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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

CINEMA: “A Amiga Silenciosa” | Ildikó Enyedi



CINEMA: “A Amiga Silenciosa” / “Stille Freundin”
Realização | Ildikó Enyedi
Argumento | Ildikó Enyedi, Tina Kaiser, Corinne Le Hong
Fotografia | Gergely Pálos
Montagem | Károly Szalai
Interpretação | Tony Leung Chiu-wai, Luna Wedler, Enzo Brumm, Léa Seydoux, Sylvester Groth, Yun Huang, Luca Valentini, Christian Braun, Felix Burose, Marlene Burow, Sky Hofmann, Johannes Scheidweiler, Rainer Bock, Martin Wuttke, Johannes Hegemann
Produção | Reinhard Brundig, Nicolas Elghozi, Mónika Mécs, Morgane Olivier
Alemanha, Hungria, França, China | 2025 | Drama | 147 Minutos | Maiores de 12 Anos
Cinema Trindade - Sala 2
15 Set 2026 | ter | 14:30


Em “A Amiga Silenciosa”, Ildikó Enyedi pede-nos, antes de mais, uma coisa que o cinema contemporâneo, ansioso por capturar a atenção a qualquer preço, raramente ousa pedir: tempo. Tempo para olhar, para escutar e, sobretudo, para admitir que talvez não sejamos o centro daquilo que contemplamos. No jardim botânico da Universidade de Marburg, uma imensa ginkgo biloba observa silenciosamente quase dois séculos de vidas humanas e serve de elo entre três histórias separadas no tempo. Em 1908, Grete, jovem brilhante e determinada, enfrenta a condescendência e a misoginia de uma academia que a vê como um corpo estranho; em 1972, Hannes, estudante tímido e deslocado, descobre através de um gerânio uma forma inesperada de cuidado e comunicação; em 2020, um neurocientista de Hong Kong permanece isolado no campus durante a pandemia e começa a interrogar-se sobre a possibilidade de uma consciência vegetal. Entre estas três solidões, o filme desenha uma ideia tão simples quanto vertiginosa: a de que a vida talvez esteja cheia de vozes que não sabemos ouvir, cheia de ouvidos que não sabemos que nos escutam.

Ao longo de quase duas horas e meia, Ildikó Enyedi entrelaça estas épocas sem a ansiedade de quem precisa de explicar tudo ou de conduzir o espectador pela mão. “A Amiga Silenciosa” é, nesse sentido, menos um filme que se vê, do que um filme a que se aprende a prestar atenção. A câmara de Gergely Pálos desloca subtilmente a figura humana do centro do enquadramento, detendo-se numa semente, numa folha, numa ramificação ou numa imperceptível alteração da luz. Cada época possui, além disso, uma textura visual própria, e essa diversidade formal não fragmenta o conjunto. Ao invés, faz com que os tempos se contaminem e dialoguem, como se o passado permanecesse inscrito na matéria do presente. A árvore deixa então de ser cenário ou simples metáfora para se tornar presença, testemunha, personagem. Sem cair na parábola ecológica ou na espiritualidade fácil, a realizadora aproxima ciência e poesia para interrogar aquilo que separa - e talvez una - os diferentes seres vivos. Sem apontar caminhos ou proclamar respostas, o seu cinema mostra-se capaz de abrir fendas na nossa segurança e convida-nos a olhar a natureza não como decoração ou recurso, mas como alteridade.

O cinema de Ildikó Enyedi é um cinema de espanto, palavra quase fora de moda numa época convencida de que tudo se explica com um clique, uma aplicação ou uma nova tecnologia. A realizadora prefere a curiosidade à tese e as perguntas ao conforto das conclusões, construindo uma obra que exige paciência, disponibilidade e uma rara capacidade de suspensão. As suas personagens são, cada uma à sua maneira, marginais aos sistemas em que vivem, na sua condição de deslocadas residindo a capacidade de escutar aquilo que os outros ignoram. O isolamento, aqui, não é apenas perda: pode ser também abertura, uma brecha através da qual se entrevê outra relação com o mundo. “A Amiga Silenciosa” recusa a gratificação imediata, mas recompensa o espectador com imagens, sons e sensações que continuam a trabalhar após os últimos créditos desaparecerem do ecrã em definitivo. No final, saímos menos certos da nossa importância e mais atentos à silenciosa vida que nos rodeia. E talvez seja essa a mais discreta - e mais radical - ambição deste belíssimo filme, a de nos ensinar a baixar os olhos, a perder o centro e a saber ouvir.

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