TEATRO: “A Ratoeira”
Texto | Agatha Christie
Encenação | Paulo Sousa Costa
Cenário, Adereços e Figurinos | Fred Klaus
Interpretação | João Didelet, Leonor Alcácer, João Vilas, João Baptista, Luís Pacheco, Sara Cecília, Sérgio Moura Afonso e Sofia de Portugal
Produção | Yellow Star Company
140 Minutos (com intervalo) | Maiores de 12 Anos
Centro de Artes de Ovar
27 Mar 2026 | sex | 21:30
Há fenómenos teatrais que desafiam a lógica da efemeridade do palco e “A Ratoeira” é disso um exemplo acabado. Estreada em 1952, no West End londrino, a peça de Agatha Christie permanece em cartaz há mais de sete décadas, acumulando dezenas de milhares de representações e consolidando-se como a produção teatral de maior longevidade da história, com assento no Guiness Book of Records. Não se trata apenas de um sucesso comercial, mas de um verdadeiro ritual cultural, sustentado por um pacto tácito entre palco e plateia: o de preservar o segredo do desfecho. Esse carácter quase iniciático transforma cada sessão numa experiência simultaneamente colectiva e íntima, na qual o espectador é convidado a integrar uma tradição que atravessa gerações. É essa herança, precisamente, que a companhia Yellor Star convoca ao levar à cena, em sessão única, num Centro de Arte de Ovar com lotação esgotada, a sua versão deste clássico, evocando não só o texto original, mas também o peso simbólico de uma obra que se tornou instituição. O envolvimento do público é, como foi possível confirmar, o grande trunfo de uma peça que suscitou animadas conversas no intervalo e alimentou conjecturas até ao último instante.
A encenação apresentada em Ovar revelou um cuidado evidente na recriação do universo fechado e claustrofóbico de Monkswell Manor, perante um conjunto de situações que, em vagas sucessivas, se mostraram sob o signo da suspeita. A cenografia e o desenho de luz apostam numa atmosfera densa, remetendo para a Inglaterra rural dos anos 50, enquanto o ritmo narrativo respeita a progressão clássica do “whodunnit”: apresentação gradual das personagens, instalação do crime e subsequente intensificação do suspense. Tal como nas produções londrinas, Paulo Sousa Costa dedica uma atenção particular ao equilíbrio entre tensão e leveza, com momentos de humor físico e caricatural a pontuar o enredo. Essa oscilação, longe de diluir o mistério, reforça-o, permitindo que o público se aproxime das figuras em cena, ora desconfiando, ora defendendo a sua inocência. A encenação aposta, assim, numa fidelidade estilística que não procura reinventar o texto, antes reactivá-lo junto de um público contemporâneo. O espectáculo cumpre o seu desígnio: entretém, intriga e envolve.
No plano interpretativo - e à semelhança do que tínhamos visto no excepcional “A Noite”, a partir de José Saramago -, o elenco da Yellow Star Company demonstrou uma enorme solidez e versatilidade, ainda que nem sempre escapasse à tentação de acentuar em demasia certos traços mais estereotipados. Do casal anfitrião aos excêntricos hóspedes, as personagens surgiram como arquétipos reconhecíveis, o que, sendo parte integrante da escrita de Agatha Christie, exige dos actores uma maior subtileza e contenção. Nos casos em que esse equilíbrio foi alcançado, o resultado revelou-se eficaz: cada gesto, cada pausa, cada inflexão, contribuiu para adensar a teia de suspeitas. A progressão até ao clímax foi conduzida com competência, culminando numa revelação que, apesar de reconhecida no imaginário colectivo, mantém a capacidade de surpreender e provocar reacções audíveis na sala. Num tempo em que o teatro procura constantemente novas linguagens, há algo de reconfortante em revisitar uma obra que resiste pela força da sua construção. Em Ovar, essa resistência traduziu-se numa sala esgotada e num público rendido — prova de que, mesmo à distância de mais de setenta anos, a ratoeira continua a fechar-se com precisão.
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