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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

CINEMA: "Maré Vaza" | Bruno Carnide



CINEMA: “Maré Vaza”
Realização | Bruno Carnide
Argumento | Cátia Biscaia
Fotografia | Tiago Iúri
Música | André Carvalho
Montagem | Tiago Iúri, Bruno Carnide
Interpretação | Sérgio Praia, Alice Biscaia-Carnide, Tobias Monteiro, Leonor Matos, Alberto Assunção Pinto
Produção | Tiago Alves, Ana Castro
Shortcutz Ovar Sessão #110
Portugal | 2026 | Drama | 13 Minutos | Maiores de 12 Anos
Escola de Artes e Ofícios
09 Out 2026 | sex | 21:30


Como um gigante de mil dedos, volúvel e extravagante, a laguna de Ovar é um daqueles territórios que recusam dar-se a conhecer inteiramente à superfície, como se a sua verdadeira natureza residisse no que a água esconde, devolve ou, por instantes, permite adivinhar. Na passada sexta-feira, perante uma plateia que voltou a esgotar a lotação da Escola de Artes e Ofícios, “Maré Vaza”, curta-metragem de Bruno Carnide, assinalou da melhor forma a décima temporada do Shortcutz Ovar. Foi o culminar de uma década de resistência, cumplicidade e amor ao cinema, numa sessão singular, a 110.ª da sua história, inteiramente dedicada a uma obra nascida de uma residência artística. Em treze minutos, o filme encontra nas águas da Ria de Aveiro e nos caprichosos contornos moldados pelas marés, muito mais do que um espaço físico para a sua narrativa, revelando-lhe uma geografia íntima, feita de canais sinuosos, baixios traiçoeiros e marés fantasiosas, onde a paisagem parece guardar, em cada inflexão, uma possibilidade de perda. Com argumento de Cátia Biscaia e fotografia de Tiago Iúri, “Maré Vaza” constrói, a partir de uma história de dor e ausência, um objecto de assinalável delicadeza, que não cede à tentação de explicar tudo, antes confia ao silêncio, à sugestão e à inteligência do espectador a tarefa de completar os contornos de uma ferida aberta. É neste contexto que surge a figura de Sérgio Praia, numa interpretação de admirável contenção, a dar corpo a um homem aprisionado pelas memórias, como se o passado, à semelhança da água, nunca deixasse de regressar.

É, porém, na relação com o território que o filme encontra uma das suas mais profundas razões de ser. A ria serve a história ao determinar-lhe o ritmo, emprestando-lhe os seus enigmas e convertendo-se numa espécie de consciência silenciosa, ora protectora, ora ameaçadora. A alternância das marés, a força da água e a sonoridade do búzio, que Alberto Assunção Pinto faz ressoar como um lamento antigo, prolongado pela composição musical de André Carvalho, convocam um mundo em progressivo desaparecimento. O declínio das companhas e o apagamento das tradições ligadas à arte xávega não são aqui matéria de ilustração documental, mas aquele som cavo e monocórdico assume a ausência que atravessa o próprio tecido sensível do filme. É neste ponto que o cinema revela uma das suas vocações mais nobres: não apenas contar histórias, mas resgatar do esquecimento os lugares, os rostos, os sons e os gestos que o tempo ameaça apagar. Filmar é também guardar, preservar sem imobilizar, devolver à memória aquilo que a passagem dos dias condenaria à invisibilidade. Os lugares reconhecíveis - a Moita, o Puxadouro, as margens lodosas da ria, a Varela ao fundo - adquirem, pela fotografia de Tiago Iúri, uma dimensão que ultrapassa a cartografia e se faz pertença. Há nela toda uma geografia que se revela muito além de qualquer mapa, mais funda, inscrita no corpo e na memória das gentes. “Maré Vaza” filma ambas, transformando a paisagem numa herança partilhada e a imagem cinematográfica num lugar de permanência.

A evocação de “Mudar de Vida”, o filme de Paulo Rocha rodado neste território há seis décadas, surge necessariamente como reconhecimento de uma afinidade essencial. Separadas por sessenta anos e por contextos de produção profundamente distintos, as duas obras encontram-se na vontade de filmar um mundo concreto, de escutar a sua matéria humana e de reconhecer, na paisagem, as marcas de uma transformação histórica. Em Paulo Rocha, a ria e o mar participavam já de uma realidade atravessada pela dureza do trabalho, pela precariedade dos afectos e pela difícil reinvenção da existência. Em “Maré Vaza”, essa mesma paisagem regressa como território de perda, assombrado por memórias que insistem em não desaparecer. Não se trata de procurar correspondências literais, mas de perceber como o cinema pode estabelecer uma continuidade entre olhares afastados no tempo, fazendo de cada filme uma camada nova na memória de um lugar. Se “Mudar de Vida” fixou para o futuro um mundo em transformação, “Maré Vaza” prolonga esse gesto, devolvendo-lhe sons, silêncios e inquietações do presente. E há algo de particularmente significativo no facto de este filme ter nascido de uma residência artística, com meios de produção modestos e apenas dois intensos dias de rodagem: a consciência de que a criação não depende exclusivamente da abundância de recursos, mas da capacidade de olhar e de reconhecer valor naquilo que nos é próximo. Ao Shortcutz Ovar, à disponibilidade de quem tornou possível a concretização desta experiência e àqueles que nela acreditaram e a levaram até ao fim, fica uma palavra de gratidão e apreço pelo mérito de transformar o desejo em obra e a obra em memória. Porque a maré pode vazar, deixando à vista o que parecia perdido; mas o cinema, quando sabe olhar, impede que tudo desapareça para sempre.

[Foto: Biscaia-Carnide Studio; https://biscaiacarnide.studio/portfolio/ebb-tide/]

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