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domingo, 4 de outubro de 2026

PERFORMANCE POÉTICA E MUSICAL: “As Palavras Procuram Lugar” | Filipa Leal



PERFORMANCE POÉTICA E MUSICAL: “As Palavras Procuram Lugar”
Ideia original | João Martins
Com | Filipa Leal (voz), João Martins (composição, teclados, sopros), Óscar Marcelino da Graça (piano)
XII Festival Literário de Ovar
Centro de Artes de Ovar
16 Set 2026 | qua | 22:30


Há um gesto feliz em inaugurar um Festival Literário perguntando às palavras se querem abandonar o lugar que lhes está destinado. “E se as palavras procurassem um outro lugar?” foi a pergunta que deu origem à criação de João Martins, cuja estreia absoluta teve lugar no Centro de Arte de Ovar. Terno e generoso, frequentemente brilhante, o espectáculo preferiu pôr as palavras em trânsito e deixar aos espectadores a tarefa de responder à questão. Filipa Leal trouxe consigo cidades esquecidas, rios exactos, quintas-feiras adiadas, corpos sem intervalo, aves que recusam pousar no coração, poetas que não aceitam que lhes cortem a língua. João Martins, nos teclados e sopros, e Óscar Marcelino da Graça, ao piano, fizeram o resto. Longe de acompanharem os poemas, no sentido subalterno que a palavra “acompanhamento” tantas vezes encerra, preferiram por-se ao lado de Filipa Leal e escreverem com ela. Houve poemas que a música empurrou para a vertigem e outros que obrigou a respirar mais devagar. Houve palavras que pareceram nascer do silêncio e silêncios que adquiriram uma densidade quase verbal. O poema tornou-se música não porque tivesse sido musicado, mas porque se revelou feito também de ritmo, pausa, repetição, respiração. E a música tornou-se escrita porque inscreveu nos poemas uma outra sintaxe, feita de avanços e recuos. Nesse território comum, a premissa “ouvir é a maneira mais pura de calar” deixou de ser verso para se tornar método.

Se fosse possível retirar da noite um único poema, ele talvez começasse numa janela. Ela diria: sou uma cidade esquecida. Ele responderia: sou um rio. Entre os dois haveria ar, telefone, mãos libertas e a dificuldade imensa de dizer adeus. Depois chegaria uma quinta-feira - não esta, a próxima - porque o amor precisa de tempo extra para arranjar o cabelo, o coração, a lista do que ainda há por fazer. Paris seria talvez demasiado cara; Guimarães serviria. E, se nem Guimarães fosse possível, haveria palha, cordas, lona, uma cabana aprendida no Youtube e a esperança de encontrar um lugar seguro. Mais adiante, esse poema atravessaria todas as casas que já não são as mesmas, todas as camas, cidades, línguas, músicas, crenças e paisagens que mudámos para descobrir que mudar quase tudo pode ser uma forma de permanecer no mesmo lugar, no interior de alguém. O corpo, entretanto, dançaria por dentro, sem intervalo, até ao fim. E o poeta, noctívago, pediria que não lhe cortassem a língua, porque há coisas que só podem ser salvas se forem ditas. Nos dias tristes, contudo, não se falaria de aves; pedir-se-ia lume como quem pede um coração novo. E, no limite desse poema, apareceria a morte, não como acontecimento mas como ensaio: morrer muitas vezes, por medo de morrer, dormir virado para o lado que permita continuar vivo mais uma noite. Talvez seja esta a súmula secreta dos textos trazidos a Ovar: tudo o que amamos contém já a ameaça da perda, e tudo o que perdemos continua, de alguma maneira, em busca do lugar certo onde a palavra melhor se possa exprimir.

Há na autora a tentação do quotidiano, da frase sentenciosa, da pequena revelação moral, como se a banalidade das coisas - o supermercado, o IRS, o computador, o cabelo, os dias da semana - se contentasse em anunciar uma profundidade que o poema não chega a construir. A observação pode até ser pertinente enquanto exercício íntimo de leitura, mas o palco introduz uma perturbação decisiva nessa economia. A frase deixa de ser apenas frase: ganha voz, duração, respiração; a sentença pode desfazer-se em música; a imagem, que na página parece querer encerrar um sentido, pode, no palco, permanecer aberta porque o som se recusa a fechá-la. Não se trata de a música absolver a poesia, mas de lhe revelar zonas que a leitura silenciosa pode deixar em surdina. Filipa Leal, João Martins e Óscar Marcelino da Graça levaram-nos a descobrir que estes poemas, tão povoados de coisas concretas, são também poemas de intervalos, seja entre duas pessoas, entre uma cidade e um rio, entre o amor e a sua recusa, entre a vida e a morte ou entre aquilo que se diz e aquilo que apenas se escuta. Os dois músicos perceberam-no com uma delicadeza rara. Não cobriram os poemas, antes abriram-lhes espaço. E Filipa Leal, ao dizê-los, pareceu procurar esse espaço com o público. As palavras tinham, afinal, encontrado outro lugar. Não no interior dos livros, mas no lugar preciso onde a literatura deixa de ser apenas palavra e arrasta consigo a emoção.

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