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segunda-feira, 30 de março de 2026

TEATRO: "A Ratoeira" | Agatha Christie



TEATRO: “A Ratoeira”
Texto | Agatha Christie
Encenação | Paulo Sousa Costa
Cenário, Adereços e Figurinos | Fred Klaus
Interpretação | João Didelet, Leonor Alcácer, João Vilas, João Baptista, Luís Pacheco, Sara Cecília, Sérgio Moura Afonso e Sofia de Portugal
Produção | Yellow Star Company
140 Minutos (com intervalo) | Maiores de 12 Anos
Centro de Artes de Ovar
27 Mar 2026 | sex | 21:30


Há fenómenos teatrais que desafiam a lógica da efemeridade do palco e “A Ratoeira” é disso um exemplo acabado. Estreada em 1952, no West End londrino, a peça de Agatha Christie permanece em cartaz há mais de sete décadas, acumulando dezenas de milhares de representações e consolidando-se como a produção teatral de maior longevidade da história, com assento no Guiness Book of Records. Não se trata apenas de um sucesso comercial, mas de um verdadeiro ritual cultural, sustentado por um pacto tácito entre palco e plateia: o de preservar o segredo do desfecho. Esse carácter quase iniciático transforma cada sessão numa experiência simultaneamente colectiva e íntima, na qual o espectador é convidado a integrar uma tradição que atravessa gerações. É essa herança, precisamente, que a companhia Yellor Star convoca ao levar à cena, em sessão única, num Centro de Arte de Ovar com lotação esgotada, a sua versão deste clássico, evocando não só o texto original, mas também o peso simbólico de uma obra que se tornou instituição. O envolvimento do público é, como foi possível confirmar, o grande trunfo de uma peça que suscitou animadas conversas no intervalo e alimentou conjecturas até ao último instante.

A encenação apresentada em Ovar revelou um cuidado evidente na recriação do universo fechado e claustrofóbico de Monkswell Manor, perante um conjunto de situações que, em vagas sucessivas, se mostraram sob o signo da suspeita. A cenografia e o desenho de luz apostam numa atmosfera densa, remetendo para a Inglaterra rural dos anos 50, enquanto o ritmo narrativo respeita a progressão clássica do “whodunnit”: apresentação gradual das personagens, instalação do crime e subsequente intensificação do suspense. Tal como nas produções londrinas, Paulo Sousa Costa dedica uma atenção particular ao equilíbrio entre tensão e leveza, com momentos de humor físico e caricatural a pontuar o enredo. Essa oscilação, longe de diluir o mistério, reforça-o, permitindo que o público se aproxime das figuras em cena, ora desconfiando, ora defendendo a sua inocência. A encenação aposta, assim, numa fidelidade estilística que não procura reinventar o texto, antes reactivá-lo junto de um público contemporâneo. O espectáculo cumpre o seu desígnio: entretém, intriga e envolve.

No plano interpretativo - e à semelhança do que tínhamos visto no excepcional “A Noite”, a partir de José Saramago -, o elenco da Yellow Star Company demonstrou uma enorme solidez e versatilidade, ainda que nem sempre escapasse à tentação de acentuar em demasia certos traços mais estereotipados. Do casal anfitrião aos excêntricos hóspedes, as personagens surgiram como arquétipos reconhecíveis, o que, sendo parte integrante da escrita de Agatha Christie, exige dos actores uma maior subtileza e contenção. Nos casos em que esse equilíbrio foi alcançado, o resultado revelou-se eficaz: cada gesto, cada pausa, cada inflexão, contribuiu para adensar a teia de suspeitas. A progressão até ao clímax foi conduzida com competência, culminando numa revelação que, apesar de reconhecida no imaginário colectivo, mantém a capacidade de surpreender e provocar reacções audíveis na sala. Num tempo em que o teatro procura constantemente novas linguagens, há algo de reconfortante em revisitar uma obra que resiste pela força da sua construção. Em Ovar, essa resistência traduziu-se numa sala esgotada e num público rendido — prova de que, mesmo à distância de mais de setenta anos, a ratoeira continua a fechar-se com precisão.

sexta-feira, 4 de outubro de 2024

TEATRO: "A Noite"



TEATRO: “A Noite”,
de José Saramago
Encenação e adaptação |  Paulo Sousa Costa
Assistência de encenação | Luís Pacheco
Interpretação |  Diogo Morgado, Jorge Corrula, João Didelet, Luís Pacheco, Elsa Galvão, Ricardo de Sá, Henrique de Carvalho, Sara Cecília, João Redondo
Produção | Yellow Star Company
90 Minutos | Maiores de 12 anos
FLO - Festival Literário de Ovar 2024
Centro de Artes de Ovar
21 Set 2024 | sab | 22:30


Redacção do Jornal de Lisboa, 24 de abril de 1974. Há no ar qualquer coisa de indefinido no momento em que se prepara o fecho de mais uma edição do jornal. Entre alterações de última hora e os habituais contactos com o exame prévio, as tensões avolumam-se e os conflitos estalam. De um lado, o chefe de redação e o diretor do jornal, submissos ao poder político, que normalizam a censura. Do outro, o jornalista idealista que luta pela verdade e que tem na redacção preciosos aliados nas pessoas da estagiária e do tipógrafo. O conflito ganha uma dimensão ainda mais dramática quando surge o boato de que poderá estar a acontecer uma revolução na rua. A agitação e o nervosismo crescem no seio do jornal, com uma parte dos jornalistas e tipógrafos a exigirem que os factos, se comprovados, sejam notícia de última hora. Do outro lado da barricada, tanto o director como o chefe de redação tudo fazem para desvalorizar a alegada convulsão social, na certeza de que não irão imprimir notícia alguma, nem que para isso tenham de alegar uma avaria nas rotativas. Está instalada uma micro-revolução na redacção.

Graças à atribuição do Prémio Nobel da Literatura, José Saramago tem uma enorme quota de responsabilidade no reconhecimento do romance escrito em língua portuguesa no mundo inteiro. Obras como “Ensaio Sobre a Cegueira”, “O Memorial do Convento”, “Jangada de Pedra” ou “O Ano da Morte de Ricardo Reis” são disso excelentes exemplos. Menos conhecidas e, simultaneamente, pouco valorizadas pela crítica, são as peças de teatro, apesar da sua importância no conjunto da obra do escritor. Está neste caso “A Noite”, texto de temática histórica que reflecte sobre a censura imposta aos meios de comunicação social, situação que Saramago viveu de perto. Na peça, a preocupação do autor não está em copiar o dia a dia de um jornal no período da ditadura, antes chamar a atenção para as relações de poder em que se fundava o Estado Novo nas mais variadas instâncias. Apesar de não se considerar dramaturgo (em entrevista a Carlos Reis, em 1998), José Saramago assina um manifesto fortíssimo de denúncia e revolta, olhando de perto as primeiras horas do dia inicial inteiro e limpo.

Integrando, muito a propósito, o programa da décima edição do Festival Literário de Ovar, “A Noite” foi levada à cena pela Yellow Star Company num Centro de Artes de Ovar com lotação esgotada. Seguros dos seus papéis, respeitando a intensidade dramática do texto e garantindo a necessária segurança e vivacidade nos diálogos, os actores souberam honrar a escrita de Saramago, acrescentando realismo à verdade histórica. No papel de Jerónimo, o chefe dos tipógrafos, Jorge Corrula representa bem a qualidade e versatilidade de um excelente naipe de actores, com a sua forte presença em palco e o cerrado sotaque alentejano. Visualmente precioso, o cenário coloca-nos no centro de uma redacção há meio século atrás, onde não falta o contínuo, a mancar de uma das pernas, figurando o estado de um país a duas velocidades, pobre e inculto, preso às glórias do passado e que, do presente, só tem os êxitos do Benfica para se vangloriar. Empolgante, o final lembra-nos aqueles que fizeram da resistência e da luta a sua bandeira, abrindo caminho à liberdade e à democracia.