruída, recebida, retrabalhada”, afirma. É contra a possibilidade da perda que a sua escrita se ergue. A memória da mãe, da avó, das vozes antigas, das formas de dizer e de entender o mundo, tudo isso se reúne nesse “fio da memória” que a poeta procura tecer no laboratório da poesia. Escrever é, para Ana Paula Tavares, uma forma de não deixar morrer. Uma maneira de trazer para o presente aquilo que o presente, tantas vezes, parece querer esquecer.

Joaquim Arena acrescentou à conversa outra geografia da ausência. Cabo Verde, os que partem e os que ficam, as famílias que aprendem a viver separadas, a diáspora, a saudade que se torna matéria de escrita. “Movimento é literatura. A minha escrita é uma escrita em trânsito”, disse. E, por momentos, Angola e Cabo Verde pareceram encontrar-se nesse lugar sem fronteiras onde a literatura transforma a distância em presença e a ausência em memória. Joaquim Arena falou da literatura como “um dos poucos espaços da nossa liberdade”; Ana Paula Tavares falou da poesia como espaço capaz de recuperar formas de vida ameaçadas pela voragem do mundo moderno. Houve, nas palavras de ambos, uma inquietação comum: o que acontece quando se perde a memória? O que acontece quando se perde a capacidade de ler, de reflectir, de pensar? Falaram de controlo, de vigilância, do incómodo que o pensamento livre provoca nos que detêm o poder. E falaram do escritor como alguém que permanece na linha da frente dessa batalha silenciosa. “O escritor é uma espécie de ‘frente de combate’ contra aqueles que querem cercear a nossa liberdade”, afirmou Joaquim Arena. Ana Paula Tavares lembrou que os poderes não gostam de ser incomodados. E foi nesse cruzamento entre memória e liberdade, entre identidade e escrita, que a conversa ganhou uma dimensão maior do que a própria literatura, obrigando-nos a reflectir sobre o que ainda queremos ou podemos preservar de nós mesmos.

Talvez por isso, noite alta, quando as luzes do Centro de Artes se desvaneceram e Filipa Leal começou a descobrir lugares para as suas palavras, os resistentes da sessão encontraram um lugar cinestésico, imune às leis da gravidade, da cor do arco-íris, que foi colo, afago, doçura e amor. Porque as palavras tinham passado toda a tarde e noite a procurar esse lugar: na vida de Aurora Gaia, nas memórias e canções de Zé da Vesga, nas palavras de dois autores que escreveram a partir da distância, da história e da ausência, e finalmente na música que João Martins e Óscar Graça lhes ofereceram como espaço de escuta. “Ouvir é a maneira mais pura de calar”, dizia o projecto. Terá sido essa a última lição da noite inaugural do FLO: compreender que há palavras que não pedem respostas, pedem presença. Que há memórias que só sobrevivem se forem ditas. Que há viagens que começam muito depois de regressarmos. E que a literatura, quando assim acontece, não termina no momento em que o leitor fecha o livro, nem quando o poema acaba, nem quando a música deixa de se ouvir. Fica. Algures entre a memória e o silêncio. Agora que a cidade dorme, as palavras dormem com ela, certas de terem encontrado o seu lugar.

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