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segunda-feira, 22 de setembro de 2025

CERTAME: XI Festival Literário de Ovar - Dia 4



CERTAME: XI Festival Literário de Ovar
Ana Zorrinho, aRita, Aurelino Costa, Aurora Gaia, Bruno M. Franco, Carla Pais, Cátia Cardoso, Cristina Marques, Diana de Oliveira, Elsa Teixeira, Filipa Amorim, Filipa Vera Jardim, Helena Ribeiro, Joana Nogueira, João B. Ventura, José Riço Direitinho, Joaquim Margarido, Lúcia Moniz, Luís Correia Carmelo, Miguel d’Alte, Minês Castanheira, Miriam Gonçalves, Nuno Alexandre Vieira, Paula Mendes Coelho, Pedro Lamares, Pedro Reisinho, Ricardo Santos, Raquel Patriarca, Rita Tormenta, Rodrigo Vieira Dias, Rui Sobral, Sara Dias Oliveira, Sílvia Lima, Trigo Limpo – Teatro ACERT, Vasco Prazeres, Vera Morgado, Vítor Gil Cardeira, Zetho Gonçalves
Parque do Buçaquinho, Museu Júlio Dinis, Jardim dos Campos, Centro de Artes de Ovar e Bar do CAO
20 Set 2025 | sab | 10:00, 14:00 e 21:30


Tradicionalmente o mais exigente, mas também o mais aliciante, o quarto dia do Festival Literário de Ovar voltou a prender a atenção dos amantes do livro e da leitura, pela sua rica e variada oferta. “Patrulha Raposa – Vigilantes da floresta”, escrito por Diana de Oliveira e apresentado por Pedro Reisinho, deu início a uma viagem que teve o seu início no Parque Ambiental do Buçaquinho e viria a terminar, mais de quinze horas depois, no Bar do Centro de Artes de Ovar. Num espaço dedicado à Literatura Infantil, a manhã foi preenchida com uma Oficina de Ilustração dinamizada por aRita, uma sessão de contos com Luís Correia Carmelo e ainda uma Mesa moderada por Helena Ribeiro e que teve num painel constituído por Miriam Gonçalves, Elsa Teixeira e Rodrigo Vieira Dias, três figuras muito especiais. Entre as estratégias para adormecer os mais novos e o poder das ideias em frente da folha em branco, os convidados falaram de livros, das fontes de inspiração dos seus trabalhos, da necessidade da literatura infantil para o crescimento e desenvolvimento infantil, mas também da importância do “aborrecimento” das crianças, da ausência de estímulos que muitas vezes deixam os pais exauridos, mas que as obriga a serem criativas.

Ao início da tarde, no Museu Júlio Dinis, procedeu-se à entrega de prémios da “III Edição do Concurso Literário e de Ilustração Júlio Dinis 2025”, uma iniciativa do Agrupamento de Escolas Ovar Sul e que conta com o apoio da Câmara Municipal de Ovar. A mais conhecida “Casa Ovarense” da cidade foi igualmente palco da apresentação do livro “O Flâneur de Paris”, de João B. Ventura, e de uma conversa com o escritor Bruno M. Franco sobre o género policial na literatura portuguesa contemporânea. Simultaneamente, no Jardim dos Campos, decorria a apresentação dos livros “Truz Truz, Abre a Porta, Avestruz”, de Vera Morgado, e “Agora sou capaz”, de Ricardo Santos e Joana Nogueira, com ilustração de Sílvia Lima, a par com uma bem participada Oficina de Ilustração com Nuno Alexandre Vieira e, no espaço fronteiro da Câmara Municipal de Ovar, uma nova representação de “Teatro Paraíso / Palavra Ambulante” pelos actores da companhia Trigo Limpo - Teatro ACERT, de Tondela. A apresentação de livros teve ainda um último capítulo ao início da noite, num Centro de Artes de Ovar quase lotado, com as atenções a virarem-se para “Cartografia”, “poesia escrita a quatro mãos e dois corações” por Minês Castanheira e Raquel Patriarca, e que resultou num momento de generosa partilha de poemas, afectos e emoções.

Além do momento da manhã referido anteriormente, o programa teve para oferecer mais três mesas de conversa, duas das quais no Museu Júlio Dinis. Rico, vivo, apaixonante, o primeiro desses momentos contou com a moderação de Cátia Cardoso e deu a escutar as impressões de Rita Tormenta, Filipa Vera Jardim e Vítor Gil Cardeira sobre a vaidade e a inveja no seio do complexo mundo da escrita. Em termos muito gerais, Vitor Cardeira falou da escrita como uma doença da qual não é possível livrar-se, no que foi acompanhado por Filipa Vera Jardim, ciente de que “sem livros morreria”. Rita Tormenta admitiu que “ninguém escreve sem um pouco de vaidade” e Filipa Vera Jardim acrescentou que “é preciso saber distinguir a inveja da admiração: narcisos somos todos”. Enfim, sobre o acto da escrita, Vítor Gil Cardeira afirmou que “o escritor constrói e destrói mundos” e que “escrever é uma luta brutal contra a auto-censura”. Uma frase de Agustina Bessa-Luís - “Eu pretendo dizer da amizade o que Diógenes dizia do dinheiro: que ele o reavia dos seus amigos, e não que o pedia.” - serviu de mote à segunda mesa da tarde. Com moderação de Sara Dias de Oliveira, para quem “escrever é um processo doloroso e um acto de amor”, Miguel D’Alte, José Riço Direitinho e Vasco Prazeres abordaram os temas da amizade e da inveja, do interesse e da distração que as redes sociais constituem (para o bem e para o mal) e, naturalmente, do amor, nas suas mais variadas vertentes. A conversa estendeu-se ao público, com a escritora Raquel Patriarca a fazer notar que “os livros dão algo aos leitores que estes nunca irão pagar”.

A mesa da noite, no Centro de Artes de Ovar, foi beber o tema a uma citação de Raúl Brandão: “Invejo os que se deitam cismando nos seus livros e se levantam pensando com obstinação nos seus livros.” Foi sobre o ofício da escrita e as muitas reflexões que suscita que se debruçaram as escritoras Carla Pais, Filipa Amorim, Ana Zorrinho, numa conversa moderada por Cristina Marques. Ofício da escrita onde se cruzam os episódios do quotidiano, as personagens saídas de um imaginário fácil de contextualizar mas difícil de explicar, a surpresa com aquilo que vai passando para o papel e um certo grau de loucura. Numa mesa que abriu espaço à leitura de excertos dos livros das autoras, o destaque vai para o conto “O Louco”, de Ana Zorrinho, lido superiormente pela autora e sobre o qual Carla Pais afirmou: “Quem não se arrepiou com este momento, não percebe nada acerca do poder da Literatura”. Outro ponto alto do serão foi a performance “Para atravessar contigo o deserto do mundo”, com Lúcia Moniz e Pedro Lamares a cruzarem a poesia de Jorge de Sena e de Sophia de Mello Breyner Andresen com as cartas que ambos trocaram ao longo de dezoito anos e que constituem um impressionante retrato social, histórico e moral do Portugal dos anos 60 e 70, o retrato de um país roubado. Já a noite ía adiantada quando, no Bar do CAO, “Poesia A Meias”, de Aurelino Costa & Zetho Cunha Gonçalves, com Aurora Gaia, fechou da melhor forma o penúltimo dia do Festival.

sábado, 22 de junho de 2024

TERTÚLIA LITERÁRIA: "Conversas às 5" | Aurelino Costa e Francisco Bereny Domingues



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”,
com Aurelino Costa
Participação especial | Francisco Bereny Domingues
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
20 Jun 2024 | qui | 17:00


Diz quem esteve lá que foi mágico e, apesar de suspeito, só posso concordar com todos quantos tiveram a oportunidade de assistir à décima quinta sessão das Tertúlias Literárias “Conversas às 5”. Promovido pelo Centro de Reabilitação do Norte, o evento contou com dois convidados de excepção, que generosamente partilharam a sua arte e engenho, o seu saber e experiência, nas linhas de um poema e nas notas de uma partitura. Aurelino Costa e Francisco Bereny Domingues ofereceram um recital absolutamente inolvidável, combinando a poesia e a música em quadros apaixonantes e plenos de significado. “Dois mundos absolutamente ligados”, como fizeram questão de frisar, e que se abriram em intensidade e beleza aos presentes num ambiente intimista, fraterno e cúmplice, de convite à reflexão, tintado de azul do céu e de verde do mar.

“Como se fosse uma liturgia”, o recital fluiu nas asas do improviso, com os poemas e a música a mostrarem-se individualmente ou a despontarem “de mãos dadas”. Às “Canciones Populares Catalanas”, com arranjo de Miguel Llobet, foi Francisco Bereny Domingues buscar duas preciosas peças, “El Testament d’Amelia” e “Cançó de Lladre”, abrindo o recital com sensibilidade e emoção. “As palavras adormeceram / na madrugada em que partiste”, declama o poeta que lança o olhar sobre “dedos entrelaçados sem laços” e “barcos ancoradas neste nó de garganta”. De novo a guitarra, que nos traz “A Voz das Estações”, composição inspirada de Ricardo Abreu e que abre caminho ao amor num soneto de Camões: “Busque Amor novas artes, novo engenho, / para matar me, e novas esquivanças; / que não pode tirar me as esperanças, / que mal me tirará o que eu não tenho.”

Ainda não se extinguiu o eco do poema e já outro se perfila, feito de mar e vento. Aurelino Costa prossegue. Ergue a voz e traz-nos Manuel Alegre num sentido “Fado para um Amor Ausente” - “Meu amor disse que eu tinha / Uns olhos como gaivotas / E uma boca onde começa / O mar de todas as rotas”. Com a guitarra por companhia, não se detém e abraça Eugénio de Andrade, “como se houvesse nuvens sobre nuvens / e sobre as nuvens mar perfeito”. Estamos num hospital e metade da plateia são doentes, mas a doença ficou lá longe, ao fundo do corredor. Uma estranha paz instala-se na sala e todos se sentem como que irmanados pelo poder mágico da poesia e da música. Serenamos ao escutar Ricardo Abreu, agora com esse precioso andamento que é “Pequeno Canto da Primavera” e já Aurelino Costa nos convida a escutar “À Beleza”, de Miguel Torga - “Não tens corpo, nem pátria, nem família, / Não te curvas ao jugo dos tiranos. / Não tens preço na terra dos humanos, / Nem o tempo te rói. / És a essência dos anos, / O que vem e o que foi.”

De um recital absolutamente sublime, dois momentos há que importa destacar. Primeiro, os “Recuerdos de la Alhambra”, de Francisco Tarregá, peça interpretada com profunda emoção, a fazer vibrar as cordas da alma de todos os presentes. E, logo de seguida, o segundo poema de “Lusitânia no Bairro Latino”, de António Nobre, declamado de forma magistral, as palavras a tocarem o mar ali em frente, as lanchas dos poveiros que se avistam e que “a pouco e pouco (…) vão saindo / (Às vezes, sabe Deus, para não mais entrar…)”. “Lanchas, ide com Deus! ide e voltai com Ele / Por esse mar de Cristo… / Adeus! adeus! adeus!”. Aurelino Costa carrega de intensidade e emoção o poema, dramatiza, abre os braços, estende a vista muito além do horizonte e os olhos brilham quando fala do “Zé da Clara, os Remelgados / o Jeques, o Pardal, na Nam te perdes.”

“Canção e Dança”, de António Ruiz-Pipó, e “Folias”, de Gaspar Sanz, são temas que se misturam e confundem com “É comovente, a tua poesia” e “Pedras com mãos de homens que morreram”, dois poemas que Aurelino Costa retira do seu livro “Domingo no Corpo”. O recital aproxima-se do fim mas há tempo ainda para escutarmos “Poema para minha mãe” - Uma primavera dentro de nós / desde aquele dia em que teu corpo se abriu e a flor despontou” - e “Tiento”, de Maurice Ohana, a guitarra de Francisco Bereny Domingues a fazer uma derradeira incursão pelo mundo dos sentidos e a convocar as mais profundas emoções. Hoje entra o Verão, alguém lembra, mas mesmo no pino do Inverno os nossos corações estariam quentes e felizes, no aconchego de tão ricas palavras, de música tão inspiradora. Não iremos esquecer tão cedo os momentos de partilha que nos transportaram a dimensões do domínio do espiritual. Momentos que aliviam, que tratam, que curam. Momentos dos quais, todos, tanto precisamos.

quinta-feira, 20 de junho de 2024

LIVRO: "Casa e Logradouro"



LIVRO: “Casa e Logradouro”,
de Aurelino Costa
Ed. Porto Editora, Fevereiro de 2023 (reimpresso em Junho de 2023)


“Só na tua mão, mãe,
principia o sinal
coberto pelo teu beijo.”

Mergulhar em “Casa e Logradouro” é – usando uma expressão por certo grata a Aurelino Costa – “pôr a mão na massa”. É penetrar no ambiente mágico de uma “carpintaria fitada em caracóis” e ver os “desejos transparentes no focinho do gado”. É “urinar contra o vento num circuito agudo de cheiro a mosto” e perceber “o inesperado, a graça na mão dos pobres”. É sentir o ondular do rio “nesta manhã de Novembro líquido” e orar “pelas almas do purgatório especialmente as mais abandonadas”… Composto por quarenta e quatro poemas que tocam as cordas da alma, “Casa e Logradouro” é uma viagem íntima aos lugares da memória, feita de serenidade e sobressalto, inquietação e júbilo. Com firmeza, o poeta conduz-nos através de uma paisagem orgânica, inteira, despojada, visceral, húmus de palavras com sabor a terra e a mar, de cheiros entardecidos e marés incendiadas. Convida a que a ela nos entreguemos, aconchegados no calor da dádiva, seguros da partilha como o bem mais precioso de um caminho que ainda agora aprendemos a trilhar.

Depois de “Pitões das Júnias” e “Amónio”, volto a Aurelino Costa e a uma poesia intensa e viva, que não dispensa o humor e a ironia. Que ama por igual o tosco e o delicado, o frágil e o bruto. Que vive e sente com uma simplicidade desconcertante e que oferece imagens tão belas como “o sol [que] avermelha a lua”, “o silêncio de que falam os teus olhos” ou “a fartura dos versos que das árvores pendiam como brasas”. Feitos de seda gumosa, os bichos da seda trazem com eles o mistério e o medo. A noite “agoniza os sonhos e trepa uivos de sombras pelas paredes”. Num tempo amalgamado, há cântaros e lamparinas de azeite, bonecos de madeira a decorar o Presépio, a palha do colchão, o toque do sino, nabos talhados a foice, a água que pinga de um ralo, uma nuvem aberta em lume brando, o forno do pão lacrado a bosta, uma flor que se bebe em tigela de tinto. Parece pouco este cão de língua de fora e duas balas no carregador de um revólver talvez já sejam demais. “Antes de falecer, a imortalidade é um gozo em minúcia e pária entre o que há-de vir e a estreita lucidez da morte. Uma bolometria esférica.”

Entre a casa e o logradouro, entre o sagrado e o profano, assim se move Aurelino Costa. Mas nem só do que vê e sente, daquilo que nele são recordações, vive a sua poesia. “Na ossatura desmesurada de um cansaço” leva-nos ao encontro da “miséria da escrita”, do esforço hercúleo, da impotência: “Escancarado ante a displicência da ignorância congénita à idade [o escritor] vai-se debruçado aqui e acolá olhando as couves do quintal”. As referências a personalidades do mundo da Literatura, da Música ou da Filosofia atravessam as páginas do livro: Carlos Paredes, Luis de Freitas Branco e Álvaro Cassuto, Paul Celan e Narciso Yepes, Franz Kafka, uma “fuga” de Bach, a paradoxia de Confucio. E ainda Eugénio, mais Lisboa do que Andrade, pois gatos não há no poema. Apesar da nostalgia que se adivinha nas camadas exteriores dos poemas, é no seu interior, musgoso e húmido, que encontramos uma realidade as mais das vezes crua e magoada. Mas é nesse lugar de encontro que apetece estar. “[A]té que o 33 desça da cruz e [n]os corra a todos”.