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terça-feira, 13 de outubro de 2026

CONCERTO: "Cancioneiro de Fausto" | Coimbra Jazz Ensemble



CONCERTO: “Cancioneiro de Fausto”
Coimbra Jazz Ensemble
Direcção artística | Rui Lúcio
Arranjos e direcção musical | Luís Figueiredo e João Mortágua
Com | João Mortágua, Rafael Lopes, Alexandre Madeira, João Silva e Rodrigo Neves (saxofones), Nuno Rodrigues, Adriano Franco, João Serrano e Daniel Tapadinhas (trompetes), Andreia Santos, João Sêco e Pedro Santos (trombones), Luís Figueiredo (piano e percussão), Ismael Silva (vibrafone e percussão), João Cação (contrabaixo), Rui Lúcio (bateria), José Santos e Carolina Cardetas (voz)
Estarrejazz 2026
Auditório do Centro Paroquial de Avanca
10 Out 2026 | sab | 21:30


As viagens começam muito antes do soltar amarras. Na penúltima noite da 21.ª edição do Estarrejazz, a viagem proposta pelo Coimbra Jazz Ensemble partiu do sonho de revisitar o cancioneiro de Fausto Bordalo Dias, criador maior de uma música portuguesa onde a História, a consciência política e a tradição popular se entrelaçam com uma liberdade sem fronteiras. As obras em curso no Cine-Teatro de Estarreja obrigaram o Festival a procurar outros portos de abrigo, pedindo ao jazz que encontrasse o seu lugar em diferentes espaços do Concelho. Coube ao Auditório do Centro Paroquial de Avanca acolher esta travessia e proporcionar a primeira surpresa da noite: uma sala com excelentes condições, cuja descoberta merecia, por si só, uma muito maior afluência. Mas só fez falta quem lá esteve. Fundado em 2014, o Coimbra Jazz Ensemble, sob a direcção artística de Rui Lúcio, encontrou em Luís Figueiredo e João Mortágua os arquitectos de uma prodigiosa reinvenção. Esconder os temas em intróitos de apurado engenho e dinamismo, suspendendo o reconhecimento até à chegada das primeiras palavras, foi o primeiro sinal de uma noite em que o jazz, a bossa nova, as sonoridades de inspiração árabe, o fado e até a música clássica se fundiram numa linguagem tão livre quanto fiel ao espírito de Fausto.

De “A Chusma Salva-se Assim” a “Por Este Rio Acima”, a travessia abriu-se sob o signo da tragédia e da esperança. Primeiro, a violência de um mundo em naufrágio, no qual a sobrevivência se confunde com a desumanidade. Depois, o sonho de uma terra em harmonia, atravessada por rios onde vogam especiarias, memórias e a possibilidade de um destino comum. Antes de o concerto se aproximar de geografias mais íntimas, “Atrás dos Tempos” ergueu-se como uma declaração de resistência, lembrando-nos que o futuro não se espera, conquista-se. Em “Porque Me Olhas Assim”, talvez o ponto mais alto da noite, o desejo desenhou cidades, pontes e encontros, enquanto “Porque Não Me Vês” devolveu o amor à sua condição mais vulnerável, feita de saudade, abandono e marés interiores. Seguiu-se “Como Um Sonho Acordado”, mergulho inquietante nas sombras do medo, antes de “Na Ponta do Cabo” transformar o palco num oceano revolto, onde ventos, destroços e gritos pareceram ganhar corpo na própria arquitectura sonora do ensemble. Aqui se revelou, em toda a sua dimensão, o trabalho de Luís Figueiredo e João Mortágua, a sua escrita musical que não se limita a vestir as canções, antes lhes descobre novas profundidades, fazendo da harmonia e do ritmo matéria narrativa. Os solos sucederam-se com assinalável qualidade, com Rafael Lopes, Rodrigo Neves, Andreia Santos e João Serrano, entre outros, a acrescentarem personalidade e fulgor a uma formação de notável coesão. Ao piano, Luís Figueiredo conduziu a viagem com sensibilidade e rigor; no saxofone, João Mortágua afirmou uma voz que tanto soube iluminar o percurso como oferecer-lhe espaço para respirar.

Com “O Cortejo dos Penitentes”, a viagem entrou num território de severidade quase ritual, expondo o paradoxo de uma fé que glorifica o sofrimento e se alimenta da culpa alheia. Mas era ainda o mesmo mundo de Fausto, esse lugar onde a beleza convive com a violência, a liberdade com a opressão, o sonho com a sua ruína. E foi dessa tensão que nasceu “Lembra-me um Sonho Lindo”, momento de suspensão e entrega em que a memória, o desejo e a fragilidade humana se encontraram numa melodia de extraordinária força evocativa. A voz de Carolina Cardetas elevou o tema com uma expressividade que roçou o território do fado, sem perder a delicadeza nem a contenção, enquanto José Santos contribuiu para a identidade vocal do projecto. “O Barco Vai de Saída” encerrou o alinhamento como quem torna a içar velas, devolvendo-nos ao mar de aventuras, perigos e contradições que atravessa tantas das canções de Fausto. O inevitável regresso, em encore, a “Lembra-me um Sonho Lindo” não foi mera repetição, antes soou a despedida adiada, à vontade de permanecer mais um pouco num lugar onde tudo pareceu perfeito. O que o Coimbra Jazz Ensemble conseguiu em Avanca foi, mais do que reinterpretar dez canções, saber reuni-las numa narrativa contínua, de geografias concretas e paisagens sensoriais, em que cada tema prolongou o anterior e preparou o seguinte. Uma celebração irreverente no melhor dos sentidos, capaz de ampliar os horizontes de uma obra singular e de provar que os grandes cancioneiros não se encerram no tempo: continuam a navegar, desde que haja músicos dispostos a sonhar com eles.

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