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terça-feira, 10 de março de 2026

CONCERTO: “L’aura e o Espelho” | Coro CásterAntiqua



CONCERTO: “L’aura e o Espelho”
Coro CásterAntiqua
Direcção musical | Jorge Luís Castro
Com | Pedro Martins (alaúde e teorba), Ezekiel Martins (alaúde e guitarra barroca)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Centro de Artes de Ovar
08 Mar 2026 | dom | 16:00


Tal como sucedera com a primeira edição, coube ao Coro CásterAntíqua a responsabilidade de encerrar o Festival de Música Antiga de Ovar, confiando ao momento derradeiro um gesto artístico que foi também um gesto de comunidade. Num programa concebido para assinalar o Dia Internacional da Mulher, vinte e sete vozes reuniram-se em torno de uma ideia tão simples quanto poderosa: cantar o universo feminino através da memória poética do Renascimento europeu. A dramaturgia partiu da figura platónica de Laura, esse nome que em si contém o sopro do amor e da alma - “l’aura”, na língua italiana -, para atravessar séculos de pensamento, poesia e música. Dos madrigais de Maddalena Casulana, “O notte, o ciel” e “Ben venga il pastor mio”, às leituras de poemas ou textos de Joana da Gama, Madre Brígida, Camões e Pessoa, aquilo que se pôde ver e sentir foi uma tessitura delicada onde a palavra e o som se corresponderam mutuamente. Em palco, os instrumentistas Pedro Martins e Ezekiel Martins sustentaram e ampliaram esse universo sonoro, acompanhando o coro e dando vida a interlúdios da própria Casulana, de Alfonso Ferrabosco e autores anónimos, como pequenas clareiras no interior de uma floresta de gestos e vozes. Construído como um percurso simbólico, o espectáculo afirmou-se na ideia de travessia interior onde a voz humana procurou, na herança renascentista, uma forma de dizer o eterno mistério do feminino.

Mas o que de mais belo teve este concerto foi, muito justamente, aquilo que o torna singular: o seu carácter profundamente comunitário. O CásterAntíqua é um coro que nasce da própria cidade, feito de pessoas que pertencem ao tecido vivo de Ovar e que, em muitos casos, se aproximam dele sem que a música tenha sido antes uma prática formal. Aqui, o canto é acima de tudo um espaço de encontro e de descoberta, uma experiência partilhada onde o entusiasmo substitui a especialização e o compromisso nasce da vontade comum de construir algo incomum e muito belo. Os ensaios começaram no início de Janeiro, numa sucessão de momentos dedicados à paciente arquitectura do som, e logo se percebeu que o desafio era gerador de uma onda de entusiasmo contagiante. Quando finalmente subiram ao palco do Centro de Artes de Ovar, os coralistas trouxeram consigo, não apenas as partituras, mas um sentido profundo de responsabilidade colectiva, como se cada voz se soubesse parte indispensável de um organismo grande e vivo. Sob a direcção musical de Jorge Luís Castro, que concebeu também o dispositivo cénico do espectáculo, o concerto ganhou uma dimensão visual subtil: um jogo de luzes e sombras, discretos elementos de dramaturgia, delicados quadros vivos e uma cuidadosa sonoplastia vocal ampliaram o gesto musical sem jamais o sobrecarregar. E, assim, o espectáculo atravessou simbolicamente a noite escura e fria para alcançar, pouco a pouco, a promessa de um dia luminoso.

No final, permaneceu a sensação de que este momento disse algo importante sobre a própria vida cultural do Município de Ovar. O CásterAntíqua vai-se afirmando, passo a passo, como uma presença identitária no panorama artístico da cidade, à semelhança de outras marcas culturais que o tempo consolidou. Há nisso o trabalho silencioso e persistente de uma organização firme e dedicada — liderada por Hélder Sousa e João Francisco Távora — que, com rara generosidade, soube providenciar os meios e o cuidado necessários para que esta segunda edição do Festival se cumprisse de forma rigorosa, privilegiando a necessária serenidade e hospitalidade que a todos envolveu. Mas há também, inevitavelmente, uma dimensão mais íntima neste testemunho. Escreve-o alguém que escuta a música com a devoção do melómano e que, ao mesmo tempo, partilhou o palco como elemento deste coro tão particular. Talvez por isso seja difícil encontrar a distância que uma verdadeira imparcialidade exigiria. Ainda assim, há experiências que pedem para ser fixadas em palavras, não como crítica, mas como gratidão. E este concerto, nascido da voz de uma comunidade, foi precisamente uma dessas raras ocasiões em que a arte pareceu lembrar-nos que cantar juntos continua a ser uma das formas mais belas, justas, humanas e livres de buscar a Luz.

terça-feira, 17 de junho de 2025

CONCERTO: Pedro Abrunhosa



CONCERTO: Pedro Abrunhosa
Centro de Artes de Ovar
13 Jun 2025 | sex | 21:30


“ (…) A canção não pode continuar a ser apenas entretenimento. Tem de questionar. Já não há lugar para romantismos. Para ilusões.”
Pedro Abrunhosa

Na ressaca dos concertos que celebraram os 30 anos do álbum “Viagens” e que esgotaram o Pavilhão Rosa Mota e a Meo Arena em finais do ano passado, Pedro Abrunhosa regressou a Ovar trazendo na manga alguns dos sucessos desse álbum de estreia, a par com muitos outros que percorreram a quase totalidade da sua discografia e são a demonstração da sua genialidade como compositor, letrista e comunicador. Em Ovar, num Centro de Artes há muito esgotado, o artista começaria por saudar o público, afirmando ser a sua presença “o maior tributo à cultura portuguesa”. Uma cultura que, referiria, “nunca foi tão importante para defender a soberania, a democracia e, sobretudo, a paz.” E foi sob o signo da Paz que o concerto decorreu, com a música a carregar consigo mensagens onde as palavras “paz”, “luz” e “amor” foram signos e símbolos de um enorme momento: Íntimo, profundo, intenso, vivo, espiritual. Com Cláudio Souto na direcção musical e nos teclados, Bruno Macedo na guitarra, Miguel Barros no baixo, Pedro Martins na bateria e Patrícia Antunes e Patricia Silveira nos coros, o artista levou o público por caminhos de comunhão e partilha, dando e recebendo em igual medida, falando desta cumplicidade como uma experiência maravilhosa: “Venho aos concertos para vos ouvir”, afirmou, sob uma chuva de aplausos.

“A.M.O.R.”, do álbum “Contramão” (2013), foi a pedra de toque de um concerto que gritou bem alto contra a ignorância, a intolerância, a violência de género, os crimes de ódio, todas as barreiras que se erguem em função de raças, credos ou ideologias diferentes. Porque importa não esquecer, “Balada de Gisberta” falou dos mais fracos dos fracos, para dizer que “o amor é tão longe / e a dor é tão perto”. Num arranjo contido, “É preciso ter calma” pediu “olhar” para dar “amor” e “Não te ausentes de mim” clamou “que a tua luz se acenda em mim”. “Leva-me p’ra casa” fechou um ciclo de canções de tom intimista, ao longo dos quais o músico se manteve ao piano e sobressaíram os acordes da guitarra de Bruno Macedo. Com direito a “falsa partida”, “Fazer o que ainda não foi feito” teve o condão de pôr o público a soltar a voz, “somos um beijo que demora / porque amanhã é sempre tarde demais”. Tarde demais, “sobretudo para as coisas importantes como a paz, talvez a coisa mais importante das nossas vidas, a paz que eu quero celebrar hoje”, disse Pedro Abrunhosa, enquanto a palavra, gigante, se acendia no ecrã. As canções seguintes mantiveram o cariz celebratório e, tanto “Se eu fosse um dia o teu olhar”, quanto “Vem ter comigo aos Aliados”, voltaram a ter no público um interlocutor privilegiado, a paz e o amor sempre presentes.

Num recuo a 1995, ao álbum “F” e a esse incontornável “Talvez foder”, o músico lembra “os mortos em Gaza, os feridos em Israel, os fascistas em Lisboa e em Moscovo”, e pergunta: “E tu e eu o que é que temos que fazer? (talvez foder)”. Talvez valha a pena parar para pensar naquilo que foi um gesto de rebeldia mas que, há 30 anos, já falava de Gaza, que“foder” é uma obscenidade mas “mais obscenas são as bombas a cair sobre as crianças, sobre os hospitais. Obsceno é aquilo que está a acontecer, este genocídio terrível sobre o povo palestiniano e que nos envergonha a todos”, afirmou Abrunhosa. E, lembrando acontecimentos recentes - “nazis que em Lisboa e no Porto espancam barbaramente pessoas que apenas tentam ajudar” -, o artista exortou a que “não façamos silêncio para que a violência não se torne normal: O silêncio é a porta aberta ao caos, é a morte da democracia.” A canção seguinte foi, ainda e sempre, de celebração de um mundo mais justo, livre e fraterno, no qual “ainda há fogo dentro / ainda há frutos sem veneno / ainda há luz na estrada”, e foi também uma primeira oportunidade (haveria mais) para perceber as vozes fantásticas de Patrícia Antunes e Patrícia Silveira.

De Leonard Cohen ouviu-se “Hallelujah” e prestou-se homenagem ao Papa Francisco, na certeza de que “ninguém sai de onde tem paz” e “nenhum de nós pode considerar-se cristão e fechar os olhos a esta tragédia”, disse Pedro Abrunhosa, referindo-se à atitude genocida de Israel sobre a Palestina. A caminhar para o final do concerto, escutaram-se dois temas do álbum “Viagens” - “Não Posso Mais” e “Socorro” -, a que se seguiu um “medley” que incluiu temas dançáveis dos Bee Gees, dos “The Animals” e de Janis Joplin (Bob Dylan também já por aqui tinha passado) e se passearam, de mãos dadas, o country e o reggae, a folk e o hip-hop, o gospel e os blues, o tradicional e o erudito. “Ilumina-me” foi o culminar de um concerto cheio de luz, mas que não se ficaria por aqui. De uma generosidade sem limites, o cantor voltaria ao palco, primeiro sozinho e depois, de novo, com a banda, para interpretar mais quatro temas, começando por “Eu não sei quem te perdeu”. Completamente rendido, o público acompanhou o cantor no mais belo dos refrães, “e uma asa voa / a cada beijo teu / esta noite / sou dono do céu”. Seguiram-se “Para os braços da minha mãe” e “Lua”, para tudo terminar com o belíssimo “Tudo o que te dou”, também do álbum “Viagens”, e que nos deixa com uma muito bela imagem: “Pára, recomeça, faz-me acreditar”. Aleluia!

segunda-feira, 24 de março de 2025

CONCERTO: "Divinas Perlinas" | Musurgia Ensemble & Coro CásterAntiqua



CONCERTO: “Divinas Perlinas”
Musurgia Ensemble & Coro CásterAntiqua
Direcção musical | Jorge Luís Castro
Apresentação | Ana Isabel Nistal Freijo
Com | João Francisco Távora (flauta de bisel e direção artística), Pedro Martins (guitarra barroca), Helder Sousa (cravo e direção artística)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Capela de Santo António
23 Mar 2025 | dom | 16:00


“Que idade
tem o rio?
Sua infância flui sempre menimesma
sua voz permanece azul,
água aberta, alçapão por onde o tempo perde a voz
e o imenso se faz imerso.”
Mia Couto, in “Raíz de Orvalho e Outros Poemas”

Um sonho cuja matéria se confunde com as águas de um rio. Uma vontade antiga que retira do Cáster a sua imagem e o seu modelo. Assim foi pensado e gerado o CásterAntiqua, assim viu a luz do dia o primeiro Festival de Música Antiga de Ovar. Com um programa distribuído por actividades formativas, visitas guiadas ao património religioso de Ovar, sete concertos em outros tantos dias e o trabalho comunitário que redundou na criação do Coro CásterAntiqua, o Festival revelou-se uma extraordinária surpresa, tanto pela variedade e qualidade das propostas, quanto pelo próprio desenho, a sua atenção ao detalhe, o seu empenho na criação de novos públicos através da beleza e riqueza do universo da Música Antiga. Está de parabéns o Musurgia - Associação Cultural e, muito em particular, Hélder Sousa e João Francisco Távora, directores artísticos do Festival, pela forma como souberam conduzir esta viagem de celebração da Música Antiga. Parabéns extensivos a toda a equipa que com eles colaborou e à Câmara Municipal de Ovar, parceira nesta aventura inicial e, estou certo, nas edições que se seguirão, certos do potencial da iniciativa e da sua inequívoca qualidade e excelência.

Mas é do Coro CásterAntiqua que gostaria de falar, já que foi com ele e com o Musurgia Ensemble que chegou ao fim o CásterAntiqua, num concerto intitulado “Divinas Perlinas” e que teve lugar na tarde de ontem, na sobrelotada Capela de Santo António. Foi o culminar de um trabalho desenvolvido no Museu Escolar Oliveira Lopes e que, ao longo de quatro sessões de três horas cada, reuniu cerca de três dezenas de elementos. Sob a orientação de Jorge Luís Castro, os coralistas mergulharam nos vilancicos devocionais de Gaspar Fernandes, dando-lhes vida através de uma rica e harmoniosa combinação de vozes. Abro aqui uma nota de carácter pessoal para referir, enquanto membro do coro, que se tratou de uma experiência fantástica, em primeiro lugar pela entrega e entusiasmo, paciência infinita e enorme conhecimento de Jorge Luís Castro, elevando o coro a patamares de grande qualidade. Mas também pelos momentos de cumplicidade e partilha com os demais companheiros de aventura, todos eles conhecedores, empenhados, dedicados e possuidores de vozes maravilhosas, e cujas contribuições foram determinantes para o bem sucedido resultado final.

Com as atenções viradas para Gaspar Fernandes, compositor português (?) activo na Guatemala e no México entre os finais do século XVI e primeiro quartel do século XVII, o programa integrou ainda peças de um conjunto de outros compositores, nomeadamente Diego Ortiz, Giovanni Paolo Cima e Andrea Falconiero. A viagem entre as duas margens do Atlântico fez-se, desta vez, ao sabor da língua: De um lado o português, o castelhano e o biscayno; do outro o mestiço, o índio e o Nahuatl (idioma asteca à época da conquista espanhola e falado ainda hoje por cerca de um milhão e meio de pessoas na região central do México). Com a parte instrumental a cargo de João Francisco Távora, Hélder Sousa e Pedro Martins, o concerto teve no coro o seu elemento de maior relevância, ficando demonstrado o poder alquímico de Jorge Luís Castro em juntar vozes e fazer magia. A ele se deveu a confiança e disponibilidade evidenciada pelos coralistas em “Negrinho tiray vos”, “As divinas perlinas” e “Mi niño dulce y sagrado”, peças de enorme riqueza melódica e rítmica e de uma harmonia sublime que tanto encantaram o público. Caído o pano sobre o evento, ficam momentos únicos de fruição da boa música e uma enorme vontade de podermos assistir à concretização de uma nova edição, já em 2026. As coisas boas não se podem perder e esta é daquelas coisas realmente muito boas.

sábado, 15 de março de 2025

CONCERTO: "Music for a While - Canções do séc. XVII"



CONCERTO: “Music for a While - Canções do séc. XVII”
Com | Pedro Martins (tiorba e guitarra barroca) e Thiago Vaz (voz)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Bar do Centro de Artes de Ovar
14 Mar 2025 | sex | 22:00


De uma vontade antiga, que retira do rio Cáster, do onirismo e dramatismo das suas águas, a imagem e o modelo, nasce o CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar. A dar os primeiros passos, pleno de vida e de esperança no futuro, mostra-se apostado em revelar novos mundos sonoros, ao encontro com o outro, com o desconhecido. Num abraço à música, está aí para se espraiar sem atender a fronteiras, colocando nas suas margens, suaves e harmoniosas, a ambição de envolver a cidade e estender o seu fluxo sonoro a Portugal e ao mundo. “Afirmar a diferença como princípio e o eterno nascer como objectivo” é esta a sua máxima, a sua linha de baixo contínuo. Uma máxima que é uma aposta, e uma aposta ganhadora, a julgar pelo concerto inaugural que juntou Pedro Martins (tiorba e guitarra barroca) e o tenor Thiago Vaz em torno de um repertório centrado no século XVII. O público acorreu em grande número ao espaço improvável do Bar do Centro de Artes de Ovar, mostrando o seu entusiasmo face a um programa sabiamente alinhado, deleitado com a profundidade e riqueza da música e incansável no apoio e carinho devotado aos músicos.

Abrangendo canções para voz e baixo contínuo do período barroco, além de peças instrumentais, o programa buscou estabelecer pontes entre diferentes estilos e compositores, oferecendo um percurso como se de uma viagem se tratasse. Itália, Espanha, França, Inglaterra e Portugal foram etapas de um caminho de riqueza e conhecimento, ao encontro de uma Europa seiscentista em profunda transformação, retalhada por conflitos religiosos, definições políticas antagónicas, progressivo afastamento da cultura erudita e popular e, simultaneamente, conjugação do âmbito do sagrado e do profano na vida das pessoas. “Já ri da minha dor enquanto esperava / Mas se a esperança morrer / Apenas tormentos e suspiros me avançam”. Entre a sorte e o lamento, “Già risi”, do compositor italiano Giovanni Kapsberger, foi o primeiro tema escutado, trazendo-nos um pouco da genialidade e virtuosismo daquele que foi conhecido como “o alemão da tiorba” e cuja actividade musical foi fundamental no desenvolvimento deste e de outros instrumentos pertencentes à família do alaúde como instrumentos solo.

No dia do seu aniversário, Thiago Vaz foi protagonista maior de um concerto que teve na voz um elemento de enorme riqueza, devidamente acompanhado por Pedro Martins que, “a jogar em casa”, revelou dotes de intérprete exímio de instrumentos com sonoridades tão ricas e distintas como o são a guitarra barroca e a tiorba. Foi isso que pudemos constatar em “O che felici giorno”, de Francesco Rasi e, sobretudo, na viva e audaz “Passacaglia della vita”, atribuída a Stefano Landi e que nos diz que “Oh, quão enganado estás / Se pensas que os anos / Não vão terminar / A vida é um sonho / A alegria é breve / É preciso morrer”. Entre o amor, o deleite e o bom gosto, nas asas da música cruzámos tempos e fronteiras. Com dois anónimos acompanhámos o enamoramento de Marizápalos e Pedro Martín e escutámos um “Rojão 1 tom italiano”, a melodia como que a transportar-nos à velha Lisboa ao encontro de um fado. Jean-Baptiste Lully abriu-nos sonoridades a lembrar a leveza das flores e a beleza dos céus e Henry Purcell mostrou-nos que a música, ainda que por breves instantes, é ainda o melhor lenitivo para as nossa angústias e preocupações. Um belíssimo concerto, coroado com uma enorme e muito merecida ovação, a colocar muito alta a fasquia deste CásterAntiqua no dia do seu arranque.

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

CINEMA: Shortcutz Ovar 2020 | Sessão #42



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #42
Escola de Artes e Ofícios
120 Minutos | Maiores de 16 anos
29 Out 2020 | qui | 22:00


A rábula da máscara em véspera de Halloween colocou uma nota de boa disposição na abertura da 42ª sessão do Shortcutz Ovar. Aos indefectíveis do cinema em versão curta juntaram-se os amantes do cinema de terror e do fantástico, esgotando uma vez mais o belíssimo espaço da Escola de Artes e Ofícios para um momento de convívio, partilha e bom cinema. Um momento que poderá muito bem ter sido o último desta quarta temporada com a presença de público, agora que o Plano Municipal de Emergência e Protecção Civil de Ovar acaba de ser reactivado e que as medidas governamentais que se adivinham apontam no sentido de um eventual confinamento parcial. Teremos de aguardar pelo dia 12 de Novembro para perceber se nos voltamos a reunir para a derradeira sessão, mas neste momento o importante é conter a praga que, negra, cresce de forma assustadora, qual erva daninha que ameaça tornar estéreis campos outrora fecundos.

“Erva Daninha”, assim se intitula a curta-metragem que abriu esta sessão e que venceu a 13ª edição do Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa MOTELX 2019. Escrito e realizado por Guilherme Daniel, o filme narra a história de um casal de camponeses que vê crescer nos campos em redor de casa uma estranha planta negra que, mais do que roubar a vida na terra, ameaça tomar conta das suas próprias vidas. Definido pelo realizador como um filme “pós-terror presunçoso com base de realismo mágico gótico rural”, o filme usa a ferida aberta no chão como metáfora dos estados de alma auto-destrutivos que tomam conta de certas pessoas e da forma como isso afecta as relações interpessoais. Influenciado pela fotografia de Artur Pastor, este é um filme de género, mas também um filme de época que remete para os tempos do Estado Novo no interior do país, o que ajuda o espectador a entender melhor a ideia de depressão que lhe subjaz e a valorizar ainda mais o trabalho de Guilherme Daniel, bem como dos actores Daniel Viana e Isabel Costa.

Menção Especial do Júri no MotelX 2019, “Häuschen – A Herança” foi o único filme que fez realmente jus a uma noite talhada para a saudosa série Z e para os filmes de terror que, ao invés de causarem medo ou tensão, são essencialmente engraçados. É assim esta obra da dupla Paulo A. M. Oliveira e Pedro Martins que nos leva ao encontro de um casebre na floresta onde Maria e Miguel, um jovem casal perdido, procura guarida em noite de tempestade. Mais do que uma adaptação de “Hansel & Gretel”, o filme procura dar continuidade ao conto clássico dos irmãos Grimm, imaginando o porvir das personagens. Trazendo a história para os dias de hoje, o argumento de Pedro Martins e Andreia Albernaz é particularmente hábil na mistura que faz de telemóveis com migalhas de pão ou de GPS com estranhos mapas manuscritos, tudo isto reforçado com portas a bater, figuras nos vidros, machados que decepam membros e sangue, pois claro. Muito bons a música e efeitos sonoros de Aurélien Lino, bem como a direcção de som, assinada por Herberto Magalhães, e o trabalho dos actores Adriana Moniz, Fernando Pires e José Raposo.

Último filme da sessão, “A Escritora”, de Hugo Pinto, narra a história de uma mulher ensombrada pela hipergrafia, uma doença psiquiátrica que faz da escrita um acto compulsivo-obsessivo. Incapaz de travar sozinha a luta contra a doença, a mulher vê a sua situação agravada perante a falta de sensibilidade do marido e uma certa inveja, até, visto ser ele também um escritor. Verdadeiro drama e não um filme de género como os dois anteriores, “A Escritora” tem como ponto de partida o belíssimo conto homónimo de Andreia Azevedo Moreira, mostrando-nos como pode ser a vida sem palavras, contada através delas. Catarina Lima, Afonso Pimentel e Áurea tomam sobre si os papéis principais e o seu desempenho é convincente o suficiente para que o espectador se agarre à história e se sinta estimulado a seguir a pista das várias leituras que se oferecem, a questão do sofrimento inerente às doenças do foro psiquiátrico por todos quantos vivem estes dramas sendo a mais evidente.