CONCERTO: Luís Represas - 50 Anos
Com | Luís Represas (voz, guitarras), Carlos Garcia (direcção musical, teclados, voz), Tiago Oliveira (guitarras), Cícero Lee (baixo), Daniel Vieira (saxofone), Alexandre Ferreira Alves (bateria)
Cineteatro António Lamoso
10 Jan 2026 | Sab | 21:30
O concerto que assinalou os 50 anos de carreira de Luís Represas foi uma celebração da memória e da permanência. Esgotado há semanas, o António Lamoso recebeu o músico com um entusiasmo que se percebeu logo ao primeiro acorde de “Chave dos Sonhos”, de 1996, canção cujo simbolismo “abriu a porta e a varanda” de uma noite onde o tempo pareceu suspenso. A partir daí, Represas conduziu o público por uma viagem através de cinco décadas de canções, ao longo da qual o legado do Trovante foi presença constante e estruturante. “A Hora do Lobo” marcou o tom de comunhão que atravessaria todo o concerto - “se estamos juntos, não somos demais” - e abriu caminho a um alinhamento que combinou o reencontro com temas incontornáveis como “Balada das Sete Saias”, “Feiticeira”, “Perdidamente”, “Prima da Chula” ou “Saudade”, numa articulação entre o lirismo da palavra e a energia do colectivo que acompanhou o músico.
A revisitação do repertório não foi um exercício de nostalgia, mas de reinvenção, com Represas a mostrar que as suas canções continuam a ser lugares vivos, atravessados por emoção, memória e uma crença permanente na força da música. Entre canções da carreira a solo - “Da Próxima Vez”,“Foi Como Foi” ou “Eu Dou”, sem esquecer o seu mais recente álbum com “Miragem” e “A Cobra dos Mares” - e os clássicos do Trovante, o concerto afirmou um continuum artístico assente na coerência e na autenticidade. Madura e polida pelos anos, a voz de Luís Represas revelou uma intensidade rara, ora quente e terna, ora cortante e precisa, capaz de transformar a palavra em gesto e o gesto em emoção partilhada. Poesia e música cruzaram-se em palco sob múltiplas assinaturas - Florbela Espanca, Manuel da Fonseca, António Aleixo, Francisco Viana, Manuel Faria, João Gil e o próprio Represas -, num diálogo entre gerações e sensibilidades onde a canção se fez território de encontro.
Acompanhado por músicos de excelência, o cantor alcançou o equilíbrio perfeito entre o rigor interpretativo e a espontaneidade, construindo um espectáculo em crescendo, emocionalmente denso e plenamente vivido com o público. Com “Memórias de um Beijo” e “125 Azul”, o “encore” consumou o ritual de comunhão entre palco e plateia, um reencontro que ultrapassou o mero concerto e se aproximou da celebração de uma história colectiva. Esse abraço recíproco explica a longevidade e a relevância de Luís Represas: mais do que um intérprete, ele é um narrador do quotidiano, alguém que dá corpo e voz às emoções de sucessivas gerações. Na noite do passado sábado, no António Lamoso, celebrou-se não apenas uma carreira de 50 anos, mas o poder contínuo da música como forma de resistência à brevidade e à impermanência. Quando as luzes se apagaram, ficou a sensação de que cada canção, ali, ganhou uma nova vida. Luís Represas continua a cantar connosco e para nós, como quem sabe que a música, quando é verdadeira, em vez de envelhecer torna-se mais profunda.
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