LIVRO: “Puro”,
de Nara Vidal
Ed. Relógio D’Água Editores, Novembro de 2023
“Ouvi as preocupações que tinham. Uma delas era a crescente proximidade e apego de Ícaro com Íris. Os dois conversavam e às vezes até riam juntos. Tudo muito escandaloso. A avó, dona Rosa, me disse ainda que teve ocasião de encontrar no lixo ou na sacola da Íris remédios e comprimidos que Ícaro deveria ter tomado, mas a negra não dava e ainda desafiava a autoridade da casa dizendo que os remédios deixavam o menino pior, travavam a boca do moleque, faziam ele babar e o deixavam com alucinações. Logicamente, aquela mulher não entendia de medicina, de saúde, pois jamais teve estudos e jamais entendeu sobre ciência. O que nós fazíamos era seguir o que líamos e, exatamente por isso, não havia contra-argumentos porque estávamos protegidos pelo que nos diziam estudiosos e intelectuais. Coitados desses negros, e ainda agora mentem sobre nós. Sabem que estão errados, mas nós sabemos a verdade.”
Romance de 2023 editado pela Relógio D’Água, “Puro”, de Nara Vidal, abre uma ferida no Brasil dos anos 1930 e descobre que ela nunca chegou verdadeiramente a sarar. Santa Graça, pequeno lugarejo do estado de Minas Gerais que se quer “referência de virtude e limpeza”, acolhe a eugenia como quem acolhe a promessa de uma comunidade sem mácula, sem corpos incómodos, sem a presença daqueles que a ordem estabelecida decidiu considerar inferiores. O horror começa, assim, não no sangue, mas na palavra que o prepara. Ciência, medicina, religião e lei emprestam a sua respeitabilidade a uma fantasia de pureza que encontra no Brasil ecos profundos e que, na Europa, seria levada às últimas consequências pelo regime do III Reich. O que Nara Vidal percebe é que as ideias não morrem necessariamente quando caem os regimes que as levaram ao extremo. Mudam de roupa, procuram outras palavras, reaparecem como defesa da ordem, da identidade, da segurança. A velha separação entre os que pertencem e os que devem ser afastados ressurge nos discursos nacionalistas, xenófobos e populistas da extrema-direita contemporânea. Santa Graça é, por isso, menos um lugar perdido no tempo do que uma espécie de espelho da História: olhamos para ela e reconhecemos, com desconforto, algumas das vozes do presente.
O mais terrível, contudo, é que ninguém em Santa Graça se reconhece como criminoso. O mal chega de mãos lavadas, acompanhado de certificados de ciência, fé e respeitabilidade. O padre, o médico, os proprietários, as famílias ilustres, tudo “gente de bem”, encontram sempre uma explicação capaz de transformar o crime em necessidade, a violência em dever, o privilégio em merecimento. É essa linguagem de absolvição que Nara Vidal desmonta com particular ferocidade. Enquanto os poderosos dispõem de instituições, diplomas, dinheiro e relações para proteger os seus actos, aos pobres resta frequentemente a suspeita; aos negros, a palavra desacreditada; aos doentes, a culpa do próprio corpo. Os abortos realizados sob o disfarce de apendicites, o desaparecimento das crianças negras, a violência médica exercida sobre Ícaro não são apenas actos de indivíduos: são peças de uma engrenagem que sabe proteger quem a construiu. Padre Arcanjo pode invocar Deus; o doutor Lírio, a ciência; outros invocarão a família, a ordem ou o bem comum. E todos parecem acreditar que essas palavras bastam para lavar as mãos. Talvez seja essa uma das intuições mais negras do romance: os poderosos não precisam apenas de poder para cometer o mal; precisam também do poder de contar a história de modo a que o mal deixe de parecer mal.
Há, por outro lado, uma escolha formal que faz de “Puro” uma experiência de leitura particularmente singular. As personagens falam, mas sobretudo pensam; e aquilo que guardam dentro de si pesa mais do que aquilo que dizem em voz alta. Os excertos, de evidente filiação teatral, conduzem-nos de consciência em consciência, como se cada mudança de personagem abrisse uma porta para uma divisão diferente da mesma casa. O diálogo, relativamente escasso, não é aqui a principal possibilidade de encontro: é no pensamento que as personagens se revelam, por vezes contra si próprias. Íris pensa o que não pode dizer; Ícaro pensa aquilo que os outros não conseguem ouvir; os homens de Santa Graça pensam aquilo que a sua respeitabilidade lhes permite esconder. E cada pensamento abre uma fissura. A escrita de Nara Vidal move-se então entre o teatro, o horror e uma espécie de fábula negra, recorrendo a imagens de grande violência física: ossos, carne, medicamentos, sótãos fechados, gritos abafados, corpos que se querem corrigir ou eliminar. A matéria torna-se memória. Aquilo que a comunidade procura esconder regressa sempre como corpo. Por isso mesmo, o abraço de Íris a Ícaro, tão simples e breve, acaba por se tornar uma das imagens mais luminosas do livro: num universo que classifica, separa e extermina, tocar o outro é ainda um acto de humanidade.
No fundo, “Puro” é um romance sobre aquilo que uma sociedade é capaz de fazer quando consegue convencer-se de que está a fazer o bem. Santa Graça não assusta apenas porque nela desaparecem crianças, porque os corpos são violentados ou porque uma ciência pervertida se transforma em instrumento de morte. Assusta porque tudo acontece sob a aparência da normalidade. Há uma igreja, uma escola, uma família, um consultório, uma esquadra de polícia; há pessoas que rezam, trabalham, educam, tratam e vendem livros. O horror instala-se precisamente aí, no intervalo quase imperceptível entre a respeitabilidade e a barbárie. Nara Vidal não escreve para nos dizer que a História se repete, mas para nos lembrar que determinadas ideias sobrevivem às épocas que as produziram e podem voltar a encontrar abrigo quando a memória enfraquece. É nesse ponto que o romance ultrapassa o seu tempo histórico e ganha uma ressonância particularmente inquietante no presente. “Puro” é importante porque nos obriga a olhar para o momento anterior ao crime: aquele em que começamos a aceitar que há vidas mais dignas, corpos mais desejáveis, pessoas mais legítimas do que outras. Afinal, o horror começa muito antes do sangue.
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