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sábado, 10 de janeiro de 2026

CINEMA: "Kontinental '25" | Radu Jude



CINEMA: “Kontinental ’25”
Realização | Radu Jude
Argumento | Radu Jude
Fotografia | Marius Panduru
Montagem | Catalin Cristutiu
Interpretação | Eszter Tompa, Annamária Biluska, Marius Damian, Ilinca Manolache, Oana Mardare, Marius Panduru, Serban Pavlu, Vlad Semenescu, Adrian Sitaru, Gabriel Spahiu, Adonis Tanta, Dan Ursu
Produção | Rodrigo Teixeira, Alexandru Teodorescu
Roménia, Suiça, Luxemburgo, Brasil, Reino Unido | 2025 | Comédia, Drama | 109 Minutos | Maiores de 14 Anos
Vida Ovar – Castello Lopes
09 Jan 2026 | sex | 15:15


Quatro anos após “Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental”, vencedor do Urso de Ouro em Berlim, Radu Jude regressa com “Kontinental ’25”, um filme que parte de um gesto simples e brutal para radiografar um estado moral colectivo moldado pela globalização. Orsolya, agente de execução judicial na cidade romena de Cluj, acompanha a desocupação de uma cave que termina com o suicídio do seu locatário. O episódio funciona como ponto de ruptura narrativa e ética, tanto pelo choque do acto em si, como pela exposição da banalização administrativa da violência social num espaço urbano cada vez mais indiferenciado. A referência assumida a “Europa ’51”, de Rossellini, é tudo menos nostálgica: onde o pós-guerra ainda podia fantasiar uma conversão moral, Jude responde com o cepticismo do presente. Cluj poderia ser qualquer cidade europeia: fachadas renovadas, hotéis de luxo, zonas pedonais higienizadas e a mesma coreografia de obras intermináveis. Neste contexto, a tragédia não conduz à redenção, mas a uma gestão pragmática da culpa, rapidamente absorvida por um ecossistema mediático saturado de indignação automática e empatia decorativa, onde a morte de um homem se transforma em ruído e pretexto retórico.

É nesse impasse que Orsolya se move. Figura do poder intermédio, simultaneamente engrenagem e vítima do sistema, percorre a cidade repetindo obsessivamente o relato do sucedido, como se a repetição pudesse gerar compreensão e, em último recurso, absolvição. Essa necessidade de contar e recontar histórias revela-se um mecanismo de sobrevivência num mundo incapaz de escutar verdadeiramente. Quando a palavra falha, surgem outros refúgios: a religião, o álcool, pequenas dependências que anestesiam a culpa sem a resolver. Formalmente arriscada, a repetição torna-se sintoma de um liberalismo moral paralisado: fala-se muito, age-se pouco. Jude reforça essa ideia com uma estética crua, filmada sobretudo a partir de um iPhone, que aproxima a imagem do fluxo contínuo de vídeos nas redes sociais. A autenticidade não garante verdade, antes acentua a ambiguidade entre o imediato e o artificial. Nesse espaço aparentemente homogéneo, os nacionalismos persistem como ruído de fundo: romenos e húngaros reencenam antigas fracturas, como o diferendo em torno da Transilvânia, recicladas agora como identidades de compensação num território cada vez mais radicalizado e menos solidário.

Mais contido e menos explosivo do que outros filmes do realizador, “Kontinental ’25” pode parecer um Jude menor. Ainda assim, essa redução de escala permite observar com maior nitidez a fadiga moral do presente. A cidade transforma-se numa paisagem quase pré-histórica, dominada por florestas de betão e habitada por “novos dinossauros”: guindastes, retroescavadoras, cilindros, martelos pneumáticos, cuja presença e gritos surdos ecoam como sinais de um progresso incessante e cego. Os parques temáticos que recuperam o tempo dos dinossauros funcionam como metáfora irónica de um presente que se imagina avançado, mas repete padrões de destruição e indiferença. O filme não oferece soluções nem redenções, e é precisamente aí que reside a sua força desconfortável. A culpa individual, transformada em performance moral, convive pacificamente com a continuidade do sistema. A compaixão existe, mas é impotente; a crítica é lúcida, mas tardia. Radu Jude filma uma sociedade capaz de tudo comentar e nada transformar, na qual até a morte de um sem-abrigo pode ser relativizada com um encolher de ombros. Um espelho pouco agradável, mas impossível de ser ignorado.

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