O acolhedor espaço do Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense, cujos aposentos guardam murmúrios literários de um tempo outro, foi palco de um itinerário sonoro que teve como centro gravitacional o mestre supremo do barroco tardio e do contraponto: Johann Sebastian Bach. Em torno do seu génio nasceu e cresceu uma constelação de discípulos e herdeiros que prolongaram a sua linguagem, como se cada um transportasse consigo um fragmento da sua arquitectura musical. Assim aconteceu com Johann Gottfried Müthel, último aluno directo do mestre de Leipzig, cuja escrita permite entrever um horizonte sensível, quase pré-clássico, de uma expressividade capaz de se expandir para além da disciplina contrapontística. Também Johann Philipp Kirnberger, teórico e fiel guardião da tradição bachiana, dedicou a sua vida a sistematizar e preservar o legado do mestre, como quem recolhe num tratado aquilo que primeiro aprendeu pela escuta e pela prática. Entre estes ecos ergue-se ainda a figura singular de Anna Amalie von Preußen, princesa, mecenas e compositora, cuja formação se fez igualmente sob a sombra tutelar de Bach e dos seus discípulos.
Ao encontro deste leque restrito de compositores, o programa apresentado pelo Duo Suzanne, neste que foi o penúltimo concerto da segunda edição do CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar, desenhou uma pequena genealogia sonora, com quatro Sonatas que, como ramos de uma mesma árvore, revelaram a persistência de uma linguagem musical capaz de atravessar gerações, transformando-se sem jamais perder a sua raiz. O concerto foi o culminar de uma residência artística promovida no âmbito do festival, iniciativa que funciona como uma verdadeira marca distintiva ao abrir espaço a jovens formações emergentes através de uma “open call” internacional. Seleccionado entre treze candidaturas, o Duo Suzanne encontrou neste contexto o lugar para amadurecer um programa original, ao mesmo tempo que recebia mentoria de músicos ligados ao festival. O resultado foi o que se ouviu: quatro peças musicais servidas com rigor, imaginação e frescura, atentamente escutadas por um público numeroso que, na intimidade do Museu, soube beber cada compasso com a devoção silenciosa de quem reconhece que a música antiga continua, afinal, intensamente viva.
Ao longo de quase uma hora, o traverso de Teresa Costa desenhou linhas de respiração clara e flexível, deixando cada frase nascer com naturalidade quase orgânica, enquanto o cravo de Katerina Orfanoudaki sustentou e iluminou o discurso com uma elegância rítmica e harmónica de grande delicadeza. Entre ambas estabeleceu-se um diálogo atento, feito de escuta e confiança, o timbre aveludado do traverso entrelaçado na cintilação articulada do cravo. Na cumplicidade musical entre ambas residiu mais do que uma afinidade interpretativa, percebendo-se uma homenagem silenciosa a Suzanne - musa inspiradora que dá nome ao agrupamento - e a tantas outras mulheres cuja voz foi historicamente obscurecida ou apagada. “Suzanne” convoca a memória de Susana, personagem do Livro de Daniel cuja história atravessou séculos de produção artística. A narrativa inspirou músicos e pintores, como na intensa representação de Artemisia Gentileschi, cuja versão de 1610 fixa no olhar de Susana uma angústia que atravessa o tempo. Não é difícil reconhecer, nesse gesto artístico, uma afirmação de resistência feminina contra a violência e a injustiça. Também o Duo Suzanne pareceu dialogar com essa herança simbólica, oferecendo aos presentes um momento musical encantador e legando-lhes uma centelha de esperança num mundo mais justo e melhor.
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