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domingo, 11 de janeiro de 2026

LIVRO: "Diário 1941-1943" | Etty Hillesum



LIVRO: “Diário 1941 - 1943”,
de Etty Hillesum
Tradução | Maria Leonor Raven-Gomes
Ed. Assírio & Alvim, Abril de 2008 (3.ª edição, Março de 2020)


“São tempos temerosos, meu Deus. Esta noite, pela primeira vez, passei-a deitada no escuro de olhos abertos e a arder, e muitas imagens do sofrimento humano desfilavam perante mim. Vou prometer-te uma coisa, Deus, só uma ninharia: não irei sobrecarregar o dia de hoje com igual número de preocupações em relação ao futuro, mas isso custa um certo exercício. Cada dia já tem a sua conta. Vou ajudar-te, Deus, a não me abandonares, apesar de eu não poder garantir nada com antecedência. Mas torna-se-me cada vez mais claro o seguinte: que tu não nos podes ajudar, que nós é que temos de te ajudar, e, ajudando-te, ajudamo-nos a nós próprios. E esta é a única coisa que podemos preservar nestes tempos, e também a única que importa: uma parte de ti em nós, Deus. E talvez possamos ajudar a pôr-te a descoberto nos corações atormentados de outros. (…) Recomeço a ficar um bocadinho mais calma, Deus, por causa desta conversa contigo. Hei-de ter mais conversas contigo no futuro próximo e, deste modo, impedir que me fujas.”

O “Diário” de Etty Hillesum resiste a uma leitura confortável e a qualquer expectativa de linearidade histórica. Escrito entre 1941 e 1943, em plena ocupação nazi da Holanda, não funciona como crónica factual do Holocausto nem como denúncia sistemática da barbárie. A sua singularidade reside precisamente no desvio: Hillesum desloca o centro de gravidade da catástrofe do plano político para o território instável da vida interior. As primeiras páginas surpreendem pelo registo cru e despojado da abordagem ao erotismo, à ambição intelectual ou aos projectos profissionais, num tom que a coloca nos antípodas daquilo que virá a tornar-se. A guerra surge já como pano de fundo, enquanto a autora passa a observar-se com uma lucidez crescente, que chega a ser por vezes impiedosa. Essa opção narrativa, voluntária ou instintiva, perturba o leitor habituado a relatos do Holocausto organizados pela progressão da violência. Mas é nesse desfasamento que o “Diário” ganha força, com Etty Hillesum a olhar não a maquinaria política do mal, antes voltando-se prioritariamente para dentro, para o trabalho interior de compreensão de si mesma, do sofrimento e da possibilidade de sentido num mundo em colapso.

Ao longo de pouco mais de um ano, o diário regista uma metamorfose profunda. A jovem boémia e emocionalmente instável, dá lugar a uma mulher de notável densidade ética e espiritual. Influenciada por Santo Agostinho, Rilke, Dostoiévski e, sobretudo, por Julius Spier — psicanalista, mentor e amante — Hillesum desenvolve uma espiritualidade não dogmática, assente na responsabilidade individual e na aceitação lúcida da realidade. Deus surge menos como entidade transcendente do que como desafio e problema interior. Essa evolução culmina numa das decisões mais controversas da sua história: a recusa em esconder-se e a escolha consciente de partilhar o destino dos judeus deportados, primeiro através do trabalho no Conselho Judaico, depois no campo de concentração intermédio de Westerbork, no leste da Holanda. A linguagem de “destino” e “aceitação” provoca desconforto e levanta objecções legítimas, sobretudo quando entendida à luz da ética contemporânea da sobrevivência. Ainda assim, reduzir essa escolha a uma espécie de ingenuidade mística ou de fatalismo seria ignorar a clareza com que Hillesum percebeu o colapso moral da Europa e a ilusão das estratégias individuais de excepção.

Ao mencionar a experiência de uma primeira detenção em Westerbork, a escrita atinge um grau raro de contenção e lucidez. Etty Hillesum observa a desumanização sem ceder ao ódio nem à retórica do inimigo absoluto. A sua recusa em demonizar, frequentemente mal-compreendida, não resulta de cegueira moral, mas de uma ética exigente da presença: estar onde o sofrimento está, sem privilégios, preservando um espaço interior de liberdade. Perturbadora e original, a ideia de que “temos de ajudar Deus” inverte a teologia clássica e afasta-a tanto do misticismo consolador como do heroísmo fácil. Hillesum não resistiu com armas nem sobreviveu para narrar a vitória. O que deixou foi algo mais incómodo e duradouro: a demonstração de que, mesmo no centro da destruição, a vida interior pode tornar-se mais responsável, mais rigorosa e paradoxalmente mais livre. É essa integridade - literária, ética e humana - que transforma o seu “Diário” numa voz necessária e sempre actual.

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