Noite de sonho e de magia. Noite das palavras vertidas em poesia, que ajuda a preencher os lugares, a respeitar os silêncios, a iluminar a memória de uma frase que regressa quando já ninguém a espera. Foi assim a
segunda noite da 12.ª edição do Festival Literário de Ovar, uma noite inteiramente dedicada às palavras e aos poemas. Na bonita Sala Expande da Escola de Artes e Ofícios, fizeram-se anunciar de rompante, a ameaçar a queda, mas foram-se firmando e ocupando o espaço, como quem entra na casa pelo pátio com a familiaridade das coisas nossas. Poemas houve que trouxeram consigo o cheiro das batatas e do pão, do chão da infância. Outros que falaram da queda, da memória, do vazio, do que somos quando escrevemos, daquilo em que nos transformamos quando o poema começa a
existir. Houve ainda palavras ditas e palavras cantadas, acompanhadas por sons nascidos
do instante. Sucessão de ideias e reflexões, de questionamento e emoções, a noite foi um longo encontro com a poesia, capaz de nos fazer parar, de nos inquietar e, por breves instantes, de
nos devolver ao princípio da nossa própria vida.
João Rasteiro abriu este segundo dia com “A Beleza da Queda”, um livro onde tudo parece estar em
desequilíbrio e, paradoxalmente, ainda assim guardar um fulgor: o corpo, o amor, a memória,
a linguagem, Portugal, a Europa, a própria ideia de permanência. Moderado por Carlos Nuno
Granja, o encontro deixou palavras que ficaram a pairar na sala. “A poesia é, e continua a
ser, a mais útil de todas as inutilidades”, disse o poeta, antes de lhe reconhecer a capacidade
de retardar a nossa “queda colectiva”. Essa ideia de resistência pela palavra viria a encontrar
continuidade, ao fim da noite, em “As Palavras”, de Rui Oliveira. Com uma presença cénica
forte, desarmante e profundamente cúmplice, o músico e cantor transformou a Sala Expande
numa espécie de sala de estar comum, onde deixou de haver espectadores para passar a haver
convidados. António Gedeão, Natália Correia, Maria Velho da Costa, Eugénio de Andrade,
Fernando Pessoa e Almada Negreiros encontraram-se com José Afonso, Adriano Correia de
Oliveira, Fausto, Rui Reininho e Carlos do Carmo. E, com a sua viola e uma caixa de loop, Rui Oliveira foi construindo as paisagens sonoras de cada poema e de cada canção, num exercício de mestria que fez do instante algo de sublime e de verdadeiramente irrepetível.
Na mesa moderada por Ana Maria Ferreira, uma das vozes mais reconhecíveis e persistentes
do FLO, encontrou a noite o seu centro de gravidade. Carla Louro, Prémio de Poesia Nuno
Júdice 2025, Francisco Coelho Neves e Rui Sobral sentaram-se à volta de uma pergunta antiga
e sempre renovada: quem é esse outro que aparece quando escrevemos? A frase de José
Cardoso Pires - “Espantoso como bruscamente o meu eu se transformou ali noutro alguém” -
abriu caminho para uma conversa onde autobiografia, ficção, memória e criação se
confundiram sem nunca perderem uma saudável e profícua tensão. Rui Sobral lembrou que “o
sujeito poético não sou eu, ainda que eu esteja todo lá” e que a memória é a matéria primeira
que a escrita transforma, acrescentando novos significados aos acontecimentos. Carla Louro
falou dos seus vários “eus”: o da inspiração, o da matéria do poema, o do vazio e aquele outro,
inquietante, que surge depois de um livro publicado e que a leva a perguntar: “E agora?”.
Francisco Coelho Neves encontrou na escrita uma maneira de montar “fragmentos” de si
próprio que desconhecia. E talvez tenha sido precisamente aí que a conversa tocou uma
verdade essencial: escrever não é apenas dizer o que somos; é descobrir, no acto de dizer,
aquilo que ainda não sabíamos de nós.
A poesia de Carla Louro ajudava, quase silenciosamente, a responder à pergunta. Em “Entra-se
na casa pelo pátio”, a casa não é apenas lugar: é linguagem, memória, corpo. Entra-se nela
como se entra num verso, percorrendo divisões onde cada objecto parece guardar a marca de
quem o tocou. Há cheiros que escrevem recordações, uma cozinha que respira, mãos que
alinham palavras como quem cose tecido, uma filha que olha o mundo com a surpresa
inaugural de quem ainda sabe que uma pedra pode ter a forma de uma televisão e que o
azeite “é que liga tudo”. Talvez tenha sido essa atenção ao pequeno, ao quase invisível, que
atravessou também a mesa e, de certo modo, toda a noite: a certeza de que qualquer coisa
pode ser matéria de poema, como lembrou Carla Louro, e de que até uma batata, nas palavras
de Rui Sobral, pode ser uma infinidade de coisas. No final, depois dos livros, das vozes, dos
poemas e das canções, ficaram as palavras - esses pequenos milagres que alguém escreve para
que algo não se perca. E por momentos, a memória foi casa, a casa poema e o poema porta escancarada que convida a entrar. E a ficar.
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